Miles Davis – Kind Of Blue (1959)

Só é possível dizer que você conhece jazz depois que escutar muito e muito e muito esse disco.

E lá estava eu há alguns anos atrás achando que conhecia jazz, mas na real não sabia picas, o que não quer dizer que hoje eu seja um expert, tô bem longe disso, mas não dá pra fugir do óbvio.

O óbvio é que em algum momento da sua vida adulta você precisa passar por Kind Of Blue.

Na real, acho que só virei homem de verdade depois que entendi Kind Of Blue.

Pagava de gatão na real, a ficha só caiu quando eu li o livro KIND OF BLUE, a biografia que conta a história da criação desse álbum, que devorei com o Cd non stop durante todo o processo.

Foi uma catarse, reaprendi a escutar música e o jazz começou mesmo a fazer sentido na minha cabeça depois dele.

Primeiro que Kind of Blue tem tudo: clima, atmosfera, biografia e 5 músicas inesquecíveis.

E tem a melhor formação da história do jazz: Coltrane e Adderley dividindo os sopros com Miles, tem Bill Evans e seu piano mágico, tem Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb nas baquetas.

Kind of Blue é o ABC do jazz, é o supra-sumo e basta…

O disco é suave, lírico, perfeito de ponta a ponta, com silêncios, quietudes e melodias inesquecíveis e seu formato de suítes é intrigante, parece ter sido construído sob areia movediça ou em cima de uma ponte pencil.

Não perde o pit em nenhum momento, não acelera, não tem pressa, é um disco em que tensão e relaxamento caminham juntos, como forças imcompativeis da natureza bailando e promovendo orgias.

Kind of Blue é o refugio dos oprimidos, é o último disco que se precisa escutar em vida, assim como o whysky seria o último drink, o picadinho o último prato e por ai vai…


The Jesus & Mary Chain – The Power of Negative Thinking (2008)

Se um dia a tempestade solar chegar e destruir toda a civilização digital e tiver a necessidade de levar somente um album para a tal ilha deserta de outrora, esse seria o álbum. A caixa quadrupla dos irmãos Reid lançada em 2008.

Afinal:

Ao Jesus tudo pertence.

Ao Jesus devo meu amor ao Rock.

Ao Jesus devo minha inteira, insana e intensa devoção ao rock e aos seus formatos onde são encontrados (LP, CD, K7, DVD, MP3, WAV, YouTube, etc).

Se não fosse por Jesus, provavelmente eu estaria achando o máximo o novo disco do The XX, ficaria sem folego só de ouvir um microssegundo de Black Keys e acharia essa cena indie de hoje realmente a melhor coisa do mundo.

Graças ao Jesus, aprendi a detectar picaretas e não me deixar enganar por falsos profetas da música como: Beck, Lenny Kravitz, Rage Against The Machine, Kaiser Chiefs, Bloc Party e por ai vai…

Graças ao Jesus, me livrei de vícios como Tears For Fears, Simple Minds, A-ha e The Bolshoi…. é verdade, eu amava Sunday Morning e quer saber, nem é tão ruim assim.

Graças ao Jesus, aprendi a detestar Caetano, Chico, Gal, Bethania

Com Jesus na minha vida, as luzes se acenderam e entendi a profundidade de Beach Boys, Velvet, Stooges, The Cramps, Bo Diddley, Leonard Cohen, Syd Barrett e Shangri-las.

Entendi que para ser pop, não precisa ser brega e que para ser barulhento não precisa ser pesado e que dá para ser melódico e bonito na desgraça também.

Que ser simples não significa ser idiota e que cantar sobre o que se sente sem precisar ser canalha, e que dá pra fazer tudo isso também mentindo…

Com a música do Jesus sempre tive a esperança máxima que se eles conseguiram, todo mundo consegue.

Enfim, os irmãos Reid me ensinaram a viver, se eu aprendi, aí é outra história.

Fato inquestionável é: na música do Jesus encontro o conforto, a paz e a segurança de que uma vida toda não foi em vão e que um dia eu tive um passado e que ele não foi tão ruim assim quanto eu pinto.

Muda-se os tempos, mudam-se as estaçoes, mudam-se as modas, mas uma coisa nunca mudou nesses 37 anos:

O Jesus And Mary Chain sempre foi e sempre será a banda da minha vida.

…and keep coming…


The Isley Brothers – Brother, Brother, Brother (1972)

Afirmar com convicção que os Isley Brothers foram o grupo vocal negro mais foda é forçar uma barra meio pesada, mas hoje estou intoxicado pela afinação sem igual dos irmãos Isley e a cada novo álbum que me cai na mão é mais uma aula de canto em conjunto.

Amanhã vai ser outra história, mas como o que vale é hoje, fica valendo o paragrafo acima.

