MDC – Smoke Signals (1986)

 

E você achava que o Dead Kennedys era uma banda de punk rock hardcore politicamente radical né?

É porque você só ouve o que a Globo e o Youtube mandam né?

Aposto que o MDC passou pouco por suas orelhas.

Principalmente nas de punk roquers que estacionaram no Sex Pistols e lá ficaram.

Ou nos que acham que o Green Day é punk.

Enfim…

O MDC segue mais pro hardcore, e acho bem mais legal que o Black Flag que é a referencia em hardcore californiano político.

Bem essa dica vai pra você, punkroquer de primeira viagem.

Lembrando um pouquinho o sentido do “punk” em questão, desde os tempos de Shakespeare, o “punk” sempre foi escoria da sociedade, não aceito em nenhuma esfera, contestador, livre sem escolha, prisioneiros de suas bordas sociais, contestando igreja, policia, estado, capitalismo, socialismo, comunismo e pregando a bagunça, o livre-arbitrio e o fim da caretice em toda as esferas.

Alguns seguiram esse preceito em diferentes esferas, sejam artísticas ou sociais, e por isso o MDC é um desses elementos que sempre pregaram de fora da bolha e foram radicais extremos em seus pontos de vista e a eles se mantiveram fiéis.

Como todo punk de verdade é ou deveria ser.

Infelizmente isso só funciona em sistemas certinhos e democráticos de verdade, que permitem espaço, vida e atuação de bandas radicais com o MDC e que eles consigam pagar suas contas, fazer seus shows e etc.

Smoke Signals é punk mais violento, já passou o calor do 77, veio o pós-punk para escurecer as roupas e as sombrancelhas, mas, nos EUA era a década ainda da Guerra Fria e comandado pelo então presidente Ronald Reagan, prato cheio para ativistas radicais como o MDC, que não se restringiram somente a governo, na verdade eles dão uma zoada geral e fazem um honesto petardo que inspiraria muitas bandas no futuro.

Ouçou muito do MDC em bandas como Ratos de Porão principalmente, mas diferente do João Gordo que não entendíamos propositalmente nada, aqui dá pra escutar melhor as letras e a voz do Davey (vocalista da banda).

Menos roupinhas coloridas e mais pancadaria = Smoke Signals.

Punk rockers, é possível fazer punk rock hardcore decente, escute sons decentes e som decente saira de suas guitarrinhas caras que papai pagou.


The Crowd – A World Apart (1980)

Você banda, quando for dar um nome, ache alguma coisa simples, mas diferente e evite sempre palavras chaves muito usadas como é o caso do The Crowd.

Tenta achar alguma coisa com um nome desses…

Depois de milhares de referencias a populações, muvucas e etc, você acaba achando alguma coisa…

Até descobrir que existe uma homônima… vá se lascar, maldito Google.

Pois é, obscurantismo em tempos de informações rápidas não é pra qualquer banda.

Invisiveis quando surgiram, invisíveis continuam até hoje, o The Crowd foi mais uma das perolas perdidas da New Wave norteamericana, que caíram aqui em casa nesse ano de redescobertas.

O som é limpo, claro, bacanessimo e rápido.

Vindo de Los Angeles e liderado pelos irmãos Decker, era mais uma banda tipicamente californiana, asism como The Weirdos, The Zeros e Dickies eram.

Punks no som, New Wavers na atitude, num meio termo entre Devo, The Cars e X, lembra em alguns momentos o Undertones e o Magazine.

Ficaram pelo meio do caminho, mas deixaram como legado esse ótimo exemplar de rock energético que hoje cai com uma luva contra a monotonia dessa modernidade cansada.

Mas santa modernidade, Batman, graças a ela, cheguei ao The Crowd.


The Real Kids – Growing Up Wrong (1993)

 

Basta cavucar que sempre você acha uma banda mais legal e divertida que a outra. A descoberta da vez, ou mais uma delas é esse quarteto desafinado mas adorável, The Real Kids, naturais de Boston, começaram a tocar em 1972, mas só gravaram em 1977 o único álbum que eles fizeram, que levava o nome da banda e foi lançado em 1978.

No meio do caminho entre os Ramones e os Modern Lovers, os Real Kids gostavam muito dos roqueiros anos 50 e tinham nas pentatonicas em blues que Chuck Berry, Bill Haley e outros se valeram para galvanizar o blues pantaneiro e “deliverar” um som para juntar turmas e dançar o bambo-lê, sua capital inspiração para tentar fazer garotas e garotos quererem dancar juntos e fazer outras coisas juntos.

