Prince Far I – Long Life (1978)

E viva o reino encantado do dub.

Aquele em que a fumaça nunca acaba e o eco das batidas sempre podem ser extendidas um pouquinho mais…

No universo aparentemente infinito de possibilidades que o guarda-chuva do Reggae permitiu para suas ramificações, Prince Far I como em todas as gravações de Dub descentes, importantes e necessárias tem na sua cozinha o que existiu e ainda existe de melhor:

Os onipresentes Sly & Robbie.

Precisa mais?

Prince Far I foi um dos mais politizados e agudos compositores do Reggae nos anos 70 e em Long Live, vemos um belo exemplar de artista no auge, acompanhada da melhor banda que alguém poderia querer.

Resultado: reggae matador, roots, quebrado, do jeito que um disco de reggae tem que ser, ou seja, “daquele jeito”.

Acompanha bem um fumacê.


Underworld – Second Toughest In The Infants (1996)

Ok crianças, então o Nirvana mudou os anos 90?

Sinto informar que não.

A mensagem principal do Underworld e que estava também nas entrelinhas do Nirvana é a seguinte: Informação para confundir.

O tal do Chico Science falava disso também, right?

E a cena da música eletrônica estourou tanto nos anos 90 pelo simples motivo de que a rapaziada que fazia o som acontecer eram os crânios e nerds que ouviram de tudo, sugaram tudo o que existia e aprenderam a mexer antes de todo o mundo com os samplers, computadores e sintetizadores.

Neste revival de anos 90, tenho visto pouca gente mencionar o Underworld.

E se tem um grupo que botou pra f… foram eles.

Das duas uma: ou tava todo mundo chapado demais pra lembrar, ou a revolução que eles lideraram foi tão poderosa que os primeiros acabaram se tornando os últimos.

Mais importante que o estabelecimento do indie-rock como o estabilishment que viraria na década seguinte, a música eletrônica sofreria uma radical e irreversível popularização como nenhum ritmo sofreu nas ultimas décadas.

Ainda relevante e ainda importante, o Techno para as massas que o Underworld ajudou a capitanear nesse período, moldou todas as bases dos sons eletrônicos que se fariam nos anos seguintes.

Sejam as babas mais escrotas tipo Skol Sensations, sejam os sons mais inteligentes IDMs, quase ninguém escapou da explosão causada pelo Underworld principalmente depois desse álbum e da faixa Born Slippy (singles que foi lançado na trilha do iconográfico filme Trainspotting), ambas de 1996.

A cultura Techno prevaleceu desde então e hoje ninguém consegue se ver livre dos plimps e poings que o Underworld ajudou a difundir no mainstream e se espalhou por quase todos os gêneros, Technobrega, Pop, R&B, Indie e até no Junior Lima…

Ouvindo esse álbum, 16 anos passados, ainda é bom e ainda tocaria fácil em qualquer club descolado.

Do rock e pop noventista dá pra escapar fácil, mas do Techno é impossível.

Second… é um bem acabado álbum de eletrônico conceitual que possui todos os elementos necessários para ser o mais relevente álbum de música eletrônica dos anos 90. E olha que a década representou… Orbital, Dj Shadow, The Orb, Faze Action, Grooverider, Klf, Chemical Brothers e Aphex Twins… que time heim?


The Soft Boys – A Can Of Bees (1979)

Mais uma pérola maravilhosa do pós-punk.

Diretamente de Cambridge, o trio capitaneado por Robyn Hitchcock seria influencia capital para o rock alternativo dos anos 80, mesmo que pouca gente saiba disso e dê seu devido valor.

O Soft é uma das minhas bandas favoritas desde sempre, ou mais precisamente desde 2000 quando os conheci através de uma bela coletânea chamada “Postpunk Chronicles – Going Underground”, em que a Rhino Records fez o imenso serviço de compilar alguns dos mais representativos artistas do Pos-punk e new wave em 3 coletâneas foderosas.

Há alguns anos, os dois principais álbuns do grupo foram relançados na Inglaterra e esse A Can of Bees (álbum de estréia), tem de tudo e mais um tanto.

