Aracy de Almeida – In Memorian

Aracy foi nossa maior cantora de samba antigo.

Aracy podia ter sido nossa Ella Fitzgerald se fossemos um pais em que decências acontecem com mais frequência que as indecências.

Era uma voz de outra era, de outro século, de outro Brasil, de outro mundo!

Cantora que durante alguns anos foi a única peça de música brasileira que eu realmente gostava, admirava e abobalhado me perguntava porque a classe artística virou suas costas para essa monstra genial.

Nos meus tempos de xiitismo indie, onde eu abominava tudo que tivesse o rótulo MPB ou quetais, a única a vencer essa barreira foi essa dama da nossa música.

Tida como a interprete número 1 de Noel Rosa, pode ser considerada também a interprete número 1 de Assis Valente, Milton de Oliveira, Cyro de Souza, Haroldo Lobo e etc.

Falar a verdade, qualquer samba classudo feito nas primeiras décadas do século XX caiam como uma luva na voz dessa senhora.

Tal qual Chiquinha Gonzaga e Guimoar Novaes que também foram mulheres que venceram em terrenos normalmente masculinos, Aracy era uma força descomunal. Pobre, feia, fudida e com uma voz que não era de longe o padrão de vozes empostadas, cuidadas e tratadas, Aracy de Almeida punha toda a dor, toda a emoção que nenhuma técnica conseguiria mesmo com anos de estudo atingir com a naturalidade e pureza que ela conseguiu.

Essa coletânea tem tudo o que você precisa saber sobre o Rio de Janeiro e o Brasil das primeiras décadas do século passado: Camisa Amarela, Quebrei a Jura, Vai Trabalhar, Triste Cuica, Seculo do Progresso, O Que Foi Que Eu Fiz, Palpite Infeliz, e mais alguns clássicos.

Se você não conhece nenhuma dessas música, faça um favor a você mesmo e procure saber…


Elis Regina – … Em Pleno Verão (1970)

Desde que que eu me conheço por gente, sempre ouvi que se a Elis Regina fosse americana, ela estaria no mesmo panteão de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sarah Vaughan e outros.

Mesmo não sendo americana, a “pimentinha” é reconhecida por todos os conhecedores e apreciadores como uma das maiores cantoras do mundo.

Conhecida por sua capacidade de interpretar, entrega absoluta em cada música e temperamento a flor da pele, Elis tem um repertório vasto e irregular, gerando álbuns ótimos e outros nem tanto. Culpa dos inúmeros direcionamentos musicais que vinham ao sabor dos ventos.

Por isso que … Em Pleno Verão é um álbum tão especial e tão bom.

Trata-se do álbum mais homogêneo da carreira de Elis, graças ao bom gosto do repertório escolhido pelo então produtor Nelson Motta, completamente antenado ao pop brasileiro, e com uma banda pequena mas poderosa: José Bertrami (Azymuth) e Wilson das Neves na bateria mandam musicalmente no álbum.

Uma coleção espetacular de temas clássicos da “little pepper” como Vou Deitar e Rolar, Até Aí Morreu Neves e principalmente As Curvas da Estrada De Santos em que Elis dá a versão definitiva da mais definitiva das músicas do Roberto Carlos.

Só uma gigante como ela pra encarar e arrebentar.

Mpb como não se faz mais e disco de cantora que também não se fez mais depois dela.