The Only Ones – Special View (1978)

 

Banda excelente, disco sensacional.

A banda não teve quase nenhum sucesso fora da Inglaterra e o disco é tão obscuro que nem o Allmusic.com o reconhece.

E olha que o Allmusic é a melhor fonte de informação para quem acompanha música, discos e artistas.

Beleza, eu também não conheço quase nada sobre eles. Estamos quites.

Tenho esse disco há mais de 10 anos, veio diretamente de SanFran e ainda gosto muito!

O Only Ones é punk pop de primeiríssima e surgiu na esteira de aproximadamente outras 550 bandas tão bacanas quanto.

E o que eles tinham de melhor ou especial?

Nada.

Na verdade, eles tem um trunfo.

E apresentam logo de cara no disco.

Another Girl, Another Planet, a faixa que abre esse álbum é uma das mais espetaculares e sensacionais canções rock feitas nos últimos 40 anos. Exemplo máximo de new wave, punk pop que agrada a todo mundo que gosta de rock rápido, divertido, leve e descompromissado como Another Girl é.

John Peel era fã dessa música.

Eu amo essa música.

Se você não conhece, abaixo tem o link do som.

O resto do disco é bacana, tem um reggaezinho vagabundo aqui, tem uns roquizinhos legais ali, mas nada se compara a primeira faixa. Eles nunca fariam nada melhor que isso e nem precisam.

Na era da new wave, a concorrência era pesada. Quase todas as bandas fizeram pelo menos uma música espetacular.

Viva a New Wave!


Partido em 5 – Raizes do Samba (1975/76/2010)

A série Raizes do Samba ajuda a resgatar em som decente algumas das principais pérolas do samba brasileiro dos anos 50, 60, 70 e 80 que criminosamente ficaram aleijados da atenção e do acesso do grande público por anos.

O Partido em 5 é um desses exemplos resgatados pela série.

Fez grande sucesso em 1975, conseguiu manter o pique no ano seguinte e acabou debandando, por que a vida é dinâmica, as coisas acontecem e é por ai.

Ainda bem que restaram as gravações.

O Partido em 5 era composto por: Candeia, Velha, Casquinha, Anezio, Wilson Moreira e Helio Nascimento. Partideiros de primeira, esse combo foi o Crosby, Stills, Nash e Young dos subúrbios e morros cariocas.

Seis cronistas precisos da vida nos morros cariocas, suas tretas, alegrias, angustias e delicias da vida dura, simples e dos causos repletos de sabedorias populares e bom humor.

De improviso ou quase de improviso, o partido alto e o pagode praticado pela rapaziada era fino, cru, sem tratamento estético de limpeza de arestas e imperfeições, cantado com coração, rouquidão e regado a birita, cigarro e arroz com couve como todo bom partido alto precisa.

Letras bem humoradas cuja matéria-prima estava ali nas ruas, nos becos, nas ladeiras, debaixo das janelas dos barracos, na mesa das biroscas e botecos que abordavam os mais triviais e corriqueiros temas: brigas, vida conjugal alheia, o vacilão, o caguete, as traições, o bêbado, as rodas de samba que varavam a madrugada e tudo isso.

Samba de verdade é assim, o resto é perfumaria.


Bill Evans – On Green Dolphin Street (1959/1975)

Bill Evans é gente que fez.

No final dos 50, ele começava sua carreira solo como líder, mas naquela época ele fazia parte também do inacreditável time que acompanhava Miles Davis e que acompanhou o monstro em Kind Of Blue (1959), tido como o maior álbum de jazz da história.

Bill sempre foi irrequieto e classudo.

Seu piano e seu toque suave, rápido e decidido virou um novo paradigma do jazz pós-bebop e não é para menos, o homem ajudou a inventar o jazz moderno que seria seguido por outros monstros como Keith Jarrett, Chick Corea e Herbie Hancock entre outros.