Dá pra ouvir os reflexos do Television, mas mais do que isso, dá pra ouvir antes, tudo que seria feito nas guitarras dos anos 80 e 90, seja no pós-punk propriamente dito, mas também no indie rock que dominou os 90 e até na renovação dos anos 2000.

Resumindo, esse disco não faria feio em nenhuma lista de mais influentes e pra-frentex álbuns da historia do rock.

Mesmo que pouca gente tenha ouvido…

Classe A.


The Left Banke – Walk Away Renée / Pretty Ballerina (1967)

Quando alguém se refere a rock clássico com influencias sinfônicas, o disco mais lembrado de todos é Pet Sounds (1966), dos Beach Boys e sua riqueza infindável de temas e soluções sonoras e quando nos lembramos do que aconteceu em 1967, o disco mais citado sempre foi e sempre será Sgt Peppers, dos Beatles e sua pomposidade psicodélica, circense conceitual.

E como fica o Left Banke nessa história?

Nova York em 67 só entrava para o mapa da música por causa do Velvet Underground e sua transgressão subterrânea, cujos efeitos seriam notados nas décadas seguintes.

Por volta dessa época, o Silver Apples começava a dar seus primeiros passos dentro da música eletrônica, cercado de geringonças saídas de laboratórios espaciais e moldava o futuro da música.

E o Left Banke?

Agora chegamos neles.

O Left Banke com esse álbum de estreia, dentro da revolução psicodélica dos anos 60, inventou o rock “barroco”.

Que diabo é isso? Bach? Buxtehude? Cordas? Nada disso.

O barroco veio justamente da onda de artistas nadarem completamente contra a corrente que vigorava no auge da psicodelia. Quando todo mundo buscava o contemporâneo a qualquer preço, alguns grupos navegavam por outras marés, não menos intensas, mas fora do contexto da época. E tudo bem!

Rico, elaborado e melodioso é quase impossível associar o grupo a Nova York. Ouvindo o LB, temos a impressão de escutarmos uma banda inglesa genuína, daquelas que surgiram no interior da ilha.

Mais econômico que seus contemporâneos psicodélicos, o LB investia em melodias poderosas, postura dândi, baladas lindas e acabaram cometendo um belíssimo álbum de estreia que é queridíssimo entre os entendidos de música.

Ao lado de Forever Changes, clássico do Love, Walk Away foi o grande disco de rock barroco da história.

Escuta ai…


Ennio Morricone – Take Off FilmHits (1978)

O maestro italiano Ennio Morricone é o segundo maior compositor da história do cinema.

Bernard Herrmann sempre será o número 1.

Graças a uma nova geração de cineastas e músicos, o italiano se tornou um dos caras mais influentes da música nas últimas 4 decadas.

O que ele fez, dificilmente alguém conseguirá alcançar e essa coletânea com alguns de seus temas clássicos é prova viva disso.

Trabalhador incessante, inquieto e personalíssimo, soube como poucos nesse negócio, criar climas, situações sonoras que nos remetam em poucos minutos de audição a cenas completas dos filmes que ele musicou.

De tão poderosas, algumas trilhas chegam a ser mais importantes que os próprios filmes, ou não teriam metade do impacto causado se não fosse a música genial desse cidadão.

Usando elementos antes impensáveis para uma trilha, Morricone inovou, apontou caminhos e soluções inéditas: o que dizer de “For A Few Dollar More”? Sofisticado e primitivo, causa tensão, expectativa e te leva junto numa cavalgada rumo ao desconhecido e ao perigo, acrescentando elementos simples ao longo dos compassos da música.

Obra de gênio assim como “The Vice Of Killing”, “Violent City” e “Moses Theme”, também contidas nesse disco.

Trilha para embalar antes de um cineminha.


Afghan Whigs – Congregation (1992)

Voltamos ao “grunge”.

Se o tédio é um tremendo combustível para a criatividade, o Afghan se abasteceu um bocado, afinal Cincinnati em Ohio deve ser um lugar tão desinteressante quanto uma São José do Rio Preto ou Uberaba e ouvir música, usar drogas e ter uma banda eram necessários para alguém minimamente sensível sobreviver a um buraco desses.

