Paulinho da Viola – Foi Um Rio que Passou Em Minha Vida (1970)
Publicado; 11/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
É injusto e incorreto escolher só um disco do mestre carioca.
Mas, por algum a gente precisa começar, certo?
No melhor critério, “uni duni te” fiquei indeciso entre “Nervos de Aço” e o “Paulinho da Viola” de 1971 — aquele em que ele tá encostado no maior estilo no batente de uma porta de madeira azul.
Nem um, nem outro, optei pelo segundo disco solo do gênio.
Praticamente todo composto de músicas próprias, Paulinho é a ponte suspensa entre o velho samba, os velhos choros e a velha guarda com um novo modo de fazer o samba que seria desencadeado nos anos seguintes.
Ele era o barroco entre os modernistas.
Quando o Brasil explodia com movimentos da Jovem Guarda e do Tropicalismo e do samba rock de Jorge Ben e Mutantes, Paulinho prestava reverência ao antigo.
Paulinho é tradição, e suas lindas composições só mostram que ele não pertencia a uma época e a um tempo específicos, mas sim a um lugar e a um sentimento genuinamente brazucas.
Lugar e sentimentos que nunca ficariam datados.
Voou pra fora dos morros cariocas e dos subúrbios e atingiu corações aflitos por lindas musicas Brasil afora, falando das coisas pequenas e importantes da vida: amor, desilusões, vacilos, amizade e traição foram temas recorrentes na temática do mestre.
Mas tudo era diferente.
Falando do cotidiano sem se limitar a ele, Paulinho tinha a capacidade de transcender e libertar-se das amarras pra atingir alguns dos mais líricos momentos da música brasileira. Esbanjando uma classe e finesse únicas, a gentileza e a inteligência para desfilar seus sambas me trazem a mente dois compositores distantes no tempo mas com a mesma vibe: Noel Rosa e Cole Porter.
É viagem minha, mas o Paulinho pra mim é o encontro dessas duas entidades musicais. Ou no mínimo, o irmão mais novo deles.
Foi Um Rio… só comprovaria o que já estava na cara de todo mundo desde 1965. Paulinho é o maior sambista dessa Era e isso não é pouca coisa. Nesse segundo álbum, Paulinho desfilou algumas das suas mais belas composições como “Não Quero Você Assim”, “Lamentação” e o clássico instantâneo “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”, alternando com a leveza de “Papo Furado” e a tristeza de “Mesmo Sem Alegria”.
Paulinho é o lorde do Samba. Gênio que mereceria reverência sempre e a todo momento.
Podia começar com um Box com sua obra completa, que tal?
Gene Clark – White Light (1971)
Publicado; 09/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Esse não é recomendável aos fracos.
Se você acha o Wilco o máximo, prepare-se para se encontrar com o cara que inventou esse negocio de folk-rock ou country-rock-indie.
O Wilco é o máximo, mas se você quiser ir um pouco mais fundo na introspecção que uma boa canção levada no violão e composta como um artesão das palavras e das melodias, prepare-se para conhecer Gene Clark.
O cara foi uma lenda!
Dylan pagava um pau danado pra ele.
Clark era um baita cantor, um ótimo compositor, excelente letrista e carregava no seu semblante e na sua embocadura o sofrimento e o mistério que todo bom menestrel da canção precisa ter.
Nos anos 60 ele fez parte do Byrds (só por isso, já merece vossa atenção), já no fim dos anos 60 e começo dos 70 ele se lançou em carreira solo, que prometia ser sucesso puro.
Além de tudo isso acima citado, o danado era bem apessoado, “tipão”, tinha o shape para virar o grande rock star dos anos 70.
Pois é, tinha… mas não rolou….
Por que?
Mistérios…
Fato é o seguinte: White Light é um dos mais bonitos e líricos momentos do folk americano. E mais, é o disco que o Dylan queria ter feito e nao fez e a inveja e admiração por Clark foi uma das poucas “bandeiras explicitas” que o senhor Zimmerman se permitiu fazer ao longo de sua vida.
Até porque inveja mortal, Dylan tinha era do bardo canadense de sobrenome Cohen…
Mas ai é outra história.
Canções que beiram a perfeição, Clark mostra porque num time que tinha David Crosby e Roger McGuinn ele se destacou como a principal forca musical dos Byrds…
Caraca, isso não é pouca coisa!