Amanhã pode mudar e Temptations, Ingram Kingdom e Black Ivory tão vindo na cola para tomar esse posto.

Esse é um álbum mais funk, com uma pegada mais pesada e dá um balanço legal ao R&B suave, mas valente dos irmãos.

Som da pesada, se me entende?

Som quebradeira, com baixo dedado, guitarra segurando a base e a bateria fazendo a funça, compreende.


Clementina de Jesus – Marinheiro Só (1973)

Clementina tinha um canhão na voz.

Ou seria uma bazuca?

Resposta mais provável é que ela tinha uma garra e uma vontade fela de ser alguém na vida.

Assim como todos os nossos grandes sambistas, nasceu fudida e morreu fudida, mas se não fossem alguns amigos, sua voz nunca seria registrada para as gerações futuras.

Clementina foi a nossa Nina Simone.

Cantava com o desespero e com a dor que só as grandes damas conseguem.

Ela foi uma delas.


Dj Shadow – Endtroducing (1996)

Merecidamente, o produtor e Dj norteamericano foi reconhecido como uma das figuras capitais da música pop dos últimos 20 anos, principalmente no genero “Techno”, “Eletrônico” ou “Cultura DJ”.

Quando ele fez esse álbum, ainda não existia Pro-tools, os computadores não eram tão sofisticados quanto hoje e fazer um disco inteiro só com colagens, samplers e trechos de outras músicas exigia paciência oriental, absurdo senso de ritmo e um conhecimento musical enciclopédico que só se conquistava ouvindo muito disco (lembrando que nessa época também não existia o Google).

A capa desse álbum é uma das minhas favoritas, mostra uma foto com duas pessoas batendo banca de Discos de Vinil procurando aquela felicidade concentrada em um pedaço redondo feito a base de petróleo com uma capa de papel e um plástico em volta.

Foda-se esse mundo politicamente correto e moderno, que acha que o menos é mais, e que o clean é o senhor todo poderoso.

E que esse monte de disco não cabe mais na vida das pessoas, e que tudo é diminuto e sintetizado em arquivos de MP3.

Em tempos de revival do formato Vinil, a capa é uma linda homenagem a todos aqueles que buscam essa felicidade em cada nova vasculhada por bancas de lojas de discos, atrás do próximo disco que vai mudar sua vida.


Wilson Simonal – Ninguem Sabe o Duro que Dei (2009)

Na festa de encerramento das ultimas Olimpiadas em Londres (polêmica, não teve Judas Priest e Led Zeppelin?), se falou muito sobre a participação brasileira, se ela foi boa, ruim, superficial, deu pro gasto, etc.

Mas falando bem a verdade, foi boa…

Só o fato de ter o Seu Jorge cantando Simonal, já foi bem fora do óbvio. Ele podia cantar Jorge Ben, não?

Até 2009, ano em que esse espetacular documentário sobre a vida do nosso primeiro Super Astro Pop brasileiro, Simonal estava em completo e total ostracismo por conta de sua relação com o governo militar na época da Ditadura.

Certo ou errado, a história já o julgou culpado.

Só não dá para apagar a carreira musical brilhante que ele construiu.

Passeou com desenvoltura e ginga pela bossa nova, samba, swingue, soul, explorou o samba-rock e o samba-jazz com igual competência e parte desse carisma está contido nessa trilha que deixa mais leve qualquer ambiente carregado e tristonho.

Simonal foi gênio e as recentes reedições de sua obra provam isso.


Varios Artistas – The 2Tone Collection – A Checkered Past (1993)

Eu pego bem com ska há um tempão.

Hoje me desbravo bem no Reggae e no Dub, mas no Ska fico mais em casa.

A principal razão de eu ter caído de amores pelo Ska, em particular, o Ska inglês, foi essa coletânea espetacular com o cast da mítica e esperta 2Tone Records, berço fonográfico da mais espetacular geração de miscigenação musical ocorrida na Inglaterra antes da avalanche eletrônica ter colocado todas as raças e credos dentro do mesmo saco, ou melhor, dentro do mesmo Bit e democratizado de vez a parada.

Mas os rapazes do Ska foram pioneiros em botar a moçada branca e negra para dançar e rebolar no mesmo quadrado, objetivo principal Pauline Black (fundadora do selo e líder do The Selecter), que na simplicidade reservada aos visionários e grandes líderes, dizia: “A 2Tone era basicamente negros e brancos tocando juntos”.

E fez-se a luz!

Compartilhar os mesmos instrumentos e o mesmo amor pelo ritmo jamaicano que caiu como uma luva na New Wave, colocando mais cor e molejo no rock e gerando uma turminha da pesada foi o resultado dessa visão.

