Lucinda Williams – Essence (2001)

Um grito por sexo!

Temático sem querer, Essence foi o álbum que a veterana e arredia cantora e compositora norte-americana lançou logo após o seu aclamado e elogiado Car Wheels on The Gravel Road (1998) – desde sempre, um dos melhores discos dos anos 90.

Trabalhando em prol do folk e country desde 1979, a artista nunca foi uma grande vendedora pois nunca abriu mão de ser rigorosamente pessoal em tudo o que fez, levando o tempo que fosse necessário para que ficasse perfeito e do jeito que ela realmente quisesse.

Fato impensável na máquina mesquinha fonográfica.

Mas foi esse padrão de qualidade que garantiu a ela, uma discografia belíssima, delicada e completamente diferente das demais compositoras e cantoras que apareceriam nas últimas 4 décadas.

Essence foi um álbum corajoso, pois aos quase 50 anos, Lucinda não mostrava sinal algum de cansaço ou acomodação, e ainda abordando ao longo de todo o álbum desejos explícitos por abraços, beijos, sexo e romance.

Na contra-capa do álbum, uma foto da artista se arrumando em frente a um pequeno espelho, mostra lindamente suas intenções, bem como sua personalidade direta, forte e decidida. Lá ela ajeita seu cabelo loiro para dentro de um chapéu de cowgirl, trajada em uma regata vermelha e jeans justinho.

Pra quem não conhece nada sobre o som da Srta. Williams, esse disco serve pra dar uma boa introdução ao seu folk repleto de lindas canções tristes, mas longe de serem chorosas. Canções como Blue, Are You Down e Steal Your Love capturam com perfeição o espirito livre e sem amarras dessa senhora compositora e cantora de mão cheia.


Count Basie & His Orchestra – April In Paris (1956)

Pura alegria.

Ouvir esse disco é encontrar em notas musicais o que seria algo mais parecido com a alegria pura, sem amarras e inocente possíveis e existentes nesse mundo.

Ou em outros mundos.

A capa do disco mostra Count em sua faceta mais simpática possível, ao entregar flores a senhora francesa, possivelmente em algum café de Paris, ele tenta mostrar sua gratidão ao pais e ao povo que acolheu logo após a segunda metade do século XX os músicos de jazz e blues americanos com reverencias e honrarias que eles nunca tiveram em sua própria pátria.

Afinal, jazz e blues nos EUA é prata da casa. Todo mundo escutava, mas não ficava pagando esse pau todo.

Já conhecemos o resto da figura, certo?

Mas nada disso tem a ver com a França.

O álbum foi gravado em Nova York e é tido como o principal registro desse genial instrumentista, bandleader e pioneiro do jazz nos anos 30 e 40.

O disco captura Count na ponta dos cascos, com um repertório próximo da perfeição.

Alegria pura e genuína transformada em musica.

Enjoy with no reservation.


Screaming Trees – Anthology: SST Years 1985-1989 (1991)

Um dia, há muitos anos, meu amigo Walter Mercado me disse:

“O Screaming Trees era legal até o Uncle Anesthesia, dali pra frente ficou uma bosta”.

Blasfêmia! Respondi!

Como pode? Uma banda que lançou Sweet Oblivion (1992), clássico obscurecido do grunge noventista responsável pelos poucos segundos de fama que a banda conseguiu graças a ótimas músicas como: “Nearly Lost You”, “Butterfly” e “Dollar Bill” que dariam a devida projeção de bandaça cult e que só quem passava pela barreira grunge formada por Nirvana, Pearl Jam e Alice In Chains conseguia degustar e o clássico derrotado “Dust” (1996), álbum singular que enterraria qualquer vestigio de grunge que ainda houvesse no mundo e que não faria mais sentido algum após ele, não pode ser julgada como “bosta”.

Mas ouvindo essa Anthology, que reuniu os principais momentos do Screaming Trees antes da pequena e breve fama mundial, dá pra entender os motivos dessa afirmação.

A grande coisa é: Esquizofrenia. São duas bandas completamente diferentes.

O Screaming Trees que conhecemos nos anos 90: Pesadão; arrastado em grande parte do tempo; com laços musicais mais para os lados do Mad Season e Alice In Chains e influências de Black Sabbath; clima pesadão droguinha; voz gutural de Mark Lanegan; trilha do fim de mundo regado a Jack Daniels.

