Livros, queridos livros.

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Uma das coisas que eu mais gosto nessa vida é descobrir um livro incrível por indicação: seja por indicação de amigos, de livreiros e amigos livreiros, de colunistas independentes bem informados e muitas vezes em pilhas de livros que serão descartados ou levados para lares ou prateleiras destinadas ao ostracismo.

Aproveito que nada acontece de bom na música pra indicar alguns livros ótimos que li esse ano:

Pra facilitar, separei por categorias ou “tags” já que esse maldito mundo acha que é mais facil separar os assuntos e indicar os produtos co-relatos ou similares. Até hoje nenhum algoritmo acertou meus gostos, assim, tenho um pouco de dúvidas se isso realmente funciona.

 

Here we go:

Categoria: Brasil

  • O Reino Que Não Era Deste Mundo – Marcos Costa (Editora Valentina): Analise curiosa e bem fundamentada sobre a formação da nossa primeiríssima república, capturando o fim do Império Brasileiro, e por que desde sempre, a nossa sina sempre foi a de ser contra a modernidade e o avanço e a favor do atraso e do conservadorismo político do toma lá dá cá. Ajuda a entender que revoluções nunca foram nosso forte e porque o PMDB existe do jeito que é.

 

  • Os Bestializados – José Murillo Carvalho (Companhia das Letras): Não é um livro novo, mas vale muito a pena ler depois do Marcos Costa. Aproveitando um período próximo aos acontecimentos do primeiro, o livro mostra a propensão a indolência de nosso povo e pouco interesse pelas coisas públicas (exceto um carguinho público pra ganhar um dinheiro mole com pouco esforço).

 

  • Eu Não Sou Cachorro, Não – Paulo Cesar de Araujo (Editora Record): Se tem um autor nacional que fiquei fã nos últimos anos foi o Paulo Cesar. Muito pelo que ele representa na luta democrática contra censuras e leis ridiculas que podam historiadores e biógrafos a construir obras que nos revelem e nos mostrem o que somos, mas principalmente por seus textos claros, diretos e muito bem fundamentados). Esse livro mostra a trajetória de diversos artistas populares ou “bregas” dos anos 70 e 80 e como eles, a sua maneira construiram carreiras incríveis, batendo de frente contra a ditadura e levando suas mensagens a todos os radinhos das áreas de serviços de todos os apartamentos e casas classes médias do brazilzão.

 

Categoria Música:

  • A Girl In A Band – Kim Gordon (Harper Collins): Autobiografia da ex-baixista do Sonic Youth contando sua formação como artista, seus anos como “queen of the underground” até o fim da banda e de seu casamento com Thurston Moore (ex-guitarrista e parceiro de Sonic Youth). Direto, reto e sem rodeios, Kim dá uma aula de escrita inspiradora e como qualquer pessoa ordinária é capaz de realizações extraordinárias. Bonito e brilhante, Kim é muito gente como a gente.

 

  • Histórias Secretas do Rock Brasileiro – Nélio Rodrigues (Editora 5W): Finalmente começamos a jogar luz para artistas e bandas brasileiras que não sejam os de sempre (jovem guarda, mutantes, tropicalistas e etc). Nélio é pesquisador sério e ajudou a trazer a luz, histórias deliciosas e engraçadas de bandas obscuras que tocavam em salões nos suburbios cariocas, botecos e prostíbulos sudeste afora (a pesquisa foca mais em artistas dos eixo Rio de Janeiro, com alguns de São Paulo e interior fluminense). Bandas sensacionais como O Peso, O Terço, Karma e outras raridades como Analfabitles, Os Lobos e outros que apareceram e sumiram muito rapidamente, mas que deixaram compactos e Lps incríveis que hoje valem uma nota. A grande delicia do livro é ler as histórias e correr no youtube para procurar as bandas citadas. Graças a santa Internet, quase tudo citado no livro tem lá. A diagramação do livro fica a desejar, mas é café pequeno perto do belo serviço prestado ao rock brazuca. Outra coisas desnecessária é o prefacio de Leo Jaime (não diz nada com nada, dá impressão que ele nem sabia do que se tratava o livro).

 

Literatura:

  • Submissão – Michel Houellebecq (Alfaguara): Assustador, frio e urgente, Submissão é o livro mais importante de 2015. Não só por conta de todo o cenário de horror que acontece na Europa (mais particularmente em Paris), Houellebecq não dorme no ponto e cutuca com sua prosa apurada o verdadeiro mal da “inteligência ocidental”, em especial seus compatriotas franceses. Absolutamente brilhante.

