Black Ivory – Baby, Won’t You Change Your Mind (1972)

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Ótimo som para praticar o “deboismo”, nova modalidade que tem se feito necessária nesse clima de horror político e social que vivemos desde que decidimos dividir a miséria humana em direita e esquerda e fazer de conta que a merda do seu lado é mais jóinha que a do outro.

Bullshit, deboismo já.

Não conheço música mais apropriada para acompanhar esse deboismo do que um bom disco de Black Music bem no sapatinho, mas sem ser chabizeiro.

E calhou de hoje ser justamente esse disco delicia de estreia do competente e sossegado Black Ivory lançado no comecinho dos anos 70.

Macio como uma pluma se deitando no solo, suave e com firmeza, os meninos tocaram tudo nesse play e fizeram um som que é pura Nova York do inicio dos anos 70 antes das invasões da discoteca e do punk rock.

Suave, malandro e sofisticado, esse disco segue no paradigma dos álbuns de black music setentista, seguindo a risca a regra de trabalho de 10 entre 10 artistas que queriam se dar bem no business, e aqui eles seguem a cartilha direitinho.

E qual é essa cartilha?

Baladas.

Baladas melosas, baladas mais safadas, uma ou outra mais rapidinha pra dançar e tome mais balada.

Por que?

Ué, porque as mina pirava em balada romântica, ou isso é muito diferente nos dias de hoje? E os homens que queriam se dar bem com as mina, tocava umas baladas boas pra pegar as que tivessem precisando de um carinho.

Resumo, a necessidade de sexo casual leva 10 entre 10 pessoas a usar baladas para ajudar no clima (junto com birita, cinema, jantarzinho e outros recursos).

Das 9 faixas do disco, 3 são baladas estilo ultra melosas como a faixa titulo além de Time Is Love e Spinning Around, uns dois funkinhos sossegados pra mostrar que eles também quebram tudo quando chamados para a batalha como Just Leave Me Some e One-Way Ticket To Loveland, 1 estilo Motown, que é a ótima Time Is Love.

No lado B tem mais 3 baladas, algumas mais de dor de cotovelo, do estilo “patinha machucada” com It’s Time To Say Goodbye e No If’s And’s, Or But’s (tá ai um excelente nome de música né?) e uma lenta mais arrastando correntes que é a derradeira Wishful Thinking, hoje a minha favorita desse album.

Sei menos do que gostaria de música negra, mas gosto de fuçar e esse play quando achei, foi um tremendo achado.


Black Future – Eu Sou O Rio (1988)

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Fazer música difícil é fácil, mas fazer música fácil é difícil.

O Rio de Janeiro é lindo e pode ser bizarro a maior parte do tempo.

Senão isso, porque então foi lá que apareceu a banda brasileira mais parecida com o Killing Joke fora da Inglaterra?

É doido, mas o Killing Joke é a referencia que mais me vem a mente quando penso na banda Black Future.

Anarquico e fortemente influenciado pelo No Wave, o Black Future era avant-guard demais para a sua provinciana e atrasada capital fluminense.

Ou não, o som que eles ousaram fazer na Cidade Maravilhosa e inspirado pela Cidade Maravilhosa é carioca as avessas, é o carioca branco classe média que nos anos 80 tinha ódio ao samba, as escolas de samba ou Rio do Chacrinha, da Globo e do Ibrahim Sued e com um monte de referencias sonoras gringas, resolveram importar a estranhice de um som que seria o arroz com feijão em cidades como Bristol ou Manchester e implantaram em terras cariocas um som que poderia muito bem ter sido feito em Sampa.

O Lado A desse play fantástico é puro pós punk britânico, gelado, sem refrão, experimental e que revelava a busca insana de uma sonoridade que fosse completamente do que tinha sido feito até então e estava muito próximo do anarquismo das Mercenárias ou de um mezzo gótico do Kafka, e se espalha com guitarras ruidosas, baixo marcado e ruidinhos eletrônicos em faixas sensacionais como No Nights e Piada, um desfile de desabafos contra tudo que tem de ruim na sua terra natal acompanhado por um instrumental soturno e longo.