Agora, o Screaming Trees dessa antologia: Rápido; puxado para o punk, garageira sessentista, Stooges e indie norte-americano do inicio da década de 1980 (leia-se: R.E.M, Replacements, Mission Of Burma, Flipper, Butthole Surfers); voz menos gutural e mais gritada de Lanegan; urgência adolescente; pedais flanger; trilha ideal para acordar o mundo regado a conhaque e cerveja.

Colocando sob esse plano, dá pra dizer que a primeira fase era muito boa e o que veio depois foi ladeira abaixo, mas eu acho que eles fizeram o som certo para cada momento, assim como a transição para o Screaming Trees que conhecemos também foi inevitável.

E foi ótima nas duas fases de sua carreira, pena que será só lembrada por um ou dois hits e dificilmente veremos o Screaming Trees dessas fase inicial sendo saudada com carinho.

Até por que o ambiente em que a banda estava e a gravadora SST tinha o melhor cast de artistas da história: Dinosaur Jr., Sonic Youth, Husker Du, Minutemen, Black Flag e por ai vai…Ou seja, concorrência braba e fortissima.

No inicio dos anos 90 tinha ao seu lado além dos 3 supra-citados, vinha Soundgarden, Mudhoney, Meat Puppets (outro veterano), Jesus Lizard, Melvins, Helmet e por ai vai também…

Resumindo: O Screaming Trees sempre circulou entre os melhores, assim ficou dificil para a banda ser lembrada de cara no meio de tanta gente boa em volta.

Conselho, abaixe ou compre essa coletanea e descubra o que ninguém descobriu direito e deixou de lado: a invenção do indie rock teve fundações profundas no inicio dos anos 80 e o Screaming botou sua pedrinha nessa história.

 


Haydn / Kodaly Quartet – String Quartets Op. 77 1 e 2

Desde que comecei a ouvir música clássica pra valer (que não faz muito tempo), duas coisas ficaram claras de cara:

1 – Nunca mais eu conseguiria viver sem um bom quarteto de cordas;

2 – Haydn virou um dos meus compositores favoritos all time.

Essas duas certezas nasceram bem depois que escutei essas gravações, executadas com destreza e leveza dignas dessa lindíssima peça de Haydn, que ficou a cargo da competente Kodaly Quartet, um dos mais veteranos quartetos ainda em atividade (grupo hungaro que tocam juntos desde 1966).

Haydn hoje é pouquíssimo executado e virou peça literalmente de museu.

O que é uma pena, pois seu lindo e maravilhoso repertório praticamente não sobreviveu nos repertórios atuais das principais orquestras mundo afora, por ser uma música profundamente ligada ao inicio do século XVIII e por ter sido atropelado por Mozart e Beethoven que ainda no mesmo século redefiniram todo a revolução que ainda se daria no século seguinte com os românticos e principalmente com Wagner.

Ai, zuou-se tudo.

Ouvindo esse quarteto, cujo primeiro movimento é de uma beleza melódica das mais simples e perfeitas que já escutei na minha vida, serve para ser escutado principalmente pela manhã.

Não ouço música clássica pelos ouvidos de críticos musicais que precisam sempre teorizar, contextualizar e encher de termos técnicos justamente para manter o ouvinte de música clássica no lugar que lhe cabe. Platéia estúpida.

Essa obra é um bom motivo para se continuar vivo, respirando e esperançoso na raça humana… se somos capazes de produzir sons assim, somos capazes de produzir qualquer coisa boa.

Nunca deveríamos nos esquecer disso.

Infelizmente não achei o Kodaly fazendo Haydn, mas essa apresentação do Szymanowski quartet dá pra dar uma boa ideia, mesmo ainda não sendo a ideal

 


Cream – Wheels of Fire (1968)

O Cream em dado momento só tinha uma coisa a fazer. Terminar!

Por que?

Simples, não dava pra fazer nada melhor depois de Wheels Of Fire.

O Cream atingia seu auge.

Auge artístico, criativo e formador de novos rumos para o rock.

Era muita covardia e muito cacique prum trio que não tinha ponto fraco algum.