 

  • Vicio Inerente – Thomas Pynchon (Companhia das Letras): Tentei terminar esse antes que o filme de Paul Thomas Anderson estreasse por aqui, quase deu tempo! O livro tem a vibração de Vineland, mas como em todo o livro de Pynchon, o importante é a viagem e a sensação que muita coisa está escapando de seu entendimento. Deixa pra lá, segue.

 

  • O Rei de Amarelo – Robert W. Chambers (Intrinseca): O escritor norte-americano que escreveu e publicou no século XIX, foi figura fundamental e inspiração de escritores como H.P. Lovecraft e Stephen King e basicamente todo o mundo que escrevesse sobre fantasias malignas. Seguindo a linha decadencista no século XIX, foi contemporaneo de Oscar Wilde e Huysmans (Há uma estranha coincidência, pois o autor de As Avessas é a principal inspiração do protagonista no livro de Houellebecq) e esse livro de contos foi a revelação do ano (livro novo é aquele que você nunca leu).

 

  • Um Homem Morto A Pontapés – Pablo Palacio (Rocco): Esse livro de contos faz parte de uma série muito legal chamada Otra Língua, que trata de botar no mercado nacional literatura latino americana lado B, como é o caso desse equatoriano doido que publicou entre os anos 20 e 30, e morreu em 1947. Só o primeiro conto que dá nome ao livro já vale.

 

  • A Vida Como Ela É – Nelson Rodrigues (Nova Fronteira): Ler Nelsão pela primeira vez foi um desbunde, mas reler essas pequenas tragédias suburbanas fantásticas depois de 20 anos só fez crescer meu amor e respeito pelo genial pernambucano. Uma das missões era reler Nelson. Check!

 

 

 

Não Ficção:

  • Cultura Crash – Scott Timberg (Yale Press): Amargo e nada otimista livro-manifesto-reportagem a respeito dos efeitos das novas tecnologias nos hábitos de consumos de música, filmes, livros e bens culturais e como isso afeta as industrias envolvidas, bem como seu principais produtores e eco-sistemas relacionados. É um bom contra-ponto ao ufanismo tecnológico que virou mantra nos paises desenvolvidos e por aqui também. Tudo tem dois lados, Scott mostra o lado perverso dessa moeda.

 

  • Nós Somos Anonymous – Parmy Olson (Novo Século): Livro reportagem sobre a história do “grupo” “hack-ativista” mais importante desse século. Bom texto pra quem quer saber como funciona uma das mais efetivas e assustadoras maneiras de tocar o “terror” nos dias de hoje. Bandidos ou mocinhos? O livro não tem esse propósito, ainda bem!

 

Quadrinhos:

  • Dois Irmãos – Fábio Moon e Gabriel Bá (Cia das Letras): A dupla voltou com uma ambiciosa missão de adaptar para o mundo da Graphic Novel, um dos mais brilhantes livros da literatura brasileira. Publicado em 2000, ganhador de um Jabuti, Milton Hattoum fez um livro-clássico que conta 3 gerações de uma familia de Manaus. Acertaram na mosca. De novo!

 

  • O Cão Que Guarda As Estrelas – Takashi Murakami (JBC): Comovente, triste e com uma mensagem muito bonita, Takashi escreve um manga de tirar lágrimas sinceras de todo o mundo que tiver um bichinho de estimação em casa.

 

  • Life In Pictures – Will Eisnter (Criativo): Esse eu ganhei de aniversário no final de 2014 e li com gozo no começo do ano. Quando eu achei que já tinha lido de tudo do velho Will, eis que me cai na mão essa maravilha. Essa edição caprichada traz todas as histórias “auto-biográficas” do mestre em um só volume. Texto impecável, dominio completo da narrativa, Eisner não é mestre a toa. Faz de suas tragédias e comédias o bojo e substância fundamental que dá a sua obra toda a verdade e toda a magia necessária para transformar seus textos e histórias em manifestos a favor da humanidade.

 

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Melhores de 2015? Até que teve, viu?

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O ano de 2015 vai terminando de maneira melancólica, triste e to aqui segurando aquele saco de papel só em caso do vômito eminente.

Deixo de lado as discussões sem fim e mantenho o foco no que realmente interessa nesse negócio que é música boa e estranha e deixo essa baboseira de esquerda x direita / coxinha x petralha / Reinaldo Azevedo x Sakamoto pra quem tiver estômago ou paciência.

2015 foi tão ruim no geral quanto o foi ano passado mas incorrigível otimista que sou, achei algumas coisas que deixaram o 2015 não tão intragável assim e até bom!

