The Beach Boys – Surf’s Up (1971)

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Seguindo na categoria “Os Garotos da Praia”, álbuns menores mas maravilhosos dos Beach Boys, esse Surf’s Up tenho um carinho muito grande, do tipo “demorei muito pra te encontrar, agora quero só voce”.

Por que?

Já conhecia esse disco desde os anos 90, mas nunca tinha saído edições decentes em CD e o LP então era impossível de se achar, até que há alguns anos, saiu a reedição e quando eu vi, não pensei meia vez e trouxe essa boniteza pra casa.

Obras-primas tortas me interessam muito e os Beach Boys tem algumas dessas matrizes tortas cheias de maravilhas absolutamente não obvias em diversos álbuns, em especial nos álbuns que vieram depois de Pet Sounds, mas esse Surf’s Up é um festival de pequenas obras lindas, executadas no fio da navalha entre o celestial e o péssimo.

Algumas canções parecem ter nascido prematuramente e gravadas depois de poucas modificações, como Don’t Go Near The Water, mas que mesmo assim é uma maravilha indescritível, um sopro de alegria em forma de notas musicais perfeitamente colocadas em uma sequencia com o intuito de trazer de dentro de suas entranhas as emoções mais puras e bonitas que você tiver dentro do seu eu mais profundo.

Viagem né? Mas esse é só um dos exemplos metafóricos que eu vou usar para descrever a maneira como esse disco mexe comigo.

Outra coisa interessante é que se trata de um disco em que o gênio Brian Wilson praticamente não dá as caras e é uma chance de ver os demais garotos botando suas asinhas de fora e criando.

É um disco com muito tempero de Carl Wilson, que traz duas faixas estranhas e bonitas que são Long Promised Road e a ultra-esquisita Feel Flows (hoje é a minha favorita desse disco), uma balada muito lenta, com andamentos descontinuados e momentos em que a melodia parece que vai sumir, virar vapor e reaparecer picadinha de maneira gloriosa, que baita exercício de composição e arranjo.

Brian fica relegado para o final Surf’s Up (que originalmente foi gravada em Smile, e com muita relutância foi regravada para esse play) e na estranha e curta A Day In The Life of A Tree.

Há alguns momentos esquecíveis como a maluca e desnecessária versão de Riot In Cell Block #9, que ficou famosa com os Coasters e aqui ganha nova letra (?) de Mike Love e vira Student Demonstration Time (a pergunta é: por que?) e Disney Girls, um roquinho só pra encher linguiça.

No resumo é: onde Surf’s Up é irregular, mas quando é bom, não é pouco bom, é magnânimo, sublime, solene, divino: Feel Flows é obra-prima absoluta, ‘Till I Die tem uma das letras mais doidas e tristes de Brian Wilson, mostrando sua alma dilacerada como poucas vezes o ouvimos cantar, Surf’s Up tem letra brilhante e arranjo de gênio e Don’t Go Near The Water é de derramar lágrimas as escondidas.

Afirmar de bate-pronto que prefiro Surf’s Up a Pet Sounds pode soar exagerado, mas contando o tempo que esperei para ter esse play completo em casa, se tivesse que escolher 1, hoje seria Surf’s Up na cabeça.


The Beach Boys – Sunflower (1970)

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Como assim, vai começar a sessão Beach Boys e não tem Pet Sounds ou Smile?

Really?

Sim.

Se é pra ter um Pet Sounds em edição vinil precisa ser edição original de época.

Esse é um dos poucos, pra não dizer o único, que tenho frescura para reedições em Stereo ou Mono, pois acho que a tecnologia de hoje e as constantes reedições feitas ao longo das últimas decadas, ajudaram a estragar um pouco o som que o Brian Wilson tinha na cabeça e executou na época, assim prefiro cruzar um dia com uma boa edição de época. Conheço o disco de trás pra frente, então ter alguma edição só pra postar aqui não vai rolar.

Começo minha pequeníssima coleção de Beach Boys em 1970, com o álbum menor mas delicioso Sunflower, afinal, sempre haverá Califórnia para os irmãos Wilson. Trata-se de um estado permanente de espirito que não sairá deles nunca.

Sunflower está no meio do caminho entre um grande disco e um disco esquecível, mas como estamos falando de Beach Boys, então a tendência aqui em casa é sempre coloca-los nos patamares dos grandes.

