Pointed Sticks – Waiting For The Real Thing (1978-2006)

Mais uma descoberta do mundo punk, havia Punk no Canada! E punk bom!

Pois é, o quintal dos EUA não é só composto de cantoras folk e Rush. Houve vida inteligente e bandas legais de punk rock no final dos anos 70 e começo dos anos 80 e o The Pointed Sticks foi uma delas.

Meio Punk, meio New Wave o Pointed Sticks não tinha nenhuma reinvidicação a fazer, até porque no Canadá tudo funciona e o tédio fala mais alto na hora de se fazer algo artístico para combater esse tédio da estabilidade que deve apurrinhar os jovens cidadãos mais incomodados.

Arrumadinhos, até caretinhas, a banda se formou depois que o vocalista e guitarrista Nick Jones voltou para Vancouver depois de uma temporada na Inglaterra, onde ele viu o estouro do movimento punk na gema, ficou impressionado com o novo som que estourava por lá e resolveu fazer no Canadá tudo o que ouviu.

Juntando as novas influencias americanas como Dead Kennedys, X e Dills, estava pronto o som que o Pointed Sticks faria.

Menos agressivo, mais divertido e pra cima, esse álbum é um compilado de seus compactos lancados em 1979 e do grande Perfect Youth, lançado em 1980. Hoje tudo isso é raridade de colecionador, por isso que essa coletânea Waiting For The Real Thing é essencial pra entender e apreciar o bom punk rock com acento canadense.

Durou o tempo que tinha que durar, fez a história que eles poderiam ter feito e assim se encerra mais uma linda novelinha do punk ou “Como o Punk pode curar sua vida”.


Dr. Feelgood – Be Seeing You (1977)

O Dr. Feelgood é a banda que eu gostaria de ter tido se eu tivesse saco para ter uma banda.

Olhando a capa desse álbum dá pra dar uma idéia de quão legal devia ser tocar com eles.

Ouvindo o disco, a certeza vem na cara.

Puro rock and roll ou puro “Pub Rock” pra se ouvir entornando várias “ampolas” de cervejas, jogando uma sinuca, jogando conversa fora ou tentando arrumar mulher.

Banda inglesa apaixonada por Soul, R&B e Rock americanos, os “Doutores” fizeram miséria em carreira recheada de rock, biritas e uma vida simples e sem frescura.

Foram devidamente retratados no excelente documentário “Oil City Confidencial” do craque Julian Temple (que fez também documentários supimpas sobre Joe Strummer, Sex Pistols e a historia do Krautrock).

Bandassa, assa assa assa… quando rock and roll é só o que nos resta nessa vida, os Doutores tem a cura de todos os males…


Taste – On The Boards (1970)

Cada cavucada no passado obscuro do rock and roll e sempre se acha uma potencial banda favorita da semana, do mês ou do ano…

As vezes, até da vida.

Esse foi o caso do Taste, banda de blues-rock irlandesa da virada dos 60 pros 70 e que botou no mundo dois discassos, Taste (1969) e On The Boards (1970).

O Taste não fez historia, mas foi a banda onde o incrível guitarrista Rory Gallagher surgiu, fato esse mais do que suficiente para colocar o Taste em lugar de destaque diante das zilhões de outras bandas de blues rock que pipocaram naquele período.

Por ser um trio, tinha menos frescura, solos mais econômicos, punch, riffs, cozinha pesada e aquele tcham que artistas irlandeses possuem, principalmente quando estão com sede e fome de música.

Continuando de onde o Them começou e dando as deixas para que o Thin Lizzy seguisse na trilha mais pesada, o Taste foi o meio desse caminho. Meio R&B com o peso do Hard Rock e o Blues ali no recheio, a banda foi um desses achados que por acaso aparecerem pela minha vida nos últimos anos e que vão permanecer para sempre.

Recomendado se você gosta de Cream também.

Ou seja, tudo em casa.


Quasi – Featuring “Birds” (1998)

Existem projetos “paralelos” que são melhores do que os projetos principais e o Quasi foi um deles.

Janet Weiss, baterista que recém-assumira as baquetas do Sleater-Kinney e Sam Coomes, músico que acompanhou um punhado de artistas indie dos anos 90, se juntaram em 1997 com o firme propósito de tocar adiante um projeto de guitar-pop-rock, cheio de farfisas, orgãos e com bateria alta sensacional, que teimou em ficar a margem da multifacetada cena independente americana.

Não eram tempos propícios para pop vanguardista rápido, ruidoso e anti-cabeção.

Culpa do Radiohead e afins.