Tentou, mas em um dado momento do show, o vocalista John Felice vira e diz “obrigado por virem, mas realmente tá ruim de mulher por aqui, nao tem nenhuma… ah, tem uma ali no canto, agora o show vai ser muito melhor”…

Nunca foi facil pra ninguém, amigo…

Esse disco de hoje foi lançado em 1993 pelo heroico selo Norton, que já passou por aqui graças ao inacreditável Link Wray, já assunto desse blog de algum tempo atrás.

Grown Up Wrong é uma compilação de shows ao vivo, apresentações em rádios e outros registros live captados em 1978 e pega a banda com razoável estrada, mas tocando com garra, velocidade, alegria e fazendo um bom punk rock com sorriso nos lábios.

Recomendadérrimo para quem curte um The Knack, o The Real Kids foi rápido e certeiro e teve vida curtíssima.


Die Wut – Die Fruhen Jahre 1981-1982

Até tentei achar alguma coisa sobre essa banda punk radical alemã dos anos 80, mas como não sei rigorosamente nada de alemão, qualquer informação adicional aqui vai ser mera obra de ficção.

O punk se espalhou pelo mundo e virou um monte de coisa quando cantado em línguas tão distintas como finlandês, chinês, italiano ou espanhol, mas devo admitir que punk em alemão é bem legal e nessas escavações sonoras, descobri algumas bandas punk alemãs bem interessantes ao longo dos últimos anos e ainda não decidi a minha favorita.

O Die Wut foi uma das primeiras que descobri, não sei se eles são grandes, cults ou importantes na cena punk alemã, mas tem certas coisas que não tem como ser ruim.

As gravações datam de 81 a 82 e quase todas as boas bandas punks fora dos Eua e Inglaterra que gravaram nessa época são ótimas.

O som desse álbum é tosco, mal gravado pra caramba, mas é punk inocente da melhor qualidade, com todos os elementos fundamentais que uma boa banda punk tem. Energia, vontade, riffs fáceis, bateria rápida, raiva e aquela impressão de que devia ser divertido ver um show do Die Wut.

Esse álbum, junta, pelo que entendi, o primeiro EP da banda e algumas gravações de compactos, com uma gravação ao vivo em 1982.

Excelente som pra fazer um pogo, balançar o pescoço pra frente e dar umas cabeçadas.


Slim Gaillard – Cement Mixer (1949)

Slim foi o tipo de artista moldado nos primeiros anos do “Showbizz”, em que não bastava ter um rostinho bonito ou fazer teste de sofá pra conseguir algum papel ou gravar algum disco, você tinha que se preparar para dar a um publico exigente e cruel, um pouquinho de alegria e felicidade em forma de música, arte ou simples entretetimento banal.

Slim era guitarrista, pianista, jazzista, sapateador, ator, baterista, cantor, improvisador, entertainer e o que mais pintasse ele traçava.

Fazia música pra se divertir e deixar as festas menos caretas e menos formais.

Atuou no cinema em papeis pequenos sempre no papel do jazzista engraçado.

Pouco conhecido, teve seu nome mais lembrado e ganhou certa fama, após ser citado no romance “beat” On The Road, de Jack Kerouac. Ele é o músico de quem os personagens principais são fãs e lá pro final do filme eles por acaso assistem a um show do performer em São Francisco.

E só.

Seu som é o jazz antes da revolução do Be-bop, pautado em blues, boogie e honk tonk e esse álbum captura gravações feitas pelo mestre entre 1945 e 1949.

Delicia obscura rara e perdida em tempo e espaço, abre o mes de outubro dedicado a a desbravar novos sons e sons perdidos nesse mundão de meu Deus.


Iggy & The Stooges – Raw Power (1973)

Raw Power é o meu disco de rock favorito.

Há muito tempo o é.

E muito tempo ainda será.

É o antidoto antimonotonia perfeito para essa geração musical medíocre e certinha demais.

Meio rejeitado, Raw Power foi o patinho feio do Stooges, foi a tentativa de livrar a cara de uma banda que já estava numa rota erradissima de auto-destruição, loucura e viagens erradas que findou em bagunça, clinicas de reabilitação e desprezo de publico e critica.