Principal característica é a descentralização das forças, e aqui Dennis Wilson contribui com algumas das melhores músicas do álbum começando com Slip On Through, uma balada com muito soul e de velocidade controlada no bico da bota e um refrão delicioso e o roquinho Got To Know The Woman.

O resto do lado A parece vir num piloto automático, com This Whole World e Add Some Music To Your Day sendo as contribuições melhores de Brian, que parecia cada vez mais distante e desencanado do processo todo, preferindo desbravar seus próprios infernos e demônios.

A família disfuncional vai mais ou menos bem, Dennis continua melhorando seu nível de composição e isso ficava claro na linda balada Forever, terceira faixa do lado B.

O disco ainda guarda muito da tentativa de criar melodias e harmonias grandiosas, mas no final Sunflower é um ótimo disco deslocado em tempo e espaço, muito anos 60 dentro de um inicio de década tão pesado e niilista, assim ninguém deu muita bola para o disco na época e hoje é objeto para completar coleção.

Há uma lindeza que só os Beach Boys eram capazes de proporcionar ao mundo e está lá na faixa 5 do lado B com a incrível At My Window, uma mágica peça musical que parece capturar uma manhã bonita de sol, com as folhas ainda molhadas de orvalho noturno e ventos que lentamente brincam com a flora. De longe, a peça musical mais inesquecível desse ótimo mas incompreendido Play.


Bango – Bango (1971)

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Quando o quesito é descobrir música, não existe nada tão sensacional quanto dar de cara com um disco de entortar a cabeça depois de velho.

Daqueles de fazer você se sentir um completo ignorante por não ter conhecido antes.

A internet já tinha dado um help, pois no Youtube tem o disco quase completinho pra audição e ali já dá pra se ter uma boa ideia do que era o Bango.

Muito a moda antiga, no bate-papo com o chapa Tiago Tellini, que manja desse riscado de obscuridades do rock brasileiro como ninguém, esse disco veio a baila, fiquei com ele na cabeça, mas um album original desse vale uma pequena fortuna, mas como se dizia na velha vinheta do Seu Creison “Seus problemas acabaram”, pois uma nova edição linda em vinil acaba de chegar aos mercados brasileiros e mundiais.

Graças a malucos/desbravadores da gravadora portuguesa Groovie Records, esse play voltou a ser editado em uma ótima reedição em vinil, com encarte explicativo bonitinha, qualidade de áudio merecida e que ajuda a tirar do gueto do ostracismo essa belíssima espécie de rock revolucionário feito pelos lados de cá do mundo.

Com apenas um disco lançado em sua história, a banda fez parte de uma onda que assolou os 4 cantos do Brasil e tirou das garagens e dos quartos um monte de gente interessante com ideias malucas nas cabeças e ouvidos atentos ao diferente.

O movimento tropicalista ajudou a botar fogo nessa galera, pois quer queira quer não, sem a popularidade alcançada pela turma dos baianos, muitos desses artistas talvez não conseguissem ver a ínfima luz do dia.

Escancarando-se as portas das percepções, os limites pareciam não existir para uma galera e o Bango capturou bem esse espirito.

Com um som que misturava rock psicodélico repleto de fuzz como na faixa que abre o disco, Inferno no Mundo e em Motor Maravilha (hoje minha favorita do album), rock rural que os Mutantes faziam de vez em quando como na deliciosa e divertida Marta, Zeca, O Padre, o Prefeito o Doutor e Edu, hard rock americano como a espetacular Rock Dream, baladinha a la Beatles como Geninha e canções bem sixties como Only e Vou Caminhar, o disco é um passeio por tudo que acontecia de legal e contemporâneo no inicio dos anos 70, em especial pelo lado Psych da coisa (respiros e cafungadas do que restou da loucura sessentista que deu um caldinho nos 70).

Falei de quase todas as faixas do disco e é uma melhor que a outra mesmo, mas ainda tem de lambuja a faixa Mongoose, cover da banda Elephant’s Memory, que nunca tinha sido lançada oficialmente e ficou guardada por décadas nas gavetas da Musidisc.

A banda tinha repertório e som pra ter sido muito grande, mesmo! Sem querer de novo evocar o nosso completo de “Vira-lata”, mas se tivessem nascido nos EUA ou Inglaterra, teriam feito carreira e teriam conseguido tocar com qualquer um dos grupos bons que pintavam na época.

Pode ser muita viagem, mas conseguiria ver o Bango tranquilamente abrindo prum Cactus, prum Mountain ou outras bandas boas e médias pra grandes que circulavam pelo mundo no começo dos anos 1970.