Soturno e meio tristonho, o álbum se revela logo na capa. Uma linda foto no breu de uma noite sem fim, com o cantor sentado ou agachado ano cantinho direito e o satélite natural favorito de 10 entre 10 poetas ao fundo num efeito simples, mas eficiente.
Acaricie vossos tímpanos, eles vao agradecer esse presente sonoro.
Depois você volta pro Wilco…
Adoniran Barbosa – Documento Inédito (…..)
Publicado; 08/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Falar de S.Paulo sem citar Adoniran é como não ter falado nada de S. Paulo.
Tava lendo uma matéria sobre os novos artistas da cena paulistana que estão movimentando a opinião publica, a classe média limpinha e os Sescs com seus shows, canções e discos tentando traduzir o que é Sampa hoje. Sem sucesso.
Infelizmente nenhum deles consegue.
E não conseguem porque não tomaram o pulso da cidade, a grande maioria acha que Sampa é um aeroporto de gente vindo e indo ou acha que Sampa se resume a Vila Madalena e alto de Pinheiros e chama tudo depois do Ipiranga de ZL com desprezo.
Quem é do gueto canta pro gueto e que se foda.
Ninguém tenta ir além.
Uma amiga minha, analisando essa cena toda, sacramentou: tudo não passa de um simulacro de realidade.
Até acho alguns desses artistas bem competentes, mas tenho que concordar com ela.
Quase nenhum deles é “For Real”.
Pensando nessa situação e ouvindo esse disco do Adoniran, fica difícil não constatar essa óbvia situação.
Esse álbum é uma compilação de participações em programas de radio e TV, entrevistas, trechos de depoimentos e uns pedacinhos de gravações onde ele canta seus sambas seguidos de explanações profundas das origens deles e suas inspirações.
Delicioso é pouco, Adoniran é uma figura difícil de ser ignorada e impossível de não se gostar.
O disco abre com a antológica participação do compositor no programa “O Fino da Bossa” sendo entrevistado por ninguém menos que Elis Regina e a sintonia dos dois é fora do comum.
Fica nítida a admiração mutua, e em nenhum momento a aura do papo é quebrada para rasgação de ceda alheia. O papo é furadíssimo, mas profundo, dá pra ficar ouvindo milhões de vezes seguidas sem cansar.
Enfim, Adoniran produziu verdades absolutas que só quem mora nessa zorra urbana consegue captar, entender e rir.
Gênio da raça. Tenho orgulho de ser da mesma área que esse cara.
Boa noite.
Pavement – Wowee Zowee (1995)
Publicado; 07/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Não acredite em Stephen Malkmus.
Stephen Malkmus não é e nunca foi um rock star confiável.
Debochado demais para ser sincero, sério demais para ser maluco, tudo no Pavement foi pensado e orquestrado em cima de regras e conceitos claros, eles nunca deram um passo pro lado sem saber se ia virar ou não.
Malkmus dever ser um dos 5 músicos mais inteligentes que surgiram no século XX, legitimo nerd musical e cobra criada que ouviu milhões de discos antes de começar a fazer os próprios e Wowee Zowee foi a prova dos 9.
Moldado dentro dos conformes indies básicos que viraram padrão dentro dos anos 90 (padrão esse que foi criado também pelo Pavement), Wowee é um petardo torto, barulhento, quebrado e paradigmático que pra muitos, é seu melhor momento.
Menos pop que Crooked Rain, Crooked Rain (1994), álbum que daria grande exposição ao grupo e no meio do caminho do experimental e genial Slanted and Enchanted (1992), este clássico absoluto também, Wowee sofreu de um grande mal: não tinha nenhum hit, por que se tivesse, a banda não seria lembrada só por fãs, especialistas em anos 90 e iniciados.
O Pavement seria banda lembrada tanto quanto um Smashing Pumpkins ou Nirvana e teria muito mais admiradores normais espalhados pelo mundo.
Como eu disse lá no começo, eram debochados demais para dar o passo adiante e encarar o precipício que os separaria dos demais mortais, passaria as escadas de Asgar e atingiriam um tipo de topo onde poucos chegam.
Tecnicamente impecável, o som caminha pelos experimentos provocados por Captain Beefheart, Faust e Zappa (todo o layout da capa lembra muito as bagunças que FZ cometia nos anos 70), mas todos traduzidos brilhantemente para a década barulhenta, individualista e estranha que foi.
