Todd Rundgren – Something/Anything? (1972)

Compositores pop de verdade me intrigam e me interessam.

As vezes escuto discos inteiros só pescando os achados, as soluções e os truques dos caras.

Todd é um cara com muitos recursos.

Todo mundo que escreve música precisa urgentemente tomar contato com a obra desse cara, em especial esse álbum duplo sensacional.

Se arrependimento matasse, eu já tava duro no chão.

Eu tinha esse disco em Vinil, lindão, da época e me desfiz…

Tive que comprar em Cd ano passado, quando consegui um preço melhor.

O som é jóia, certamente melhor do que o do vinil, mas a foto da capa interna é uma das melhores fotos do rock e uma das que mais me identifico.

Olha aí:

É ou não é?

Todd foi produtor, e dos bons. Fez New York Dolls e Fanny, dentre outras coisas, mas se soltou mesmo no magistral Something/Anything?, onde seu arsenal de ideias e sons pulavam para todas as direções e acertando em todos os alvos a que se propôs.

Transitando basicamente pelo pop que hoje se convenciona chamar de “Classic Pop”, Todd tava muito acima dos demais mortais, no seu campo, poucos foram páreos nessa época para ele.

Por razões puramente afetivas e com uma inveja filha da puta, acho esse álbum, o álbum pop mais autoral já feito.

Se eu fizesse um álbum pop tão bom quanto esse, me aposentava.


Pixies – Surfer Rosa (1988)

Um dia eu quis fazer música profissional.

Na real ainda quero.

Mas não tenho mais idade, nem saco de ficar correndo atrás de show, banda, perrengue e essas presepadas.

Isso é pra quem tem 20 anos e não 37.

Não existe nada mais ridículo do que revelação da música com mais 30..

Ouviu isso seu Lenine!

Se tem uma banda que me inspirou tremendamente nessa vida foram os Pixies.

Começou como sempre começam essas histórias passionais envolvendo música: Com uma fitinha K7, desta vez de Doolitle (1989), álbum seguinte a Surfer Rosa. Pop pra caraca, mas curto, rápido e perfeito, Doolitle foi um disco que escutei de cabo a rabo durante muito tempo na minha adolescencia.

Ainda escuto e ainda gosto, mas com Surfer Rosa é diferente.

O buraco é profundamente mais embaixo.

Há um clima fim de mundo e fim dos tempos nele que me intrigam até hoje.

Outra coisa que fico impressionado toda a vez que ouço Surfer Rosa é com sua agressividade. Os ataques de guitarras matemáticas e precisas de Joey Santiago, mesclado aos berros agudos e sinistros de Black Francis arrepiam em cada nova audição, especialmente em “Something Against You” ou “I’m Amazed”.. que estrondo!

E junto a essa agressividade inclassificável, o disco ainda tem “Gigantic”, na minha opinião a melhor balada indie-rock já feita e fecha com “Brick Is Red” um teminha instrumental simples de tudo, que registra em menos de 2 minutos muito mais música que qualquer banda indie metida a esperta não sonharia em fazer em uma vida inteira.

Surfer Rosa é curto, furioso, inteligente, se resolve rápido e deixa o ouvinte atônito, desnorteado, sem chão e sem entender direito que caminhão foi esse que o atropelou.

Pedra fundamental do indie-rock, pra mim esse é o Revolver dos anos 80.


Throwing Muses – In A Doghouse (1998)

Meu primeiro contato com esse grupo feminino foi casual, não fez nenhuma diferença em minha vida e pra falar a real foi até bem enfadonho, comecei com um álbum que saiu no Brasil no final dos anos 80 e que é muito experimental até para os meus padrões.

Achei muito cabeça, e até insuportável.

Até que um dia, graças a uma fitinha K7 que caiu na minha mão, com uma miscelânea de sons diferentes de bandas desconhecidas, estavam lá 3 músicas do Throwing Muses: Call Me, Green e I Hate My Way e aí um estado de permanente perturbação me seguiu por alguns meses e meu primeiro conceito sobre a banda precisou ser radicalmente revisto…

Na verdade, esse estado se instalou por anos, até que 1998 saiu uma edição bacanérrima dupla do álbum de estréia do Throwing Muses homônimo de 1986 + um EP de 1987 + demos gravadas em 1985, com músicas que entrariam no álbum de estréia e outras que ficariam de fora, como o clássico Fish, e pude finalmente me reencontrar com algumas das músicas mais perturbadores que tive a oportunidade de escutar em minha existência.

Tanya Donelly e Kristin Hersh compuseram um punhado de rocks estranhos, existenciais, cobertos de guitarras altas, barulhentas, seguidas de bateria nervosa, baixo de pau e mesclando sons que nunca foram tocados e cantados por vozes jovens femininas.

Meu conceito de indie-rock caiu por terra e passei a ser muito mais ranheta com as “novas bandas”, porque honestamente, ninguém conseguiria fazer um disco de estréia tão poderoso como esse.

Se você se acha descolado, cuidado, você pode se descobrir um caretinha reaça de marca maior, repense seus conceitos quando você se deparar com essa obra-prima torta, sincera, visceral e feito por garotas.

Mexeu comigo, nunca mais fui o mesmo desde então.


Guilherme Arantes – Ligação (1983)

Esse foi o primeiro disco que pedi de aniversário.

Wow!

Tinha 12 anos, morava em São Bernardo do Campo, com pouco acesso a informação, só conhecia o que tocava no rádio, não conhecia ninguém que ouvia rock e a coisa mais próxima na época que eu conhecia de um roqueiro era um carinha retardado, afinal ele tinha problemas mentais, morava há uma quadra do meu Vô e era fã viciado em Kiss e metalerão que curtia todos os generos com guitarristas velozes. Mas nessa época o Kiss tava muito farofa e associei Heavy Metal como música de debilóide e não tive a menor vontade de conhecer.

