Melhores de 2016 – The New hope

Quando eu revejo as listas que eu fiz de melhores discos do ano (e todo ano eu faço uma, como quase todos os meus amigos fazem), duas coisas saltam aos olhos:

  1. Sempre reclamo que a safra tá ruim, que tamo indo de mal a pior, mas que apesar dos pesares, algo levanta do lodo e faz o ano valer a pena.
  2. Quase não escuto mais os discos dessas listas que eu fiz, salvo uma meia dúzia e bem contada.

Assim, conclui com isso, que esse tipo de lista hoje não faz mais sentido, digo, no sentido como conhecemos esse tipo de listas (10 melhores, 20 melhores, etc), assim aproveito esse singular momento desse inesquecível (mais para o mal) 2016 para fazer uma lista diferente e aproveito para fazer meus votos para que os artistas do mundo todo se manquem e aproveitem a infinidade de idiotice, caretice e retrocesso galopando em nossas direções e realmente usem esses tempos bobos e sombrios como vitamina pra produzir coisas ótimas!

Ai vai a minha lista desconstruida e sem ordem fixa, mas com algo em comum (em 5 anos certamente estarei escutando esses discos ainda):

 

Melhor Revival/Ressurreição musical de 2016:

The Monkees – Good Times!

E não foi só de mortes que vivemos o 2016, O Monkees voltou com um disco ótimo (sua ultima ressurreição foi o fraco Justus em 1996). Pop/rock old fashion, meio 90’s, com produção competente de Adam Schlesinger (do Fountains Of Wayne), trouxe uma boa vibe e de quebra conta com duas pérolas do pop rock contemporâneo “She Makes Me Laugh”, melhor composição que o River Cuomos (Weezer) fez em décadas e “Birth Of An Accidental Hipster”, parceria de Paul Weller e Noel Gallagher.

 

Melhor Disco de Heróis Dos Anos 90 Que Ainda Tem Garrafa Vazia Pra Vender:

Underworld – Barbara, Barbara, We Face A Shining Future

Fazia tempo que eles não lançavam um disco tão bom quanto esse. Passado da 5a faixa e o disco continua excelente, pros dias de hoje isso é muito, believe me!. Essa surpresa pode ser, em parte, atribuída as andanças de Karl Hide (vocalista e letrista) com outros músicos (aproveito pra indicar também seu álbum em parceria com o Brian Eno). Ajudou a repaginar o Underworld dentro desse mundo dominado por DJs superstars pouquíssimo criativos. Tem um que de The Fall ou eu to muito louco?

 

Melhor Disco de Krautrock Fora Dos Anos 70:

Sunns – Hold / Still

Vi que não entrou em nenhum lista das modernidades e dos sites e blogs de musica descolados. Não entendi? O som dos caras é hipnótico, tive o prazer de vê-los ao vivo nas férias e o disco tem todos os bons elementos de um krautrock com strudel, mas os canadenses devem ter atrasado o boleto do jabá para os blogs e ficou de fora de todas as listas.

 

Disco Mais Importante de 2016:

David Bowie – Blackstar

Por razões óbvias, Blackstar já nasceu clássico. Confesso que só consegui ouvi-lo 1 vez, ainda não estou completamente pronto pra ele. Hoje como álbum, não consegui gostar de verdade, não como gostei do anterior The Next Day (esse figura entre os melhores de Bowie). Volto a falar de Blackstar daqui uns 10 anos. Em tempo, I still miss Bowie …

 

Melhor Disco do Melhor Artista Ainda Vivo:

Nick Cave & The Bad Seeds – Skeleton Tree

Já escrevi sobre ele há alguns meses atrás e não retiro uma virgula. Passou o ano e continua sendo tocante, importante e espero que a coragem e forca que os fizeram levar o disco ao mundo como o fizeram, os façam levar essa beleza aos palcos também. Esperamos todos ainda estar vivos para ver Mr. Cave e trupe destruindo tudo.

 

Segundo Melhor Disco Da Melhor Artista Mulher Ainda Viva:

PJ Harvey – The Hope Six Demolition Project

O disco é ótimo, inferior ao seu anterior Let England Shake, mas infinitamente superior a todas as demais artistas de saias que circulam pelo planeta.