Algumas das melhores musicas que o grupo fez estão aqui: Black Out tem um dos melhores e mais bonitos timbres de guitarras produzidos pela banda, Serpentine Pad é uma pedrada a la Sonic Youth, curta e poderosa. E Best Friend’s Arm? Não é simplesmente o máximo? Corre, breca, corre, breca.. qual é a deles?
Tem umas fáceis também: AT & T é perfeita balada pop esquisita onde a banda se deixa levar por um caminho mais fácil que dificilmente eles optaram em seguir.
Enfim, um disco duca e essa edição remasterizada de 2006 ainda traz um segundo cd de sobras de estúdio, mais lados B lançados somente em singles e música pra cacete (50 no total).
Vale cada centavo suado.
O Pavement é uma das bandas da minha vida e pronto.
Nina Simone – Live At Montreux 1976 (2011)
Publicado; 03/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records 2 Comentários
Até o fim dessa semana só vou selecionar discos com a temática ligada ao instrumento dos instrumentos: O Piano.
É a minha homenagem aos grandes pianistas, cantores e compositores que voltaram a dar as caras com discos aguardados, inesperados ou simplesmente pintaram para dizer um oi.
Fiona Apple abandonou sua precoce aposentadoria e lança play novo em alguns meses. Regina Spektor volta a ativa com ótima música (quem sabe agora eu presto atenção nela) e Dr. John (é ele, o próprio) ressurge das catacumbas de New Orleans acompanhado dos Black Keys.
Por enquanto nenhum deles entra nessa lista, assim, começo a série com essa apresentação arrasadora da diva do soul, do blues e do jazz Nina Simone.
Em 1976, ela chegava aos 43 e estava mais incrível do que nunca, cantando com sua voz grave, de timbre estranho e poderosa.
Um show intimista, incomum e num ritmo impossível de ser repetido.
Livre de qualquer amarra estética, Nina dá um banho de interpretação ao piano e no palco ela é uma entertainer como poucas. Joga conversa fiada, conta histórias, se confessa, canta, toca, dá ordem na platéia e faz seu show, em que rigorosamente tudo pode acontecer.
Imprevisível e instável, Nina era um fio desencapado e sua música flutua por essa instabilidade emocional que gerou algumas das interpretações mais passionais da música pop de todos os tempos.
Em 1976 ela já era uma veterana, mas se vale de sua vasta experiência nos palcos, somente para dar conta de fazer o simples, o belo e balanço irresistíveis.
Repertório incrível, show foda, cantora que não se faz mais e performer original.
This lady is not a tramp!
The Only Ones – Special View (1978)
Publicado; 30/04/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Banda excelente, disco sensacional.
A banda não teve quase nenhum sucesso fora da Inglaterra e o disco é tão obscuro que nem o Allmusic.com o reconhece.
E olha que o Allmusic é a melhor fonte de informação para quem acompanha música, discos e artistas.
Beleza, eu também não conheço quase nada sobre eles. Estamos quites.
Tenho esse disco há mais de 10 anos, veio diretamente de SanFran e ainda gosto muito!
O Only Ones é punk pop de primeiríssima e surgiu na esteira de aproximadamente outras 550 bandas tão bacanas quanto.
E o que eles tinham de melhor ou especial?
Nada.
Na verdade, eles tem um trunfo.
E apresentam logo de cara no disco.
Another Girl, Another Planet, a faixa que abre esse álbum é uma das mais espetaculares e sensacionais canções rock feitas nos últimos 40 anos. Exemplo máximo de new wave, punk pop que agrada a todo mundo que gosta de rock rápido, divertido, leve e descompromissado como Another Girl é.
John Peel era fã dessa música.
Eu amo essa música.
Se você não conhece, abaixo tem o link do som.
O resto do disco é bacana, tem um reggaezinho vagabundo aqui, tem uns roquizinhos legais ali, mas nada se compara a primeira faixa. Eles nunca fariam nada melhor que isso e nem precisam.
Na era da new wave, a concorrência era pesada. Quase todas as bandas fizeram pelo menos uma música espetacular.
Viva a New Wave!
Partido em 5 – Raizes do Samba (1975/76/2010)
Publicado; 29/04/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
A série Raizes do Samba ajuda a resgatar em som decente algumas das principais pérolas do samba brasileiro dos anos 50, 60, 70 e 80 que criminosamente ficaram aleijados da atenção e do acesso do grande público por anos.
O Partido em 5 é um desses exemplos resgatados pela série.