Caiam de cabeça, vocês não vão se arrepender. Enjoy the Trip.


Bangles – Different Light (1986)

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O Bangles foi mais um grupelho de pop rock com minas tocando e cantando que apareceram nos anos 80.

Como quase todas, foi banda montada pra fazer sucesso e tocar no radio.

Só que diferente de 98% das demais bandas de minas que apareceram querendo sucesso e tocar no rádio, o Bangles conseguiu emplacar uma das músicas mais fodas e sensacionais dessa década e que por acaso, está nesse play supracitado.

Precisamente na faixa 4, Walking Like An Egyptian.

Sucesso estrondoso dessa faixa venenosa, libidinosa e incomum que deu ao quarteto comum o privilégio da posteridade e eternidade no mundo pop e que de tão boa, fosse ainda hoje tocada e dançada em todas as pistas de dança que toquem som dos eighties.

É tão boa que nao consigo nem comentar sobre as outras do Lado A, que não passa de um apanhado de canções bobinhas, tocadas de maneira convencional, bem ao gosto e ao paladar das rádios de pop e rock em 1986. A maioria são canções compostas por Susanna Hoffs, que depois teve uma carreira solo um pouquinho mais visível porque era a mais bonita das 4.

E olha que as outras 3 dão um caldo bom.

Ai vamos pro lado B e a coisa melhora bem:

As 3 primeiras são ótimas, ainda no mesmo padrão de produção, mas com um que a mais:

If She Knew What She Wants é uma baladinha muito da travessa, Let It Go tem um que de R.E.M (?), pelo menos eu achei, principalmente o R.E.M. mais popular, da fase Document. Depois vem September Girls, cover do Big Star e só o fato de terem feito versão de Big Star já ganham meu respeito absoluto e eterno e é por isso que eu gosto desse disco bobinho e convencional.

O resto é totalmente esquecível.


The Band – The Band (1969)

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The Band é um negócio muito sério!

Não é bandinha pra se ouvir toda a hora, nem bandinha pra ficar evocando o santo nome em vão!

Algumas bandas e artistas pra mim são sagrados:

The Band, Them, Link Wray, Joy Division, Neu, Jesus & Mary Chain são algumas delas.

Trata-se de álbuns e artistas que evoco de vez em quando pois estão em um panteão acima dos mortais e dos discos normais, assim é quase uma blasfêmia traze-los para o andar de baixo a todo o momento.

Robbie Robertson era o cara que criava quase todas as músicas, mas parece que o The Band sempre teve um espirito coletivo, onde todo mundo virava meio dono da composição, e o espirito que nascia em um era imediatamente incendiado nos demais integrantes e isso se sente na pulsação desse álbum.

Tudo bem que no Music From The Big Pink isso jorra dos sulcos, mas esse The Band de 1969 é tão pouco saudado e mediante alguns contemporâneos, acabou ficando pra tras, mas eu particularmente acho esse um dos discos mais bonitos daquele mágico 1969, só pra comparar com outros dois famosos desse ano, acho esse álbum muito mais foda que Abbey Road e Tommy ou Beck-O-La.

Só faltou um Hit poderoso nesse disco, pois os dois lados parecem uma única frequência, desde a primeira faixa, Across The Great Divide e Rag Mama Rag e terminando o lado Acom a balada vinda sabe-se lá de que parte do Paraiso, Whispering Pines.

Não é a toa que Bob Dylan adorava tanto o The Band. Alias, outro fã confesso da banda foi George Harrison, que quando ouviu pela primeira vez a trupe, teve vontade de largar os Beatles pra tocar com eles, se sentiu um lixo e achou que sua banda tava muito abaixo.

Concordo com o Beatle calado, o Band é uma banda muito mais foda que Beatles.

Ai vc vira o disco e começa com Jemima Surrender (acho que só essa música sozinha criou todo o som que todas as bandas de Alt-Country viriam a aparecer).

É covardia ficar listando as demais músicas, não tem uma que não seja no mínimo espetacular.

Estou exagerando?

Acho que não!

Amo demais esse disco, não consigo pensar em algo tão perfeito no quesito “Música Americana” quanto essa pepita do Band. Tem em si uma pureza, uma solenidade e mesmo assim, algo que nos linca ao chão e ao supremo de modo que não conheço em nenhum outro Play.

