Sérgio Sampaio – Sinceramente (1982)

Antes de falar de Sérgio, é preciso um pequeno parêntesis sobre Zeca Baleiro.

Dificilmente um disco do Zeca constará nesse blog porque eu nunca gostei de nenhum disco dele, detesto sua voz e tirando uma ou outra música, nada me interessa nele.

Se o artista Zeca não me interessa, não posso dizer o mesmo sobre suas posições morais e empreendedoras.

Aí o cara ganha muito o meu respeito.

Ele não usa leis de incentivo para tocar seus projetos, pois ele entende que essa lei deve beneficiar artistas ou projetos que não veriam a luz do dia se não existisse essa lei, leia-se: arte brasileira que “realmente” precise de captação de leis de incentivo para sairem do papel.

Ou seja, ele investe com um bom empreendedor e sonhador em seus projetos e espera que eles sejam rentáveis ou bons o suficiente para se pagarem e gerarem rendimentos que possibilitem novos investimentos.

Parece óbvio que tudo deveria ser assim, mas com a nossa classe artística acostumada a mamar nas tetas do Estado e das secretarias de Cultura Brasil afora, que acham que o Social tem a obrigação de bancar suas iluminadas existências e suas obras igualmente iluminadas e vitais, sejam eles notoriamente rentáveis ou notoriamente narcisistas: Maria Rita precisa de lei de incentivo para fazer 21 shows em grandes capitais brasileiras cantando Elis Regina? Maria Bethânia precisava daquela grana indecente para fazer um vlog de poesia? O Bradesco precisa de abatimento de imposto de renda para viabilizar uma turne do Cirque de Soleil (grupo circense mais rico e mais rentável do planeta?)

Enfim, Zeca é um outsider porque não usa grana publica para fazer seus projetos e dentre seus projetos, há o modesto selo Saravá Discos, em que ele lança seus trabalhos experimentais, mas também abriga relançamentos importantes com esse álbum resenhado hoje.

Agora vamos falar do Sérgio Sampaio.

Gênio e genioso, Sérgio sempre foi um outsider, arredio a fama e que nunca se curvou a ninguém mesmo no auge do sucesso e popularidade com o clássico Eu Quero É Botar o Meu Bloco Na Rua, que acabou transformando-o num gigantesco talento, cuja música atingiu a um restrito, barulhento e pequeno grupo de seguidores, que até hoje o reverenciam como um dos gênio loucos de nossa música.

Em 1982, Sérgio já não estava sob contrato de nenhuma gravadora e vivia de shows ocasionais quando lançou esse álbum independente.

O disco só não é uma obra-prima absoluta porque tem aquela estética pop brasileira anos 80 datadíssima com aqueles malditos arranjos de teclados Casio, aquele som de caixa de bateria de papel horroroso e aquele som de baixo nojento se enfiaram em todos discos desse período.

Mas as composições, as letras, a poesia e a voz de Sampaio estão melhores do que nunca. Pessoal e sincero como poucos foram, Sérgio dilacera sua alma como uma Edith Piaf, expondo suas magoas, tristezas e duvidas. Faixas como Nem Assim, Essa Tal de Mentira e Tolo Que Fui estão entre as melhores leitas escritas no idioma de Cabral. Faixa Seis é de causar inveja pelo humor acido como ele lida com uma separação e como desdenha do amor que já não tem mais.

Sinceramente é um documento lírico raro, rarissimo eu diria, em terras brasileiras.

É triste, bonito, com humor peculiar e belo exemplo do estilo “quixotesco” desse gênio brazuca.

Obrigado Zeca! Que novos tesouros venham!

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