Fez grande sucesso em 1975, conseguiu manter o pique no ano seguinte e acabou debandando, por que a vida é dinâmica, as coisas acontecem e é por ai.
Ainda bem que restaram as gravações.
O Partido em 5 era composto por: Candeia, Velha, Casquinha, Anezio, Wilson Moreira e Helio Nascimento. Partideiros de primeira, esse combo foi o Crosby, Stills, Nash e Young dos subúrbios e morros cariocas.
Seis cronistas precisos da vida nos morros cariocas, suas tretas, alegrias, angustias e delicias da vida dura, simples e dos causos repletos de sabedorias populares e bom humor.
De improviso ou quase de improviso, o partido alto e o pagode praticado pela rapaziada era fino, cru, sem tratamento estético de limpeza de arestas e imperfeições, cantado com coração, rouquidão e regado a birita, cigarro e arroz com couve como todo bom partido alto precisa.
Letras bem humoradas cuja matéria-prima estava ali nas ruas, nos becos, nas ladeiras, debaixo das janelas dos barracos, na mesa das biroscas e botecos que abordavam os mais triviais e corriqueiros temas: brigas, vida conjugal alheia, o vacilão, o caguete, as traições, o bêbado, as rodas de samba que varavam a madrugada e tudo isso.
Samba de verdade é assim, o resto é perfumaria.
Bill Evans – On Green Dolphin Street (1959/1975)
Publicado; 28/04/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Bill Evans é gente que fez.
No final dos 50, ele começava sua carreira solo como líder, mas naquela época ele fazia parte também do inacreditável time que acompanhava Miles Davis e que acompanhou o monstro em Kind Of Blue (1959), tido como o maior álbum de jazz da história.
Bill sempre foi irrequieto e classudo.
Seu piano e seu toque suave, rápido e decidido virou um novo paradigma do jazz pós-bebop e não é para menos, o homem ajudou a inventar o jazz moderno que seria seguido por outros monstros como Keith Jarrett, Chick Corea e Herbie Hancock entre outros.
Essa obra-prima ficou engavetada por mais de 15 anos, até que com muita insistência de Orrin Keepnews (homem do jazz e da indústria do jazz), convenceu Bill, a lançar essas sessões em álbum, mesmo que ele achasse imperfeições nas gravações, Bill que nessa época estava afundado na cocaína e seguia uma errática carreira entre manter seu piano jazz e abraçar a modernidade do jazz fusion que dominava a cena, acabou concordando com o lançamento.
On Green Dolphin Street é suave, poderoso e contava com Paul Chambers no baixo e Philly Joe Jones na bateria. Um trio que fazia miséria!
Como naquela época, tempo era dinheiro e tempo de estúdio era muito mais dinheiro, as sessões ocorreram em 19 de janeiro de 1959, entre um show e outro e entre outras diversas sessões que esses senhores frequentavam para conseguir juntar dinheiro suficiente para cobrir as contas do aluguel, das biritas e dos agiotas.
Nada de glamour. Todo mundo tocava por amor a música, mas amor ao tutu também.
Deixando o grupo de Miles, Bill seguiu uma espetacular carreira solo ao longo dos anos 60, mas seu vicio em heroína e cocaína, além de seu temperamento fechado, tímido e arredio o tornaram um artista pouco popular, mesmo sendo respeitadíssimo dentro do meio musical.
Com esse lançamento em 1975, Bill foi realmente alçado a condição de um dos grandes gênios do piano jazz e mostrou um belo contraponto a musical tonal que dominaria aquele mágico ano de 1959 (ano de Kind Of Blue, mas também de Shape of Jazz To Come de Ornette Coleman, outra revolução sonora daquele ano).
Bill morreria 5 anos apos o lançamento de On Green…
Jazz para um sábado a noite. Pegue seu whisky e boa viagem!
Primal Scream – Xterminator (2000)
Publicado; 26/04/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Tá faltando violência!
Se hoje em dia, as bandinhas indie-eletrônicas pra frentex sofrem de ausência quase absoluta de força, virilidade e culhões (The XX, Friendly Fires, TuneYards, We Have Band, Panda Bear e praticamente todas as banda bem resenhadas no Pitchfork), isso nunca faltou no som do Primal Scream.
A banda foi moderna e se manteve relevante por quase 15 anos e se tornou uma das mais importantes instituições criativas dos anos 90/2000.
Cada álbum lançado pelo Primal Scream era um evento!
