Coisas que a gente passa a gostar depois de velho.

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“Jovens, envelheçam”, já dizia Nelson Rodrigues no auge de sua sabedoria.

Envelhecer é legal, e esse tempo todo no Planeta Terra te ajuda a repensar coisas, repensar conceitos e pré-conceitos e amolecer seu coração para coisas que nunca imaginei que fosse aceitar, gostar e ouvir com gozo no seio do meu lar.

Artistas ou discos que eu execrava quando jovem, fazia pirraça, tirava sarro, achava a coisa mais cafona e careta do mundo, de mau gosto e de repente me pego ouvindo e curtindo pra caraca…

Estava errado eu? Está errado o timing? Será que tudo isso já era bom o tempo todo e eu não tinha dado conta? Ou será que tempo demais perdido tentando entender o nosso tempo e a música do nosso tempo me fez enxergar ou perceber que a segmentação atrapalha mais do que ajuda e que talvez a bundamolice da atual geração só ressaltou o brilhantismo desses artistas?

Enfim, fato é que de repente todos esses caras abaixo viraram gênios para minha pessoa e seus discos poderiam ter sido lançados essa semana que ainda sim, seriam muito melhores que todos esses modernos Jamies Ts da vida ou o cara que ganhou o Mercury Prize esse ano, que nunca vi mais gordo.

Aí vem eles:

Vangelis – Heaven And Hell (1975)

Tecladista oriundo do grupo de rock progressivo grego Aphrodite’s Child, Vangelis fez carreira mundial compondo trilhas sonoras e temas que vagam pelo “soft-progressive rock” e o “new age”, passando por música clássica contemporânea e eletrônico.

Fez fama e glória nos anos 80 com as marcantes trilhas de Blade Runner, Missing e a inesquecível Carriots of Fire (esse tema é usado até hoje quando alguém precisa de uma vinheta para ilustrar um grande atleta ou uma grande vitória olímpica).

Heaven And Hell foi seu 5o álbum e é o meu favorito dele. Começa pesado, quase num rock e tem na faixa 3 a incrível Movement 3, usada na abertura da clássica série de TV Cosmos.

 

Jean Michel Jarre – Oxygene (1976)

Outro que eu escutava e achava um lixo. Música de burguês e mauricinho. Quando eu cresci era comum assisti-lo em seus “shows de luzes”, o que para um aspirante a roqueiro era a ultima coisa que eu queria na minha vida.

Nada melhor que o tempo, um pouco de paciência e ouvidos para perceber que Jean Michel avançava com a revolução eletrônica de antecessores que ficavam entre o erudito e o popular, mas não alcançavam as massas. O bonitão Jean Michel conseguiu.

Oxygene foi seu primeiro álbum a ter alcance internacional, e a sua “sinfonia” eletrônica indefinível, ajudou a indústria a criar uma nova categoria de música que ficava entre o progressivo, a new age e o pop. Ainda hoje, é difícil de classificar, mas depois de entender o espirito não dá pra desgostar.

Quer uma prova que ele é relevante, dá uma olhada no vídeo abaixo que diz respeito ao seu mais novo álbum Eletronica Vol.1 – The Time Machine e se o ditado “diga-me com quem andas..” servir pra alguma coisa, o homem tá bem acompanhado demais.

 

Mike Oldfield – Airborn (1980)

Não sei exatamente o que me levou a esse álbum, eu tinha referencia do Mike por conta da trilha do Exorcista, o seu fabuloso Tubular Bells, mas quando cai nesse disco espetacular lançado em 1980 fiquei chapado.

Pop eletrônico de primeira, feito por adultos para gente adulta. Estacionei uns bons meses nele, me deliciando com as texturas e principalmente com as suavidades pop de canções como Into Wonderland e Punkadiddle.

Fez e ainda faz a alegria do meu toca-discos toda a vez que boto essa belezinha pra tocar.

 

Enya – Orinoco Flow (1988)

Não vou tentar explicar o que me fez ouvir essa musica de novo e nem vou conseguir explicar porque eu passei a gostar dela hoje, mas garanto aos amigos e familiares que minha sanidade está bem, não sofro nenhuma doença mortal e nunca assisti ao programa da Fátima Bernardes, logo não fui lobotomizado pelo vazio contemporâneo.

Acho que estou mole, dei uma chance ao azar e no fim descobri que a Enya não é o fim do mundo que eu sempre achei que fosse. No fim das contas, acho que ela faz uma música mais poderosa que a Florence & The Machine e a Lana Del Rey juntas.

E ainda sim, ela continua sendo a Enya, que fique bem claro.

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Legião Urbana – Amor e muito amor nessa vida.

“Ame ou Odeie” , é o que normalmente se usa para artistas como Legião Urbana.

Essa mesma expressão serve pra Rush, Engenheiros do Hawaii, Ramones (tem gente que odeia, cruzes…), Radiohead entrou pra essa lista recentemente e mais alguns ai.