 

Melhor Disco de Metal de 2016:

Kverletak – Nattesferd

Ótimo ano para ser metaleiro, daria pra listar aqui pelo menos mais uns 4 ou 5 discos ótimos de metal lançados em 2016 como os franceses Gojira, (álbum: Magma); os americanos Ustalost (álbum The Spoor Of Vipers), as japas cabulosas Babymetal (álbum Metal Resistance) e Megadeth (álbum: Dystopia), mas os noruegueses do Kverletak conseguiram fazer um quase hit unindo produção hard rock com vocais de doom metal. Vida longa ao metal!

 

E agora os CINCO melhores discos de Rock de 2016: Sim isso ainda existe e melhor, 3 bandas novíssimas!!!

The Dandy Warhols – Distortland

Esses também esqueceram de pagar os jabás pros blogs, disco moderníssimo e de altíssimo nível, muito melhor que quase todos os 20 albums de Rock que a Pitchfork teve a manha de publicar. A banda continua em plena forma, se reinventaram e seguem muito bem obrigado.

 

Dinosaur Jr. – Give a Glimpse Of What Yer Not

Depois que eles voltaram com a formação original, só tem lançado discos bons e esse Give a Glimpse supera o anterior Farm (que já é ótimo). Bela barulheira, J.Mascis continua solando como se não houvesse amanhã e as canções de Lou Barlow estão entre suas melhores contribuições para o grupo. De quebra são donos do show mais barulhento em atividade no mundo.

 

Savoy Motel – Savoy Motel

Meio Glitter, esse disco de estreia dessa turma de Nashville podia tocar tranquilamente em casas que tenham o novo rock como pilar sonoro. Bem tocado, ótimas ideias, a banda já abriu alguns shows pro Dandy Warhols e tem um disco que na média é mais bom que mais ou menos, o que já é uma esperança.

 

E agora rufem os tambores para os dois melhores discos de rock de 2016 com as duas melhores bandas de rock que ouvi esse ano:

Oh Boland – Split Milk

Pra voltar a ter esperança que jovens possam fazer discos incríveis e o trio irlandês Oh Boland pegou a receita mais velha do mundo: junte boas composições, grave com urgência mas não com velocidade, faça um disco que voce possa ouvir sem vergonha daqui a uns 20 anos. Meio Punk, meio garagem, produção meio tosca, propositalmente desleixada, tudo mixado e masterizado com boa sujeira e canções tão boas que não vou nem escrever mais, abaixo o link dos rapazes no bandcamp, compre o disco digital ou físico e ajude a uma grande banda a não parar.

https://volarrecords.bandcamp.com/album/oh-boland-spilt-milk-lp-limited-clear-vinyl

 

Personal And The Pizzas – Personal And The Pizzas

Outra gratíssima surpresa, do 0 ao infinito, banda de Sao Francisco faz a melhor mistura de punk 77 com punk 80’s branco e new wave de guitarras do inicio dos 80s. Só que melhor, feito hoje em dia. Letras idiotas excelentes como há muito não se ouve nos dias de hoje, onde todo o jovem quer trazer sua mensagem capsuladinha dentro do seu Twitter, tem um pezinho no retro, mas é tão fresco e jovem que to completamente apaixonado! Vale o mesmo para o Oh Boland, tá lá no bandcamp, pague alguma coisa pra eles! Eles merecem nosso dinheiro!

https://slovenly.bandcamp.com/album/personal-and-the-pizzas-personal-and-the-pizzas-lp

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Djs Diretores ou diretores Djs…

Escolher a música certa para uma cena, trilha sonora ou incidental nem sempre é função do diretor. Muitas vezes ele só dá a palavra final para o compositor ou para o encarregado em escolher a música, mas não tem muito tempo ou paciência ou jeito pra escolher a song.

Exceto os chapas aqui abaixo, que muitas vezes chegam a pensar na cena com uma certa música na cabeça e obcessivamente e obstinadamente constroem seus enquadramentos muitas vezes só pra emoldurar uma canção.

