O Rock morreu em 1997, e a Culpa não é só do Ok Computer, mas é também.

Há vinte anos, algumas revoluções musicais comportamentais aconteceram mundo afora e muitas delas não foram sentidas na época, mas depois e definitivamente, ainda hoje.

Especificamente em 1997, muita coisa aconteceu (Techno tomando de assalto a música pop, quebra de barreiras de rock/indie/eletrônico/rap, já escrevi por aqui), mas algo inesperado aconteceu.

Esse algo foi Ok Computer, o terceiro álbum de estúdio da banda inglesa Radiohead (muito se tem falado sobre sua importância, relevância e é tido como um clássico ou o último clássico da historia do Rock).

O inesperado da coisa foi a abordagem de rock que a banda imprimiu com esse trabalho.

Deixou de ser uma ótima banda de guitar pop querida pelo público britânico e americano e com certo respeito por parte da critica especializada e passou a ser uma gigante banda de rock, amada e idolatrada por publico e critica.

Feito raro!

O Radiohead com Ok Computer virou o Pink Floyd dessa geração, ou algo muito parecido com o Pink Floyd.

Competência musical acima da média, meses de dedicação exclusiva a gravação e produção do álbum, produtor acima da média na mesa de som (Nigel Godrich), resultou num grande abacaxi paradoxal que não dividiu opiniões de ninguém na época (não houve um “eu amo” ou um “eu odeio”, só se ouviu “Eu Amo”) em relação ao álbum.

Unanimidade total!

Letras que beiram o nonsense, ou com mensagens ocultas e nas “entrelinhas” explorando a solidão, a angústia de um século em transformação rápida e uma busca por alienação e entendimento do que viria a acontecer no mundo logo em seguida.

Com esse álbum e a reação mundial em relação a ele, muito do que eu gosto no rock e no indie rock ficou simplesmente ultrapassado, velho e simplório.

O Radiohead e Ok Computer passaram como um caminhão de competência técnica e inventividade, fez com que elementos importantes como simplicidade, energia e urgência que faz qualquer rock ser bom de verdade simplesmente evaporar das pautas musicais e “quase” do planeta música.

Artistas novos se lançavam emulando o som do Radiohead, buscando novos truques e novos brinquedos para tentar atingir o nível de excelência de Ok Computer, até bandas contemporâneas ou um pouco anteriores fizeram álbuns de excelência musical inéditas em suas obras.

Deserter’s Song do Mercury Rev, The Soft Bulletin, do Flaming Lips e até mesmo Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, todos eles, sucessos de critica e publico em seus respectivos anos, devem muito ao Radiohead.

Parece que tudo que não tivesse essa grandiosidade tenderia a ficar irrelevante e desimportante, assim como numa ressaca sem fim, todo o mundo caiu de corpo e alma nesse “rococó” sem fim.

Foi um caminho sem volta.

No comecinho dos anos 2000 até houve um revival de rock que durou um pouquinho mas logo se evaporou também.

Se Nevermind, do Nirvana incendiou o mundo pop rock com guitarras, barulho, energia e violência, emergindo com um simples, direto e poderoso meio de usar guitarras e rock, Ok Computer teve efeito semelhante, só que ao contrário, quase como um grande extintor congelante, causou o mesmo barulho e a mesma perturbação na cabeça de músicos, entendidos e fãs.

Diante de tanta complexidade e elaboração, a única ação possível era um misto de paralização e admiração e a partir de 1997, todos os artistas “talentosos” ou com “alguma ambição” passariam a buscar esse alvo.

Ok Computer foi um dos discos que mais amei e ouvi na vida, comprei o Cd no lançamento, ouvi até furar, vendi meu exemplar há alguns meses atrás. Hoje não consigo mais dar conta, mas sei que é uma questão pessoal.

Todo mundo continua adorando e idolatrando o álbum, que tem seus méritos e inegável influência e importância, mas hoje eu o odeio justamente porque se passaram 20 anos e não apareceu ninguém para superar, estipular novos patamares ou simplesmente destruir esse legado e começar tudo de novo (hoje isso parece cada vez mais difícil, pra não afirmar que a chance de isso acontecer é perto de Zero).

Impossível imaginar um caminho diferente para o Rock, impossível pensar no mundo do “rock alternativo” sem o Radiohead.

Para o bem ou para o mal, o Radiohead esgotou as possibilidades existentes no rock em forma, conteúdo e “entrega” com Ok Computer e assim decretou seu categórico fim.

Até existem uma meia dúzia de gatos pingados por ai tentando, mas já era.

 

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The Flaming Lips – Cloud Taste Metallic (1995)

Esse foi o ultimo disco de rock do Flaming Lips.

Depois desse, as pirações de Wayne Coyne não conheceriam mais limites.

Olha a lista:

Zaireeka (1997), álbum quadruplo cuja proposta quadrifonica previa que a experiência sonora só seria completa se ouvidos os quatro discos simultaneamente, oi? Christmas on Mars (2008) é uma “trilha sonora” surreal de ficção cientifica e psicodelia de um filme que nunca existiu, oi? E recentemente fez um álbum com a banda Heady Fwends em que a edição em vinil colorida vem com uma bolsa de sangue colhida de artistas como Chris Martin (Coldplay) e do próprio Coyne, oi?

Mas tanta piração infelizmente não é sinônimo de qualidade.

Por isso que Cloud Taste Metallic é bom.

Antes que as alucinantes ideias de Coyne dominassem completamente as ações da banda, ainda restou um tiquinho de guitarras e rock até que elas fossem extintas do som do FL nos anos seguintes.

Muitas ideias e poucas músicas que prestem, essa tem sido a rotina do grupo.

Clouds… está cheio de grandes canções: This Here Giraffe, The Abandoned Hospital Ship e principalmente Christmas At The Zoo (coisa de gênio 1) e Bad Days (coisa de gênio 2).

O Flaming Lips conseguiu a incrível combinação de inocencia, birutice e ambição que seriam levadas as ultimas consequências, mas que aqui ainda se encaixam, fazem sentido em sua mistura de Beach Boys, 10CC e Soft Boys.

Sensacional canto do cisne do bom Flaming Lips guitar, os Lips são a maior influencia do novo indie 2000, para o bem e para o mal.