Dr. John – In The Right Place (1973)

Recentemente o gênio Dr. John saiu de sua caverna nos pântanos de New Orleans e nos brindou com um novo e delicioso álbum, que contou com a produção do homem do momento: Dan Auerbach (The Black Keys).

Estar bem acompanhado é importante e o Dr. John sabe disso.

Prova é esse petardo de 1973.

A produção ficou a cargo de Allen Toussaint (grande músico, pianista e cantor de New Orleans — não conhece? Ô dó!) e no acompanhamento, uma das bandas de funk mais fodasticas da paróquia: The Meters.

Tá bom?

Tem como dar merda?

Não dá, nem se eles quisessem.

Respectivos faixas-pretas, economizam na pirotécnica técnica e se concentram no simples, no swingue e nos climas matadores que só uma combinação feliz como essa pode gerar.

Todo mundo no auge de vossas respectivas carreiras, é muita coisa boa junta.

A voz cajun do Dr. John está limpa, rasgada, negona e a fusão funk, cajun e pop setentista sedimentou um dos discos mais importantes da carreira do pianista, que ajudaria a coloca-lo no mapa e nunca mais tira-lo.


Medeski Martin & Wood – End Of The World Party (2004)

Tava aqui lembrando do show deles no Sesc Pompéia há alguns e como fiquei impressionado com o repertório poderoso, moderno e matador, e que ainda acharam espaço para fazer um cover inacreditável de “The Letter” da Pj Harvey, faixa do então recém-lançado “Uh Uh Her”.

Mais antenados, impossível.

Definitivamente, o MMW é a melhor banda de jazz dos últimos 20 anos, porque fizeram a revolução necessária para que o gênero não ficasse no total ostracismo, vivendo de seu passado glorioso e revolucionário.

Graças ao frescor trazido pelos músicos, uma nova geração cresceu, apareceu e ganhou espaço.

O MMW fez álbuns sensacionais, seja no formato mais tradicional (piano, baixo e bateria) ou em formatos mais ousados (com dj, rappers, orquestra, etc) e construiu uma reputação inatacável, inquieta e instigante ao longo de uma carreira cheia de alternativas.

De todos os projetos, escolhi esse álbum de 2004, pois é talvez o mais acessível do grupo, mesclando grooves poderosos, sons eletrônicos, lounge e jazz (óbvio), menos radical que The Dropper e Combustication, End Of the World Party traz o groove mais pra cima de Shack-Man e um tremendo senso pop, com faixas mais curtas e diretas.

John Medeski é um polvo, cercado de pianos, órgãos, sintetizadores e teclados é o responsável pela montanha-russa de sons e ruídos que são despejados sem economia ao longo do álbum, enquando a máquina Billy Martin vai controlando a temperatura do som com suas baquetas, aumentando e diminuindo o peso como só um verdadeiro gênio consegue, e ainda tem Chris Wood e seu baixo sofisticado, gordo que sorrateiramente fornece a caminha discreta e rica para o som fluir perfeito…

Craques do som, são artistas que circulam entre vários gêneros e ajudam a levar o jazz para as ruas, bares e tira-lo dos museus encastelados das vacas sagradas.


Flamin Groovies – Teenage Head (1971)

Pensa numa banda de rock e o que ela precisa pra ser perfeita.

Muitas bandas vem a mente quando penso nisso: The Who, Guess Who, Stones, New York Dolls, Small Faces, ZZ Top e por ai…

Mas o Flamin ocupa um lugar especial nessa lista.

Pra mim é a banda de rock perfeita dos anos 70.

Punch, distorção, diversão, mix perfeito de rock, blues, hard, slide guitar, piano e ainda fez o disco que encheu Mick Jagger de inveja, fazendo o próprio declarar que Teenage Head é melhor que Sticky Fingers (ambos foram lançados no mesmo bat-ano).

Quem sou eu pra discordar?

Por um desses milagres inexplicáveis, o álbum foi relançado em edição nacional em 2009 e está disponível uma belíssima seleção adicional de covers espetaculares que o grupo cometeu nesse período: Shakin All Over, Carol e Walkin The Dog estão matadoras.

O disco em si passeia pela melhor praia roqueira imaginária. Muita influencia de Stones, bandas de R&B americanas e britanicas e mods britânicos, Teenage Head deve ter um dos melhores sons de guitarras Gibson e baixo Rickenbaker ever.

A faixa titulo é um blues nervoso e rápido, com todo o veneno que se pode imaginar numa faixa de rock bem lasciva enquanto Have You Seen My Baby? é outra cacetada inacreditável.