Graças a eles, o rococó indie-esquisito-progressivo-longo-enfadonho dominaria a cena, e se você não se enquadrasse, possivelmente não seria notado pela critica dominante e o publico, bem….o que é o público, afinal de contas né?

Mas é o seguinte: Featuring “Birds” é um disco brilhante perdido no tempo e no espaço, que revelou gratíssima coleção de canções simples, mas tocadas com virilidade, inteligência, sensibilidade e abusando de sonoridades retrô, deixando tudo amarrado, coeso e em 16 músicas, o que é uma vida inteira.

Tem banda hoje que se juntar 4 discos, não dá um desse.

Mesclando temas instrumentais lindinhos com algumas faixas mais esporrentas, Featuring “Birds” é um disco que não datou, sobreviveu aos anos 90 e continha fresco, alto, melodioso e ótimo.

Rock independente com orgulho, balance sua franjinha se você ainda tiver cabelo.


Brass Construction – III (1977)

A capa e a contra-capa desse álbum revelam o caráter de seus protagonistas.

Incansaveis trabalhadores do swingue e do funk, e sem esquecer da Disco, emergente, banida por roqueiros, mas adorada pelo povão e pela moçada que frequentava clubs e procuravam por garotas, garotos, drogas, diversão e basicamente tudo aquilo que se procura ainda hoje.

A diferença é o som.

Que preparo amigo!

Banda impecável, arranjos impecáveis e execução perfeita, o Brass Construction foi sem dúvida uma das melhores bandas deste período e deixou no seu legado um coctail de ritmos difícil de ser batido. Não foram tão hitmakers como Chic, Earth Wind & Fire ou Kool And The Gang, mas não deve nada a nenhuma delas.

Alias, existiram umas 129 bandas tão boas quanto as acima citadas.

O Brass é Brooklin, pesado e suave, venenoso e pra cima.

E se Nova York nos anos 70 era uma cidade barra pesada, menos segura do que hoje e menos insipida também, essa confusão refletiu diretamente na sua cena, tornando-a talvez o espaço mais democrático dos bons sons durante o final dos anos 70.

Graças ao clima combativo, criativo, laborioso e instável, gerou confusão e uma geração de bandas que fala baixo: De um lado os punks Television, Talking Heads, Modern Lovers, Suicide, Richard Hell, Blondie e Ramones, do outro os conglomerados funk: Brass Construction, B.T. Express, Voices of East Harlem, Chic, Odyssey, Newban, Natural Essence entre outras.

Deu invejinha!


Smack – Ao Vivo no Mosh / Noite e Dia (1984-1986)

Essa turma era do tempo em que ser indie significava:

Bater muito a cabeça;

Explicar milhões de vezes que tipo de som você ouvia e mesmo assim pouca gente entender;

Falar de bandas que ninguém conhecia;

Torrar toda a sua grana para conseguir ouvir e ter os discos legais que não saiam por aqui;

Torrar toda a sua grana se você quisesse tocar sons diferentes.

Isso era ser indie nessa época e não era nada facil.

E tudo se orientava para o rock, pos-punk, punk, mod e quetais e essa era a praia do Smack.

Banda paulistana que tinha na sua formação músicos, jornalistas e fanáticos por rock que queriam botar as mãos na massa e fazer música boa, pra frente, alinhada com esse som underground que se fazia na gringa.

De todos, Edgard Scandurra era de longe o mais talentoso e não por menos, foi o que seguiu mais longe e ganhou a merecida fama de guitarrista mais original do Brasil nos últimos 30 anos.

O Smack era o pos-punk tardio que também foi tardio em grande parte do globo, mas só o fato deles terem existido e feito o que fizeram, mereciam uma estatua na frente de cada barzinho que se vangloria de tocar indie rock.

Eles foram nossa vanguarda e ninguém realmente deu bola pra isso.


Vários Artistas – 7”Up! Singles Only UK 1978-1982 (….)

Ai Inglaterra, what a place.

Lá na ilha, algumas tradições não desapareceram com a modernidade.

O chá;

A monarquia;

E os compactos!

Compactos esses que saíram e ainda saem aos milhões.

Todo artista tem que fazer um compacto caso ele queira ser aceito na comunidade musical inglesa e principalmente pelo público.

Muitos desses hoje valem uma nota.

John Peel era um devoto fã dessa modalidade.

Enfim, tudo isso pra dizer o seguinte:

7” Up! É uma compilação feita na Alemanha onde os organizadores se focaram em compactos (somente compactos) de punk, pós-punk e new wave entre 78 e 82 e conseguiram fazer a melhor coletânea de obscuridades desse período que eu já ouvi.

Graças a esse cd, tomei contato com artistas que jamais teria como Glaxo Babies, Brian Brian, Weekend, I Jog & the Tracksuits, dentre outros.