Em Sinfonia Para Um Motor, uma faixa lenta com letra estranha, é quase uma ode ao assassinato (físico ou psicológico), mas confesso que ainda sinto falta de um pouquinho de harmonia nas vozes, por mais que saiba que talvez essa nunca fosse a intenção do grupo.

O lado B segue mais feroz, como em Bem Depois… e na derradeira Thor E Loki, quase um The Cure fase Pornography. A mais alegrinha é Eu Sou O Rio, faixa titulo em que eles procuram se colocar ao lado de outros baluartes da cidade como Joãozinho Trinta, Cartola e Sérgio Mallandro.

Melodia é algo que não se ouve em nenhum momento desse disco, o experimentalismo vai ao extremo e chega a ser indigesto, meio pretencioso, meio esnobe, mas é assim as vezes que ótimos discos são ouvidos .

No fim, a banda acabou não chegando a lugar nenhum, mas ficou por ai pra quem tiver curiosidade esse pequeno delito atonal como um dos registros barulhentos mais interessantes do BRock 80s, muito menos new wave, sem molejo, sem swingue recheado de esquisitices por todos os lados.

O Black Future partiu literalmente para o confronto com esse disco que merecia mais atenção dos pesquisadores e fãs de rock brasileiro.

Ainda dá pra descobri-los, o disco é relativamente fácil de se achar.

De uma voltinha pelo lado selvagem do Rio de Janeiro.


Blackbyrds – Flying Start (1974)

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Todo mundo pra cima!

Um.. dois … três … quatro!!!

Funk pra levantar pista, estádio, ginásio, defunto, jogo do Vasco e até o Ibope da Dilma.

A capa do disco já dá toda a letra do seu conteúdo. Alegria unida a uma competência e um molho musical daqueles de devolver a alegria de viver ao coração de qualquer um.

Cada faixa vem numa forma diferente, o ano ainda era o de 1974 e eles davam passos para o que seria o futuro da black music com I Need You, numa quase discoteca, The Baby vem meio funk, com pretensões jazzísticas a la Donald Byrd e depois uma delicia de baladinha malandra de filme de putaria light com Love Is Love… Mais um pouco de jazz funk safadão pra fechar o lado com a destreza dos grandes craques do ritmo e Blackbyrds Theme é tema inspirado e com aquele som que faz bem em qualquer hora do dia ou da noite.

O que mais me impressiona nesse disco é o som da caixa da bateria, seco, duro e que dá o tom diferente de um disco de funk soul jazz que saiam aos montes nessa época.

O disco de estreia desses estudantes de Washington é praticamente perfeito, reescutando essa maravilha, ainda não achei defeito, tudo é mais do que bom, é sofisticado sem ser pedante, é controlado sem ser careta, é adulto mas não é tiozão. Enfim, tem tudo que um disco bom de funk soul precisa ter.


Bixiga 70 – Bixiga 70 (2011)

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Tem um negócio que vocês vão ver pouco por aqui é banda brasileira nova.

Nova do tipo, de 1994 pra cá.

O Bixiga é exceção por razões óbvias.

O som, a abordagem dos instrumentos, a dinâmica dos metais com a cozinha, as cordas que chegam suave, tudo costurado com piano elétrico tocado com destreza e encorpado numa produção de raríssima clarividência e sensibilidade e em especial no gênero que o grupo aborda, pois “instrumental brasileiro” é legal demais, mas faz tempo que não se produz um disco com essa maioridade.

Em tempos em que os sons Afro voltaram a pauta dos músicos, do público, de algumas casas que se atrevem e se arriscam a deixar a beleza do som afro vir a tona, os rapazes usaram sua bagagem sonora para construir um disco que vai além de meramente uma homenagem ao Afro-Beat.