Em 32-20 e Doctor Boogie, a banda comete boogies sinceros que acompanham destilados sem contra indicação, mas o fino da bossa fica reservado para o pré-psicobilly Evil Hearted Ada, com seus ecos de Elvis e antecipou tudo que o Cramps seria alguns mais tarde.

Como se diz, é só rock and roll e nada mais.

E basta.


Sebadoh – III (1991)

Lou Barlow é um herói.

Fundou o Dinosaur Jr junto a J.Mascis na primeira metade dos anos 80 e comeu o pão que o diabo amassou. Sem grana e sem fama, ele tretou com o líder fã de solos, montou o Sebadoh com dois amigos e músicos e por quase 7 anos só era reconhecido pela critica especializada e pelos pares, até que em 1997 a luz brilhou levemente para ele e o sucesso, mesmo que por efêmeros 5 minutos chegou.

Lou sempre circulou entre os subterrâneos e fez alguns dos melhores discos de rock dito “alternativo” da década de 1990 junto ao seu Sebadoh e também com o Folk Implosion (em breve por aqui tb).

Rock torto, tipo “low-fi”, guitarras agudas, baixo distorcido, atitude desleixada, rock caseiro entre uma cerveja e outra, gravando em estudios portáteis de K7s baratos, pagando as contas e vivendo numa nice.

Falando assim parece que Lou é um maconheiro desencanado, mas sua alma é atormentada e sua frustração por não ter conseguido mais êxito comercial é grande também.

Paciência.

O Sebadoh praticamente só lançou discos bons, mas o III é fora do comum, barulhento, estranho e bonito.

Total Peace é uma moda de viola deprezona, Supernatural Force tem viola, mas é suja e The Freed Pig é uma das melhores canções rock com guitarras daquele ano.

Foi devidamente recolocado no mercado da música há alguns anos, uma edição remasterizada dupla que é deleite puro e traz um álbum extra com sobras de estúdio, lados b e o EP Gimme Indie Rock, talvez a faixa mais raivosa do grupo.

Acima do bem e do mal, o Sebadoh é daquelas bandassas que não chegaram lá.

Inexplicável.


Anjo Gabriel – O Culto Secreto do Anjo Gabriel (2011)

Rock progressivo brasileiro?

E feito nos dias de hoje?

Em Pernambuco?

Paradoxo? Viagem? Coisa de biruta? Falta do que fazer?

Talvez tenha um pouco de cada uma dessas coisas, mas um fato é claro: O disco é bem bom!

Lançado de maneira independente (afinal, quem precisa de gravadora nos dias de hoje, né?), o Anjo Gabriel é uma banda formada por músicos que estão na casa dos 30 e poucos anos e são apaixonados por rock progressivo dos anos 70 (urghh!).

O som da banda é muito bem produzido, com excelente escolha de timbres e instrumentos e enganaria fácil qualquer metido a especialista em rock progressivo, pois ouvindo com atenção, a banda se encaixa perfeitamente dentro dos moldes propostos por todos aqueles grupos de hard-rock progressivos, krautrock e progressivos ingleses que nos 70 inundaram a vida cultural do planeta Terra.

E para o Pernambuco, grande celeiro de algumas das maiores pirações musicais cometidas em terra Brazilis, se encaixa dentro da linha evolutiva que começou lá atrás com Alceu Valença, Flaviano e a banda do Sol e principalmente Lula Côrtes.

Religando os pontos, o Anjo Gabriel é uma banda que merece vossa atenção, principalmente em se falando de anos 2000, época em que o rock progressivo voltou a virar vanguarda no mundo todo e o som viajandão do grupo encontra eco em bandas ótimas da gringa como Diagonal, Astra, Crystal Antlers, Comets on Fire e Earthless que tem dado novos contornos ao prog e space rock e tornado mais palatável o gênero que nasceu para alimentar dinossauros e manter a pança dos velhos roqueiros em dia.


Tim Maia – Tim Maia (1970)

Na minha opinião, o melhor disco do sindico!

Pode não ser o mais rico ou o mais elaborado trabalho do soul man brazuca, mas é de longe o mais influente e vencedor álbum do Tim.

Tim se espelhou no melhor do pop negro americano dos anos 60 (Stevie Wonder, Marvin Gaye, Curtis Mayfield, James Brown, Temptations e por ai vai), que ele conhecia de tras pra frente e criou as bases para que o soul americano que ele tanto amava tivesse cara de música brasileira e neste primeiro disco o acerto foi tão grande e sua visão tão a frente, que praticamente todo o pop brazuca que se fez dos anos 70 em diante chupinhou e/ou se inspirou nessa obra prima.

