Metro – Olhar (1985)
Publicado; 06/06/2012 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Yes, nós tivemos New Wave.
Na verdade, o que se chama de boom do rock brasileiro dos anos 80 nada mais foi do que o boom da New Wave (que não necessariamente é rock) que se alastrou em todos os cantos do mundo, e aportou por aqui aproveitando o inicio de abertura política, a moçada se apropriou do termo, vestiu terninhos coloridos com ombreiras, modernizou a MPB com teclados vagabundos, guitarras Tonantes, pedais com flangers, música em francês, e por ai vai.
Foi tratar de se divertir:
Transar, beber, usar drogas, viajar e fazer um som.
A festa foi boa e ainda hoje contabilizamos as doses ingeridas nesse período.
Tudo aflorou, perdemos a vergonha de cantar em inglês e copiar na caruda o que se fazia no pop gringo.
Nesse cenário e nessa onda, muito lixo saiu, mas algumas pérolas também.
O Metro tinha o timing exato e cometeu o disco mais importante dessa New Wave brasileira e que eu mais gosto até hoje.
Impossível colocar esse álbum em outro período, ele está intimamente ligado a Bananarama, Go-go’s, Yaz, Toni Brasil, Kim Wilde e por ai vai.
Em alguns momentos, chega perto dos franceses Telephóne ou Les Rita Mitsouko.
Zero brasilidade, o álbum é São Paulo da Av. Paulista ou da Pompeia dos anos 80, da elite pensante que viajava uma vez por ano pra Europa ou pros EUA, descobria o que estava rolando e atualizava a rapaziada por aqui.
Não consigo enjoar de ouvir a Virginie cantando docemente com um fino de voz, que passa pertinho do desafinado, mas na verdade é um truque, uma sutileza para seduzir ouvintes e nos fazer apaixonar pelo som mais moderno feito nos trópicos em 1985.
Lindezas como: Johnny Love, Beat Acelerado, Sandalo de Dandi e principalmente Tudo Pode Mudar, um clássico que não faria feio em festa 80’s em nenhuma festa ao redor do mundo, mesmo hoje quase 30 anos passados, fazem desse Lp uma peça obrigatória em boas discotecas descoladas do planeta.
Será que o finado John Peel tinha um desses em sua rica discoteca?
Agora fino mesmo é: Stabilo, só ouvindo…
O álbum tem um sabor de festa boa que eu não tinha idade pra ir e hoje seus personagens devem estar carecas, cansados e sem paciência pra contar como foi….Mas deve ter sido duca…
Sex Pistols – Never Mind The Bollocks (1977)
Publicado; 05/06/2012 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Há 35 anos, os ingleses comemoravam o jubileu de prata da atual rainha Elizabeth II, que, nas palavras de um sábio taxista carioca é “mai ruim que merda”.
Eram hard times.
Desemprego, recessão, falta de oportunidades, juventude revoltada, governo conservador e marasmo.
Ai apareceu o punk e os Pistols e sua vontade de botar pra fuder.
Nesse ano de 1977, quase tudo aconteceu.
E no meio do tal jubileu, os Pistols lançavam o single de God Save The Queen, no mínimo, uma bofetada na cara da realeza que rendeu ao grupo, censura oficial por parte do governo e polêmica a beça, pois pela primeira vez um artista explicitamente confrontava a monarquia inglesa de peito aberto.
Never Mind…é um soco, um murro e ainda hoje seu som é cru, urgente, poderoso e lembra que em tempos difíceis é dando porrada que as coisas saem e acontecem.
Ok, pode tudo ter sido armação do senhor Malcolm Mclaren, mas o que não é armação no show business? Tudo é armação: dos Beatles ao Para Nossa Alegria… tudo é armado.
Hoje a rainha comemorou novamente mais um jubileu (60 anos no tronado), os tempos voltaram a ser iguais aos de 77, mas a música se acovardou, se acomodou e bajula a realeza.
Talvez os Pistols precisem voltar para chingar seu velho inimigo novamente.
The Fatback Band – NYCNYUSA (1977)
Publicado; 04/06/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Banda de funk-disco nova-iorquina do anos 70.
Isso é introdução de: Não tem como ser ruim!
E não tem mesmo.
O Fatback é mais uma das milhares de bandas que aparecerem nessa época, mandaram seu som, se misturaram com a multidão e sumiram, tanto que esse álbum ficou um tempão fora de circulação.