A produção é aberta e precisa e valoriza cada integrante e cada instrumento como nenhum outro, ou como poucos.

Seja pela bateria firme de Levon Helm, ou pelos gracejos guitarristicos econômicos de Robbie ou muito pelo órgão simples e bonito de Garth Hudson, tudo conspirou pra reproduzirmos um dos discos mais bonitos que se tem noticia nesse planeta.

E tenho dito.


Baltimora – Tarzan Boy (1985)

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One-hit wonder, banda de um hit só!

Tem uma pá por ai e sempre teve.

Com o passar dos anos e os tempos modernos, o que mais deveria aparecer “teoricamente” seriam novos artistas de um hit só, mas não é o que tem acontecido. Engraçado né?

O Baltimora foi uma cambalacho feito por um produtor italiano de house e som eletronico e um cantor irlandês que na verdade trabalhava para a Cruz Vermelha e gostava de usar roupas espalhafatosas.

Ambos nunca tinham feito nada de significativo antes, não fizeram nada depois, ou dá até pra perguntar: É relevante esse compacto? Tarzan Boy é uma puta música?

Acho que não, só tenho esse play de sarro!

Tarzan Boy ficou famosa no Brasil porque era o tema de abertura do programa Perdidos Na Noite, do Fausto Silva, clássico programa de sábados a noite de um pais recém reaberto democraticamente e com um espaço muito esperto onde praticamente todos os artistas iam dar as caras e tocar ao vivo, com som tosco, sem retorno e muitas vezes, de maneira ininteligíveis. Valia também a pena os diálogos de Fausto com seus convidados (os papos com Renato Russo e Titão eram sensacionais).

Então, essa música nem é tão boa, mas tá ai e se toca em festa o pessoal dança.


The Bags – All Bagged Up, The Collection Work 1977-1980 (2007)

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Se desse pra contabilizar todas as bandas punks boas que apareceram e sumiram entre 1977 e 1983, daria uma lista tão grande e tão boa que não caberia na estante física ou virtual de ninguém. Caberia em umas 30 paginas do Apple Music e daria uma lista pra se ouvir infinitamente.

Isso só pra contar as bandas que não lançaram nada em disco, só em compactos.

Graças a Deus, existe gente doida suficiente para resgatar essa galera toda e uma gente mais doida ainda pra comprar esse tipo de disco.

Por isso que no mundo existem selos como a Artifix Records, bandas como The Bags e doidos como eu.

A Artifix é especialista em resgate de obras de bandas punks e hardcore da Costa Oeste Americana do final dos anos 70 até o meio da década de 80, e tem ou tinha em seu catalogo algumas pepitas como Social Task, The Deadbeats, The Undertakers e The Bags e nas minhas andanças pela terra do Tio Sam, tive o privilégio e a sorte de achar esse play fantástico dessa banda fodástica!

Liderado pela carismática e energética Alice Bag, o The Bags tocou o fino da pancadaria entre 78 e 1980, nunca chegaram a gravar um álbum propriamente dito, mas deixaram para a posteridade alguns registros ao vivo e pouquíssima coisa gravada, que se limitou ao compacto duplo Survive/Babylonian Gorgon, todos eles compilados nessa verdadeira prestação de serviço musical feita pela Artifix que juntou tudo que podia e existia nessa coletânea.

Como faz parte de toda essa geração DiY da California, o som predominante era o Punk Hardcore, menos feliz do que as porcarias que vieram depois como Bad Religion, Pennywise e que tais e com viés politico/comportamental forte, menos panfletário que Dead Kennedys.

Acho o The Bags mais próximo de outras bandas da cena como Weirdos e X, tentando levar o esporro um pouco mais a sério e com pretensões mais “artísticas”, sem contudo ser boring ou cagadores de regras.

Das faixas gravadas, eu adoro Disco’s Dead, que tem uma história ótima: de acordo com o encarte que acompanha o LP, essa faixa não foi escrita por ninguém da banda, mas por um cara que queria ganhar um concurso promovido por uma Estação de Rádio de Los Angeles de “Melhor Canção Anti-Discoteca” e esse cara se aproximou da banda e pediu que eles gravassem e essa faixa foi parar numa compilação chamada The Insane Darrell Wayne No Disco Album, álbum facilmente encontrável na internet. A banda nem foi creditada nessa faixa.

Outra preciosidade desse album é Babylonian Gorgon, que é espetacular e dá uma ideia do que seria a banda se tivesse ido pra frente, gravasse e melhorasse. Baita musica boa!