Vai dizer o que?

Que Eric Clapton não tocava tão bem assim? Não dava, o homem tava com o diabo no corpo e o que ele fez de mais foda foi no Cream.

E o monstro Ginger Baker? Não destruia tudo na batera? E Jack Bruce ainda era o líder no baixo, compondo e cantando as principais músicas do grupo.

Enfim, tudo isso era a mais pura verdade, só comprovada pelo canto do cisnes Goodbye, que já não era do mesmo nível dos anteriores, mesmo sendo bom.

Sem ter sido tão bombástico quanto Disraeli Gears (1967), Wheels… eleva a perfeição as revolucionárias sugestões musicais do grupo, que de tão avançadas, se tornariam os projetos sensacionais que os três embarcariam logo após o fim do trio.

O Rock proposto nesse álbum, mantém a pulsação pesada, somada aos pontos de tensão gerados pela combinação explosiva das seis cordas de Clapton com a cozinha que sempre dispensou apresentações, mas que aqui vivia um momento muito especial… talvez seja a melhor participação de Jack Bruce num álbum do Cream (e isso fez enorme diferença, pois seu baixo carregado e pesado preenchia os espaços deixados pelos solos de Clapton ou pelo frenesi endoidecido de Baker).

O Cream pendurou as chuteiras no final dos anos 60 e deixaria um rastro de seguidores que não para de aparecer desde a década de 70 até hoje.

Seja Led Zeppelin ou Tame Impala, passando por Wolfmother a Queens of The Stone Age, todo mundo que usou riffs com melodia deve vossos cachês e almas ao poderoso trio britânico.


Grandmaster Flash & The Furious Five – The Message (1982)

Tudo que já podia ser dito sobre a importância desse disco, da música “The Message” e do Grandmaster Flash para o crescimento do Rap como gênero predominante nas décadas seguintes já tá mais do que batido e sacramentado.

Mas ouvindo o álbum, o que passa despercebido pela força e urgência de “The Message” é o lado “romântico” que compreende praticamente todo o lado B desse disco, começando em “Dreaming” e “You Are”.

Grandmaster deu a tacada de gênio que precisava para conseguir se estabelecer, afinal não dá pra ficar só atirando contra tudo, chamando para o lado social o tempo inteiro e contando as agruras da segregação social pesada que a rapaziada passava lá nos States.

Todo mundo precisa se distrair nesse meio tempo e “The Message” tem esse timing importante para atrair não só o público do movimento, mas para agregar novos ouvidos e levar a mensagem adiante.

O disco começa dando o truco: She’s Fresh, It’s Nasty e Scorpio são três porradas nunca ouvidas antes, com uso inteligente de samplers, vocoders e moduladores de ritmo que dão a urgência e a modernidade que garantiria ao álbum o póstulo de revolucionário e influente. Talvez o mais influente disco de Rap e Hip-hop da história.

Como não sou especialista, me quedo no campo da suposição.

De todo o modo, “The Message” está londe de ser datado e mantem sua relevância passados 30 anos de seu lançamento.


Roberto Silva – Descendo o Morro N.2 (1959)

Roberto é o príncipe do Samba.

Talvez o melhor representante da velha guarda.

Interprete a moda antiga, mas que sem ele, alguns dos maiores compositores desse período ficariam restritos a seus respectivos guetos.

E to falando de Wilson Baptista e Geraldo Pereira, entre outros.

Graças aos céus, os dois álbuns do cantor estão em catalogo e podemos nos desfrutar das belezas dos arranjos e da inconfundível e doce voz do mestre.

Verdadeiro dinossauro do samba, Roberto ainda está vivo e como um guardião do samba-canção, serve de inspiração a todos que o sucederam e ainda moldam o bom som brazuca.

Algumas das mais lindas canções de todos os tempos estão nesse álbum:

“Aos Pés da Cruz” e “Chora Cavaquinho” são dois exemplos claro do estilo claro, seu cantar cristalino e devocional.

Roberto foi talvez o interprete de samba mais classudo que nasceu por aqui.

Você já escutou?

Então caia sem preconceitos! No Youtube não tem nada desse album, então corre atras garotinho!