No allmusic o disco é avaliado com miseras duas estrelas, mas isso não quer dizer nada.
Como álbum de carreira e pegando uma banda em evolução dentro do funk setentista, eles saíram dos funk soul fortemente instrumental do inicio dos anos 70 para cair com tudo na tendência da época, em que a Disco ditava as ordens do dia e, para sobreviver e se tornar ouvido pela rapaziada, eles viraram os ouvidos para as pistas e soltaram esse belo espécime que é pura alegria.
Dá pra tocar o disco inteiro em qualquer festa civilizada ou não, que ele fará sentido. Começa pra cima quebrando tudo em Double Dutch e Spank The Baby (afinal, como é de conhecimento geral, só um tapinha não dói), lá pro final tem as lentinhas que é pra encorajar o acasalamento A Changed Man e no meio um primor Love Street, ainda hoje uma das minhas favoritas do gênero.
O Fatback é de um tempo em que o beat vinha junto com um ser humano e suava junto com a máquina.
Dance music for real.
The Gun Club – Fire Of Love (1981)
Publicado; 03/06/2012 Arquivado em: Discos, Música, records 2 Comentários
Sabe aquelas bandas que você demora para acessar ou conhecer e quando conhece não consegue desgrudar?
Pois é, to assim com esse vinil.
O Gun Club tem um som inacreditável e inimitável.
A combinação única e explosiva de rockabilly, punk, pos-punk, blues e guitarras slide.
Tudo isso saiu da cabeça do gênio enlouquecido Jeffrey Lee Pierce.
Dono da banda e cérebro por tras de todas as músicas ou todas as escolhas musicais do grupo, Jeffrey é daqueles seres iluminados que surgem e subvertem a ordem das coisas de maneira sorrateira e pelas bordas.
Foi assim que o Gun Club construiu sua reputação no começo da década de 1980 e nos deixou um legado de sons inacreditáveis e sensacionais.
Tudo de caso pensado, eles foram selvagens, suaves e pregavam quase religiosamente uma ortodoxia musical completamente deslocada de seu tempo e espaço.
Dentro do cenário alternativo do inicio dos anos 80, eles não pertenciam a nenhuma categoria e nenhuma panela musical. Eles eram independentes demais para isso.
Tenta explicar outras bandas dessa mesma época como Violent Femmes ou Wall of Voodoo.
Não dá e nem tentem.
Depois de escutar esse disco, tudo fica meio sem graça…
Então vai lá, recomendo.
Paulo Moura – Fibra (1971)
Publicado; 02/06/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário![]()
Paulo Moura foi um monstro.
Dono de um estilo próprio e rigorosamente aberto, Paulo desfilou tal qual Raul de Souza, tal qual Pixinguinha, tal qual qualquer outro grande músico craque no sopro brazuca.
Para nossa não alegria, quase nada dele existe em catalogo, em especial os primeiros trabalhos solo e mais em especial ainda este discasso lançado quase 10 apos Paulo subir ao palco do Carnegie Hall em 1962 para a noite da Bossa Nova arranjada por Ronaldo Boscoli e que escalou Tom Jobim e Sérgio Mendes com o chegado.
Se isso não é estar bem acompanhado…. porra!
Em Fibra, devidamente fixado na gringa, Paulo desfila suas preferencias estilísticas habituais e chega a acrescentar a sua hard bossa swingada, mais jazz, lounge e até um surpreendente numero de “folk-rock setentista”? é, escute “Tema dos Deuses” e comprove se não estou doido.
Enfim, tudo isso pra dizer que Paulo Moura foi um dos maiores monstros da Musica Instrumental brasileira, reconhecido nos círculos, respeitado por todos e se americano fosse, estaria entre os maiores do jazz.
Alias, ele já está nesse panteão.
Sempre esteve.
Gene Vincent’s Legendary Blue Caps (1993)
Publicado; 01/06/2012 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Já escrevi em algum momento neste blog e reforço agora: Odeio coletâneas!
E somente em casos extremos eu apelo para algumas delas na falta de álbuns originais, ou álbuns difíceis de se achar (achado ou baixado na internet não vale).
Mas de que outro jeito e quem em sã consciência ainda deixaria editadas as gravações feitas pelos Blue Caps, a fantástica banda que acompanhou o gênio Gene Vincent sem o Gene Vincent?