Eu gostava de pop music. Descarada.

Por alguma razão eu ouvi Guilherme Arantes e me apaixonei, precisaria fazer uma regressão para entender o porque, mas foi assim.

Ligação é disco pop com piano e teclados e melodias bonitas, e ouvi muito até a rejeição vir com tudo e passar a sentir vergonha dessa primeira escolha da tenra infância.

Fui injusto com o nosso piano-man, Arantes é um compositor muito interessante e esse álbum não é o melhor dele, mas tem uma das minhas músicas favoritas da minha tenra infância: Rolo Compressor. Pop de arena, com letra inspiradora e edificante, essa música foi um dos primeiros mantras que tive e canta-la sozinho sempre me fez bem.

O som desse disco hoje é datadasso, mas é uma deliciosa mistura de Asia, Air Supply, Foreigner e outras farofices pop com guitarras

Lá pelo meio o cara teve a moral de fazer uma canção chamada “Campos de Morango”, não é versão, só uma homenagem ao Quarteto Fabuloso e graças a ela, cheguei na original e os Beatles entraram na minha vida para começar a me endireitar.

Nem sempre a primeira porta é a mais certa, mas foi com Ligação que comecei a curtir música e hoje agradeço.


Miles Davis – Kind Of Blue (1959)

Só é possível dizer que você conhece jazz depois que escutar muito e muito e muito esse disco.

E lá estava eu há alguns anos atrás achando que conhecia jazz, mas na real não sabia picas, o que não quer dizer que hoje eu seja um expert, tô bem longe disso, mas não dá pra fugir do óbvio.

O óbvio é que em algum momento da sua vida adulta você precisa passar por Kind Of Blue.

Na real, acho que só virei homem de verdade depois que entendi Kind Of Blue.

Pagava de gatão na real, a ficha só caiu quando eu li o livro KIND OF BLUE, a biografia que conta a história da criação desse álbum, que devorei com o Cd non stop durante todo o processo.

Foi uma catarse, reaprendi a escutar música e o jazz começou mesmo a fazer sentido na minha cabeça depois dele.

Primeiro que Kind of Blue tem tudo: clima, atmosfera, biografia e 5 músicas inesquecíveis.

E tem a melhor formação da história do jazz: Coltrane e Adderley dividindo os sopros com Miles, tem Bill Evans e seu piano mágico, tem Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb nas baquetas.

Kind of Blue é o ABC do jazz, é o supra-sumo e basta…

O disco é suave, lírico, perfeito de ponta a ponta, com silêncios, quietudes e melodias inesquecíveis e seu formato de suítes é intrigante, parece ter sido construído sob areia movediça ou em cima de uma ponte pencil.

Não perde o pit em nenhum momento, não acelera, não tem pressa, é um disco em que tensão e relaxamento caminham juntos, como forças imcompativeis da natureza bailando e promovendo orgias.

Kind of Blue é o refugio dos oprimidos, é o último disco que se precisa escutar em vida, assim como o whysky seria o último drink, o picadinho o último prato e por ai vai…


The Jesus & Mary Chain – The Power of Negative Thinking (2008)

Se um dia a tempestade solar chegar e destruir toda a civilização digital e tiver a necessidade de levar somente um album para a tal ilha deserta de outrora, esse seria o álbum. A caixa quadrupla dos irmãos Reid lançada em 2008.

Afinal:

Ao Jesus tudo pertence.

Ao Jesus devo meu amor ao Rock.

Ao Jesus devo minha inteira, insana e intensa devoção ao rock e aos seus formatos onde são encontrados (LP, CD, K7, DVD, MP3, WAV, YouTube, etc).

Se não fosse por Jesus, provavelmente eu estaria achando o máximo o novo disco do The XX, ficaria sem folego só de ouvir um microssegundo de Black Keys e acharia essa cena indie de hoje realmente a melhor coisa do mundo.

Graças ao Jesus, aprendi a detectar picaretas e não me deixar enganar por falsos profetas da música como: Beck, Lenny Kravitz, Rage Against The Machine, Kaiser Chiefs, Bloc Party e por ai vai…

Graças ao Jesus, me livrei de vícios como Tears For Fears, Simple Minds, A-ha e The Bolshoi…. é verdade, eu amava Sunday Morning e quer saber, nem é tão ruim assim.

Graças ao Jesus, aprendi a detestar Caetano, Chico, Gal, Bethania

Com Jesus na minha vida, as luzes se acenderam e entendi a profundidade de Beach Boys, Velvet, Stooges, The Cramps, Bo Diddley, Leonard Cohen, Syd Barrett e Shangri-las.

Entendi que para ser pop, não precisa ser brega e que para ser barulhento não precisa ser pesado e que dá para ser melódico e bonito na desgraça também.

Que ser simples não significa ser idiota e que cantar sobre o que se sente sem precisar ser canalha, e que dá pra fazer tudo isso também mentindo…

Com a música do Jesus sempre tive a esperança máxima que se eles conseguiram, todo mundo consegue.

Enfim, os irmãos Reid me ensinaram a viver, se eu aprendi, aí é outra história.

Fato inquestionável é: na música do Jesus encontro o conforto, a paz e a segurança de que uma vida toda não foi em vão e que um dia eu tive um passado e que ele não foi tão ruim assim quanto eu pinto.

Muda-se os tempos, mudam-se as estaçoes, mudam-se as modas, mas uma coisa nunca mudou nesses 37 anos:

O Jesus And Mary Chain sempre foi e sempre será a banda da minha vida.

…and keep coming…