Em 1991 eles mudaram a cara do mundo com o genial e atemporal Screamadelica (a cada ano que passa o álbum vai ficando mais importante, influente e reverenciado).
Em 1994 eles farrearam com o irregular mas delicioso Give Out, But Dont Give Up (rock and roll descaradamente chupado da fase áurea dos Stones circa-68-72).
1997 foi o ano em que eles fizeram o primeiro ensaio que os levaria a Xterminator, com o brilhante, ofuscado e incompreendido Vanishing Point. Álbum que passou batido por público e crítica e que marcou a entrada do baixista Mani (Stone Roses) ao grupo e preencheu uma lacuna importante na condução do baixo que até então era um dos pontos fracos do Primal.
Ideias, drogas e sentimentos exacerbados. Esses são os ingredientes da combustão primalscreaminianas que atingiram seu ponto mais alto em Xterminator.
Lançado em 2000, o álbum pegou toda a referencia de Techno e cultura clubber que explodiram nos anos 90, acrescentou novas possibilidades, mais violência, mais peso, mais barulho e criaram uma das mais inacreditáveis trombadas de rock com eletrônico já registrados na história da música pop.
Impossível não se perturbar com a virulência de Swastika Eyes, impossível não concordar com o discurso violento-funk-eletrônico do cartão de visitas que abre o álbum: Kill All Hippies, em que Bobby Gillespie sugere que “matemos todos os hippies”, impossível não se emocionar com a linda, doente e terminal Keep Your Dreams.
Como em todo disco que o Primal Scream faz, eles sempre escolhem uma cover espetacular para se apropriar e transformar em Primal Scream, mantendo o ritual, essa cover é estrategicamente colocada após a faixa 8 e aqui eles atacam com um clássico garagista sessentista I’m 5 Years Ahead Of My Time, do The Third Bardo (das maravilhosos e necessários Nuggets Albums – compilações de bandas garagistas sessentistas).
Eles estavam certos e tempo todo e depois desse disco ficou impossível qualquer tentativa bem-sucedida de misturar rock e eletrônico sem ficar careta e quadrado.
Muitos tentaram, mas só eles captaram com tamanha sensibilidade e inteligência as mudanças de ares que o planeta passaria e transformaram tudo isso no último clássico mundano moderno pop.
Mais do que uma simplista apologia as drogas, Xterminator é um álbum essencialmente movido por drogas, mas seu uso como afirmou lá nos 60 o cientista suíço Albert Hoffman (pai do LSD), “estão errados quem utilizam essa substancia para recreação”.
O pessoal do Primal Scream parece ter finalmente entendido essa relação neste álbum.
Curta-o sem restrições!
E bem alto, faz favor!
Curumin – Japan Pop Show (2008)
Publicado; 24/04/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
O Curumin é certamente o baterista mais requisitado de São Paulo há um bom tempo.
E não é pra menos, o sujeito tem uma das baquetas mais firmes do cenário paulistano, além de ser um tremendo compositor, arranjador e não fazer nada feio como cantor.
Japan Pop Show virou um disco cult quase automático quando saiu há 4 anos.
Primeiro que ninguém achava o disco para comprar a não ser nos shows do cara.
Segundo que o disco é bom pra dedéu, cheio de climas, temperos contemporâneos colocados com ótimo senso de timing, composições ganchudas e riqueza genuína e rara dentro do pop brasileiro contemporâneo.
Album de produtores maduros, criativos e músicos profissionais que tocam muito e conseguem ser econômicos, privilegiando as canções, tirando do gueto da thurma de amigos músicos.
Disco em que o baterista é o dono do projeto poderia ser bem chato ou punheteiro, por que afinal, não inventaram nada pior do que solo de bateria.
Graças ao senso de inteligência do artista, esse não é o caso deste ótimo e maduro trabalho.
Gravitando por lounge, texturas eletrônicas, funk, afro-beat, hip-hop old school e música brasileira safada setentista, Japan tem grooves fantásticos, uma verdade artística genuína e rara nos dias de hoje.
Nada muito original, tudo gira em torno do simulacro do que somos, do que poderíamos ser e do que gostaríamos de ser um dia.
Quem sabe, num arrombo de honestidade e talento extremos, alguém chuta essa porta e escancara tudo o que precisamos ver, ouvir e sentir?
Enquanto esse dia não vem. Curtam o Curumin, e seu belíssimo trampo solo. Que venham mais iguais a esse!