Birdland – Birdland (1991)

IMG_20150827_222233433

Sabe aquele cara da sua turma que é o mais atrasadinho? Tipo, enquanto todo mundo no colégio já tá adiantado no lance da vida, aquele fica meio pra tras? Chega depois de todo o mundo?

Pois é, dentro do mundo do rock inglês no fim do anos 80 pros 90, o Birdland é o atrasadinho.

Ouvindo esse disco de estréia do Birdland com esse intervalo de 24 anos, dá a impressão que eles foram a melhor banda de rock inglesa a fazer rock australiano na história.

Ouvindo seu “hit” Everybody Needs Somebody lembra muito o Hoodoo Gurus ou Australian Crawl.

Quadradinho, com barulhinho onde precisa, bons no refrão curto, canções com bases soladinhas a la rock australiano e dedilhadinho bem ao gosto do rock inglês dos anos 80.

Canções ótimas como Shoot You Down, Wake Up Dreaming e ainda cabendo uma correta versão de Rock N Roll Nigger da Patti Smith.

Tudo certo, só esqueceram de combinar com o resto do mundo pra voltar uns 4 anos no tempo, pois se esse disco tivesse sido lançado ali entre 1986 ou 1987 taria tudo certinho, mas em 1991 o mundo já tava virando outra coisa e eles estavam fazendo o tipo de rock que envelheceu muito rápido nessa época e das duas uma pra sustentar um som antigo assim:

  1. Ou você já estava no role e continua perseguindo o seu som (Teenage Fanclub, Morrissey solo, por ai) ou:
  2. Joga fora tudo o que você fez, arruma um produtor que tomasse acido e circulasse por raves pra dar uma outra cara ao disco e cai num outro mundo (Primal Scream).

O álbum de estreia dos caras ta longe de ser ruim, mas já nasceu velho em comparação com as demais guitar bands vigentes. Talvez isso explique por eles ficaram pelo caminho.

E olha que as referência eram ainda frescas como Echo & The Bunnymen, Jesus & Mary Chain, e Stone Roses, mas a década tava pedindo uma mistura que eles definitivamente não tinham pra oferecer.

Ouvi esse disco quase quando saiu, arrumei uma edição em cd uma década mais tarde, e há uns 3 anos achei essa edição limitada toda branca e por absoluto saudosismo troquei meu cd por essa ela.

A banda não deixou saudade, mas o disco ta aqui pra contar essa pequena historia de fracasso bem sucedido.

Anúncios

Billy Stewart – The Greatest Sides (1982)

IMG_20150826_204116240

Acho que já escrevi sobre selos fonográficos nesse blog.

Não lembro bem quando nem qual exemplo foi.

Normalmente acho gravadora um saco, quase todas elas e trabalhando diretamente a maior parte do meu dia nos últimos 5 anos, faz meu ódio aumentar ainda mais.

Mas há dentre elas, alguns selos que mesmo compostos por sanguessugas miseráveis, deram ao mundo algumas das mais belas contribuições musicais do século passado e esse álbum traz dois deles juntos:

A Chess Records e a Sugar Hill Records.

A Chess foi um selo de Chicago fundado pelos irmãos judeus Leonard and Phil Chess nos anos 50 e foi a casa fonográfica de Bo Diddley, Etta James, Chuck Berry e Muddy Waters dentre outros, já a Sugar Hill foi um selo fundado nos final dos anos 70 por Joe & Sylvia Robinson e lançaram alguns dos mais importantes artistas do inicio do rap e hip hop como SugarHill Gang e Grandmaster Flash & Furious Five.

Ambos se dedicaram a lancar e registrar os mais importantes artistas de sua época, mas a Sugar Hill ainda tinha uma missão de resgatar artistas e álbuns importantes da música negra norte-americana que o tempo e as novas gerações foram esquecendo e alguns dos meus discos favoritos saíram justamente desses resgates.

Billy Stewart é um deles. A obra do homem estava praticamente inacessível as gerações que vieram depois dos anos 80 e a Sugar colocou no mundo essa belíssima e hoje rara coletânea com os compactos lançados nos anos 60 pelo artista.