Em tempos de capitalismo extremo e necessidade constante de resultados, giro de estoque ou demandas emergenciais e com a derrocada da indústria do Disco?
Pior, quem ainda se importaria?
Ainda tem muito maluco por ai… e faz favor de me incluir…
Essa compilação lançada em 1993, de maneira absolutamente empreendedora, corajosa e artesanal pelo selo britânico Magnum Force prestou um gigantesco serviço aos bons sons ao capturar essa espetacular banda de apoio em diversos momentos de sua carreira pós-falecimento precoce do monstro Vincent.
Principalmente por resgatar os momentos guitarristicos precisos e geniais de dois pilares das seis cordinhas dos anos 50, que ajudaram a moldar todo o rock na sua gestação: Cliff Gallup e Johnny Meek.
Cliff é tão fundamental e ao mesmo tempo tão menosprezado, que precisou o Jeff Beck fazer um belíssimo disco há alguns anos atrás chamado “Crazy Legs”, onde ele só tocou repertório dos Blue Caps e pagou um pau geral a Cliff, para que ele voltasse a ser lembrado pelas gerações futuras.
Essa compilação captura o retorno dos Blue Caps no inicio dos anos 80 com Johnny Meeks, algumas faixas instrumentais do conjunto de Cliff Gallup e seu 4Cs nos anos 60 e pro final Jerry Lee Merritt, guitarrista e cantor que por um breve período se juntou a Gene no final dos anos 50, também comparece com algumas gravações também datadas dos anos 80.
E ainda tem uma faixa do The Champs, banda de surf rock instrumental foderosa que Johnny Meeks montou nos anos 50 e que alimentava profunda admiração por parte de Gene.
Enfim crianças, isso é rock puro, isso é a genesis criadora de toda a cultura popular jovem do século XX.
Só isso.
Dr. John – In The Right Place (1973)
Publicado; 31/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Recentemente o gênio Dr. John saiu de sua caverna nos pântanos de New Orleans e nos brindou com um novo e delicioso álbum, que contou com a produção do homem do momento: Dan Auerbach (The Black Keys).
Estar bem acompanhado é importante e o Dr. John sabe disso.
Prova é esse petardo de 1973.
A produção ficou a cargo de Allen Toussaint (grande músico, pianista e cantor de New Orleans — não conhece? Ô dó!) e no acompanhamento, uma das bandas de funk mais fodasticas da paróquia: The Meters.
Tá bom?
Tem como dar merda?
Não dá, nem se eles quisessem.
Respectivos faixas-pretas, economizam na pirotécnica técnica e se concentram no simples, no swingue e nos climas matadores que só uma combinação feliz como essa pode gerar.
Todo mundo no auge de vossas respectivas carreiras, é muita coisa boa junta.
A voz cajun do Dr. John está limpa, rasgada, negona e a fusão funk, cajun e pop setentista sedimentou um dos discos mais importantes da carreira do pianista, que ajudaria a coloca-lo no mapa e nunca mais tira-lo.
Medeski Martin & Wood – End Of The World Party (2004)
Publicado; 30/05/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário Tava aqui lembrando do show deles no Sesc Pompéia há alguns e como fiquei impressionado com o repertório poderoso, moderno e matador, e que ainda acharam espaço para fazer um cover inacreditável de “The Letter” da Pj Harvey, faixa do então recém-lançado “Uh Uh Her”.
Mais antenados, impossível.
Definitivamente, o MMW é a melhor banda de jazz dos últimos 20 anos, porque fizeram a revolução necessária para que o gênero não ficasse no total ostracismo, vivendo de seu passado glorioso e revolucionário.
Graças ao frescor trazido pelos músicos, uma nova geração cresceu, apareceu e ganhou espaço.
O MMW fez álbuns sensacionais, seja no formato mais tradicional (piano, baixo e bateria) ou em formatos mais ousados (com dj, rappers, orquestra, etc) e construiu uma reputação inatacável, inquieta e instigante ao longo de uma carreira cheia de alternativas.
De todos os projetos, escolhi esse álbum de 2004, pois é talvez o mais acessível do grupo, mesclando grooves poderosos, sons eletrônicos, lounge e jazz (óbvio), menos radical que The Dropper e Combustication, End Of the World Party traz o groove mais pra cima de Shack-Man e um tremendo senso pop, com faixas mais curtas e diretas.