O cara acertou em tudo, desde a faixa de abertura com a versão incendiária e pé-na-porta de Coroné Antonio Bento até canções originais compostas pelo próprio Tim como Jurema, Flamengo e Azul da Cor do Mar que servem para mostrar o vasto repertório poético.

Agora, fino mesmo são as canções de outros compositores, que ganharam na voz do sindico, suas versões derradeiras: o que dizer de Eu Amo Você e Você Fingiu?

Fica clara a capacidade colossal do interprete que rasgava suas próprias viceras para dar alma e vida a lindas canções.

Tim ainda faria outros álbuns excelentes como os dois Tim Maias (1973 e 1978), sem falar nos mitológicos e superestimados discos da série “Racional”, onde o cantor entrara na sua viagem muito louca religiosa e a galera que é apaixonada, fumam muito para conseguir gerar argumentos sólidos para justificar tanto amor por esses discos.

Anyway, Tim Maia foi o maior bandleader da história, se fosse norte-americano já teria nome de cidade, estatua e homenagens.

Felizmente ele é coisa nossa. E como bom brasileiro que somos, preferimos esculhambar, esquecer e lamentar.


Lucinda Williams – Essence (2001)

Um grito por sexo!

Temático sem querer, Essence foi o álbum que a veterana e arredia cantora e compositora norte-americana lançou logo após o seu aclamado e elogiado Car Wheels on The Gravel Road (1998) – desde sempre, um dos melhores discos dos anos 90.

Trabalhando em prol do folk e country desde 1979, a artista nunca foi uma grande vendedora pois nunca abriu mão de ser rigorosamente pessoal em tudo o que fez, levando o tempo que fosse necessário para que ficasse perfeito e do jeito que ela realmente quisesse.

Fato impensável na máquina mesquinha fonográfica.

Mas foi esse padrão de qualidade que garantiu a ela, uma discografia belíssima, delicada e completamente diferente das demais compositoras e cantoras que apareceriam nas últimas 4 décadas.

Essence foi um álbum corajoso, pois aos quase 50 anos, Lucinda não mostrava sinal algum de cansaço ou acomodação, e ainda abordando ao longo de todo o álbum desejos explícitos por abraços, beijos, sexo e romance.

Na contra-capa do álbum, uma foto da artista se arrumando em frente a um pequeno espelho, mostra lindamente suas intenções, bem como sua personalidade direta, forte e decidida. Lá ela ajeita seu cabelo loiro para dentro de um chapéu de cowgirl, trajada em uma regata vermelha e jeans justinho.

Pra quem não conhece nada sobre o som da Srta. Williams, esse disco serve pra dar uma boa introdução ao seu folk repleto de lindas canções tristes, mas longe de serem chorosas. Canções como Blue, Are You Down e Steal Your Love capturam com perfeição o espirito livre e sem amarras dessa senhora compositora e cantora de mão cheia.


Count Basie & His Orchestra – April In Paris (1956)

Pura alegria.

Ouvir esse disco é encontrar em notas musicais o que seria algo mais parecido com a alegria pura, sem amarras e inocente possíveis e existentes nesse mundo.

Ou em outros mundos.

A capa do disco mostra Count em sua faceta mais simpática possível, ao entregar flores a senhora francesa, possivelmente em algum café de Paris, ele tenta mostrar sua gratidão ao pais e ao povo que acolheu logo após a segunda metade do século XX os músicos de jazz e blues americanos com reverencias e honrarias que eles nunca tiveram em sua própria pátria.

Afinal, jazz e blues nos EUA é prata da casa. Todo mundo escutava, mas não ficava pagando esse pau todo.

Já conhecemos o resto da figura, certo?

Mas nada disso tem a ver com a França.

O álbum foi gravado em Nova York e é tido como o principal registro desse genial instrumentista, bandleader e pioneiro do jazz nos anos 30 e 40.

O disco captura Count na ponta dos cascos, com um repertório próximo da perfeição.

Alegria pura e genuína transformada em musica.

Enjoy with no reservation.


Screaming Trees – Anthology: SST Years 1985-1989 (1991)

Um dia, há muitos anos, meu amigo Walter Mercado me disse:

“O Screaming Trees era legal até o Uncle Anesthesia, dali pra frente ficou uma bosta”.

Blasfêmia! Respondi!