Essa obra-prima ficou engavetada por mais de 15 anos, até que com muita insistência de Orrin Keepnews (homem do jazz e da indústria do jazz), convenceu Bill, a lançar essas sessões em álbum, mesmo que ele achasse imperfeições nas gravações, Bill que nessa época estava afundado na cocaína e seguia uma errática carreira entre manter seu piano jazz e abraçar a modernidade do jazz fusion que dominava a cena, acabou concordando com o lançamento.

On Green Dolphin Street é suave, poderoso e contava com Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria. Um trio que fazia miséria!

Como naquela época, tempo era dinheiro e tempo de estúdio era muito mais dinheiro, as sessões ocorreram em 19 de janeiro de 1959, entre um show e outro e entre outras diversas sessões que esses senhores frequentavam para conseguir juntar dinheiro suficiente para cobrir as contas do aluguel, das biritas e dos agiotas.

Nada de glamour. Todo mundo tocava por amor a música, mas amor ao tutu também.

Deixando o grupo de Miles, Bill seguiu uma espetacular carreira solo ao longo dos anos 60, mas seu vicio em heroína e cocaína, além de seu temperamento fechado, tímido e arredio o tornaram um artista pouco popular, mesmo sendo respeitadíssimo dentro do meio musical.

Com esse lançamento em 1975, Bill foi realmente alçado a condição de um dos grandes gênios do piano jazz e mostrou um belo contraponto a musical tonal que dominaria aquele mágico ano de 1959 (ano de Kind Of Blue, mas também de Shape of Jazz To Come de Ornette Coleman, outra revolução sonora daquele ano).

Bill morreria 5 anos apos o lançamento de On Green…

Jazz para um sábado a noite. Pegue seu whisky e boa viagem!


Julieta Venegas – Otra Cosa (2010)

Nós, macaquitos, prestamos pouca atenção ao pop latino.

Nós, macaquitos, achamos que sabemos falar espanhol, mas tomamos no nabo quando vamos a Buenos Aires ou quando queremos entender o que a Larissa Riquelme fala enquanto balança os peitos.

Nós, macaquitos, penamos para conseguir produzir um disco pop tão bom quanto o da Julieta Venegas.

Mas nós temos o Pré-Sal, a Dilma, o Cachoeira, o Teló e as propagandas de carros na TV.

Ok, tem tanta merda lá do que cá.

Mas nós, macaquitos, detestamos pop cantado em espanhol. Quase ninguém deu certo por aqui por puro preconceito da nossa parte. Os Estados Unidos do Brasil, right?

Pois bem, aqui vai um belo exemplo de pop latino descentíssimo.

A cantora, multi-instrumentista e compositora mexicana Julieta Venegas nasceu em Tijuana (famosa cidade fronteiriça conhecida por ser a principal porta de entrada de imigrantes ilegais aos EUA, além de ser uma das cidades mais violentas do mundo por conta do cartéis de traficantes).

Julieta tem carreira respeitada e elogiada em toda a América Latina desde 2003, quando publico e critica se ajoelharam diante de álbum que ajudou a projetar a cantora para o panteão das grandes artistas latinas em atividade.

Os álbuns seguintes foram melhores, Limon Y Sal de 2006 e o Unplugged de 2008 só reafirmaram a popularidade e qualidades da moça.

Otra Cosa é o quinto e mais consistente álbum de Julieta, com produção caprichada, canções ganchudas e um pop bem cantado e bem executado que se ouve pouco por ai, Otra Cosa é suave, manso, feminino e incrivelmente barroco em se tratando de pop music dos anos 2000.

Tida como uma artista alternativa, Julieta brinca com uma rica e variada gama de instrumentos para compor suas deliciosas composições de amor, que se fossem cantadas em inglês já seria uma cantora conhecida no mundo todo, inclusive por essas bandas e não precisaria pagar mico de cantar com Anas Carolinas da vida.

Otra Cosa é pop delicioso, descompromissado e leve. Chega a ser quadrado e retrogrado, mas Julieta canta com uma verdade absoluta e entrega um dos menos originais discos pop da década, mas mesmo assim é disco para se ouvir dezenas de vezes e mesmo assim não enjoar.