Esse discasso de estreia da trupe reconecta sons ancestrais dos anos 70 e trazem um molho há muito esquecido aqui nos trópicos. O funk brazuca, a hard bossa, jazz orquestral brasileiro, “metais em brasa”, tudo sob a regência do afro sob as ações sonoras da moçada.

Pra quem tem um mínimo de cintura e sente o mínimo de sangue pulsando, não tem como ficar imune a balanços sensacionais como Balboa da Silva e Tema Di Malaika, que soam como trilhas de filmes policiais antigos, mas não ultrapassados.

É vintage, mas é anos 2000 e os rapazes escapam do meramente saudosista ou revisionista ou pior: reverencionista!

O som é quente e tão oportuno que quando surgiram, a internet fez o favor de fazer o som vazar pelo mundo e eles caíram nas graças do New York Times, que na época os apontou como um dos melhores grupos novos não norte-americanos.

Sobre os músicos, pouco a dizer: todo mundo é macaco velho de gigs, gravações, Sescs e tal, entraram muito maduros e seguros do que queriam fazer e resolveram fazer uma banda ducacete e um disco sensacional como esse.

A banda tá em atividade, os caras se dividem em projetos que dão um certo dinheiro porque afinal de contas, uma banda com 10 caras dá mais prejuizo que lucro, então só o fato de eles ainda existirem dentro de um modelo de remuneração que cada vez se ganha menos dinheiro com música gravada e show deles não dá exatamente o cachê de um Mc de funk, tão pouco de um Wesley Safadão, o negócio é se virar com o que dá e a banda vai fazendo disco…

E a barca segue…


Birdland – Birdland (1991)

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Sabe aquele cara da sua turma que é o mais atrasadinho? Tipo, enquanto todo mundo no colégio já tá adiantado no lance da vida, aquele fica meio pra tras? Chega depois de todo o mundo?

Pois é, dentro do mundo do rock inglês no fim do anos 80 pros 90, o Birdland é o atrasadinho.

Ouvindo esse disco de estréia do Birdland com esse intervalo de 24 anos, dá a impressão que eles foram a melhor banda de rock inglesa a fazer rock australiano na história.

Ouvindo seu “hit” Everybody Needs Somebody lembra muito o Hoodoo Gurus ou Australian Crawl.

Quadradinho, com barulhinho onde precisa, bons no refrão curto, canções com bases soladinhas a la rock australiano e dedilhadinho bem ao gosto do rock inglês dos anos 80.

Canções ótimas como Shoot You Down, Wake Up Dreaming e ainda cabendo uma correta versão de Rock N Roll Nigger da Patti Smith.

Tudo certo, só esqueceram de combinar com o resto do mundo pra voltar uns 4 anos no tempo, pois se esse disco tivesse sido lançado ali entre 1986 ou 1987 taria tudo certinho, mas em 1991 o mundo já tava virando outra coisa e eles estavam fazendo o tipo de rock que envelheceu muito rápido nessa época e das duas uma pra sustentar um som antigo assim:

  1. Ou você já estava no role e continua perseguindo o seu som (Teenage Fanclub, Morrissey solo, por ai) ou:
  2. Joga fora tudo o que você fez, arruma um produtor que tomasse acido e circulasse por raves pra dar uma outra cara ao disco e cai num outro mundo (Primal Scream).

O álbum de estreia dos caras ta longe de ser ruim, mas já nasceu velho em comparação com as demais guitar bands vigentes. Talvez isso explique por eles ficaram pelo caminho.

E olha que as referência eram ainda frescas como Echo & The Bunnymen, Jesus & Mary Chain, e Stone Roses, mas a década tava pedindo uma mistura que eles definitivamente não tinham pra oferecer.

Ouvi esse disco quase quando saiu, arrumei uma edição em cd uma década mais tarde, e há uns 3 anos achei essa edição limitada toda branca e por absoluto saudosismo troquei meu cd por essa ela.

A banda não deixou saudade, mas o disco ta aqui pra contar essa pequena historia de fracasso bem sucedido.


Billy Stewart – The Greatest Sides (1982)

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Acho que já escrevi sobre selos fonográficos nesse blog.

