Donna Summer – Bad Girls (1979)

Coragem!

Esse é o principal adjetivo para se referir a Donna Summer.

Coragem de se jogar num gênero novo, moderno e altamente arriscado para os padrões em que se operavam a indústria musical na época.

Como assim? Ir pra Europa e se juntar com um produtor italiano de musica eletrônica?

Hoje é óbvio, mas nos anos 70 não.

E Donna caiu de cabeça no gênero que se provaria muito mais forte, duradouro e influente que parecia na época.

Calando críticos e detratores, a parceria Donna Summer e Giorgio Moroder é um dos mais felizes encontros da história da música pop de todos os tempos no quesito “cantora certa com o produtor certo”, ao lado de outras duplas como: Quincy Jones e Michael Jackson (eu disse cantoras?, abre exceção pro Michael); George Morton e Shangri-las, Phil Spector e Ronettes, dentre outras.

O que eles fizeram juntos foi pura dinamite, talvez algumas das melhores músicas para pistas de dança já feitos em todos os tempos e Bad Girls é o melhor trabalho da dupla.

Sólido, pesado, conta com um groove foderoso que interliga todas as músicas, criando uma suite dançante que não dá refresco. E ainda tem metais pra caramba e guitarras ótimas preenchendo todos os sulcos do álbum… perfeito!

O lado A é arrasador: Hot Stuff, Bad Girls, Love Will Always Find You e Walk Away… ufa… que sequencia foderosa e no LP faz todo o sentido do mundo, até porque em 79 não existia Cd, então o conceito foi o de quebrar tudo sem tirar de dentro, virou o lado, mais pancadaria. Acabou o disco 1, vai pro disco 2 e começamos tudo de novo!

Bad Girls é um dos melhores casamentos de funk, disco, emergente new age, R&B e eletrônico que conheço. Conceitual sem ser cabeça, pop sem cretinices, cabe em qualquer discoteca de respeito sem preconceitos.

Donna se foi esse ano, mas sua música vai ficar pra sempre em todas as cantoras negras ou brancas que fizerem pop dançante até o fim dos dias.


Sly & The Family Stone – Life (1968)

Pra muita gente, hoje é o dia mais importante do ano, afinal o Corinthians pode ser campeão da Libertadores pela primeira em seus 102 anos de existência e 52 de torneio e finalmente botar fim na sina alvinegra na competição.

O sentimento de ansiedade, medo, vontade de se sentir parte de algum plano muito maior, que só eventos dessa magnitude podem causar num grupo de individios que nada tem em comum, a não ser uma paixão em comum que obriga todo mundo a se posicionar permeou todo o dia.

Seja contra ou a favor, não tem como negar, o clima é outro em São Paulo.

Se conseguíssemos usar metada dessa força mobilizadora e essa energia para fazer as mudanças serias e profundas que precisaríamos, seriamos uma nação mais rica, mais igualitária, mais justa, mais cidadã e mais responsável.

Só tem um problema…

Aí não seriamos o Brasil… íamos virar outra coisa, que sinceramente não acredito termos capacidade para tal…

Papo pra outra vez.

Responsabilidade em dobro em sonorizar essa temperatura e esse dia.

Por isso, vou de Sly porque certamente é o disco com o som que eu gostaria de ouvir antes do fim do mundo.

Se for o fim, que levemos dela um sorriso, uma alegria plena que se esbalda em Life.

Funk, rock, ruído, melodia, swingue, sonoridade explosiva e pra cima, som pra quem gosta de som, com graves, médios e agudos, que vai pra cima do ouvinte e provoca alegria, vontades, desejos de atiçar, de ser melhor, de ser mais amado, de amar mais, de viver até o fim e não esperar a morte sentado.

A trinca que o senhor Sly fez foi da pesada: começou com Life, passou por Stand (69) e findou com There’s a Riot Goin On (71) e é impossível apontar um muito melhor que o outro, pois são 3 grandes pilares dos bons sons e dos tempos conturbados que os EUA viveram.

Life é meu favorito porque ele escancarou como nenhum outro a junção de rock com soul, com uma banda inter-racial que se entendia por todos os meandros do ritmo e criou uma vida musical imponente e inesgotável para as gerações seguintes.

Sorte nossa ter existido uma banda como essae ter feito um disco como esse.

E amanhã tem mais…

Se não, bom fim de mundo pra vocês.


Dickies – The Incredible Shrinking Dickies (1979)

Mais um capitulo do punk rock nosso de cada dia.

Los Angeles é um lugar estranho.

Por isso que sua cena musical é tão doida desde sempre, e lá seja berço de movimentos tão distintos como a cena punk hardcore dos anos 70 e começo do 80 ao glam metal farofa do meio dos anos 80 passando pelo Nu-metal no meio dos anos 90 e 2000 (ainda bem que já acabou) e chegando finalmente ao pra frentex dubstep de hoje.

Se for pensar em todo mundo que nasceu ou cresceu em LA, a lista não cabe no blog.