Como toda música pop que se preza tem que ser.


Primal Scream – Xterminator (2000)

Tá faltando violência!

Se hoje em dia, as bandinhas indie-eletrônicas pra frentex sofrem de ausência quase absoluta de força, virilidade e culhões (The XX, Friendly Fires, TuneYards, We Have Band, Panda Bear e praticamente todas as banda bem resenhadas no Pitchfork), isso nunca faltou no som do Primal Scream.

A banda foi moderna e se manteve relevante por quase 15 anos e se tornou uma das mais importantes instituições criativas dos anos 90/2000.

Cada álbum lançado pelo Primal Scream era um evento!

Em 1991 eles mudaram a cara do mundo com o genial e atemporal Screamadelica (a cada ano que passa o álbum vai ficando mais importante, influente e reverenciado).

Em 1994 eles farrearam com o irregular mas delicioso Give Out, But Dont Give Up (rock and roll descaradamente chupado da fase áurea dos Stones circa-68-72).

1997 foi o ano em que eles fizeram o primeiro ensaio que os levaria a Xterminator, com o brilhante, ofuscado e incompreendido Vanishing Point. Álbum que passou batido por público e crítica e que marcou a entrada do baixista Mani (Stone Roses) ao grupo e preencheu uma lacuna importante na condução do baixo que até então era um dos pontos fracos do Primal.

Ideias, drogas e sentimentos exacerbados. Esses são os ingredientes da combustão primalscreaminianas que atingiram seu ponto mais alto em Xterminator.

Lançado em 2000, o álbum pegou toda a referencia de Techno e cultura clubber que explodiram nos anos 90, acrescentou novas possibilidades, mais violência, mais peso, mais barulho e criaram uma das mais inacreditáveis trombadas de rock com eletrônico já registrados na história da música pop.

Impossível não se perturbar com a virulência de Swastika Eyes, impossível não concordar com o discurso violento-funk-eletrônico do cartão de visitas que abre o álbum: Kill All Hippies, em que Bobby Gillespie sugere que “matemos todos os hippies”, impossível não se emocionar com a linda, doente e terminal Keep Your Dreams.

Como em todo disco que o Primal Scream faz, eles sempre escolhem uma cover espetacular para se apropriar e transformar em Primal Scream, mantendo o ritual, essa cover é estrategicamente colocada após a faixa 8 e aqui eles atacam com um clássico garagista sessentista I’m 5 Years Ahead Of My Time, do The Third Bardo (das maravilhosos e necessários Nuggets Albums – compilações de bandas garagistas sessentistas).

Eles estavam certos e tempo todo e depois desse disco ficou impossível qualquer tentativa bem-sucedida de misturar rock e eletrônico sem ficar careta e quadrado.

Muitos tentaram, mas só eles captaram com tamanha sensibilidade e inteligência as mudanças de ares que o planeta passaria e transformaram tudo isso no último clássico mundano moderno pop.

Mais do que uma simplista apologia as drogas, Xterminator é um álbum essencialmente movido por drogas, mas seu uso como afirmou lá nos 60 o cientista suíço Albert Hoffman (pai do LSD), “estão errados quem utilizam essa substancia para recreação”.

O pessoal do Primal Scream parece ter finalmente entendido essa relação neste álbum.

Curta-o sem restrições!

E bem alto, faz favor!

 


Sérgio Sampaio – Sinceramente (1982)

Antes de falar de Sérgio, é preciso um pequeno parêntesis sobre Zeca Baleiro.

Dificilmente um disco do Zeca constará nesse blog porque eu nunca gostei de nenhum disco dele, detesto sua voz e tirando uma ou outra música, nada me interessa nele.

Se o artista Zeca não me interessa, não posso dizer o mesmo sobre suas posições morais e empreendedoras.

Aí o cara ganha muito o meu respeito.

Ele não usa leis de incentivo para tocar seus projetos, pois ele entende que essa lei deve beneficiar artistas ou projetos que não veriam a luz do dia se não existisse essa lei, leia-se: arte brasileira que “realmente” precise de captação de leis de incentivo para sairem do papel.