Billy gravou pela Chess nos anos 60 e tragicamente teve sua carreira encurtada por causa de um acidente de carro em 1970, mas em vida, o cantor, compositor e multi-instrumentista deixou um legado de deliciosas gravações com o mais fino do R&B sessentistas, daqueles de te fazer levantar do sofá pra dançar, como nas incríveis Secret Love e Fat Boy, mas o homem era muito bom em baladas como I Do Love You e Sitting In The Park.

Com uma voz doce e de timbre diferente, com forte ênfase num agudo firme, parece que o ar circulava por seus dentes, pelas bochechas e saia com um sabor muito diferente. Somado a isso, o cantor tinha uma maneira particular e peculiar de cantar, usando e abusando de repetições de palavras dentro das estrofes, mesmo que originalmente elas não estivessem lá.

Isso fica evidente e brilhante em sua versão arrasadora de Summertime, fazendo dessa versão talvez a mais feliz e esperançosa, trazendo uma luminosidade que dificilmente Gershwin imaginou ser possível, pois os acordes e a cadencia levam muito mais a reflexão e uma certa saudade de bons tempos que é jogada por terra pelo simpático e carismático Billy.

Esse é daqueles discos que vale a pena estar vivo para ouvir e faz o termo “coletânea” ter seu real significado.


Billy Bragg – Life’s A Riot With Spy Vs Spy (1983/2013)

IMG_0045

Austin – Texas, 2013 e lá estava eu tirando o cabaçinho do festival de música alternativa ou nova mais importante do mundo.

2000 caras tocando em 5 dias em mais de 100 bares, casas noturnas e igrejas.

Sim, igrejas.

E fui numa delas que cai sem querer num dos shows mais sensacionais que esses olhinhos e esses ouvidinhos tiveram o prazer de testemunhar.

Era o primeiro dia de festival e estávamos nos familiarizando com a fauna e nos dirigíamos a uma igreja batista para um show de música clássica contemporânea a cargo do compositor Olafur Arnalds, quando estávamos em uma fila, achando estar esperando para assistir ao cara, mas na verdade era uma fila para assistir a Billy Bragg.

Que surpresa e que show!

Não podíamos ter começado melhor nossa empreitada por quatro noites incessantes de boa música e naquele ano, seu primeiro disco, completava 30 anos e essa edição bacaníssima traz o primeiro disco tal qual foi lançado na época, com seus pouco mais de 15 minutos e tocado em 45 rotações num álbum de 12’’.

No lado B, traz o álbum na integra mas tocado em 2013, e foi basicamente parte do repertório que assistimos naquela igreja.

Billy é um cantor de folk inglês com a urgência do pos-punk, traz a coisa do bandoleiro trovador, mas com sua guitarra elétrica no lugar do violão e foi um disco que causou certa estranheza por causa disso, pra ser punk precisava de mais barulho e pra ser folk precisava de menos agressividade.

Seguiu seu caminho sozinho e deixou pro mundo canções urgentes, politicas e sensacionais pra se tocar na guitarra e no violão.

Um disco tão curto e feroz como esse não precisa de resenha longa, então, enjoy it!


Billie Holiday – The Essential Billie Holiday Carnegie Hall Concert (1956) (1989)

IMG_20150824_200034630

Quando se fala em capitalismo exploratório, o mundo do jazz está recheado de exemplos que mostram porque o gênero e sua indústria tem tanto de capitalismo sujo e exploratório.

  1. Sempre tinha um branco com dinheiro botando um preto pra tocar e ganhar pouco, nenhum dos grandes jazzistas até Miles Davis ganhou o tanto que seu talento e a grandeza de sua obra deveria ter voltado em recompensa e a maioria viveu de maneira muito ordinária e com pouco;
  2. Se não era um branco explorando, era um outro preto, e no caso de cantoras de jazz, as vezes era o marido, companheiro ou amante, que além de explorar, costumava sentar o sarrafo na patroa depois dos shows. Obs: se ficasse só na porrada tava bom, com algumas a agressão era o de menos.
  3. O valor irrisório que os músicos ganhavam por sessão de gravação fazia com que tivessem que tocar 12, 14, 16 e até 20 horas por dia (e eles não reclamavam se ganhassem por hora de estúdio);
  4. Nos shows, os artistas negros de jazz levavam menos que artistas brancos, a não ser que você fosse um Louis Armstrong ou uma Billie Holiday, de resto, era o que o sindicato mandasse pagar e as vezes nem isso, por isso que tocavam tanto.