O ambiente foi fundamental para a confecção do som dos Whigs, pois eles sempre quiseram ser uma banda de soul e até conseguiram chegar lá nos seus dois últimos discos “Black Love” de 1996 e especialmente “1965” de 1998, mas branquelos que são, tiveram que compensar a falta de melanina por muita força de vontade, barulho, estudo e originalidade e acabaram virando a primeira e única banda de “Soul-Grunge” da história…

Dificil encontrar um grupo com uma discografia tão contundente quanto a deles.

Não tem papelão e nenhum disco que seja meia boca.

Tudo é intenso, pensado, executado com esmero e poderoso.

O universo do vocalista e líder Greg Dulli sempre foi muito adulto, por isso a molecada na época deixou o grupo meio de canto, porque afinal de contas, moleque é tudo retardado e incapaz de enxergar um mês pra frente.

Esse álbum possui um chaveamento de guitarras impecáveis com profusões generosas de baterias compassadas em volume insano, regado a vocais marcantes, com Dulli dando tudo, variando entre o sussurro libidinoso aos berros desesperados, letras barra-pesada , honestas e diretas demais para a média do que se fazia na época.

Congregation é repleto de baladas pesadas como Congregation e Dedicate It, dois dos melhores exemplos da estrutura dos Whigs e o que dizer de Conjure Me e a faixa escondida Milez is Ded? Dois clássicos do novecento grunge, ainda hoje causam arrepios.

Um dos grandes álbuns dos anos 90. Rock com alma para uma vida inteira.


Leo Jaime – Sessão da Tarde (1985)

O maior gênio do pop brasileiro dos anos 80 não foi Renato Russo, muito menos Cazuza e tão pouco Herbert Vianna.

Julio Barroso infelizmente não viveu tempo suficiente pra concorrer.

O cara foi Léo Jaime e ponto.

A prova é esse disco.

Droga, por que demoramos tanto pra perceber isso?

A ironia esteve lá o tempo inteiro, cercado de cultura, inteligência, bom humor, cara de pau…

Vai ver era porque ele é carioca né? E nós paulistas não pegamos muito bem com os caras de lá, certo?

Maybe thats why…

Mas, caraca… Sessão Da Tarde é perfeito…

Abre com O Pobre — só alguém muito sagaz pra escrever uma letra dessa… e na sequencia vem A Fórmula do Amor (sagacidade elevado ao cubo), A Vida Não Presta (precisa comentar?), As Sete Vampiras… que sequencia!

No mínimo matadora, no mesmo nível talvez só Ultraje e olha lá!

E ainda tem a versão em português mais sensacional dentre todas as versões que nós cafajestemente cometemos em em mais de 50 anos de pop brasileiro: Solange (So Lonely), aquela música do Police.

Infelizmente caiu na vala comum que todo artista da New Wave brazuca cai e só lhe restou as Festas Ploc para desfilar seu repertório fino, ensolarado e sagaz.

Muito pouco para esse gênio…


Moody Blues – Every Good Boy Deserves Favour (1971)

Ai ai… mais um disco de progressivo nesse blog… to começando a ficar preocupado com a minha sanidade…

Já tem mais prog do que eu previa, but… what a fuck… esse disco é foda, adoro o Moody Blues e especialmente esse disco… sem jeito.

Enfim: progressivo britânico com ares madrigais do interior, fantasioso, bonito e espacial.

O Moody Blues foi uma das bandas mais fodas que a Inglaterra gerou em seu berço musical e honrou o progressivo que surgiu de bandas expetaculaures como Soft Machine, Pink Floyd, Jethro Tull, Hawkwind, King Crimson, Atomic Rooster, The Move, e outras zilhões de bandas que nasceram na psicodelia, ingeriram drogas, jazz, dadaísmo, idealismo e invadiu os anos 70 cheios de ideias…pelo menos umas Douze…

Cada uma a seu jeito fez a alegria dos fãs de rock.

Cheio de nuances, o Moody nos faz lembrar que a Inglaterra é Vitoriana, Elizabeteana e Eltonjohniana.