Vou fugir das polêmicas pentelhas sobre a produção tosca e ruim de David Bowie, como ele é gênio, sei que tinha uma razão, mesmo sem saber direito qual, mas como eu sou um doido por esse álbum, tenho a edição original com o primeiro mix do Bowie, bem como a reedição que saiu nos anos 90, com uma nova masterização mais suja, supervisionada pelo próprio Iggy e pra falar a verdade, difícil escolher qual a melhor.

Pouco tempo depois do lançamento, Iggy decretaria seu fim quando encontrou exemplares de Raw Power nas bancas de promoções das lojas.

Aquilo foi demais.

Algumas décadas passadas e Raw Power teve finalmente seu valor reconhecido por fãs, músicos e público e hoje é tido como um dos mais raivosos e desctruidores álbuns da história do rock.

Pra mim foi o disco mais poderoso que já escutei, tem tudo o que um bom disco de rock precisa: violência sônica, sexualidade a flor da pele, peso, barulhento do começo ao fim, aquele clima de desespero e demência em que tudo pode acontecer e a urgência que tudo pode acabar, seja o mundo, seja sua vida, seja seu pais.

Tudo nesse disco nos leva a crer que um futuro nebuloso se abaterá sobre nossas cabeças e nada mais mais nascerá no planeta.

Não meu filho, não é o fim do mundo, é só o fim dos tempos e inicio de uma nova Era, mais despojada, mais niilista, mais perdida e com mais vontades que a dos seus pais.

Raw Power ainda me inspira como nenhum outro, é minha dose de nitrogênio, meu álcool, minha droga mais eficiente e que me dá sempre os melhores efeitos.


Nirvana – Bleach (1989)

Putz, cada vez que ouco Bleach, melhor ele fica.

Já faz um tempo que virou meu disco predileto do Nirvana e depois que a magnânima, incrível e devastadora edição comemorativa em Vinil duplo aterrizou em casa essa semana, corro sério e real risco de fura-lo, pois está sendo executado até a exaustão, em especial o segundo disco que é uma gravação ao vivo em 1989, curta, destruidora e imbatível.

Complementa como uma luva o álbum barulhento, ambicioso e cheio de grandes ideias que na miúda, mexeu com um monte de gente nas ultimas duas décadas.

A força de Bleach está na guitarra demolidora, raivosa e espinhenta de Kurt. Tocada com alma, coração, desilusão e uma vontade gigantesca de cuspir na cara da sociedade que o relegou a condição de White Trash Boy, o disco traz uma radiografia interessante de um fim de uma geração roqueira, que tal qual o personagem Benjamim Button, que ao envelhecer vai ficando com aspecto mais jovem, encontra no jovem Kurt, esse espirito punk velho que nasceu lá em Leadbelly, passou por outras almas atormentadas como Charlie Feathers, Tav Falco, Jeffrey Lee Pierce, Gram Parsons, Greg Ginn e outros até chegar no doente Kurt Cobain e fechar essa linda historia de devoção destruidora ao rock.

A lenda começou em Nevermind e toda a história pós já tá bem documentada, agora esse antes diz muito sobre o que viria a acontecer depois.

School, Floyd The Barber, Negative Creep, Blew… violência como se ouviu poucas vezes em um disco. Tudo isso tem um preço e Kurt pagou por essa virulência 5 anos depois.

Ao lado dessa demência genial, pintava About a Girl, pop bobo a la Beatles que só um sujeito que olha lá pra frente poderia conceber também, afinal ele podia ser doido, viciado e auto-destrutivo, mas também era esperto o suficiente para saber o que precisava fazer para chegar lá e fazer seu strike.

Reescutar Bleach em toda a sua plenitude sonora foi um reencontro pra lá de especial e só reforçou na minha memoria, os bons tempos dos quas a música do Nirvana fez parte na minha adolescência.

Eu sei que fui feliz, mesmo quando tudo dizia que ia dar errado.


T.Rex – Electric Warrior (1971)

Um velho amigo me disse certa vez, The Slider tem as melhores músicas do T.Rex, mas no geral, Electric Warrior é melhor.

Verdade quase irretocável.

Pra falar a verdade, ambos são sensacionais e optar entre um ou outro é muita maldade, pra não dizer, uma puta falta de sacanagem.