Ao vivo, as gravações não tem o acabamento de outros discos ao vivo, mas captura muito bem a pegada forte da banda e o calor do som que eles produziam.

É por essas e outras que o punk espalhado pelo mundo foi a melhor coisa que aconteceu para a música desde que Elvis Presley chacoalhou o saco na cara da sociedade americana nos anos 50. Não consigo ouvir ou pensar em coisa melhor.

Passados todos esse anos e conhecendo profundamente vário gêneros, o punk ainda é o meu favorito.

Não me canso nunca.


Badfinger – Straight Up (1971)

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Esse é um dos discos que eu mais gosto aqui de casa.

Esse play sobreviveu a 3 mudanças de casa e 3 limpas de discos que fiz na minha vida.

Isso porque eu realmente adoro esse disco!

E tem razão de ser.

Foi a primeira banda, senão me engano, a ser contratada pelo selo Apple (dos Beatles, não do Steve Empregos), quando os 4 rapazes de Liverpool acharam que dariam conta de ter quando montaram um selo próprio e nele contratar, produzir, divulgar e lançar novos artistas.

Não durou muito porque artista faz arte, não business. Se alguém escrevesse um livro de historia sobre todos os selos criados por artistas e suas pataquadas, seria um puta livro bem interessante.

Enfim, fato é que o Badfinger, e em especial esse play foi produzido por Todd Rundgren (sem comentários) e 4 faixas por George Harrison (sem comentários) e tem 12 músicas originais absolutamente sensacionais, trazendo o frescor dos vocais sessentistas, com backing vocais elaborados, harmoniosos e bem construídos com um peso setentista que havia se tornado regra em 100% das bandas de rock naquela época.

Mas o Badfinger tinha um tcham diferente.

Esse tcham pôde ser recentemente admirado e resgatado na série Breaking Bad, quando o clássico obscuro Baby Blue entrou como uma luva na sonorização dos últimos momentos da série, me fazendo literalmente levantar da poltrona e aplaudir quem teve essa brilhante sacada.

O rock desse álbum é pesado mas não afugenta e tem um senso de pop que anos mais tarde se tornaria conhecido como Power Pop, ou pop mais pesado. Nessa época, esse senso não existia, o que existia era o pop dos Beatles que já estava desgastado e ultrapassado e que estava sendo substituído pelo rock mais pesado da era Zeppelin-Sabbath-Purple entre outros.

Os álbuns seguintes do Badfinger não me interessaram tanto, mas esse Straight Up escuto até hoje com mucho gusto.

E ainda tem Baby Blue que é uma das minhas baladas rock favoritas, com um riff de guitarra ganchudo e simples, uma bateria forte marcada e uma letra cantada com a confiança absoluta que a justiça divina jamais deixará esse disco velho ou ultrapassado.

Até agora não está velho e nem ultrapassado.

E acho que isso nunca acontecerá.


Bach, Johann Sebastian – Concertos Para Violino BWV 1041-42-43 (1971)

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Mais um Bach pra resenhar.

Melhor, mais um Bach pra escutar.

Dizer que escutar Bach faz bem pra saúde é muito clichê, mas o dia parece ter sido pintado com outras cores quando sua música grandiosa passou por algum momento do meu dia.

Não sei se existe algum estudo que diga respeito a essa propriedade terapêutica do compositor alemão no que diz respeito a reconstituição de dignidade, alegria profunda e esperança pra enfrentar o dia-a-dia, mas se não existe ainda, tá na hora.

Apesar de estar de férias e hoje ser uma segunda-feira, a depressão da segunda-feira é certeira e vem mesmo, mas com Bach e o fato de lembrar que estou de férias concertaram o negócio todo e o dia não poderia ter sido mais auspicioso.

Hoje escutei os dois LPS do Bach na sequencia, não podia ter feito algo melhor do meu dia. Bons ventos sopraram no meu rosto depois da audição atenta dessas obras.

É sério!

Bem, esses Concertos, dentro da obra do compositor não costuma figurar como a mais importante ou a mais sofisticada ou mais complexa ou mais importante, mas trata-se de um concerto doce, melodioso e com forte influencia do barroco italiano, em especial Vivaldi.

Meu conhecimento me permite chegar até aqui, mais do que isso é chute wikipedia.

