Que Trump traga inspiração aos bons sons!

Trump

É sabido que regimes de intolerâncias ou ignorâncias extravagantes costumam ser salutares para a criação e proliferação de boa arte contestadora, independente se ela é politica ou não.

A Era Reagan foi bem baixo astral para a sociedade americana em diversos aspectos (econômico, cultural, etc) e, ao contrário do que se propaga, não foi exatamente um período sorridente e de prosperidade e, diria eu, que até ajudou a alimentar esse monstrinho hipócrita embutido dentro dentro de alguns discursinhos cheio de razão que hoje permitiu a ascensão ao poder um cara como Donald Trump.

Noves fora, problema dos americanos.

E não, os governantes do período entre Reagan e Trump também não foram lá grande coisa: Clinton? Bush? Bush Jr? Obamis? Sorry folks, tudo farinha do mesmo saco.

Enfim, o ponto é: Trump talvez já seja de cara o presidente que mais gerou antipatia fora e dentro dos EUA em décadas. Nem o Bush foi tão impopular quanto ele e como é sabido desde os tempos mais primórdios, o amor ajuda a construir coisas lindas,  but “anger is an Energy”.

O Reagan não foi tão detestado assim, mas o contexto politico (guerra fria, crise do petróleo, emprego em baixa, geração yuppie e concentração de riqueza), somado a uma comunidade criativa que floresceu ao mesmo tempo, ajudou a criar o ecossistema ideal para que um resvalo de rebeldia organizada e idiossincrasias pudessem surgir num lamaçal de obviedades pop e num mundo mainstream tão ou mais careta quanto o de hoje.

Quem acompanhou um pedaço dessa época, como é o meu caso, era notória a distância de abordagem e som entre o que se fazia no mainstream e o que estava no “underground”, assim ficava fácil entender a delimitação de território entre um Big Black, Rapeman, Butthole Surfers ou MDC para um Bon Jovi, Police, U2 ou qualquer outra banda do primeiro time do pop.

Se for lembrar de todo o mundo que floresceu nesse período chega a ser covardia, mas só pra sapatear, vamos lá:

– Mission Of Burma, Lyres, Swell Maps e outros que sem apoio de nenhuma grande gravadora, lançavam seus discos, compactos, K7s, camisetas e conseguiam movimentar um então mercado desabrochando de indie rock;

– Husker Du, Replacements e Zero Boys (esses 3 citados na mesma linha por serem da mesma cidade – Indianapolis);

– Bad Brains, Void, Fugazy, Dag Nasty e toda a turma da Dischord Records de Washington;

– Dinosaur Jr, Throwing Muses e Pixies (turma de Boston);

– Dead Kennedys, Nomeansno, Tumor Circus , The Dicks e toda a turma do Arternative Tentacles;

– X, The Weirdos, The Dickies e toda a turma da ensolarada Califórnia;

– Public Enemy (sem paralelos);

– 23 Skidoo, Arthur Russell, The Contortions e toda a turma que fazia musica eletrônica pra fazer os neurônios dançarem.

– Cena House de Detroit (numa conjuntura de fatores, uma boa parte do espirito da cena nasceu também como uma contestação do status quo dominante).

Como fã da desordem e de boa música, só posso torcer para que os maus cheiros dessa nova gestão alimente o underground de energia e combustível para esse fogo e a boa música volte a incomodar e ser “perigosa” e estranha como outrora.


Sugar – Copper Blue (1992)

Mais um disco da minha mocidade que chega a marca de 20 anos!

Parece que foi ontem que eu comprei o single de Helpless em uma loja de eletrônicos em Ciudad Del Este – Paraguay, cidade favorita dos sacoleiros brazucas e principal fornecedor informal de tranqueiras vendidas no centro de São Paulo e em quase todos os centros comerciais populares do Brazilzão.

Só para esclarecer, esse single que que eu comprei era original… ainda não havia a febre dos piratas e bootleg, só de shows e geralmente os melhores eram italianos.

A parte feito, Copper Blue marcou a estreia do Sugar, banda que o gênio Bob Mould faria após o fim do Husker Du, sua lendária banda oitentista que inventou o punk com sentimento.

Com o Sugar, o punk e hardcore foi estacionado em favor do comichão guitar muito em voga nessa época, e o que se ouve em todo o álbum é uma explosão de guitarras ardidas, espertas, comprimidas e agudas contrapondo canções pop rigorosamente perfeitas com todos os predicados necessários e aplicados desde os Beatles, passando por Big Star, Cheap Trick, The Knack, Buzzcocks, Teenage Fanclub, Pixies e distintos artistas que puseram pop simples e perfeito onde não cabia.

Copper Blue é power pop guitarristico sem firulas, bonito, com a mesma temperatura do começo ao fim, o que pode ser visto como um ponto negativo, mas como todas as músicas são incríveis, não há mal nenhum nisso.

20 anos se passaram, alguns aprenderam a lição com o professor Mould, mas a maioria se prendeu em chororos que não existiam e hoje o indie é muito mais bundão do que foi em outrora.

Se é que esse negócio de rock alternativo realmente exista ainda…