Marc Bolan resolveu que ia virar rock star, assim ele começou a se portar como tal e fazer musica que o levasse a tal condição, então ele deu adeus ao violão com bongô, abraçou a Gibson Les Paul, a purpurina e uma banda maior e mais polpuda para acompanhar seu então glam rock ou rock para animar festinhas regadas a birita, fumaça e pozinhos…

Glam foi talvez o primeiro sub gênero gay na historia do Rock, ou o primeiro a libertar mais fácil a sexualidade enrustida das pessoas e tira-las da angústia e da solidão de suas incertezas.

Deixando a sociologia para os sociólogos, T-Rex foi gay antes dos New York Dolls posarem para uma capa de álbum vestidos de mulher, seu som exalava sexo e sexualidade, seja lá com quem você quisesse sensualizar, cada um escolhe seu cacho.

Fato relevante é: Marc curtia um riff grudento e aqui ele perpetuou alguns hinos riffentos: Bang a Gong e Jeepster já seriam suficientes, mas ainda tem The Motivator e Monolith… tá bom?

Ainda tem mais, uma das melhores baladas de Bolan: Lifes A Gas, em que o velho cantor de folk com citaras e meio hipongo se encontra com a purpurina setentista para uma viagem ao mundo encantado do doce.

Mas a minha favorita sempre foi e sempre será Rip Off… que andamento estranho, que bateria, que riff torto… coisa de gênio.

Carismatico e magnético, Bolan foi um espirito de luz que durou pouco entre os mortais e deixou um legado glorioso e invejável.


Bob Marley & The Wailers – Catch a Fire (1972)

Demorei para gostar de Bob Marley e seus comparsas.

E esquecam as piadinhas sobre cannabis e afins…

Demorou para eu gostar de Reggae, porque nunca fui precoce nas coisas.

Assim como demorei a entender e gostar de musica clássica, dub, country e afro-beat…

Mas depois que vem… não sai mais…

Foi o caso desse álbum.

Ouvir esse álbum, depois de tudo que já havia escutado e aprendido, caiu como nunca havia caído antes.

A delicadeza e o rude equilíbrio entre as composições de Bob, que ainda tangenciavam a soul music americana, mas já trazia a tona o reggae roots característico que seria sua marca registrada, no bojo, vinham as letras inteligentes, bem sacadas e politizadas, executadas com a maestria mantrica que só os Wailers sabiam imprimir nas bolachas.

Sem Lee Perry no comando da mesa, Marley assumiu a produção executiva ao lado do poderoso chefão da Island Record Chris Blackwell.

Resultado: menos dub, mais reggae. Menos brincadeira, mais seriedade. Menos pedrado, mais suave.

A fumaça tá toda lá…

Ainda sim, Catch a Fire é talvez a melhor pedrada que Marley e companhia colocaram no mundo.

Peter Tosh ainda está na trupe nessa época, e empunhando sua Gibson, é dele as mais lindas notas de guitarra que se ouviram em um álbum de Reggae, principalmente na definitiva “Stir it Up”.

Não dá pra fugir do óbvio, você pode ter ouvido um milhão de vezes essa música, mas ela sempre continua linda, preciosa e emocionante.

Simples e direta. Sem comparação.

To perto de dizer que esse é o meu álbum de reggae favorito, mas como ainda não descobri todos os rascunhos e notas bibliográficas desse gênero no seu todo, por enquanto Catch a Fire é o meu álbum de reggae favorito.

Até segunda ordem!


Vários Artistas – Furacão 2000 (1982)

Se teve um disco que me influenciou definitivamente em favor do funk e da discoteque negra dos anos 70 e 80 foi essa coletânea expetacular da série Furacão 2000, uma das mais tradicionais e deliciosas corporações em favor da diversão sem culpa inventadas no Brasil e no Rio de Janeiro.

Ganhei de um amigo “metaleiro”, que com sua sapiência esquizofrênica, me fez ver que funk e metal podiam conviver pacificamente num mesmo ambiente.

Ou seja: Anthrax e Gap Band juntos ok!

A Festa Furacão 2000 Já passou por muitas fases, mas sempre teve como ponta de lança e missão primordial tocar o que tivesse de mais moderno e avançado em termos de música para “dançar” e em 1982, a festa deve ter sido muito boa.

No repertório, funk e disco eletrônica do começo da década de 70 e 80: Taana Garder, Vernon Burch, Chicaco Gangsters, Lonnie Smith e mais um monte de artistas que assim como apareceram e cresceram, também desapareceram.

Mas cada um a seu cada qual, filé de primeira… música pra se divertir sem vergonha e com muita classe.

Pop na sua essência, diversão garantida ou seus 3 litros de suor de volta!