Não lembro bem quando nem qual exemplo foi.

Normalmente acho gravadora um saco, quase todas elas e trabalhando diretamente a maior parte do meu dia nos últimos 5 anos, faz meu ódio aumentar ainda mais.

Mas há dentre elas, alguns selos que mesmo compostos por sanguessugas miseráveis, deram ao mundo algumas das mais belas contribuições musicais do século passado e esse álbum traz dois deles juntos:

A Chess Records e a Sugar Hill Records.

A Chess foi um selo de Chicago fundado pelos irmãos judeus Leonard and Phil Chess nos anos 50 e foi a casa fonográfica de Bo Diddley, Etta James, Chuck Berry e Muddy Waters dentre outros, já a Sugar Hill foi um selo fundado nos final dos anos 70 por Joe & Sylvia Robinson e lançaram alguns dos mais importantes artistas do inicio do rap e hip hop como SugarHill Gang e Grandmaster Flash & Furious Five.

Ambos se dedicaram a lancar e registrar os mais importantes artistas de sua época, mas a Sugar Hill ainda tinha uma missão de resgatar artistas e álbuns importantes da música negra norte-americana que o tempo e as novas gerações foram esquecendo e alguns dos meus discos favoritos saíram justamente desses resgates.

Billy Stewart é um deles. A obra do homem estava praticamente inacessível as gerações que vieram depois dos anos 80 e a Sugar colocou no mundo essa belíssima e hoje rara coletânea com os compactos lançados nos anos 60 pelo artista.

Billy gravou pela Chess nos anos 60 e tragicamente teve sua carreira encurtada por causa de um acidente de carro em 1970, mas em vida, o cantor, compositor e multi-instrumentista deixou um legado de deliciosas gravações com o mais fino do R&B sessentistas, daqueles de te fazer levantar do sofá pra dançar, como nas incríveis Secret Love e Fat Boy, mas o homem era muito bom em baladas como I Do Love You e Sitting In The Park.

Com uma voz doce e de timbre diferente, com forte ênfase num agudo firme, parece que o ar circulava por seus dentes, pelas bochechas e saia com um sabor muito diferente. Somado a isso, o cantor tinha uma maneira particular e peculiar de cantar, usando e abusando de repetições de palavras dentro das estrofes, mesmo que originalmente elas não estivessem lá.

Isso fica evidente e brilhante em sua versão arrasadora de Summertime, fazendo dessa versão talvez a mais feliz e esperançosa, trazendo uma luminosidade que dificilmente Gershwin imaginou ser possível, pois os acordes e a cadencia levam muito mais a reflexão e uma certa saudade de bons tempos que é jogada por terra pelo simpático e carismático Billy.

Esse é daqueles discos que vale a pena estar vivo para ouvir e faz o termo “coletânea” ter seu real significado.


Billy Bragg – Life’s A Riot With Spy Vs Spy (1983/2013)

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Austin – Texas, 2013 e lá estava eu tirando o cabaçinho do festival de música alternativa ou nova mais importante do mundo.

2000 caras tocando em 5 dias em mais de 100 bares, casas noturnas e igrejas.

Sim, igrejas.

E fui numa delas que cai sem querer num dos shows mais sensacionais que esses olhinhos e esses ouvidinhos tiveram o prazer de testemunhar.

Era o primeiro dia de festival e estávamos nos familiarizando com a fauna e nos dirigíamos a uma igreja batista para um show de música clássica contemporânea a cargo do compositor Olafur Arnalds, quando estávamos em uma fila, achando estar esperando para assistir ao cara, mas na verdade era uma fila para assistir a Billy Bragg.

Que surpresa e que show!

Não podíamos ter começado melhor nossa empreitada por quatro noites incessantes de boa música e naquele ano, seu primeiro disco, completava 30 anos e essa edição bacaníssima traz o primeiro disco tal qual foi lançado na época, com seus pouco mais de 15 minutos e tocado em 45 rotações num álbum de 12’’.

