Nick Cave – Sobre mágica e perda

 

Nick Cave & The Bad Seeds está com disco novo na praça.

Isso já seria, em tempos atuais, com o tal “indie” caminhando a passos largos para a extinção completa de seus mananciais de criatividade em quase todos as esferas, uma excelente noticia.

Nunca se espera um disco médio ou morno deles, e de vez em quando alguns superaram o patamar do espetacular como The Boatman’s Call, de 1997, álbum que na época passou batido por muitos ouvidos e críticos, mas foi um jeito lindo de traduzir a fossa e a tristeza de seu rompimento amoroso com a cantora Pj Harvey em um pop barroco.

Como fã, acho que seu ponto alto no lirismo culpado-cristão com sons de cabaret beira do fim do mundo previsto no “Bom Livro”, onde demônios parecem tomar corpo e forma, se apossar de notas e acordes e desabar sob as cabeças dos homens e mulheres de todas as eras ainda são os álbuns Tender Prey e From Here To Eternity, feitos nos anos 80 e que retratavam um Cave face a face com a sombra de sua morte, caminhando sob uma navalha que por muito pouco não o levou dali mesmo para os braços do Senhor.

Passado esse inferno, Cave passou as décadas seguintes catalizando essas experiências em álbuns poderosos, socando o rosto da mesmice e brindado o público com uma incrível variação de potencia que variava de acordo com seus estados de espirito.

Tudo ia bem até que uma nova tragédia caisse no colo da família Cave. Seu filho Arthur, de 15 anos morre em um acidente em julho de 2015.

Passado mais de um ano e ainda com essa dor terrível em seus ombros e de seu família, Cave resolve exorciza-la em forma de disco e assim nasceu Skeleton Tree, talvez o réquiem sobre perda pessoal mais triste e soturno que já ouvi.

Até esse álbum ser lançado, acho que só Lou Reed havia produzido arte suprema usando dessa substancia inevitável, delicada e terrível chamada morte em seu álbum de 1992 chamado Magic And Loss.

Se a vida é uma jornada em busca de conhecimento, evolução e felicidade, é preciso lembrar que o fim dessa jornada é o mesmo para todos. A morte chega implacável e certeira e numa vida longa, perdemos tanto quanto ganhamos e Cave trata dessas perdas de um modo delicado como talvez nenhum outro artista dentro do gênero o fez até então.

Skeleton é lento, mas um falso lento. O arrebatamento se dá em picos, enquanto a cama conduzida ao piano, leva o disco todo.

Canções como I Need You e Distant Sky procuram confortar ao mesmo tempo que as lagrimas caem pelo rosto.

Skeleton Tree, a faixa titulo que encerra o álbum lembra o barroco Boatman’s Call, (seu disco de fossa).

Jesus Alone, faixa que abre o disco parece a sonorização de um arrastar por entre os corredores da saída do luto, quando a dor já está menor mas ainda aguda.

Nick Cave sempre transformou a dor em grandes canções e com esse acidentado e triste novo álbum, o luto ganhou outro significado.

Se da tristeza mais profunda nasceu um disco tão dolorido e ao mesmo tão bonito, ficamos nós, como meros ouvintes e admiradores numa situação paradoxal diante da beleza fúnebre de uma obra tão poderosa como Skeleton Tree, pois, mesmo sabendo da força motriz por trás do álbum não nos furtamos do prazer e da comovente experiência de ser arrebatado por uma obra-prima arrancada de entranhas machucadas com tamanha sinceridade e urgência que nos faz testemunhas de um raro evento em tempos tão sombrios e ao mesmo tempo tão fortuitos.

Cave entrega algo enorme para a posteridade, assim como David Bowie o fez no começo do ano com seu crepuscular Blackstar, 2016 será lembrado por esses dois álbuns-eventos isolados que falam do fim e da morte e nos trazem algo maior e quase não mundano.

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