Artistas populares desse calibre despertam esse tipo de sentimento porque em algum momento da nossa vida, nós amamos demais, depois crescemos, criamos certa vergonha desse “gostar”, passamos a detestar e em algum vetor do destino nos faz cruzar com o “voltar a gostar”.

Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo em relação ao Legião e acho que no fundo, bem no fundo, até quem detesta Legião, gosta de alguma coisa. Já cansei de ler e ouvir críticos de música ou jornalistas descendo a lenha pra anos depois falar bem.

Assim como nunca achei a hojeriza ao grupo totalmente fundamentada, também nunca me desceu esse fanatismo que os fãs tem pelo mito Legião.

Mas ai é uma questão minha, não entendo o fanatismo por coisa alguma, seja Renato Russo, seja Kurt Cobain, seja Maomé, seja Jesus Cristo.

Em muitos momentos, fanatismo e estupidez estão na mesma lança, pois motivado pelo primeiro se comete muito o segundo.

Enfim, tudo isso só pra escrever que nesse ultimo sábado, dia 07 de novembro de 2015 assisti ao meu primeiro show da Legião Urbana. Eu, homem feito e barbado e com 40 anos.

Explico, a ultima grande turnê do Legião foi pra promover o álbum As Quatro Estações, lançado em 1989 e a banda tava tão grande que o show em São Paulo foi no extinto Parque Antártica, duas noites lotadas. Nem se eu quisesse e como eu já era bem bundão nessa época, desisti fácil.

Já na turnê do Descobrimento do Brasil eu não tava mais na onda deles.

Me arrependo até hoje.

Voltando ao presente, resolvi encarar e ver o Legião, no começo muito mais como acompanhante da minha amada namorada, fã incondicional da banda, mas eis que quando dei por mim, lá pelo meio do show, já estava lá por mim mesmo, ou pelo garoto de 11 anos que ouviu num aparelhinho de vinil portátil na casa do primo de segundo grau em Mogi Guaçu, o então recém-lançado Que Pais É Este? e começou ali a dar os primeiros passos em direção ao rock.

Ao vivo, o Legião era legal por que tinha o elemento mais raro de se encontrar em uma banda grande ou um show grande, que é a imprevisibilidade. O temperamento de Renato era o que dava o tom do show, não eram shows 100% profissionais, com schedule redondo, programadinho e certinho. Renato bagunçava essa dinâmica com discursos, improvisos e dependendo de seu humor e feeling, era capaz de proferir os maiores absurdos, quebrar o pau com a plateia ou dos mais sensacionais “mash-ups” antes disso virar modinha quase 20 anos depois.

Nesse sábado vimos uma banda que não evolui muito, Dado continua fazendo o seu feijão com arroz, agora com menos erros que antes, e Bonfá manteve sua tocada rudimentar eternamente adolescente.

Não tinha o elemento mágico e fora da casinha de Renato, mas tinha um cantor profissional brilhante que é André Frateschi. Chamado pra assumir uma responsa, não decepcionou em nenhum momento, assim como não tentou emular os maneirismos de Russo ou substitui-lo no discurso e no papel de front-leader. Nesse quesito, a tarefa ficou com o antes quietíssimo Dado, que por força da circunstancias, se abriu e falou mais. Tudo muito correto.

Com Frateschi, fizeram o primeiro disco inteiro na sequencia. Depois de algumas papagaiadinhas simpáticas, como trazer alguns convidados ao palco (seja um fã ou Rodrigo Amarante), o show foi ganhando em velocidade e barulho e mostrou como o repertório da banda sempre foi poderosíssimo com muitos momentos altos.

Pais E Filhos botou os filhos de Bonfá e Dado respectivamente em seus instrumentos, e Bonfá assume os mics pra conduzir a plateia nos vocais. O Reggae, ainda lá no começo do show serviu de fundo para que Dado pudesse brincar de Paul Simonon e mandasse um pedacinho de Guns Of Brixton (clássica faixa do London Calling). Dezesseis ficou legal também e Perfeição ganhou novas cores por ser exatamente ou praticamente igual ao que foi concebida em 1994. Mais atual impossível!

E pro final veio Faroeste Caboclo, Indios e Que Pais É Este? e vamos embora pra casa depois de quase 2 horas de bom rock and roll brasileiro. Sim, isso existe e goste ou não, o Legião é parte importante nessa história.

Além do que, ao vivo eles ainda conseguem fazer mais barulho que 95% das bandas de rock existentes no Brasil, todas muito sensíveis, todas muito arrumadinhas, todas incapazes de pregar uma surpresa aos seus respectivos públicos como o Legião era capaz de fazer.

Pode ser muito pouco, mas a culpa definitivamente não é do Legião.


A velha guarda do indie rock volta a ativa! Bom Pra nós!

Antes de descer a lenha nos indie de mentira que andam pela Terra há quase uma década proliferando uma gororoba gosmenta, nojenta e coxinha chamada “Indie”, eu queria dedicar algumas linhas para falar bem de alguns artistas que tal qual velhos indios comanches, resolveram sair de suas tocas e tacar o sarrafo em 5 discos lançados dentro dos ultimos 2 meses que conseguiram reavivar em mim, a fé (pouca) na humanidade só pelo fato de eles ainda estarem entre nós e produzindo, mesmo que seja pra poucos.