No lado B, traz o álbum na integra mas tocado em 2013, e foi basicamente parte do repertório que assistimos naquela igreja.

Billy é um cantor de folk inglês com a urgência do pos-punk, traz a coisa do bandoleiro trovador, mas com sua guitarra elétrica no lugar do violão e foi um disco que causou certa estranheza por causa disso, pra ser punk precisava de mais barulho e pra ser folk precisava de menos agressividade.

Seguiu seu caminho sozinho e deixou pro mundo canções urgentes, politicas e sensacionais pra se tocar na guitarra e no violão.

Um disco tão curto e feroz como esse não precisa de resenha longa, então, enjoy it!


Billie Holiday – The Essential Billie Holiday Carnegie Hall Concert (1956) (1989)

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Quando se fala em capitalismo exploratório, o mundo do jazz está recheado de exemplos que mostram porque o gênero e sua indústria tem tanto de capitalismo sujo e exploratório.

  1. Sempre tinha um branco com dinheiro botando um preto pra tocar e ganhar pouco, nenhum dos grandes jazzistas até Miles Davis ganhou o tanto que seu talento e a grandeza de sua obra deveria ter voltado em recompensa e a maioria viveu de maneira muito ordinária e com pouco;
  2. Se não era um branco explorando, era um outro preto, e no caso de cantoras de jazz, as vezes era o marido, companheiro ou amante, que além de explorar, costumava sentar o sarrafo na patroa depois dos shows. Obs: se ficasse só na porrada tava bom, com algumas a agressão era o de menos.
  3. O valor irrisório que os músicos ganhavam por sessão de gravação fazia com que tivessem que tocar 12, 14, 16 e até 20 horas por dia (e eles não reclamavam se ganhassem por hora de estúdio);
  4. Nos shows, os artistas negros de jazz levavam menos que artistas brancos, a não ser que você fosse um Louis Armstrong ou uma Billie Holiday, de resto, era o que o sindicato mandasse pagar e as vezes nem isso, por isso que tocavam tanto.

Tem disco que acontece isso também.

E no mundo do jazz e da musica clássica tem muito juntado de repertorio com o intuito de levantar um troco ou cobrir um período especifico de um artista ou banda.

E vamos a Billie.

Esse disco especificamente traz o que seria o essencial da cantora em uma de suas ultimas apresentações no palco do Carnegie Hall em Nova York, e vem acompanhado de uma banda que por si só já seria um time do Brasil de 1970 do Jazz: Roy Eldridge no trumpet, Coleman Hawkins no piano, Chico Hamilton na batera e Kenny Burrell na guitarra só pra ficar nos famosos.

Nenhuma grande inovação no repertorio, tem o fino do repertorio mais popular da cantora: Lady Sings The Blues seguido de It Aint Nobody Business, lá pra frente vem Heart And Soul, My Man, Don’t Explain e fecha com What a Moonlight Can Do.

Repertorio duca, cantora duca, banda duca.

Mas ai voltamos ao tema “indústria do jazz” ou “indústria da musica”, o que faz desse álbum um tanto quando desconectado da cronografia da cantora, lançado fora de época, e que aproveita o mito da artista pra lançar o máximo de coisas possíveis, mesmo que isso signifique lançar material mais ou menos, que é o caso desse disco.

Burocrático, com a Billie já no seu inicio de decadência não ajuda a tornar esse álbum uma obra-prima, nem mesmo um álbum essencial, mas ainda guardo esse disco na coleção pois foi o primeiro play que me introduziu ao mundo da “Lady”, o que não quer dizer que eu tenha chegado ao amago da artista, tanto que ainda acho que Billie Holiday é muito superestimada no quesito jazz, assim como Amy Winehouse é superestimada no quesito artistas dos anos 2000.

Em comum, e o que colaboram para pintar suas biografias com cores diferentes é o fato de terem tido vidas difíceis e mortes prematuras.

De resto, perto das duas consigo juntar umas 23 cantoras muito melhores.

Mas isso é polêmica pra próxima.