 


The Shangri-las – Myrmidons of Melodrama (1964-66)

4 garotas nova-iorquinas com atitude + um produtor inventivo e genial.

Depois restaram 3 garotas nova-iorquinas com atitude + o produtor inventivo e genial.

Essa é a fórmula do Shangri-las.

Fórmula que foi tentada a exaustão nos últimos 40 anos, mas que não bateram a química e a simbiose dessa girl group sessentista.

Pop até o osso, as garotas que nessa época não passavam dos 21 anos causaram alvoroço por conta do conteúdo pra frentex de suas musicas e muito pela abordagem musical avançada que o produtor George “Shadow” Morton impôs as meninas.

O que poderia ser uma tolice em mãos erradas, virou ouro puro. Ouro esse que faz das Shangri-las o meu grupo pop favorito “all time”.

Não dá pra resistir a canções descaradas e deliciosas como “Its Easier To Cry” ou “Give Him a Great Big Kiss” ou a polemica, mas que hoje passa como inocente “Leader of The Pack”.

Vai lá e saca as letras que as garotas entoavam pra você entender o que estou dizendo.

E nesse meio tempo ainda saíram obras avançadas e gravações repletas de efeitos inéditos na época como “Past, Present and Future” ou “Remember (Walkin In the Sand)”.

A produção de Morton foi crucial para aumentar a dramaticidade onde precisava e reforçar a comunicação direta entre meio, mensagem e alvo.

Canções inesquecíveis e senso pop que dificilmente seriam igualados no futuro.

 


The B-52’s – Party Mix / Mesopotamia (1981/1982)

A New Wave e o Punk foram os melhores momentos do pop rock mundial.

A quantidade de discos bons desse período dariam um blog de 1 ano só sobre eles.

Cada nova descoberta, mais essa certeza vem a tona.

E muito dessa certeza passa pelo The B-52’s.

Não consigo pensar em outra banda tão legal, divertida, articulada e que tenha feito tanta coisa boa.

Os primeiros trabalhos da banda são espetaculares e influenciaram desde Nirvana a CSS, ninguém passou incólume de sua inventividade.

Os dois mini-albuns foram feitos para se ouvirem juntos, o primeiro é mais pop, mais pra cima e tem algumas de suas músicas mais legais e verdadeiros símbolos da New Wave: “Private Idaho”, “Give Me Back My Man” e “Dance This Mess Around” são infalíveis.

Em “Mesopotamia” eles foram mais “cabeça”, no sentido em que o The B-52’s podem ser.

Contou com a produção de David Byrne, o que deu uma envernizada e sofisticada que seria até desnecessária, tirando um pouco do senso de humor da banda, mas colocando em outro nível, experimentando com sons mais eletrônicos e estruturas mais ricas.

Enfim, duas pedradas para se ouvir de pé, pulando e mexendo os braços como um helicóptero.

The B-52’s é a banda mais divertida do planeta.


Assisão – Raizes Nordestinas (1999)

O “cangaceiro Romantico” é assim que Luiz Gonzaga se referia a Assisão.

O motivo?

Ele nasceu em Serra Talhada (Pernambuco), mesma terra gerou o ilustríssimo e temido Lampião.

Sacanagem pura.

50 anos se passaram dedicados ao forró.

As gravações dessa coleção capturam o artista entre 1976 a 1983, e mostram a evolução do ritmo que deixou de ser o forró de raiz que o Rei do Baião fez, para incorporar algumas modernices como teclado, guitarra com wah-wah (é!) e cadencias que nao se acha em discos de forró com tanta frequência.

Ótimo forró pra tocar em estabelecimentos “risca-faca” espalhados pelo Brasil afora.

Tentando achar alguma coisa sobre o artista hoje, o que encontro é um figura bizarro, loiro, de cavanhaque e que ainda se apresenta em festas juninas Nordeste afora com certa atividade e frequência.

A coletânea é divertida e traz ótimos exemplos do forró sacana que se fez lá pra riba e que não chegou por aqui, nos nossos ouvidinhos limpinhos pelos cotonetes esterilizados dos pseudo forrós de Sescs da vida.

Como no iutube não tem nada do Assisão, clica no link abaixo para voce pelo menos ouvir um tiquinho do home.

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