Sobre o Óbvio exercício de Escutar um Disco..

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Assim como todo o mundo eu também sou usuário de Spotify, Deezer e que tais, mas confesso que não consegui me adaptar e me acostumar completamente.

Se escutei uns 4 álbuns no Spotify foi muito.

Até uma playlist eu fiz, mais pra testar o acervo virtual e ver se esse troço tinha algumas músicas obscuras. Só de pensar em fazer outra playlist dá uma preguiça medonha.

Fazer mixtapes em K7 eram infinitamente mais desafiadoras, davam mais trabalho e no fim do processo, percebo que era muito mais prazeroso (não estou sendo saudosista, até porque eu tinha mais energia, era mais jovem, tinha outras motivações, etc…)

Pra mim, o ritual de escutar música compreende as seguintes ações concatenadas:

Levantar a bunda da poltrona ou do sofá, me dirigir a estante onde guardo meus albums, pegar um disco que você pode chamar de LP, Vinil, Bolacha, mas eu sempre vou chamar de disco.

Um parêntesis nesse ponto da narrativa: Sempre me causou estranheza o fato de ainda no tempo em que se existia o habito da compra “física” de música em lojas de Discos, de se determinar o objeto de desejo ou compra pelo seu formato apresentado e não por seu conceito original.

Explico:

A pessoa saia de casa para comprar um “CD” e agora vai comprar um “VINIL”, ela nunca saia de casa para comprar um DISCO ou um Álbum.

Pode parecer mera semântica ou bobagem de um jovem senhor ranheta, mas isso sempre me incomodou, mesmo quando eu era mais jovem que hoje.

Voltando a descrição do meu medieval e arcaico processo de escutar música a moda antiga:

Escolhido o álbum de acordo com meu humor no momento ou pela preguiça de me agachar, acabo optando por algum ali pela letra L ou M ou pela letra F a H, que me dão menos trabalho e o mesmo prazer sonoro.

Delicadamente mas com firmeza, retiro o artefato do plástico interno, cuidadosamente coloco-o no prato do Toca-Disco, ligo o som, ajusto o volume e deixo rolar.

Repito o ritual de levantar a bunda da poltrona, me dirigir novamente ao Toca-disco e trocar o disco de lado (parece óbvio, mas quando mostrei esse processo para duas crianças de 8 e 9 anos, filhos de uma amiga que viram um LP pela primeira vez na vida, eles ficaram fascinados), deixo rodar o lado B.

Quando chega ao fim, repito o ato de levantar e escolher outro disco pra tocar ou simplesmente guardar o que está ali no prato e encerrar as atividades.

Escutar música obedece rigorosamente esse critério, e tudo diferente disso parece que é pela metade, ou pior, não parece que é pra valer ou “For Real”.

Metade do prazer, metade do ritual, metade da graça e metade da qualidade sonora.

Me permito escutar no celular nas minhas caminhadas, o que emula a praticidade de um Walkman ou Discman, infinitamente mais charmosos (vai de gosto) mas a preguiça de ficar passando do computador para o telefone me faz escutar dias ou semanas seguidas os mesmos álbuns (hoje to furando O.M.D. e Philip Glass).

Outra confissão de velho: não consegui aderir ao “ouvir música no computador enquanto trabalho”.

Ouvir música é meu refugio de tudo que lembre trabalho e gosto de pensar nesse ato como um ato de fuga do cotidiano, reencontro com minhas essência ou simplesmente viajar para lugares distantes que só uma audição atenta de um bom álbum pode trazer.

O que me leva a duas conclusões que me acometeram nesses últimos segundos:

  1. Se um dia eu não tiver um aparelho de som em casa, jamais escutarei música de novo…
  2. Mais do que amar Música eu amo mesmo é DISCO!

E tudo isso surgiu justamente quando ia escrever sobre o novo do Dinosaur Jr.

J. Mascis, Lou e Murphy ficam pra semana que vem!

Abaixo, umas das sessões mais espetaculares de um dos caras mais apaixonados por disco que conheço. Seleção fina e cortes precisos! DJ Shadow in da House.


Elgin Avenue Breakdown – The 101ers (1981)

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Comprei esse disco nos anos 90, quando o vinil ainda não estava na moda e porque foi uma das poucas vezes que vi esse disco pra vender. Como fã do Clash, não podia deixar passar essa pepita e depois de muitas besteiras, ele ainda continua bonitinho aqui na coleção.

Começando do começo.

Todo mundo começa por algum lugar e Joe Strummer já parecia saber o que queria desde muito cedo.

Sou até suspeito pra falar, pois eu amo tanto o The Clash e amo tanto a figura de Strummer como artista e personalidade que é impossível falar de qualquer coisa ligada a ele sem ter a impressão que estou usando adjetivos elogiosos demais.

Foda-se, é meu blog e faço o que quiser.

Bem, dentro da história do rock a banda The 101ers nada mais ficou como somente a banda onde Joe Strummer começou a tocar e através dela, Mick Jones e Paul Simonon enxergaram a peça que faltava para finalmente botarem na rua seu projeto de laboratório chamado The Clash.

Sim, o The Clash foi uma banda de laboratório.

Não, o The Clash não foi um movimento politizado composto por colegas que tinham uma ideologia em comum, tão pouco foi uma combustão espontânea.

O Clash foi um projeto planejado e bolado para fazer sucesso.

E tudo bem!

Quase tudo no Showbizz tem essa natureza, então porque o The Clash seria diferente? Voltaremos para The Clash em outro momento.

E agora, vamos ao 101ers.

A proposta era simples e visceral, inspirado no velho R&B e nas pub bands inglesas que vieram um pouco antes deles, o 101ers tocava como se estivessem se divertindo pracas e esse álbum que saiu quase 5 anos depois do fim da banda, foi também uma forma de capitalizar em cima do gigantesco sucesso que o Clash tinha naquele ano de 1981.

Elgin, captura a rapaziada em momentos ao vivo e momentos em estúdio entre 1975 e 1976.

Dá pra sentir a verdade em cada silaba que Strummer pronuncia. Dotado de um carisma vocal e uma confiança imbatíveis, o trunfo da banda era acompanhado de uma banda vigorosa e cheia de gas e tinha em seu bandleader, o capitão perfeito para atravessar um mar de tedio e desesperança e jogar nos palcos e nos sulcos desse Vinil, algumas das mais urgentes e cruas versões de clássicos do rock como Monkey Business e Shake Your Hips e chegar ao cumulo de fazer miséria com Gloria (clássico de Van Morrison), não consigo lembrar uma versão melhor.

Mas nem só de cover vivia o 101ers, o material original era muito bom também e canções como Motor Boys Motor e Sweety of the St. Moritz davam ideia do potencial de Strummer como compositor e como essa energia foi percebida pelos futuros colegas de The Clash.

Lado a lado com essa canções mais energéticas, Strummer mostrava grande senso para compor pop songs palatáveis como Silent Telephone e Keys To Your Heart.

A banda tinha potencial, mas a saída de Strummer botou um ponto final na história e marcaria outra muito maior para o homem.

Discasso de rock.