Mas vamos focar só no final dos anos 70, que já dá banda pra cacete…

X, Germs, Zeros, Wall of Voodoo, Plasticland, Los Lobos pra ficar nas mais conhecidas.

E no meio delas tem o Dickies.

Que banda legal! Que disco massa! Que show ano passado eles fizeram no Brasil!

Pois é, mesmo no meio desse monte de festival meia bomba, teve coisas legais no subterrâneo.

Rápido, urgente e divertido como toda a banda deveria ser na sua juventude e não esse bando de artista cansado que já não tem gas nem na estréia, os Dickies tiveram vida longa (tocam até hoje), e carreira de reputação dentro do universo sonoro de LA, infelizmente não tiveram quase nenhum reconhecimento comercial, mas esse álbum é sensacional e não deixa a peteca cair em nenhum momento.

Punk rock ensoralado bobo, mas não idiota.

Parece que todo mundo que veio depois não entendeu nada, e falo dessas banda meia boca tipo Pennywise, Nofx e principalmente Bad Religion, que todo mundo ama, mas que é uma bosta.

Resultado? Offspring, Green Day, Sum 41, Simple Plan, precisa continuar?

Ahh sim e tem o Blink…


Eddy Mitchell – Rocking In Nashville (1974)

Muita cara de pau?

Muito amor ao rock and roll?

Seja um ou outro, não dá pra passar incólume por esse álbum quando você o conhece.

Diz ai: imagina um cantor francês de “rock francês” dos anos 60, tipo jovem guarda que cai nos Eua nos anos 60 e grava um disco inteiro em Nashville de covers de rocks dos anos 50 em francês…

Mas tem mais…

David Briggs (produtor dos Crazy Horses e Neil Young) toca piano;

O trio vocal tradicional The Jordanaires faz os backing vocals;

A foto da capa está o sujeito vestido de cowboy;

A bandeira federalista americana está na contra-capa e em todo o miolo do disco.

Bizarrice deliciosa.

Pior de tudo é que o disco é bom demais, cafona pracarai e bem gravado,

evitando assim o papelão que tudo dava a pinta que seria.

Esse seria um dos 13 albuns que o figura gravaria em Nashville!

O próprio Eddy fez as versões para o francês e lá dá pra escutar por exemplo: C`est un rocker (I’m a rocker, do Chuck Berry), alias a maioria das músicas são versões de Chuck Berry.

Mas tem Kenny Rogers, Joe Stampley e Tex Ritter.

Impagavel!


Ry Cooder – Bop Till You Drop (1979)

Realmente o Ry Cooder é um dos músicos mais doidos que nasceram.

Sente a trajetória:

Anos 60 – como todo o mundo, teve sua banda psicodélica, o bom The Risign Sons e como ótimo guitarrista em ascenção tocou com uma pá de gente até começar sua carreira solo nos anos 70 em que o blues foi o carro-chefe, até a página 2.

Seguiu na década de 70 com blues-rock mas grande ascenção para o soul, até que começou a pirar nos anos 80 como todo o mundo, fez a inesquecível trilha para o filme Paris, Texas tocou no Buena Vista Social Club e recentemente fez um disco de música Celta com o The Chieftains.

Ry sempre foi dono de seu destino e faz o que lhe dá na telha, não quer dizer que ele acerte sempre… tem cada bomba nessa trajetória!

O disco escolhido de hoje não é o mais importante de sua carreira, mas é o lindo e sincero tributo ao soul e rock dos anos 50 e 60, com repertório escolhido a dedo e tocado com a tosquice que seria a década de 80, Ry antecipou os timbres que se usaria a exaustão nos anos seguintes e fez um álbum completamente desconectado com o mundo de então.

É isso que torna esse disco bonito, o mundo pode estar caindo que ele não tá nem ai… vai ser cool assim lá longe…


Jimmy McGriff – Electric Funk (1969)

Orgão e piano elétricos mandando no som de um disco de jazz, e que disco de jazz amigo…

Jimmy acompanhado de Horace Ott, que escreve grande parte das músicas deste álbum, fazem parte da brilhante geração de músicos que deram gás novo ao Jazz nos anos 60 e que abriram novas possibilidades e devolveram a relevância a um gênero que começava a ficar perigosamente auto-suficiente e datado.

Cheio de quebradas, Electric Funk flerta com Soul e Funk (óbvio) e num clima de festa das boas, o álbum desce macio, perfeito e daquele jeito. Dá pra construir um ambiente só com o som quente que sai dos sulcos dessa pepita.

Grooves poderosos, graves pra todo o lado que se ouça e cozinha daquele jeito, com baixo gordão, bateria impecável conduzindo e dando aquele molho, guitarra limpinha fazendo a cama para os dois condutores principais desse trem de ritmo coloquem todas as frases em seus devidos lugares e deliciar a quem curte um Jazz Party…

Altamente recomendável.


Helmet – Meantime (1992)

E num belo dia o então estudante de violão clássico Page Hamilton descobriu o hardcore e largou os estudos rígidos para a descontração do hardcore barulhento.

