Viva o nosso Rei Cauby!

Alguns reis se foram nesse 2016 (Ali, Bowie), alguns mestres (Maurice White, Dave Swarbrick) e um príncipe (Prince) e por aqui a ceifa do mês de maio levou o primeiro “pop star” 100% brasileiro.

Cauby Peixoto foi um crooner de primeira linha, nível Nat King Cole, Mel Tormé, Perry Como, Nelson Ned, dessa linha.

Tinha voz e presença pra fazer frente a qualquer um deles e mesmo no fim da vida, fazia shows, tocava projetos pessoais em que ele interpretava seus ídolos (Sinatra, Cole) e seguia incansável no seu oficio de cantar.

Desde que me conheço por gente, Cauby é o retrato do “cafona”, “música de véio”, “antiquado”, e por ai vai.

Aí um belo dia, resolvi dar uma chance ao interprete de “Conceicão” e através da coletânea O Swing e a Bossa de Cauby, meu queixo veio ao chão não só com o gogó do homem, mas com os arranjos para algumas músicas que são absolutamente sensacionais.

Basta ouvir a incrível versão de Samba do Avião, música delicada que poderia prender o vozeirão de Cauby na miudeza e cadência da escola bossanovística de “menos é mais”, mas que aqui ganha velocidade, casa com a “Hard Bossa” e o mestre desfila técnica.

E o que dizer de Rock N Roll Em Copacabana? Cauby foi um dos primeiros a gravar Twist, Rock and roll ou o que se entendia ser esses gêneros “jovens”.

 

Teve uma carreira longa, com menos “hits” do que eu imaginava e nenhum álbum bom de cabo a rabo, sua irregularidade na escolha do repertório o levou a gravar coisas bem esquisitas (tipo, Billy Joel?) e entre altos e baixos, estacionou num meio-termo entre o popular e o sofisticado e em algum momento nos anos 70 se tornou caricatura e caiu num ostracismo perante a grande mídia.

Mas como profundo conhecedor do jazz americano, Cauby fez nos anos 60 suas faixas mais interessantes e ousadas como Tamanco no Samba (Samba Blin), de 1963 e Canto de Ossanha (1966), essa só saiu em compacto. O arranjo pro Canto é coisa que poderia ter sido gravada pela Blue Note ou Verve Records, arranjo jazzy, com instrumentos duelando com o craque.

Cauby era um paradoxo ambulante, sua extravagancia no palco nada tinha em comum com a discreta vida que levava. Quase ninguém sabia qual era a dele, o que se tornou um dos maiores tabus da MPB.

Cauby nunca deixou que essa questão entrasse na sua música e suas preferências sexuais eram deixadas longe do seu público e mídia, tanto é verdade que somente num relato contido no documentário recém disponibilizado no Netflix, Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, ele fala mais claramente sobre esse assunto, deixando claro suas preferencias.

Cauby foi um tipo de artista extravagante, culto, antenado e que abraçou em seu repertório a opção pelo elitismo (no bom sentido) onde ser sofisticado era sinônimo de ser cool e nesse universo jazz, bossa nova, chanson francesa, bolero e serestas eram as canções que embalavam o sonho de grande parte da população que queria se distanciar das pobrezas espirituais e materiais do mundo e alcançar um patamar inalcançável em vossas vãs existências e Cauby com sua classe e desenvoltura, abriu esse mundo para essas pessoas.

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Cinco motivos para adorar The Queen Is Dead… e 5 para odiar.

               Em comemorações aos 30 anos de lançamento do clássico (ou não) da banda inglesa, listo aqui num arrombo de esquizofrenia perfeitamente explicável, por que as pessoas que amam The Smiths tem razão e também por que as pessoas que odeiam também tem.

 

Para Adorar:

1. O álbum parece um Greatest Hits: Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Thorne In His Side, There Is A Light That Never Goes Out, Some Girls Are Bigger Than Others dentro do mesmo disco, e detalhe, dentro do mesmo lado B;

 

2. O álbum tem uma das letras mais inteligentes do rock inglês que eu conheço: Cemetry Gates (literatura e poesia básicas para as massas);

3. Discurso politico regado a toques literários, exercícios de escrita quase inéditos no discurso do rock, afronta a monarquia mais feroz desde os Sex Pistols e tudo isso com suavidade;

4. A citação histórica da canção Take Me Back To Dear Old Blighty, na faixa de abertura The Queen Is Dead, canção de guerra do subconsciente britânico;

5. Se ainda falta alguma coisa pra te convencer, leia esse artigo de Jon Savage, um cara que manja de música umas 10.000 vezes mais do que eu, você e todos nós juntos.