Billy Preston – Everybody Likes Some Kind Of Music (1973)

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O joinha que ele dá na capa dá bem a letra do quão querido e gente boa Billy Preston é.

Ele tocou com os Beatles lá no show do telhado da Abbey Road e tocou com os Stones, então pensa que além do cara ser muito do gente fina, ele toca para caralho, senão nao ia ter essa boiada de tocar com os dois quase no mesmo periodo!

Nessa época, o cara era um dos músicos de estúdio mais requisitados do pedaço, então, por mais que fosse ultra especial tocar com os Beatles e com os Rolling Stones, o cara curtia era tocar e nao importa muito com quem fosse.

Mas tinha que ser bom.

O cara gravou muito, o que significa que fez uns trem mais ou menos, o que é o caso desse play.

Aqui o homem resolve literalmente atirar para todos os lados, na capa ele deixa isso claro o que vai rolar: Jazz, Gospel, Blues e Rock e a promessa se cumpre, os 4 elementos aparecem, mas cada um numa música, o que dá aquela sensação de que ele queria a qualquer custo ver o que colava e queria definitivamente ganhar um papel de protagonismo maior dentro da cena musical preponderante.

Tá longe de ser um disco ruim, mas é meio genérico e tudo é meio que parecido com algum similar que é melhor Mesmo nos seus melhores momentos, Preston parece ficar no meio do caminho, como em My Soul Is A Witness, um delicioso soul com toques de Gospel que lembra muito o Ray Charles. You’ve Got Me For Company é balada negona com arranjos sofisticados que lembram Billy Paul.

Mesmo sendo bom, e as faixas ai citadas são ótimas, ele fica a milhas de distâncias dos pares citados.

O restante do disco segue a mesma toada, é bom porque só tem musico foda e o cara tem muito a manha de fazer canções curtas, mas no geral não empolga.


Big Country – The Crossing (1983)

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Esse é um daqueles discos muito baratos que você encontra ou encontrava de baciada por ai. Eu cruzava com esse play lá na Combinato Discos em Foz do Iguaçu sempre. Era o tipo de disco velho de banda que não existia mais e que em 1991 estava tão longe em termos de termos de tempo e espaço quanto qualquer outra coisa que não tivesse sido lançada naquele abençoado ano.

In A Big Country foi o hit desse álbum e de vez em quando tocava nas programações de algumas “Radios Rock” ou “Radios Pop”, entenda esse pop como o pop que tocava Phil Collins, Hall & Oates e Bolshoi, pois a Taylor Swift ainda não havia nascido, assim o pop tinha outra cara e outra velocidade.

E tinha a mesma quantidade colossal de lixo que tem hoje.

O Big Country surgiu das cinzas de uma bela banda punk da Escócia chamada Skids (se todos estivermos vivos até a letra S, desse blog, voltaremos a eles), e segue a linha do que viria a seguir um som mais “guitar band”, ou seja, o som em que a guitarra é o ingrediente principal.

Considerando-se a época, o tipo de som praticado pelos rapazes era o que estava pegando e bandas como o U2 e Echo & The Bunnymen vinham na mesma onda e ganhavam fama mundial. A receita era parecida: vocais messiânicos e cheios de mensagem, som pra cima, acordes abertos, efeitos transados e hoje datados nas guitarras, baixo com som de pedaço de pau com barbante, mas diferente dos distintos anos 80, com um bom som de bateria, que ouvindo hoje não causa vergonha alheia.

O som do BC é rock para médias arenas com um bom conjunto de canções pra preencher um show de 1 hora com folga. Outro ponto pra cima do disco é a produção. Steve Lillywhite era o cara que dava as cartas e dá pra perceber que teve muito trabalho de produção na montagem das músicas, em especial em Lost Patrol, deve ter sido uma daquelas de semanas de trampo pra chegar no som final.

O álbum é alto do começo ao fim, sem muitas sutilezas, mas é bom e teve o hit que fez a banda ser lembrada pra todo o sempre.

E é isso.