Então lá vai:

  1. Cannibal Ox – Blade Of The Ronin

O Cannibal Ox apareceu no começo dos anos 2000 propondo sofisticação e brutalidade ao rap. Com barulhos nada convencionais e uma abordagem artística diferente, fizeram um primeiro álbum sensacional e mesmo com uma volta cascuda como esse Blade in The Ronin, nem no mundo dos rappers os caras se fizeram ser notados. Algo estranho, ou ninguém ouviu esse petardo, ou meus conceitos de rap bom estão com os dias contados. Ou a concorrência tá tão feroz e tão articulada com o primeiro time do pop (vide o jabaculê featuring Kendrick Lamar que de tão unânime até com a Taylor Swift o cara fez som) que nem a velha guarda tem mais respeito. Ou uma hipótese mais provável, ninguém escuta mais nada!

 

  1. Miley Cyrus – Miley Cyrus & Her Dead Petz

Há muito tempo que as menininhas crescidas no berço Disney tem atitude mais rock and roll que todos os moleques roqueiros contemporâneos de artistas como Miley Cyrus, Carly Rae Jepsen (outra boa surpresa de 2015) ou Demi Lovato. Miley, aos 23 anos resolver tocar um belo dum foda-se e lançou ao lado de seus novos gurus Wayne Coyne (que co-produziu o álbum) e Ariel Pink, um disco asqueroso e esquisito (os adjetivos visam qualificar essa obra). Numa trombada de Flaming Lips com eletronico pesado e experimental, esse áblum fez com que o mundo adulto prestasse atenção em Miley de um jeito diferente. Não, ela não precisou ficar cafona ou cantar jazz pra ser reconhecida como artista de renome e não precisou pagar peitinho ou botar cinta de pica (isso ela deixa para fazer no palco). Seu publico já sabe que ela é doida e canta bem, mas agora todo o mundo precisa sacar que por trás de toda a pose, existe realmente uma artista com bolas e capaz de soltar um disco desse sem culpa e sem pedir licença pra ninguém.

 

  1. Jean-Michel Jarre – Electronica, vol.1

Nunca me imaginei colocando Jean-Michel Jarre numa lista de melhores de 2015. Quem diria! Fato é que ele conseguiu algo no mínimo histórico: juntar sobre o mesmo guarda-chuva musical, artistas do calibre de Pete Townshend (The Who), passando pelo produtor Moby, pelos tarimbados Air, 3D (Massive Attack) e Armin Van Buren, seguindo e sugando a nova geração do pop eletrônico como Little Boots e M83, e chegando a participações surreais e improváveis de Laurie Anderson, do pianista Lang Lang e do diretor de cinema John Carpenter. Outra beleza é sua track com a lendária Tangerine Dream. O intuito é tentar construir um mosaico sonoro eletronico que se não aponta o que vai ser o futuro (ele já fez isso nos anos 70), ajuda a mapear as possibilidades com coração e almas humanas. Surpresa total de 2015.

 

  1. Wire – Wire

O Wire é banda do coração. Vanguarda acima da vanguarda, o Wire conseguia fazer “art rock” sem parecer que estávamos batendo com a cabeça na parede. O Wire lançou entre 1977 e 1979, 3 discos inigualáveis: Pink Flag, Chair Missing e 154 são clássicos e já bastam para transforma-la na banda mais inimitável da historia. Eram punks, eram pós punks e eram new wave tudo ao mesmo tempo. Carregam o gene de Velvet Underground, seguem lado a lado do Talking Heads mas diferente dos dois, ainda estão vivos e fazendo ótimos discos. Esse homônimo é surpreendente e muito melhor que Red Barked Trees de alguns anos atrás. Mais lento, e em alguns momentos até mais “careta”, Wire consegue ser áspero nas guitarras, doce nas abordagens e soar como uma ótima guitar band deveria soar nos dias de hoje.

 

  1. Earl Sweatshirt – I Don’t like Shit, I Don’t Go Outside

Depois de Kanye e Run The Jewels, Earl Sweatshirt é o meu rapper favorito. Disco pesado, podre e em velocidades estranhas. I Dont Like… é sombrio, lento, com sonoridades ousadas para um artista de peso que Earl tem se tornado. Olhando pro futuro, Earl deixou seu passado com o Odd Future e constrói uma carreira discográfica ambiciosa e muito sadia.

 

  1. Shilpa Ray – Last Year’s Savage

Rock and roll simples, mas nem tanto. Meio vanguarda, mas com uma carinha de velho. Nova York. A voz de Shilpa nos remete a Debbie Harry quase que imediatamente, talvez quase, passa ali entre uma pigarreada e outra ela pela Patti Smith enquanto ela se acha entre os escombros sobre o que foi um dia esse tal de rock and roll. O som cru e forte lembra o que a cidade produzia nos anos 90 com Blues Explosion e Make-Up. Ou seja, é um disco que parece não ter sido feito em 2015 de tão bom que é. Shilpa Ray já tem certa estrada e pouca fama, assim, você dificilmente vai ve-la nas listinhas de final de ano de alguma revista ou blog de música bacana. Só aqui talvez..

