Black Future – Eu Sou O Rio (1988)

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Fazer música difícil é fácil, mas fazer música fácil é difícil.

O Rio de Janeiro é lindo e pode ser bizarro a maior parte do tempo.

Senão isso, porque então foi lá que apareceu a banda brasileira mais parecida com o Killing Joke fora da Inglaterra?

É doido, mas o Killing Joke é a referencia que mais me vem a mente quando penso na banda Black Future.

Anarquico e fortemente influenciado pelo No Wave, o Black Future era avant-guard demais para a sua provinciana e atrasada capital fluminense.

Ou não, o som que eles ousaram fazer na Cidade Maravilhosa e inspirado pela Cidade Maravilhosa é carioca as avessas, é o carioca branco classe média que nos anos 80 tinha ódio ao samba, as escolas de samba ou Rio do Chacrinha, da Globo e do Ibrahim Sued e com um monte de referencias sonoras gringas, resolveram importar a estranhice de um som que seria o arroz com feijão em cidades como Bristol ou Manchester e implantaram em terras cariocas um som que poderia muito bem ter sido feito em Sampa.

O Lado A desse play fantástico é puro pós punk britânico, gelado, sem refrão, experimental e que revelava a busca insana de uma sonoridade que fosse completamente do que tinha sido feito até então e estava muito próximo do anarquismo das Mercenárias ou de um mezzo gótico do Kafka, e se espalha com guitarras ruidosas, baixo marcado e ruidinhos eletrônicos em faixas sensacionais como No Nights e Piada, um desfile de desabafos contra tudo que tem de ruim na sua terra natal acompanhado por um instrumental soturno e longo.

Em Sinfonia Para Um Motor, uma faixa lenta com letra estranha, é quase uma ode ao assassinato (físico ou psicológico), mas confesso que ainda sinto falta de um pouquinho de harmonia nas vozes, por mais que saiba que talvez essa nunca fosse a intenção do grupo.

O lado B segue mais feroz, como em Bem Depois… e na derradeira Thor E Loki, quase um The Cure fase Pornography. A mais alegrinha é Eu Sou O Rio, faixa titulo em que eles procuram se colocar ao lado de outros baluartes da cidade como Joãozinho Trinta, Cartola e Sérgio Mallandro.

Melodia é algo que não se ouve em nenhum momento desse disco, o experimentalismo vai ao extremo e chega a ser indigesto, meio pretencioso, meio esnobe, mas é assim as vezes que ótimos discos são ouvidos .

No fim, a banda acabou não chegando a lugar nenhum, mas ficou por ai pra quem tiver curiosidade esse pequeno delito atonal como um dos registros barulhentos mais interessantes do BRock 80s, muito menos new wave, sem molejo, sem swingue recheado de esquisitices por todos os lados.

O Black Future partiu literalmente para o confronto com esse disco que merecia mais atenção dos pesquisadores e fãs de rock brasileiro.

Ainda dá pra descobri-los, o disco é relativamente fácil de se achar.

De uma voltinha pelo lado selvagem do Rio de Janeiro.

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