https://www.theguardian.com/music/musicblog/2010/dec/15/smiths-queen-is-dead

 

E agora… 5 para odiar:

1. É um disco dos Smiths e pra quem tem bode deles, dos Engenheiros do Hawaii ou do Nickelback, já é motivo suficiente;

2. As composições podem ser incríveis, mas no ponto de vista técnico, o álbum é péssimo. Produção chinfrin prum álbum tão badalado. O disco tem quase nada de grave, o que não dá peso algum ao álbum e mesmo na sua reedição em 180 gramas, só mostrou como as produções da banda estavam abaixo de suas composições e arranjos.

3. A cozinha da banda sempre foi meia boca, mas nem aqui ela melhora. O baixo parece uma corda num pedaço de pau, lembra uma bela Tonante;

4. Tem Some Girls Are Bigger Than Others, letra horrorosa escrita em cima de um lindo arpejo criado por Marr. O guitarrista ficou furioso com o que a música virou

5. Os timbres de guitarras desse disco estão tão datados que a primeira que eu ouvi esse disco em 1987, ele parecia ter sido tocado no século XIX;

 


Brian Wilson – Pet Sound Tour 20-05-16 (London Palladium – Londres UK)

Letreiro Brian Wilson

Há 50 anos o mundo ouvia pela primeira vez o disco mais bonito da música pop mundial.

Há 50 anos, uma doce fúria na forma de compositor, cantor e produtor colocava em notas musicais o disco mais bonito da música pop mundial.

Há 50 anos, muitos artistas vem tentado (em alguns momentos chegam perto), mas Pet Sounds continua sendo o disco mais bonito da música pop mundial.

Comemorando os 50 anos de lançamento da obra-prima Pet Sounds, Brian Wilson juntou um timaço e caiu na estrada para mostrar ao mundo de hoje, o que muitos já sabem faz tempo. Que Pet Sounds é o disco mais bonito da música pop mundial.

Brian Wilson chegou e sentou em seu piano desligado e ao seu lado, o companheiro de primeira formação dos Beach Boys, Al Jardine tocando sua guitarra aparentemente desligada também.

Não deixa de ser emocionante ver os dois monstros lado a lado, Brian já quase não consegue cantar, e tenho duvidas se ele tem completa noção do que faz no palco, mas o que mais impressiona é que Al manteve a mesma voz.

Na primeira parte do show, algumas clássicas como Heroes And Villians, California Girls, In My Room que já foram capazes de arrepiar e dissipar as duvidas sobre a seriedade do show.

Outro ponto inusitado é a presença do filho de Al Jardine, Matt Jardine que canta tal qual um Brian Wilson nos anos 60 e em Don’t Worry Baby, assume o vocal principal. Fechando os olhos, voltamos para 64 e ouvimos um fantasma cantar. Arrepiante.

Aliás, foi um bom truque, ele reveza com Brian os vocais e onde o velho Beach boy não alcança mais, Matt vai lá e complementa.

Lá pelo meio desse set sobe outro convidado, Blondie Chaplin que gravou 3 álbuns horrorosos com a banda nos anos 70 e acrescentou nada ao show. Maleta, Blondie achou que a festa era pra ele, exagerou nos solos e na pose e tinha fãs tão fanáticos por Beach Boys na platéia que até em Sail On, Sailor seguramente, uma das piores músicas do mundo, tinha gente cantando.

Antes da ultima música, Brian já sai do palco e tal qual numa peça de teatro, vamos para um intervalo de 10 minutos.

Tempo pra sair, tomar uma cerveja junto com a turma “pra frentex”, cuja média de idade está em 65 anos e voltar para nossa cadeira. A segunda parte vai começar e é onde a coisa realmente pega: Pet Sounds vai ser tocado de cabo a rabo.

Haja coração!

A viagem começa e se o show já estava legal (tirando o maleta Chaplin), ele ganha doses extras de magia e status de sobrenatural, Pet Sounds vai sendo executado com perfeição e em todos os seus detalhes e sutilezas. Pontos altos ficam para I Know There´s An Answer, I Just Wasn’t Made For These Times (aqui o Brian canta com sentimento a flor da pele) e God Only Knows (com toda a dificuldade, Brian leva inteira). Difícil é voltar ao mundo dos vivos depois disso!

Envolto de beleza sonora por todos os lados, fico impressionado como Brian está ausente e desconectado do que acontece em volta. Um exemplo é que no final de cada música, com o publico ainda aplaudindo calorosamente, ele já começa a anunciar a próxima sem esperar o silêncio da plateia.