Tudo isso só pra comentar a felicidade que eu tive em escutar Fox On The Run, do Sweet no iradíssimo e sensacional teaser da continuação dos Guardiões das Galáxias e introduzir James Gunn a essa seleta lista de Diretores que pensam na música tanto quanto pensam no “Ação”.

Ai vão as cenas e diretores com essa pegada:

Martin Scorsese: Já se disse que Scorsese foi um roqueiro frustrado, como não sabia tocar nada, seguiu a vida de cineasta. Sorte nossa! Marty construiu cenas incríveis para músicas sensacionais, mas nenhuma delas supera essa entrada triunfal de De Niro em Caminhos Perigosos (1973). Jumpin Jack Flash parece ter sido criada para sonorizar os passos insolentes e em Slow Motion do personagem Johnny para dentro do buteco risca faca da Little Cosa Nostra nova-iorquina.

 

Stanley Kubrick: sua ranhetice perfeccionista não se restringia somente ao dirigir, produzir e escrever. Ele tinha que dar pitaco em tudo e como um profundo conhecedor de música clássica, a trilha sonora tinha que passar por ele. Tudo isso porque o mestre sabia da força de uma grande canção para causar os impactos necessários as suas cenas, senão o que dizer das suas ortodoxas escolhas da manjada valsa de Johann Strauss para fazer suas naves flutuarem lindamente num balé espacial.

 

Ou o uso da música de Gyorgy Ligeti tanto em 2001 quanto em De Olhos Bem Fechados. O compositor contemporâneo de origem húngara usou sua música vanguardista para, em muitas vezes, afrontar e enfrentar as agruras da opressão dos regimes comunistas pelo qual passou e captando essa angustia, Kubrick colocou uma das mais perturbadoras de suas composições para enfatizar a alguns momentos capitais do seu ultimo filme.

 

Mas a minha favorita ainda é a abertura de Doutor Fantástico (1964), em que pega a bonita mas melosa Try A Little Tenderness e usa como fundo para mostrar duas aeronaves fazendo uma acoplagem em voo para abastecimento, e dando a essa trivialidade bélica, uma imensa conotação de coito. Provocativo!

 

Quentin Tarantino: geek musical tarja preta, reinventou o modo de usar música pop no cinema. Inegável talento para associar grandes canções com cenas impactantes, Tarantino foi de longe uma das maiores influencias da música nos anos 90 pela capacidade impar em resgatar temas famosos e obscuros e coloca-los na mesma bandeja para um público avido por novidades. Dificil escolher uma só, mas ainda me causa arrepios como ele reinventou a arte de abrir um filme com todos os elementos que um filme legal precisa ter, assim a sequencia Dick Dale / Kool And The Gang presente em Pulp Fiction (1994) ainda é a mais impactante.

 

Wes Anderson: outro nerdinho tarja preta, também é difícil escolher uma canção da sua “discoteca” cinematográfica selecionadíssima, mas a ultra coreografada cena de “Os Excentricos Tenenbaums” onde Margot Tenenbaum chega ao porto de Nova York para buscar seu “irmão” é belíssima e naquele momento, acho que todo o mundo se apaixonou pela esquisitinha ao som de Nico. Causa e efeito na medida, Wes sabia onde queria chegar.

 

Outra do dj Anderson, é a deliciosa opção por um dos pais do rock americano, Bobby Fuller Four para encerrar os trabalhos na animação Fantástic Mr. Fox. Só pra constar, Bobby Fuller é mais conhecido como o compositor de I Fought The Law.

 

 

Jimmy Wang Yu: Quando eu vi O Mestre da Guilhotina Voadora (1976) e me deparei com a música de abertura, a cargo da banda de krautrock Neu!, percebi imediatamente que não seria um filme normal. Não sei de onde o ator, diretor e produtor chinês tirou a ideia de botar o Neu! pra abrir um filme de Kung Fu. Coisa de nerd musical? A investigar.

 

 

James Gunn: esse tá caminhando muito bem pra se juntar aos coleguinhas Djs/Diretores. Com dois ótimos filmes no currículo em que a música é o pilar e carro chefe e no bom sentido, faz os dois filmes serem incríveis é de se esperar e torcer que o novo Guardiões seja também um deleite áudio visual. Como diz Star Lorde, há os que dançam e os que não dançam, que tipo é você?