Olha o elenco revelado na 2Tone:

Specials, Madness, The Selecter, The Beat (ou English Beat), Rico, The Bodysnatchers e por ai vai.

Brincadeira!

Todos eles foram lançados na 2Tone, alguns alcançaram o sucesso muito rápido e se debandaram para o pop britânico, em especial o Madness que fez carreira brilhante e em breve pintará por esse blog, logo menos.

Essa coletânea dupla é um belo cartão de entrada para o mundo do Ska, aproveito o ticket e viaje.


Sam Cooke – Live At The Harlem Square Club, 1963 (1963-1984)

“Que puta história triste, meu!”

Sam Cooke morreu assassinado em dezembro de 1964, tomou um balaço de um gerente de Motel em uma treta muito esquisita e assim se foi um dos maiores talentos nascidos na música mundial.

O mundo ainda podia esperar muito desse monstro.

Com sua voz potente e rouca, Sam cantava com suas entranhas e expressava em suas músicas, todo o desejo e anceio por um mundo melhor, menos preconceituoso e que ainda via os negros como raça inferior.

Morreu justamente por que não se conformava com esse estado de coisas e foi nessa América que começou a virar outro país com a ascenção dos negros em várias frentes, fazendo frente a imbecis como o gerente de um Motel espelunca que desferiu os disparos contra Sam.

A construção de sua reputação musical não deixava para menos e o homem deixou canções, gravações e performances que nem em 1 milhão de anos serão superadas por outro artista.

Soul music em sua essência, Sam divertia, entretinha e emocionava com facilidades surreais e o registro desse show realizado em 1963 só mostrava que o homem não era de brincadeira e não veio pra essa vida a passeio.

Quando subia ao palco, dava tudo e o tudo dele era muita coisa!

Mais um daqueles shows em que eu queria ter estado se houvesse uma máquina do tempo, “Live At The Harlem Square Club” é assombroso, emocionante e mostrava como Sam Cooke estava acima de tudo que se fazia na época, e não era pouca coisa…

Sam nos foi tirado muito cedo…

Faça valer a pena and twist the night away.


Pacific Gas And Electric – Pacific Gas And Electric / Are You Ready (1969-1970)

Mais um daqueles casos do antes tarde do que nunca.

Discasso que francamente nunca tinha ouvido falar, mas graças ao acervo disponibilizado da discoteca pessoal do mestre John Peel, pude escutar e chapar…

Da banda não sobrou nem vestígios depois, mas como o ano de 1969 foi o ano em que mais surgiram álbuns espetaculares que ficaram perdidos no tempo, nao seria diferente com a rapaziada do Pacific Gas and Electric.

Flutuando entre blues, rock e soul a banda ficou no meio de outras como Iron Butterfly, Blood Sweat and Tears e outras.

Como algumas edições nacionais lançadas por aqui na época, esse exemplar que arrumei traz um mix dos dois principais álbuns do grupo, com a capa de um e o repertorio picado dos dois discos.

Coisas da indústria brasileira que sempre tratava seu publico consumidor como estupido e desinformado.

LP difícil de se conseguir, mas bacanérrimo.


Pointed Sticks – Waiting For The Real Thing (1978-2006)

Mais uma descoberta do mundo punk, havia Punk no Canada! E punk bom!

Pois é, o quintal dos EUA não é só composto de cantoras folk e Rush. Houve vida inteligente e bandas legais de punk rock no final dos anos 70 e começo dos anos 80 e o The Pointed Sticks foi uma delas.

Meio Punk, meio New Wave o Pointed Sticks não tinha nenhuma reinvidicação a fazer, até porque no Canadá tudo funciona e o tédio fala mais alto na hora de se fazer algo artístico para combater esse tédio da estabilidade que deve apurrinhar os jovens cidadãos mais incomodados.

Arrumadinhos, até caretinhas, a banda se formou depois que o vocalista e guitarrista Nick Jones voltou para Vancouver depois de uma temporada na Inglaterra, onde ele viu o estouro do movimento punk na gema, ficou impressionado com o novo som que estourava por lá e resolveu fazer no Canadá tudo o que ouviu.

Juntando as novas influencias americanas como Dead Kennedys, X e Dills, estava pronto o som que o Pointed Sticks faria.

Menos agressivo, mais divertido e pra cima, esse álbum é um compilado de seus compactos lancados em 1979 e do grande Perfect Youth, lançado em 1980. Hoje tudo isso é raridade de colecionador, por isso que essa coletânea Waiting For The Real Thing é essencial pra entender e apreciar o bom punk rock com acento canadense.

Durou o tempo que tinha que durar, fez a história que eles poderiam ter feito e assim se encerra mais uma linda novelinha do punk ou “Como o Punk pode curar sua vida”.