Atravessou os aplausos!

Em algum canto de sua mente, ele sabe do poder que essas musicas exercem, então ainda deve ter alguma parte consciente nessas ações, mas a beleza da execução supera tudo, até a “quase” ausência do criador no palco.

Mais um pequeno intervalo e o bis vem com aquela que tava faltando: Good Vibrations e alguns sucessos mais “rockandroll”.

E o show termina com Brian inteiro no palco cantando Love & Mercy. Bonito, autobiográfico e com tintas de arrependimento, finalmente se vai e nós como expectadores/fãs só podemos agradecer.

 


PJ ainda bate um bolão.

Acabei de voltar de Londres (férias, retiro espiritual off-line total, essas coisas) e por lá, pelo menos nos lugares que interessam, Pj Harvey ainda ostenta cacife de Diva/Super-Estrela do mundo ou submundo dos bons sons (esse lugar ainda existe, deve caber num quintal mas existe).

Seu mais recente trabalho, The Hope Six Demolition Project é um ambicioso projeto Musical/Social em que ela escreveu canções de protesto, rodou alguns lugares interessantes/pobres ao lado de um fotografo de guerra e rodou clipes por lugares bem mais zoados que a baixada do Glicério. Seu mais recente vídeo foi filmado no Afeganistão, o primeiro foi no Kosovo e ela gravou ainda com um grupo gospel da periferia de Washington D.C.

The Hope… vem no mesmo embalo de Let England Shake, o que deixa os ouvidos acostumados a mudanças repentinas de rotas musicais de PJ mais aliviados e reconfortados.

Instrumentação rica, arranjos abertos e sofisticados, ecos nos vocais, metais?? Tudo isso vem nesse novo pacote criado e concebido por PJ quase como um “documentário musical” da miséria, da pobreza e da desigualdade imposta por nações ricas contra nações menos desenvolvidas.

O disco em si não é ruim, até por que a pior coisa que ela fez ou fizer é ou ainda será melhor do que a melhor coisa que qualquer outro artista contemporâneo possa produzir. Padrão de qualidade PJ Harvey mantido.

Ainda tem algumas guitarras por ai (graças a Deus), ouve-se os ecos de sua infalível Fender Jaguar, mais calma mas ainda roncando ao fundo. Seu vocal continua matador, canta melhor a cada disco e continua sendo a melhor compositora dessa geração, me aponte uma música nova melhor que The Community Of Hope ou Chain Of Keys (isso só pra citar duas).

O que poderia ser um projeto maleta, virou um senhor disco de “Protesto” dos mesmos moldes que seu Let England Shake o foi há 5 anos.

Vibrante, não convencional e repleto de tempero britânico, PJ Harvey se firma definitivamente como um ponto de exclamação musical praticamente imune a erros, não dá pra apontar um trabalho dela que não seja no mínimo bom.

Ela pode já não estar mais no auge de Stories From the City (2000) ou Is This Desire? (1998), mas tá longe ainda de uma “decadência” ou até mesmo de uma “zona de conforto”. PJ prefere continuar cagando pros modismos e compartilhar lindas músicas e lindos discos como esse novo álbum.

Bom pra nós que gente como PJ ainda esteja fazendo discos assim.


Os 5 discos que mataram o rock independente.

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Esses dias, tava eu lá no Cine Joia vendo o show do Swervedriver, banda de showgaze do começo dos anos 90 nem boa e nem ruim e de repente me dei conta que há 20 anos eu era o “descoladinho” ou “franjinha”: termo usado para pessoas que curtiam um som “alternativo” a lá Pixies, Teenage Fanclub, Inspiral Carpets e principalmente My Bloody Valentine.

Hoje isso pode significar o “hipster”, criatura tão criticada, mas que existe um pouquinho em cada um de nós.

Não sei se o passar dos anos foi me deixando mais chato (acho que sim), mas o tal “indie rock” que aprendi a adorar deixou de ser o sub-genero do rock instigante pra se transformar em mainstream e trilha de propagandas de aparelhos de celular, carros SUV e se converter no novo pop.

Nada contra, pode ter sido um caminho natural, mas não deixa de ser triste e chato.

Abaixo os 5 discos que destruíram o “Indie Rock”.