Gosto muito de concertos com Violino, mas Cellos são minhas cordas favoritas no quesito música clássica, em especial quando são quartetos de cordas e aqui temos uma peça com poucos instrumentos, o que traz aquela sensação de intimidade diante do assombro da obra de Bach e que mesmo no mais simples e mais doce, ainda sim é impressionante.

Não é imortal a toa!

Tão imortal quanto o rum quatemalteca que me acompanha enquanto escrevo é a certeza que minha fé na humanidade, apesar de frágil e capenga, se vale porque nós tivemos a capacidade de trazer ao mundo seres como Bach, que fez a graça de nos deixar algumas das mais bonitas e poderosas melodias que o ouvido humano é capaz de registrar e compreender.

Deus não me faça surdo na velhice, pois acho que sei que Bach me fará muita companhia quando eu desistir de vez de ouvir rock.


Bach, Johann Sebastian – Concertos de Brandemburgo (1718-1721) (1956)

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Entrando hoje num terreno perigosíssimo da música popular ocidental, a música clássica!

Perigoso sim, pois escrever sobre música clássica sempre me pareceu um campo das manifestações artísticas fadado e limitado a um pequeno latifúndio elitista e classicista dominado por pseudo-caciques que trazem para si o faroleiro de guia-mestre por esse universo musical. E que só esses caciques detêm o estudo, paciência e tempo para entender, discorrer e levar adiante os valores trazidos na música clássica desde Palestrina e que aparentemente não mais condizem com o século XXI em todas as suas nuances e acelerações sociais.

Parece que o mundo de hoje não insere mais a música clássica como parte fundamental de sua solidificação judaico cristã capitalista, onde toda a nossa sociedade dita vencedora, ocidental, saxã e ligeiramente puxado no branco se moldou até então.

Mudança de valores? Modernização?

Acho que não, a música clássica bem ou mal se adaptou as mudanças e caminhou junto, o que não temos mais é a paciência e o tempo pra escutarmos a maravilha por si só.

Música virou App, música virou um arquivo Mp3 que cabe em dispositivos móveis com qualidade de som muito ruins (Neil Young que o diga).

A música clássica ressaltava as emoções em sua flor da pele, se é do belo que se trata, que seja, se é o trágico da natureza, que o seja e com base nesse conjunto de valores e moralidades que se deveriam ser construídos visando o ornamento de jantares finos, encontros casuais e cultos católicos, ou qualquer outra razão social de belezas inomináveis.

Como eu sempre detestei elites de qualquer pais e espécies, na minha cabeça eu sempre associei música clássica com o esnobismo das classes A elitizadas que além de não abrirem mão de seus ganhos, também não abririam mão de suas belezas (a música clássica entre elas).

Hoje sei que tudo isso é mais ou menos bobagem, mas comecei muito tardiamente a me interessar por música clássica e lembro que as primeiras experiências começaram com Bach e particularmente com esse Concerto.

Acho que deliberadamente, minha entrada no mundo da música clássica se deu com Bach e ainda hoje é o compositor que mais ouço e gosto.

Após anos errantes por esses sons, um dia me caiu na mão um livro que seria meu mapa por esse mundo e que nunca mais larguei, que é o Livro de Ouro da História da Música, de Otto Maria Carpeaux. Eloquente, didático, opinativo, explicativo e profundo, devorei e rabisquei esse livro até não poder mais e a partir dele segui por caminhos mais claros dentro desse oceano abissal.

O primeiro exemplar que tive desse concerto foi com o maestro Wilhelm Furtwangler, numa gravação histórica, que não tenho mais em casa e hoje volta a ter espaço aqui na minha discoteca pois adquiri recentemente essa edição ótima lançada pela Archiv, selo alemão que é responsável por grande parte das gravações de Bach, ou pelo menos as mais importantes.

Não sou louco de tentar analisar nem essa obra, comparar com qual outra? Não dá. Tão pouco a orquestra que a executou (que foi a Orquestra Bach de Berlim), menos ainda o regente, Karl Richter.

Escrever sobre Bach como compositor? O que? Que é a coisa mais próxima de Deus que existe? Se Bach existiu é prova que Deus existe? Se Deus existe, uma das provas é Bach? Talvez. Só sei que não consigo ouvir Bach sem que essas afirmações se façam em mim e a paz e perturbações de sua música só reforçam que esses degraus em direção ao Céu deve estar pavimentado em sua música.

Sem esse cimento sensorial, creio que não tem como chegar ao sublime ou ao sublime como ideia.