Mais ou menos.

Sim, ele largou o violão clássico em favor do hardcore, mas descontração nunca passou pela cabeça do guitarrista desde que ele montou o Helmet.

Sizudez.

Dá pra descrever dessa maneira a postura do Helmet.

Com uma precisão maníaca e controlada, o quarteto nova-iorquino sempre tocou dentro de um rígido controle de tempo e recursos em que nada é desperdiçado e o menos é mais.

Tudo é tão preciso que chega a ser chato, mas o resultado são álbuns ótimos, barulhentos, pesados e com uma cozinha destruidora e poucas vezes repetida na história do rock.

A banda foi mais uma das tantas que conseguiram um lugar ao Sol depois do levante grunge e onde todo mundo queria achar o próximo Nirvana (e que não achariam).

Por sorte, bandas fudidas como o Helmet ganharam projeção e puderam fazer discos barulhentos ao longo de mais 20 anos de atividades ininterruptas.

Meantime saiu num maravilhoso ano de 1992, em que quase discos espetaculares saiam quase todo o mês: Afghan Whigs, Ministry, Superchunk, R.E.M. e tantas outras…

Saudades…


Elis Regina – … Em Pleno Verão (1970)

Desde que que eu me conheço por gente, sempre ouvi que se a Elis Regina fosse americana, ela estaria no mesmo panteão de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Sarah Vaughan e outros.

Mesmo não sendo americana, a “pimentinha” é reconhecida por todos os conhecedores e apreciadores como uma das maiores cantoras do mundo.

Conhecida por sua capacidade de interpretar, entrega absoluta em cada música e temperamento a flor da pele, Elis tem um repertório vasto e irregular, gerando álbuns ótimos e outros nem tanto. Culpa dos inúmeros direcionamentos musicais que vinham ao sabor dos ventos.

Por isso que … Em Pleno Verão é um álbum tão especial e tão bom.

Trata-se do álbum mais homogêneo da carreira de Elis, graças ao bom gosto do repertório escolhido pelo então produtor Nelson Motta, completamente antenado ao pop brasileiro, e com uma banda pequena mas poderosa: José Bertrami (Azymuth) e Wilson das Neves na bateria mandam musicalmente no álbum.

Uma coleção espetacular de temas clássicos da “little pepper” como Vou Deitar e Rolar, Até Aí Morreu Neves e principalmente As Curvas da Estrada De Santos em que Elis dá a versão definitiva da mais definitiva das músicas do Roberto Carlos.

Só uma gigante como ela pra encarar e arrebentar.

Mpb como não se faz mais e disco de cantora que também não se fez mais depois dela.


Black Oak Arkansas – Black Oak Arkansas (1971)

Southern Rock por excelência.

Três guitarristas e integrantes com nomes de guerra típicos do gênero:

Jim “Dandy” Mangrum, Rickie “Ricochet” Reynolds, Pat “Dirty” Daugherty, entre outros.

Com forte influencia de blues, country, boogie, música de saloom, o BOA foi um excelente exemplar do rock popular do inicio dos anos 70.

E que se alinhava com outros tantos: Nazareth, Allman Brothers, Brownsville Station e claro Lynyrd Skynyrd.

Como quase todas eles, a banda falava ao povão dos cinturões centrais da América protestante, beberrona, errática, que lutava pelo seu digno direito de poder entornar todas, arrancar com suas PickUps turbinadas, quebrar umas cadeiras nas costas de desafetos, fumar unzinho, viver em seus trailers White Trash e depois se arrepender amargamente por tudo isso.

O Black acabou amargando um segundo escalão e lá ficou por toda a sua existência.


Dizzy Gillespie e Trio Mocotó: Dizzy Gillespie No Brasil com Trio Mocotó (2010)

Em 2010, uma das mais legendarias sessões de jazz dos anos 70 viu o raiar do sol.

Tratou-se do histórico encontro de Dizzy com o Trio Mocotó.

Gravado em 3 conturbadas e estranhas sessões em São Paulo no ano de 1974, nos estúdios Eldorado, que ficaram guardados durante mais de 3 decadas nos pertences do inventário do jazzista norte-americano e graças ao acaso, sempre ele, essa máster foi encontrada e transformada em disco em 2010.

Dizzy já era uma lenda e seu entrosamento com o Trio brazuca na base rítmica foi espantoso e o som gerado nessas sessões é sem duvida, um dos grandes momentos do jazz samba da história.

Flertes foram muitos, inclusive do próprio Gillespie.

Mas o golaço aconteceu nessas sessões.

Solto, desprendido e leve, o encontro desses dois continentes sonoros é sensacional. O jazz, o blues e o samba se cruzam em faixas do mais puro deleite.

Dizzy com seus explosivos arroubos no trompete, já com 57 anos mas ainda com muito força no pulmão se casa perfeitamente com o humor e a ginga dos incomparáveis João Parahyba, Nereu Gargalo e Fritz Escovão.

Swingue com sofisticação.

Obrigatório em qualquer discoteca de respeito.