Ou seja, ele investe com um bom empreendedor e sonhador em seus projetos e espera que eles sejam rentáveis ou bons o suficiente para se pagarem e gerarem rendimentos que possibilitem novos investimentos.

Parece óbvio que tudo deveria ser assim, mas com a nossa classe artística acostumada a mamar nas tetas do Estado e das secretarias de Cultura Brasil afora, que acham que o Social tem a obrigação de bancar suas iluminadas existências e suas obras igualmente iluminadas e vitais, sejam eles notoriamente rentáveis ou notoriamente narcisistas: Maria Rita precisa de lei de incentivo para fazer 21 shows em grandes capitais brasileiras cantando Elis Regina? Maria Bethânia precisava daquela grana indecente para fazer um vlog de poesia? O Bradesco precisa de abatimento de imposto de renda para viabilizar uma turne do Cirque de Soleil (grupo circense mais rico e mais rentável do planeta?)

Enfim, Zeca é um outsider porque não usa grana publica para fazer seus projetos e dentre seus projetos, há o modesto selo Saravá Discos, em que ele lança seus trabalhos experimentais, mas também abriga relançamentos importantes com esse álbum resenhado hoje.

Agora vamos falar do Sérgio Sampaio.

Gênio e genioso, Sérgio sempre foi um outsider, arredio a fama e que nunca se curvou a ninguém mesmo no auge do sucesso e popularidade com o clássico Eu Quero É Botar o Meu Bloco Na Rua, que acabou transformando-o num gigantesco talento, cuja música atingiu a um restrito, barulhento e pequeno grupo de seguidores, que até hoje o reverenciam como um dos gênio loucos de nossa música.

Em 1982, Sérgio já não estava sob contrato de nenhuma gravadora e vivia de shows ocasionais quando lançou esse álbum independente.

O disco só não é uma obra-prima absoluta porque tem aquela estética pop brasileira anos 80 datadíssima com aqueles malditos arranjos de teclados Casio, aquele som de caixa de bateria de papel horroroso e aquele som de baixo nojento se enfiaram em todos discos desse período.

Mas as composições, as letras, a poesia e a voz de Sampaio estão melhores do que nunca. Pessoal e sincero como poucos foram, Sérgio dilacera sua alma como uma Edith Piaf, expondo suas magoas, tristezas e duvidas. Faixas como Nem Assim, Essa Tal de Mentira e Tolo Que Fui estão entre as melhores leitas escritas no idioma de Cabral. Faixa Seis é de causar inveja pelo humor acido como ele lida com uma separação e como desdenha do amor que já não tem mais.

Sinceramente é um documento lírico raro, rarissimo eu diria, em terras brasileiras.

É triste, bonito, com humor peculiar e belo exemplo do estilo “quixotesco” desse gênio brazuca.

Obrigado Zeca! Que novos tesouros venham!


Curumin – Japan Pop Show (2008)

O Curumin é certamente o baterista mais requisitado de São Paulo há um bom tempo.

E não é pra menos, o sujeito tem uma das baquetas mais firmes  do cenário paulistano, além de ser um tremendo compositor, arranjador e não fazer nada feio como cantor.

Japan Pop Show virou um disco cult quase automático quando saiu há 4 anos.

Primeiro que ninguém achava o disco para comprar a não ser nos shows do cara.

Segundo que o disco é bom pra dedéu, cheio de climas, temperos contemporâneos colocados com ótimo senso de timing, composições ganchudas e riqueza genuína e rara dentro do pop brasileiro contemporâneo.

Album de produtores maduros, criativos e músicos profissionais que tocam muito e conseguem ser econômicos, privilegiando as canções, tirando do gueto da thurma de amigos músicos.

Disco em que o baterista é o dono do projeto poderia ser bem chato ou punheteiro, por que afinal, não inventaram nada pior do que solo de bateria.

Graças ao senso de inteligência do artista, esse não é o caso deste ótimo e maduro trabalho.