Como pode? Uma banda que lançou Sweet Oblivion (1992), clássico obscurecido do grunge noventista responsável pelos poucos segundos de fama que a banda conseguiu graças a ótimas músicas como: “Nearly Lost You”, “Butterfly” e “Dollar Bill” que dariam a devida projeção de bandaça cult e que só quem passava pela barreira grunge formada por Nirvana, Pearl Jam e Alice In Chains conseguia degustar e o clássico derrotado “Dust” (1996), álbum singular que enterraria qualquer vestigio de grunge que ainda houvesse no mundo e que não faria mais sentido algum após ele, não pode ser julgada como “bosta”.

Mas ouvindo essa Anthology, que reuniu os principais momentos do Screaming Trees antes da pequena e breve fama mundial, dá pra entender os motivos dessa afirmação.

A grande coisa é: Esquizofrenia. São duas bandas completamente diferentes.

O Screaming Trees que conhecemos nos anos 90: Pesadão; arrastado em grande parte do tempo; com laços musicais mais para os lados do Mad Season e Alice In Chains e influências de Black Sabbath; clima pesadão droguinha; voz gutural de Mark Lanegan; trilha do fim de mundo regado a Jack Daniels.

Agora, o Screaming Trees dessa antologia: Rápido; puxado para o punk, garageira sessentista, Stooges e indie norte-americano do inicio da década de 1980 (leia-se: R.E.M, Replacements, Mission Of Burma, Flipper, Butthole Surfers); voz menos gutural e mais gritada de Lanegan; urgência adolescente; pedais flanger; trilha ideal para acordar o mundo regado a conhaque e cerveja.

Colocando sob esse plano, dá pra dizer que a primeira fase era muito boa e o que veio depois foi ladeira abaixo, mas eu acho que eles fizeram o som certo para cada momento, assim como a transição para o Screaming Trees que conhecemos também foi inevitável.

E foi ótima nas duas fases de sua carreira, pena que será só lembrada por um ou dois hits e dificilmente veremos o Screaming Trees dessas fase inicial sendo saudada com carinho.

Até por que o ambiente em que a banda estava e a gravadora SST tinha o melhor cast de artistas da história: Dinosaur Jr., Sonic Youth, Husker Du, Minutemen, Black Flag e por ai vai…Ou seja, concorrência braba e fortissima.

No inicio dos anos 90 tinha ao seu lado além dos 3 supra-citados, vinha Soundgarden, Mudhoney, Meat Puppets (outro veterano), Jesus Lizard, Melvins, Helmet e por ai vai também…

Resumindo: O Screaming Trees sempre circulou entre os melhores, assim ficou dificil para a banda ser lembrada de cara no meio de tanta gente boa em volta.

Conselho, abaixe ou compre essa coletanea e descubra o que ninguém descobriu direito e deixou de lado: a invenção do indie rock teve fundações profundas no inicio dos anos 80 e o Screaming botou sua pedrinha nessa história.

 


Haydn / Kodaly Quartet – String Quartets Op. 77 1 e 2

Desde que comecei a ouvir música clássica pra valer (que não faz muito tempo), duas coisas ficaram claras de cara:

1 – Nunca mais eu conseguiria viver sem um bom quarteto de cordas;

2 – Haydn virou um dos meus compositores favoritos all time.

Essas duas certezas nasceram bem depois que escutei essas gravações, executadas com destreza e leveza dignas dessa lindíssima peça de Haydn, que ficou a cargo da competente Kodaly Quartet, um dos mais veteranos quartetos ainda em atividade (grupo hungaro que tocam juntos desde 1966).

Haydn hoje é pouquíssimo executado e virou peça literalmente de museu.

O que é uma pena, pois seu lindo e maravilhoso repertório praticamente não sobreviveu nos repertórios atuais das principais orquestras mundo afora, por ser uma música profundamente ligada ao inicio do século XVIII e por ter sido atropelado por Mozart e Beethoven que ainda no mesmo século redefiniram todo a revolução que ainda se daria no século seguinte com os românticos e principalmente com Wagner.

Ai, zuou-se tudo.

Ouvindo esse quarteto, cujo primeiro movimento é de uma beleza melódica das mais simples e perfeitas que já escutei na minha vida, serve para ser escutado principalmente pela manhã.

Não ouço música clássica pelos ouvidos de críticos musicais que precisam sempre teorizar, contextualizar e encher de termos técnicos justamente para manter o ouvinte de música clássica no lugar que lhe cabe. Platéia estúpida.

Essa obra é um bom motivo para se continuar vivo, respirando e esperançoso na raça humana… se somos capazes de produzir sons assim, somos capazes de produzir qualquer coisa boa.

Nunca deveríamos nos esquecer disso.

Infelizmente não achei o Kodaly fazendo Haydn, mas essa apresentação do Szymanowski quartet dá pra dar uma boa ideia, mesmo ainda não sendo a ideal