The Isley Brothers – Brother, Brother, Brother (1972)

Afirmar com convicção que os Isley Brothers foram o grupo vocal negro mais foda é forçar uma barra meio pesada, mas hoje estou intoxicado pela afinação sem igual dos irmãos Isley e a cada novo álbum que me cai na mão é mais uma aula de canto em conjunto.

Amanhã vai ser outra história, mas como o que vale é hoje, fica valendo o paragrafo acima.

Amanhã pode mudar e Temptations, Ingram Kingdom e Black Ivory tão vindo na cola para tomar esse posto.

Esse é um álbum mais funk, com uma pegada mais pesada e dá um balanço legal ao R&B suave, mas valente dos irmãos.

Som da pesada, se me entende?

Som quebradeira, com baixo dedado, guitarra segurando a base e a bateria fazendo a funça, compreende.

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Giorgi Ligeti – The Ligeti Project I – Piano Concerto, Melodien Chamber Concerto and Mysteries of the Macabre (2001)

Chegando no fim do mês, que tal um sonzinho bem doentinho?

A música do compositor Ligeti não é simples de se digerir, mas certamente é a melhor coisa da música clássica pós-segunda guerra.

Muito superior a John Cale ou Philip Glass ou Steve Reich, que são os mais badalados compositores eruditos do Século XX porque propõem destruição, desconstrução enquanto Ligeti procura construir no seus contrapontos minimalistas o máximo de música possível, seja ela dramática e/ou intimamente ligada a sua própria história de vida, Ligeti é imprescindível para se entender os caminhos da música clássica e entender que há esperança e vida nesse pós-tudo caótico com referencia zero e muitos achismos.

A música de Ligeti caiu como uma luva nas trilhas sonoras de 2001 e De Olhos Bem Fechados, ambos de Stanley Kubrick, outro grande fã e apreciador das bizarrices do mestre.

É emocionante ve-lo falar sobre seu processo de composição num trecho do documentario sobre a vida de Kubrick…

Essas edições do Ligeti Project, são talvez a melhor maneira de se infiltrar na cabeça e na música desse maluco genial.


Anna Calvi – Anna Calvi (2011)

Por que ninguém dá bola para a Anna Calvi?

Passou batido pela crítica hypada.

Passou batido pelos hipsters de plantão.

Passou praticamente batido pelo público indie-rock.

Só porque ela é muito boa?

Boa a moda antiga.

Canta bem pra cacete, faz um som que lembra Siouxie and the Banshees e Nick Cave, e na opinião do Peter Gabriel, “é a melhor coisa que apareceu desde Patti Smith”.

Realmente não entendi, alguém explica aí?

Discasso de estréia que foi lançado também por aqui, lá fora saiu pelo selo Domino Records que lança Vampire Weekend, Arctic Monkeys e Animal Collective dentre outros modernetes.

Guitarras profundas, canções emocionantes, curto e perfeito.

É bom demais para ser tão recente, parece musica do século passado, talvez esse seja o problema…

Mas o Black Keys também parece música do século passado e tá na crista da onda…

Fiquei confuso…


Astor Piazzola Y Su Quintet – Adios Nonino (1969)

Afinal Tango é Jazz argentino ou é World Music?

Who cares, ele é argentino certo?

Então que se exploda!

Fato relevante é o seguinte: Astor Piazzolla colocou a Argentina no mapa da música e tirou o Tango do simples imaginário popular como sendo a dança trágica-típica portenha, cantada pelo Carlos Gardel.

Astor captou e enriqueceu esse plutônio com uma pitada de jazz e recolocou o Tango em lugar de destaque e respeito dentre os apreciadores, tanto do tradicional quanto do moderno.

Virou um paradigma tão forte, que ninguém ousou desafiar suas propostas musicais, até que nos últimos anos aparececem os grupos de tango eletrônico e dessem uma nova cara ao velho gênero (particularmente não gosto, mas ok, vai ao gosto do freguês).

Prefiro o velho Astor, sentado com seu acordeon declamando suas frases precisas e sofridas, acompanhada de sua impecável e precisa banda.


Paulinho e Seu Conjunto – Um Passeio Musical (1958)

Tudo no Brasil acontece por acaso.

Por acaso, um sujeito chamado Pacifico Mascarenhas, compositor mineiro, queria ter suas músicas gravadas, mas nenhuma gravadora queria ou se importava para o que esse mineiro queria.

Com isso posto, o homem veio pro Rio de Janeiro, contratou uma banda, pagou as horas de estúdio, a masterização e a fabricação independente de uma tiragem desses LPs, voltou para Belo Horizonte e os lançou por conta própria.

Hoje em dia, isso é a regra, mas em 1959 isso significava o mesmo que fabricar um carro por conta própria e botar pra vender.

Sem querer, Pacífico fez o primeiro disco independente da música brasileira.

A obra é um sofisticado e bem tramado conjunto de sambas-canção com toques de música romântica tipicamente brasileira, seresteira e bonita, tocado com tarimba por bons músicos de bar e de estúdios cariocas.

Não por acaso, esse belo disco foi relançado em 2011 pelo valoroso selo Discobertas e passamos a conhecer a história de um brasileiro que não ficou sentado esperando a banda passar e teve seu momento de brilho.


Clementina de Jesus – Marinheiro Só (1973)

Clementina tinha um canhão na voz.

Ou seria uma bazuca?

Resposta mais provável é que ela tinha uma garra e uma vontade fela de ser alguém na vida.

Assim como todos os nossos grandes sambistas, nasceu fudida e morreu fudida, mas se não fossem alguns amigos, sua voz nunca seria registrada para as gerações futuras.

Clementina foi a nossa Nina Simone.

Cantava com o desespero e com a dor que só as grandes damas conseguem.

Ela foi uma delas.


Dj Shadow – Endtroducing (1996)

Merecidamente, o produtor e Dj norteamericano foi reconhecido como uma das figuras capitais da música pop dos últimos 20 anos, principalmente no genero “Techno”, “Eletrônico” ou “Cultura DJ”.

Quando ele fez esse álbum, ainda não existia Pro-tools, os computadores não eram tão sofisticados quanto hoje e fazer um disco inteiro só com colagens, samplers e trechos de outras músicas exigia paciência oriental, absurdo senso de ritmo e um conhecimento musical enciclopédico que só se conquistava ouvindo muito disco (lembrando que nessa época também não existia o Google).

A capa desse álbum é uma das minhas favoritas, mostra uma foto com duas pessoas batendo banca de Discos de Vinil procurando aquela felicidade concentrada em um pedaço redondo feito a base de petróleo com uma capa de papel e um plástico em volta.

Foda-se esse mundo politicamente correto e moderno, que acha que o menos é mais, e que o clean é o senhor todo poderoso.

E que esse monte de disco não cabe mais na vida das pessoas, e que tudo é diminuto e sintetizado em arquivos de MP3.

Em tempos de revival do formato Vinil, a capa é uma linda homenagem a todos aqueles que buscam essa felicidade em cada nova vasculhada por bancas de lojas de discos, atrás do próximo disco que vai mudar sua vida.