Gravitando por lounge, texturas eletrônicas, funk, afro-beat, hip-hop old school e música brasileira safada setentista, Japan tem grooves fantásticos, uma verdade artística genuína e rara nos dias de hoje.

Nada muito original, tudo gira em torno do simulacro do que somos, do que poderíamos ser e do que gostaríamos de ser um dia.

Quem sabe, num arrombo de honestidade e talento extremos, alguém chuta essa porta e escancara tudo o que precisamos ver, ouvir e sentir?

Enquanto esse dia não vem. Curtam o Curumin, e seu belíssimo trampo solo. Que venham mais iguais a esse!


Alice Coltrane – The Impulse Story (2006)

Hoje é dia de fritura.

Mas como é segunda, vamos começar com uma mais de levezinho que é pra acelerar o cérebro, mas não derrete-lo completamente.

Então nada melhor do que uma mina que toca piano e harpa, que tal?

Alice foi casada com John Coltrane, o gênio absoluto do jazz.

Teve 3 filhos com o homem e foi sua pianista na última e mais radical fase de João antes de sua morte em 1967, momento em que o homem estava invertendo tudo, pirando o cabeção e soltando os discos mais doidos de sua carreira ao lado de Pharoah Sanders, Rashied Ali e essa pastelaria toda.

Recuperada da perda, Alice seguiu em frente como bandleader e levou adiante as pirações que ela e seu marido pretendiam fazer.

Envolvida até o ultimo fio de cabelo na filosofia e música orientais, Alice quis usar as estruturas livres das escalas indianas para enfiar seu free-jazz, dodecafonia e experimentalismos sempre muito bem acompanhada da rapaziada acima mencionada, dentro da última casa musical que acolheu os Coltrane e que apoiou todas os discos e projetos que quisessem recebendo total liberdade criativa e colhendo prestigio cada vez maior.

A Impulse Records.

Esse álbum é uma coletânea com suas principais gravações pela Impulse, o que dão 8 álbuns em quase 10 anos de gravadora.

Alice tinha voz própria e independente, o que dentro dos músicos de jazz é coisa rara. Afinal Alice era mulher e viúva de João.

Mulher no jazz só cantando e olha lá.

Imagina então pianista, harpista, compositora e band-leader? Não era fácil, mas a mulher era muito boa e ganhou um tremendo espaço no fechado e machista mundo do jazz.

Jazz moderno, cabeça mas não inacessível. Moderno, mas harmonioso e com uns climas que só por nossa senhora!

Esquenta o óleo que a pastelaria tá só começando.


Muddy Waters – Electric Mud (1968)

1968 foi um ano de muitas mudanças sociais no planetinha.

Revoltas sociais nos Eua, animos inter-raciais acirrados, Martin Luther King levava uma bala para calar sua boca, na França e na Europa os estudantes iam as ruas, no Brasil a rapaziada tomava ferro dos milicos e a música era afetada com isso.

Ai você pensa em Muddy Waters e o que vem a sua cabeça?

Bluesman por excelência, transitou entre os puristas até ser um dos primeiros e mais influentes guitarristas de blues elétrico nos anos 50, que seguiu uma longa carreira anos 60 e 70 adentro.

Mas exatamente em 68, a coisa tava feia pro homem.

Ele estava completamente a margem de tudo o que acontecia, o público não estava mais interessado em blues e só queria saber de psicodelia, drogas, Rock pesado, Hendrix, Doors e por ai vai.

Afinal de contas, era 1968.

Graças a um tremendo esforço de seu selo Chess Records, Waters foi convencido a dar uma repaginada no seu som para que ele pudesse voltar a ser ouvido.

E o homem topou e fez Electric Mud.

Mudar para continuar sendo o mesmo.

Esse é o disco de rock de Muddy Waters.

Os fãs de blues tradicional execram esse álbum. Fodam-se eles!

Bizarro é que ele influenciou praticamente todo o mundo no rock, e aqui está ele se alimentando de suas crias musicais para dar sua cara a sons novos e reaprendendo a tocar seus blues.