No fim das contas, parece que sempre foi isso nesse negócio de indie rock, mas a velhice, a falta de paciência e uma geração de fracassados bem sucedidos me fizeram pegar ódio por tudo que tenha a palavra indie como tag.

Mas eis que 5 discos incríveis de 2015 com cara de coisas que não se ouve mais nos dias de hoje surgem para deixar o velhinho aqui bem feliz:

  1. Music Complete – New Order

E não é que o New Order botou na rua o seu melhor disco em quase uma década? Digo que acho até melhor que Get Ready, que é um baita disco também.

Ouvindo depois de duas audições, cheguei a conclusão que Music Complete é bom demais, não é moderno, muito pelo contrário, o que para um disco que flerta com eletrônico é um perigo, mas só artistas soberanos nesse platô poderiam resgatar suas próprias coisas e de quem estivesse por ali, Plastic parece ter sido uma faixa do Technique remixada pelo Giorgio Moroder, Singularity é bem Joy Division e se tem alguém que pode emular Joy com propriedade são eles. Outro golaço é Tutti Frutti, que fica ali entre Kraftwerk e house anos 90. Academic é outra beleza que só fica bem com os vocais preguiçosos de Summer e sua semi-acustica tocada com esforço e precisao.

  1. Pylon – Killing Joke

O Killing Joke tem se mantido mais ativo do que eupensava, mesmo lançando material mais voltado pro rock industrial ou até pro publico metal, a banda tem seguido no seu caminho errante e errático, mas acertando mais que errando, o que é incrível pra uma banda velha guarda que já não está mais no seu auge.

Isso se deve principalmente a degenerada ideia que a banda faz de si mesmo e o quão serio eles levam sua arte, a ponto de navegar para mares sonoros que não faziam desde muito tempo.

Ouvindo Pylon, imagino estar escutando a banda no seu auge pop dos anos 80, ali entre os anos de 1985 até 1988, em álbuns incríveis como Night Time e Outside The Gate, quando a banda deliberadamente facilitou as coisas para seu publico, sem deixar de ser ela mesma.

Baita disco!

  1. Moonbuilding 2703 AD – The Orb

Acompanhar a cabeça dos doutores Alex Paterson e Thomas Fehlmann não é nada fácil.

Seus projetos são tão variados e ortodoxos que nunca se sabe o que vem a seguir. De 2010 pra cá eles fizeram os bizarros Metalic Spheres (projeto de dub eletrônico viajante de duas faixas longuíssimas e David Gilmour nas guitarras), e no ano retrasado um disco de dub com Lee Perry…

Honestamente, nenhum deles é legal pra carai…

Com isso posto, esperar algo mais palatavel a essa altura, só os fãs mais ardorosos (se é que eles existem ainda), mas eis que surge o doce, multifacetado e sensacional Moonbulding 2703 AD, melhor coisa que ouvi deles desde Toxygene de 1997. 4 faixas pra jogar na cara de todo o mundo que ainda transita pelos sons eletrônicos como fazer um baita disco de música eletrônica com alma, sem apelar para timbres baratos se valendo de alguns truques bons na manga.

  1. What The Worlds Needs Now… – P.I.L.

Confesso que tava com uma preguica danada desse novo disco do P.I.L. principalmente porque eu achei This Is PIl bem ruim, ruim no nível Flowers Of Romance, que é bem ruim, mas quando eu vi um vídeo deles no Jools Holand, e recolhi o queixo do chão, fui atrás de mais informações sobre esse novo álbum e dá pra afirmar sem muito rodeio que é a melhor coisa lançada pelo P.I.L. em muito tempo.

Raivoso, cínico e mais pesado, What The Worlds… é um tijolo nos cornos dessa sociedade artística politicamente correta, de postura corretinha, arrumadinha e sem sal. Nada como ter um gênio raivoso como John Lydon pra mesmo com sua cara de tia velha soltar um sonoro palavrão bem colocado no horário nobre britânico.

Violento e rock and roll, o P.I.L. tá na área e chutando.

É bom você sair da frente, senão ele chuta seu traseiro limpinho e perfumadinho.

  1. Twingy Wingy – The Brian Jonestown Massacre

E quando eu pesquisava coisas sobre o novo álbum do P.I.L., por acidente descobri que uma das bandas mais fodas dos últimos 20 anos está de material novo. Diretamente de Oregon, noroeste americano, a banda liderada pelo monstro Anton Newcombe nunca escondeu seu amor pela psicodelia sessentista e pelo peso das guitarras dos Stones e depois de muita treta, loucura e uns tempos fora da casinha, é bom saber que eles estão de volta e mesmo com um Mini Album, só reforça a teoria que meio álbum de uma banda tão boa quanto o Brian Jonestown já é melhor que 99% do que tem se tentado fazer em termos de rock nessa falida geração Y.