5. Wilco – Yankee Hotel Foxtrot (2002)

Acho a indústria fonográfica mais corrompida e burra que qualquer outra, mas com relação a esse disco, eu to com o então presidente da Warner Music que se recusou a lança-lo por ter achado muito anti-comercial. Acho que ele já sabia que o fim do rock e do indie rock seria sacramentado com esse monumento pretensioso e tentou dar uma sobre-vida ao gênero. Ok, eu sei que nada disso passou pela cabeça do CEO em questão, mas por 3 segundos eu gostaria que esse tivesse sido o real motivo. Essa história só ajudou a alimentar esse maldito monstro chamado “opinião pública” e disco sendo chatíssimo como ele é, caiu como uma luva no colo da então vivida critica atuante e o álbum foi catapultado a picos de “obra-prima” pra cima. Pra constar, eu amo o Wilco dos 3 primeiros discos, mas o que veio depois é de lascar de tão chato e esse disco pretensioso, com os rasgados elogios que se seguiram só serviram para apontar direções erradas aos artistas que seguiram em frente.

 

  1. Belle And Sebastian – If You’re Feeling Sinister (1996)

Eu estava lá e já era grandinho quando esse disco foi lançado. O frisson causado pelo octeto escocês no então “subterrâneo” foi tamanha que ninguém parece ter se recuperado do xororô ainda e novas gerações de músicos continuam chorando sobre esse leite derramado chamado “indie”. O disco nem é de todo o ruim, só fica ruim mesmo quando Isobel Campbell e Stuart Murdock começam a cantar juntos… O Belle até tem coisas boas, mas esse disco influenciou tanta coisa ruim, que merece posição de destaque nesse ranking.

 

  1. Coldplay – Parachutes (1999)

Uma única razão para esse disco estar na lista: ele é/foi considerado um disco de “indie Rock”. Sem mais.

 

  1. Radiohead – Ok Computer (1997)

Antes das pedras começarem a voar na minha direção, faço o mea culpa: Eu comprei esse Cd no dia do lançamento, gostei dele por um bom tempo, culminando com o tempo em que era fã do Smashing Pumpkins e de rock progressivo. Coincidência ou não, quando voltei a repudiar os Pumpkins e o Rock Progressivo, o amor por Ok Computer acabou também. O Radiohead sempre quis ser mais do que uma boa banda de britpop que eles foram e com esse álbum eles deram um gigantesco passo pra fora do estereótipo que carregavam de britpop, criando um outro pior, 0 Radiohead não só sepultou o Indie Rock, como também sepultou o rock como um todo. Com esse álbum, todo mundo virou “Rococó”, todo mundo que fazia discos legais passaram a fazer álbuns “conceituais” ou “muito elaborados” pra tentar alcançar o “nível de excelência” alcançado pelo quinteto de Oxford. Correndo os olhos em algumas listas de melhores do ano da NME dos anos seguintes, praticamente não se teve mais discos com guitarras. Mercury Rev, Flaming Lips, dentre outros lançaram seus álbuns “conceituais” em detrimento de seu bom som guitarristico que vinham tramando e bandas que se mantiveram nas guitarras passaram em brancas nuvens. A música rock pós Ok Computer ficou muito chata.

 

  1. Arcade Fire – The Funeral (2004)

Afirmar somente que não consigo entender por que todo mundo ama essa banda e esse disco seria somente um sinal de que estou velho e essa choradeira pretensiosa não me atinge mais. Mas eu AINDA gosto de música chorosa, e acho que até pra ser choroso e frágil dá pra se fazer isso com um mínimo de classe e honra. Nick Drake fez ótima música chorosa, Tindersticks também e se procurar por ai até tem gente nova fazendo isso com certa competência. (se alguém achar, me avise). Mas não é só o fato desse lixo desse Arcade Fire ser tão amado (que não é problema, pois não se escolhe o que você vai amar, ama-se e pronto), e gosto popular normalmente é genuíno e verdadeiro e não há problema em se amar coisa ruim (eu adoro um monte de disco que não vale nada), mas o que mais me impressiona e ler gente que “teoricamente” manja desse negócio de indie ou rock se derramar em elogios pra esse embuste. Cheguei nesse “enterro” bem tarde, deve ter sido uns 7 anos depois de ter sido lançado, portanto passei por ele sem ser tapeado. São 10 faixas que juntando não daria um EP meia-boca. O problema do Arcade Fire é que eles fazem músicas e discos que duram o dobro do que deveriam. As músicas de 5 minutos deveriam durar uns 2, as que tem 2 nem precisavam existir.

Menções honrosas da chatice indie:

Modest Mouse – Good News For People Who Loves Bad News (2004)

Fleet Foxes – Fleet Foxes (2008)

Bon Iver – Bon Iver (2011)

Arcade Fire – Suburbs (2010)