E melhor, uma música mais fantástica que a outra.

O que dizer de: Dont Try To Cure Yourself da banda They Must Be Russians (uma das minhas favoritas all-time), que consiste em uma descrição pormenorizada e cientifica da gonorreia com um riff explosivo e simples substituindo um refrão que não existe.

Rigosoramente enquadrados nesse gênero refrescantes e libertador que foi o punk, são bandas que simplesmente evaporaram da face da Terra, tanto que dois deles sequer foram localizados para autorizar essas faixas nesse CD.

Precioso e necessário, essa é uma coletânea que poderia salvar a vida de qualquer um.


Meat Puppets – Huevos (1987)

O Meat Puppets é uma banda difícil de se gostar logo de cara.

O som deles sempre foi propositalmente estranho, mesmo sendo ridiculamente trivial e convencional.

Guitarra, baixo e bateria e só.

Solos de guitarra para carai…

Referencias da banda: ZZ Top e Grateful Dead.

Claro que tudo devidamente revisado para os anos 80, década de florescimento do rock alternativo americano e diretamente da SST, a melhor gravadora de rock oitentista, não tinha como sair errado.

Caipirassos e matutos, já tão na pista desde 1982 sem parar, produzindo ótimos discos ao longo desse tempo todo.

Por uma dessas inconscistencias que acontecem na vida, toda a discografia dos caras foi lançada no Brasil nos anos 90 para os 2000 pela quase extinta Trama e esse Huevos é resgate dessa leva.

Um dos discos menos importantes da carreira do Meat, mas que por razoes cientificamente inexplicáveis é o que eu mais gosto deles, por que talvez seja o disco mais bem resolvido e ao mesmo tempo ainda rápido, riffudo e com um timbre de bateria chapada que eu simplesmente amo ouvir em rock.

Quase um Southern rock punk.

I love it, i really do.


Ministry – Psalm 69 (1992)

Resolvi me dar um mimo essa semana.

A edição 180 gramas de Psalm 69 para botar no prato, girar o volume para o talo e ouvi-lo todinho, com todo o peso, velocidade, insanidade que nunca achei em nenhum outro álbum desde que me conheço por gente.

Não quer dizer que não tenham melhores, mais pesados ou tão insanos, mas Psalm teve o timing perfeito, saiu na época certa, nem um mês antes, nem um mês depois, cravado no incrível ano de 1992, no ano em que o bom rock tomava de assalto as paradas com os grunges de plantão, abrindo espaço que artistas como o Ministry, que já tinham batido na trave pudessem dessa vez acertar um sem-pulo no angulo como poucas vezes se ouviu.

Não sei como vai ser o juízo final, mas se existir um juízo final de verdade, como descrito no “Bom Livro” e existir alguma sonorização que represente a ruina, o pavor e a catástrofe, esse álbum certamente poderia preencher esse vazio.

Galgando entre o Industrial e o Heavy Metal, o Ministry sempre foi inclassificável e seus mentores: Al Jourgensen e Paul Baker fazem o contraponto da insanidade com o rigor de caxias, suficientes e eficazes para transformar a fúria em uma produção expansiva, mecânica e milimetricamente calculada em cada uma de suas explosões.

Resumo. Doido, mas friamente planejado.

Assim como o fim do mundo.


The Boomtown Rats – A Tonic For The Troops (1978)

Bob Geldof foi só um cara legal que liderou uma banda legal de New Wave dentre um zilhão de outras.

Eu disse foi, e isso foi antes dele se meter a salvador da pátria, virar ativista xiita chato visionário, criar o Live Aid (o similar a Revista Caras para artistas engajados) e por fim antes de cometer I Dont Like Mondays (música que se encaixa no padrão “Mais Ruim que Merda”).

Antes de tudo isso, ele fez um disco legal que é justamente esse sensacional A Tonic For The Troops.

Com todos os elementos que um belo disco de new wave precisa, A Tonic é a ponte exata entre a fúria do punk, o desleixo carpe diem da new wave e a descrença niilista do Pós-punk, mas com a luminosidade que músicos de bem com a vida conseguem imprimir no som.

Limpo quando tem que ser limpo, sujinho quando precisa, o Boomtown Rats conseguiu entregar canções sofisticadas, com bons arranjos, altos e baixos com perfeito senso pop, jovem sem ser retardado.

Depois desse, o Boomtown Rats seria só mais um no meio da multidão, sofisticando demais seu som, mas sem a graça desse inicio.

Até que o espertão Bob Geldof fez tudo aquilo que já tratamos por aqui.

E deixou de ser só o carinha legal.