John Medeski é um polvo, cercado de pianos, órgãos, sintetizadores e teclados é o responsável pela montanha-russa de sons e ruídos que são despejados sem economia ao longo do álbum, enquando a máquina Billy Martin vai controlando a temperatura do som com suas baquetas, aumentando e diminuindo o peso como só um verdadeiro gênio consegue, e ainda tem Chris Wood e seu baixo sofisticado, gordo que sorrateiramente fornece a caminha discreta e rica para o som fluir perfeito…
Craques do som, são artistas que circulam entre vários gêneros e ajudam a levar o jazz para as ruas, bares e tira-lo dos museus encastelados das vacas sagradas.
Flamin Groovies – Teenage Head (1971)
Publicado; 29/05/2012 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Pensa numa banda de rock e o que ela precisa pra ser perfeita.
Muitas bandas vem a mente quando penso nisso: The Who, Guess Who, Stones, New York Dolls, Small Faces, ZZ Top e por ai…
Mas o Flamin ocupa um lugar especial nessa lista.
Pra mim é a banda de rock perfeita dos anos 70.
Punch, distorção, diversão, mix perfeito de rock, blues, hard, slide guitar, piano e ainda fez o disco que encheu Mick Jagger de inveja, fazendo o próprio declarar que Teenage Head é melhor que Sticky Fingers (ambos foram lançados no mesmo bat-ano).
Quem sou eu pra discordar?
Por um desses milagres inexplicáveis, o álbum foi relançado em edição nacional em 2009 e está disponível uma belíssima seleção adicional de covers espetaculares que o grupo cometeu nesse período: Shakin All Over, Carol e Walkin The Dog estão matadoras.
O disco em si passeia pela melhor praia roqueira imaginária. Muita influencia de Stones, bandas de R&B americanas e britanicas e mods britânicos, Teenage Head deve ter um dos melhores sons de guitarras Gibson e baixo Rickenbaker ever.
A faixa titulo é um blues nervoso e rápido, com todo o veneno que se pode imaginar numa faixa de rock bem lasciva enquanto Have You Seen My Baby? é outra cacetada inacreditável.
Em 32-20 e Doctor Boogie, a banda comete boogies sinceros que acompanham destilados sem contra indicação, mas o fino da bossa fica reservado para o pré-psicobilly Evil Hearted Ada, com seus ecos de Elvis e antecipou tudo que o Cramps seria alguns mais tarde.
Como se diz, é só rock and roll e nada mais.
E basta.
Sebadoh – III (1991)
Publicado; 28/05/2012 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Lou Barlow é um herói.
Fundou o Dinosaur Jr junto a J.Mascis na primeira metade dos anos 80 e comeu o pão que o diabo amassou. Sem grana e sem fama, ele tretou com o líder fã de solos, montou o Sebadoh com dois amigos e músicos e por quase 7 anos só era reconhecido pela critica especializada e pelos pares, até que em 1997 a luz brilhou levemente para ele e o sucesso, mesmo que por efêmeros 5 minutos chegou.
Lou sempre circulou entre os subterrâneos e fez alguns dos melhores discos de rock dito “alternativo” da década de 1990 junto ao seu Sebadoh e também com o Folk Implosion (em breve por aqui tb).
Rock torto, tipo “low-fi”, guitarras agudas, baixo distorcido, atitude desleixada, rock caseiro entre uma cerveja e outra, gravando em estudios portáteis de K7s baratos, pagando as contas e vivendo numa nice.
Falando assim parece que Lou é um maconheiro desencanado, mas sua alma é atormentada e sua frustração por não ter conseguido mais êxito comercial é grande também.
Paciência.
O Sebadoh praticamente só lançou discos bons, mas o III é fora do comum, barulhento, estranho e bonito.
Total Peace é uma moda de viola deprezona, Supernatural Force tem viola, mas é suja e The Freed Pig é uma das melhores canções rock com guitarras daquele ano.
Foi devidamente recolocado no mercado da música há alguns anos, uma edição remasterizada dupla que é deleite puro e traz um álbum extra com sobras de estúdio, lados b e o EP Gimme Indie Rock, talvez a faixa mais raivosa do grupo.
Acima do bem e do mal, o Sebadoh é daquelas bandassas que não chegaram lá.
Inexplicável.