Tem disco que acontece isso também.

E no mundo do jazz e da musica clássica tem muito juntado de repertorio com o intuito de levantar um troco ou cobrir um período especifico de um artista ou banda.

E vamos a Billie.

Esse disco especificamente traz o que seria o essencial da cantora em uma de suas ultimas apresentações no palco do Carnegie Hall em Nova York, e vem acompanhado de uma banda que por si só já seria um time do Brasil de 1970 do Jazz: Roy Eldridge no trumpet, Coleman Hawkins no piano, Chico Hamilton na batera e Kenny Burrell na guitarra só pra ficar nos famosos.

Nenhuma grande inovação no repertorio, tem o fino do repertorio mais popular da cantora: Lady Sings The Blues seguido de It Aint Nobody Business, lá pra frente vem Heart And Soul, My Man, Don’t Explain e fecha com What a Moonlight Can Do.

Repertorio duca, cantora duca, banda duca.

Mas ai voltamos ao tema “indústria do jazz” ou “indústria da musica”, o que faz desse álbum um tanto quando desconectado da cronografia da cantora, lançado fora de época, e que aproveita o mito da artista pra lançar o máximo de coisas possíveis, mesmo que isso signifique lançar material mais ou menos, que é o caso desse disco.

Burocrático, com a Billie já no seu inicio de decadência não ajuda a tornar esse álbum uma obra-prima, nem mesmo um álbum essencial, mas ainda guardo esse disco na coleção pois foi o primeiro play que me introduziu ao mundo da “Lady”, o que não quer dizer que eu tenha chegado ao amago da artista, tanto que ainda acho que Billie Holiday é muito superestimada no quesito jazz, assim como Amy Winehouse é superestimada no quesito artistas dos anos 2000.

Em comum, e o que colaboram para pintar suas biografias com cores diferentes é o fato de terem tido vidas difíceis e mortes prematuras.

De resto, perto das duas consigo juntar umas 23 cantoras muito melhores.

Mas isso é polêmica pra próxima.


Billy Preston – Everybody Likes Some Kind Of Music (1973)

IMG_20150820_232526909

O joinha que ele dá na capa dá bem a letra do quão querido e gente boa Billy Preston é.

Ele tocou com os Beatles lá no show do telhado da Abbey Road e tocou com os Stones, então pensa que além do cara ser muito do gente fina, ele toca para caralho, senão nao ia ter essa boiada de tocar com os dois quase no mesmo periodo!

Nessa época, o cara era um dos músicos de estúdio mais requisitados do pedaço, então, por mais que fosse ultra especial tocar com os Beatles e com os Rolling Stones, o cara curtia era tocar e nao importa muito com quem fosse.

Mas tinha que ser bom.

O cara gravou muito, o que significa que fez uns trem mais ou menos, o que é o caso desse play.

Aqui o homem resolve literalmente atirar para todos os lados, na capa ele deixa isso claro o que vai rolar: Jazz, Gospel, Blues e Rock e a promessa se cumpre, os 4 elementos aparecem, mas cada um numa música, o que dá aquela sensação de que ele queria a qualquer custo ver o que colava e queria definitivamente ganhar um papel de protagonismo maior dentro da cena musical preponderante.

Tá longe de ser um disco ruim, mas é meio genérico e tudo é meio que parecido com algum similar que é melhor Mesmo nos seus melhores momentos, Preston parece ficar no meio do caminho, como em My Soul Is A Witness, um delicioso soul com toques de Gospel que lembra muito o Ray Charles. You’ve Got Me For Company é balada negona com arranjos sofisticados que lembram Billy Paul.

Mesmo sendo bom, e as faixas ai citadas são ótimas, ele fica a milhas de distâncias dos pares citados.

O restante do disco segue a mesma toada, é bom porque só tem musico foda e o cara tem muito a manha de fazer canções curtas, mas no geral não empolga.


Big Country – The Crossing (1983)

IMG_20150820_202712222

Esse é um daqueles discos muito baratos que você encontra ou encontrava de baciada por ai. Eu cruzava com esse play lá na Combinato Discos em Foz do Iguaçu sempre. Era o tipo de disco velho de banda que não existia mais e que em 1991 estava tão longe em termos de termos de tempo e espaço quanto qualquer outra coisa que não tivesse sido lançada naquele abençoado ano.