Mas os fãs de classic rock que se prezem tem um lugarzinho reservado para bandas como o Moody Blues, procure ai dentro que você pode achar coisas do mesmo naipe.


Metro – Olhar (1985)

Yes, nós tivemos New Wave.

Na verdade, o que se chama de boom do rock brasileiro dos anos 80 nada mais foi do que o boom da New Wave (que não necessariamente é rock) que se alastrou em todos os cantos do mundo, e aportou por aqui aproveitando o inicio de abertura política, a moçada se apropriou do termo, vestiu terninhos coloridos com ombreiras, modernizou a MPB com teclados vagabundos, guitarras Tonantes, pedais com flangers, música em francês, e por ai vai.

Foi tratar de se divertir:

Transar, beber, usar drogas, viajar e fazer um som.

A festa foi boa e ainda hoje contabilizamos as doses ingeridas nesse período.

Tudo aflorou, perdemos a vergonha de cantar em inglês e copiar na caruda o que se fazia no pop gringo.

Nesse cenário e nessa onda, muito lixo saiu, mas algumas pérolas também.

O Metro tinha o timing exato e cometeu o disco mais importante dessa New Wave brasileira e que eu mais gosto até hoje.

Impossível colocar esse álbum em outro período, ele está intimamente ligado a Bananarama, Go-go’s, Yaz, Toni Brasil, Kim Wilde e por ai vai.

Em alguns momentos, chega perto dos franceses Telephóne ou Les Rita Mitsouko.

Zero brasilidade, o álbum é São Paulo da Av. Paulista ou da Pompeia dos anos 80, da elite pensante que viajava uma vez por ano pra Europa ou pros EUA, descobria o que estava rolando e atualizava a rapaziada por aqui.

Não consigo enjoar de ouvir a Virginie cantando docemente com um fino de voz, que passa pertinho do desafinado, mas na verdade é um truque, uma sutileza para seduzir ouvintes e nos fazer apaixonar pelo som mais moderno feito nos trópicos em 1985.

Lindezas como: Johnny Love, Beat Acelerado, Sandalo de Dandi e principalmente Tudo Pode Mudar, um clássico que não faria feio em festa 80’s em nenhuma festa ao redor do mundo, mesmo hoje quase 30 anos passados, fazem desse Lp uma peça obrigatória em boas discotecas descoladas do planeta.

Será que o finado John Peel tinha um desses em sua rica discoteca?

Agora fino mesmo é: Stabilo, só ouvindo…

O álbum tem um sabor de festa boa que eu não tinha idade pra ir e hoje seus personagens devem estar carecas, cansados e sem paciência pra contar como foi….Mas deve ter sido duca…


Sex Pistols – Never Mind The Bollocks (1977)

Há 35 anos, os ingleses comemoravam o jubileu de prata da atual rainha Elizabeth II, que, nas palavras de um sábio taxista carioca é “mai ruim que merda”.

Eram hard times.

Desemprego, recessão, falta de oportunidades, juventude revoltada, governo conservador e marasmo.

Ai apareceu o punk e os Pistols e sua vontade de botar pra fuder.

Nesse ano de 1977, quase tudo aconteceu.

E no meio do tal jubileu, os Pistols lançavam o single de God Save The Queen, no mínimo, uma bofetada na cara da realeza que rendeu ao grupo, censura oficial por parte do governo e polêmica a beça, pois pela primeira vez um artista explicitamente confrontava a monarquia inglesa de peito aberto.

Never Mind…é um soco, um murro e ainda hoje seu som é cru, urgente, poderoso e lembra que em tempos difíceis é dando porrada que as coisas saem e acontecem.

Ok, pode tudo ter sido armação do senhor Malcolm Mclaren, mas o que não é armação no show business? Tudo é armação: dos Beatles ao Para Nossa Alegria… tudo é armado.

Hoje a rainha comemorou novamente mais um jubileu (60 anos no tronado), os tempos voltaram a ser iguais aos de 77, mas a música se acovardou, se acomodou e bajula a realeza.

Talvez os Pistols precisem voltar para chingar seu velho inimigo novamente.