Em 1968, Muddy tocou sua guitarra como seu aprendiz Jimi Hendrix tocava (que sempre o reverenciou) , fez versão de Rolling Stones (que devem tudo a ele), tocou em casas moderninhas de San Francisco e Los Angeles ao lado de bandas novas psicodélicas e voltou a ser ouvido por jovens ouvidos.

O disco é uma paulada, Muddy cantava com sua voz cavernosa num tom mais urgente e poderoso como talvez nunca cantou antes, e está acompanhado de uma cozinha que quebrava rigorosamente tudo e deixava o mestre livre para fazer o que quiser e abusar dos wah-wahs e fuzzys de sua guitarra, ao lado de um Hammond nervoso aqui e um trio de guitarristas que lhe prestavam todo o apoio onde precisasse.

Graças a esse resgate, Waters ganhou pelo menos mais 10 anos de carreira muito excitante, que culminaria na sua última e frutífera parceria com o também guitarrista Johnny Winter em três discos que em breve ganharão um espacinho nesse blog.

Matador, pesado, lento e maluco se pensarmos no Muddy Waters de 53 anos com topete a lá rockabillies dedilhando sua guitarra nessa obra-prima obscura e surpreendente.

E assim o domingo se encerra.

Final de semana feliz dedicado a cultura do Disco!

 


João Donato – The New Sound Of Brazil (1965)

Mais um capitulo da história: “ Por Que o Brasil Não Deu Certo Antes?”

João é monstro!

Se João tivesse nascido nos EUA seria estudado em livros sobre a historia do Jazz, mas como ele nasceu por aqui, no máximo que ele recebe de nós macaquitos é showzinho no Sesc e uns rodapés migalhentos que jogamos a ele. Isso até que nos esqueçamos completamente quem ele é e foi.

Com os ventos favoráveis a nossa música no inicio dos anos 60 e com uma geração de artistas que nunca mais vai nascer por aqui ou em qualquer lugar do mundo, João também foi fazer grana e disco na Terra Prometida.

Já alocado em Nova York, ao invés de gravar em estúdio, o músico vidrou na casa de espetáculo Webster Hall (casa que ainda existe e abriga os melhores shows alternativos da Big Apple) e quis gravar lá. Desejo realizado!

Orquestrado pelo músico e maestro alemão Claus Ogerman (apaixonado por jazz e depois pela bossa nova), The New Sound of Brazil foi o primeiríssimo álbum de João nos EUA e ele se cercou de um time de feras digno de estariam no álbum de figurinhas de qualquer fã de jazz: Bill Goodwin (integrante do quarteto de Art Pepper) nas baquetas, Luiz Bonfá e Carlos Lyra nos violões, Richard Davis (bandas de Sarah Vaughan, Ben Webster e Gil Evans).

O disco é um clássico do brazilian jazz: bossa nova tocada com classe, elegância e finesse que só monstros como João Donato teriam a moral e capacidade de fazer.

Passado tanto tempo, o som do álbum é um deleite. Sem espaço para muitos solos ou improvisos, os músicos vão segurando as linhas das melodias que por si só são perfeitas o suficiente para que nenhum engraçadinho tenha muita coragem de mexer, são exemplos máximos da capacidade genial de balançar e harmonizar usando o jazz americano como base, mas construindo uma gama sofisticada, bonita e instigante de transições musicais que viraram os nossos “standards”. Se ficou batidasso, e você não aguenta bossa nova tanto como eu, não culpe esse disco.

Alternando composições próprias com temas de Tom Jobim, Luiz Bonfá e Dorival Caymmi, traz parcerias raras com João Gilberto e a inevitável, mas infalível e insuportável Little Boat (Menescal e Boscoli).

Um disco clássico essencial em qualquer discoteca de respeito.

Aproveita e faz assim, se tiver por NY e der um pulinho la no Webster Hall para ouvir essas bandas indie que não vão dar em nada, pensa que essa obra-prima foi construída lá e tudo vai ficar melhor.

Ou não.