In A Big Country foi o hit desse álbum e de vez em quando tocava nas programações de algumas “Radios Rock” ou “Radios Pop”, entenda esse pop como o pop que tocava Phil Collins, Hall & Oates e Bolshoi, pois a Taylor Swift ainda não havia nascido, assim o pop tinha outra cara e outra velocidade.

E tinha a mesma quantidade colossal de lixo que tem hoje.

O Big Country surgiu das cinzas de uma bela banda punk da Escócia chamada Skids (se todos estivermos vivos até a letra S, desse blog, voltaremos a eles), e segue a linha do que viria a seguir um som mais “guitar band”, ou seja, o som em que a guitarra é o ingrediente principal.

Considerando-se a época, o tipo de som praticado pelos rapazes era o que estava pegando e bandas como o U2 e Echo & The Bunnymen vinham na mesma onda e ganhavam fama mundial. A receita era parecida: vocais messiânicos e cheios de mensagem, som pra cima, acordes abertos, efeitos transados e hoje datados nas guitarras, baixo com som de pedaço de pau com barbante, mas diferente dos distintos anos 80, com um bom som de bateria, que ouvindo hoje não causa vergonha alheia.

O som do BC é rock para médias arenas com um bom conjunto de canções pra preencher um show de 1 hora com folga. Outro ponto pra cima do disco é a produção. Steve Lillywhite era o cara que dava as cartas e dá pra perceber que teve muito trabalho de produção na montagem das músicas, em especial em Lost Patrol, deve ter sido uma daquelas de semanas de trampo pra chegar no som final.

O álbum é alto do começo ao fim, sem muitas sutilezas, mas é bom e teve o hit que fez a banda ser lembrada pra todo o sempre.

E é isso.


Betty Davis – Is It Love Or Desire (1975) (2009)

IMG_20150818_235225329

Com um nome desses, Betty Davis já nasceu para ter poder.

Betty foi a mulher que melhor cantou o funk nos anos 70 e olha que estamos falando de Funk e anos 70 na mesma frase, e de quebra foi a mulher que envenenou a bebidinha e a vida de Miles Davis e colocou o maridão em uma trilha sem volta pelo rock e pelo funk e foi peça fundamental na virada musical de Miles no final dos anos 60, onde o trompetista acabou inventando o jazz-rock ou fusion.

Assim, de tabela a mulher ajudou a mudar a cara da música negra por duas vezes.

Isso não é pra qualquer um, ainda mais pra qualquer uma.

Com 70 anos completados há pouco tempo, Betty foi de tudo um pouco em sua vida. Começou aos 16 anos como modelo aos anos 60, de beleza selvagem e inteligente, daquelas de assustar e atrair uma legião de fãs, se enturmou com a turma malucoide da época e se enveredou pro lado da música, tocou com os Chamber Brothers antes de seguir carreira solo, fez 3 discassos de funk e esse que vos introduzo enquanto batuco o teclado foi gravado em 1975, mas só lançado em 2009 e trata-se daqueles discos com som tão pesado que machuca o ar.

O que dizer das dedadas ouvidas no contrabaixo em Crashin From Passion? Minha mãe, é muita covardia. E a ultra moderna, pesada e indestrutível It’s So Good? E o Funk de breque puxado em Bottom Of The Barrel?

Ficar descrevendo as porradas que cada faixa te dá na orelha é perda de tempo, pois até quando o disco fica mais sossegado como na faixa When Romance Says Goodbye, você fica imaginando que todo mundo vai entrar com todos os instrumentos a toda e arrebentar com tudo. Isso não acontece, tudo fica na sugestão, no sapatinho, mas no fio da navalha.

Betty é uma interprete que tem um registro de voz que por vezes lembra um homem de voz fina cantando, tipo um Prince em inicio de carreira. Raçuda e vibrante, Betty é aquele tipo de cometa artístico que aparece de vez em quando no mundo, zoa com tudo a sua volta e sai andando, deixando a bagunça para os homens limparem ou tentarem entender seu legado.

Já falei que amo funk americano, assim como 9 entre 9 apreciadores de música, mas tem alguns casos que amor é pouco e Betty Davis é uma delas, ou uma das poucas na verdade.

Diva absoluta.