 

  1. EEK feat. Islam Chipsy – Kahraba

Me faltarão palavras para descrever o que o som desse trio me causou, acho que eu não ficava empolgado com algo “world music” desde o Asian Dub Foundation. Formação mais ousada e exótica que essa eu duvido que exista hoje em dia: dois bateristas e um tecladista. Parece pouco, minimalista, mas basta 30 segundos com eles tocando, que um inferno sonoro se instala, seguido de um ritmo maniaco ensurdecedor. A quantidade de ritmo e selvageria que sai dessa equação é indescritível. Direto do Egito, o Eek Feat Islam Chipsy é mais uma prova que coisas incríveis sempre virão dos lugares mais improváveis e nas horas mais exatas. Assista o video acima e depois não se esqueça de recolher o queixo caído!

 

5. Mbongwana Star – From Kinshasa

Imagine uma banda que faz rock, soul, experimentalismos e afro-beat, com dois vocalistas cadeirantes e uma banda enxuta se transforma num exército rítmico irresistível. Diretamente da republica Central do Congo, o Mbongwana Star fez o álbum de estréia mais sensacional desde muito tempo e que derrubou os queixos de muita gente. Passando longe do macaquismo world music que leva um monte de bobo a comprar gato por lebre, aqui o Mbongwana traz algo um suculento mix de modernidade com a infalível quebrada de tempo que só quem nasceu no continente que gerou o ritmo pro mundo é capaz de executar. Alivio que ainda existam artistas como ele se dando pelo mundo me faz crer um pouquinho em justiça.

 

  1. The Soft Moon – Deeper

Eu já sou fã dessa dupla faz tempo, mas agora eles resolveram cantar mais que o habitual. Obrigado! Deeper é feio, sujo, com os graves estourando em um monte de lugares, timbres bonitos e aquela sensação asquerosa de chão e paredes catarrentos de lugares escuros, frequentados por gente perdida e desesperada. Total cara de pós punk com energia revigorada. Mesmo sendo vintage e que lugares assim só existem na imaginação, o Soft Moon é mais contemporâneo, mais 2015. Mezzo industrial, mezzo gótico, Deeper chega bem!

 

  1. New Order – Music Complete

E ai quando você menos espera, não é que o velho New Order, sem Peter Hook, faz seu melhor disco desde Technique? Não é pouca coisa! E sem o Peter Hook, já mencionei isso né? A banda faz o que sabe melhor. Som eletrônico velho e quente, deixando as neo tendências de artistas que só imitam ou tentam emular o som do próprio NO, ai eles vem e ensinam como fazer um disco eletrônico sem ser chato ou quadrado. Há música nesse disco que esperamos que o New Order fizesse há muito tempo, Singularity caberia facil em Power, Corruption & Lies. Discasso, que tô esperando o dólar dar aquela baixada pra adquirir uma versão bolacha que esse merece.

 

  1. Thee Oh Sees – Mutilator Defeated At Last

O disco tem pouco mais de 30 minutos e é o melhor rock de garagem psich modernoso que existe por ai. Lento e rápido, rapidíssimo e desleixado, a banda está no seu auge (e olha que eles já atingiram alguns auges em sua bela carreira), mas Mutilator é muito bom, bom demais pra essa merda de tempos e que bom que existe bandas assim por ai ainda.

 

  1. Sleater Kinney – No Cities To Love

Alguns motivos para esse ser o melhor disco de 2015.

  1. É um disco do Sleater Kinney, as minas nunca erraram em 20 anos de existência da banda;
  2. Greil Marcus, o mais importante jornalista-escritor da história do Rock, cravou a seguinte frase ainda lá nos anos 90 a respeito das meninas: “…é tão improvável que o Sleater Kinney lance um disco ruim quanto era improvável que os Stones fizessem um disco ruim nos anos 60”.
  3. O Sleater Kinney é a melhor banda de rock desde o Nirvana (juntando biografias e discografias, na real tem pra poucas bandas).
  4. Voltaram a tocar com dignidade, respeitando seu tempo, espaço e seus cabelos brancos recém adquiridos num disco moderno e que traz o Sleater Kinney para os dias de hoje renovada e prontas pra quebrar tudo;
  5. Dos 12 discos listados, é o único que adquiri em formato físico.

E bom 2016 pra todos nós.