Pixies – Surfer Rosa (1988)
Publicado; 05/09/2012 Arquivado em: Discos, Música, records | Tags: joey santiago, surfer rosa Deixe um comentário
Um dia eu quis fazer música profissional.
Na real ainda quero.
Mas não tenho mais idade, nem saco de ficar correndo atrás de show, banda, perrengue e essas presepadas.
Isso é pra quem tem 20 anos e não 37.
Não existe nada mais ridículo do que revelação da música com mais 30..
Ouviu isso seu Lenine!
Se tem uma banda que me inspirou tremendamente nessa vida foram os Pixies.
Começou como sempre começam essas histórias passionais envolvendo música: Com uma fitinha K7, desta vez de Doolitle (1989), álbum seguinte a Surfer Rosa. Pop pra caraca, mas curto, rápido e perfeito, Doolitle foi um disco que escutei de cabo a rabo durante muito tempo na minha adolescencia.
Ainda escuto e ainda gosto, mas com Surfer Rosa é diferente.
O buraco é profundamente mais embaixo.
Há um clima fim de mundo e fim dos tempos nele que me intrigam até hoje.
Outra coisa que fico impressionado toda a vez que ouço Surfer Rosa é com sua agressividade. Os ataques de guitarras matemáticas e precisas de Joey Santiago, mesclado aos berros agudos e sinistros de Black Francis arrepiam em cada nova audição, especialmente em “Something Against You” ou “I’m Amazed”.. que estrondo!
E junto a essa agressividade inclassificável, o disco ainda tem “Gigantic”, na minha opinião a melhor balada indie-rock já feita e fecha com “Brick Is Red” um teminha instrumental simples de tudo, que registra em menos de 2 minutos muito mais música que qualquer banda indie metida a esperta não sonharia em fazer em uma vida inteira.
Surfer Rosa é curto, furioso, inteligente, se resolve rápido e deixa o ouvinte atônito, desnorteado, sem chão e sem entender direito que caminhão foi esse que o atropelou.
Pedra fundamental do indie-rock, pra mim esse é o Revolver dos anos 80.
Throwing Muses – In A Doghouse (1998)
Publicado; 04/09/2012 Arquivado em: Discos, Música, records | Tags: tanya donelly, throwing muses Deixe um comentário
Meu primeiro contato com esse grupo feminino foi casual, não fez nenhuma diferença em minha vida e pra falar a real foi até bem enfadonho, comecei com um álbum que saiu no Brasil no final dos anos 80 e que é muito experimental até para os meus padrões.
Achei muito cabeça, e até insuportável.
Até que um dia, graças a uma fitinha K7 que caiu na minha mão, com uma miscelânea de sons diferentes de bandas desconhecidas, estavam lá 3 músicas do Throwing Muses: Call Me, Green e I Hate My Way e aí um estado de permanente perturbação me seguiu por alguns meses e meu primeiro conceito sobre a banda precisou ser radicalmente revisto…
Na verdade, esse estado se instalou por anos, até que 1998 saiu uma edição bacanérrima dupla do álbum de estréia do Throwing Muses homônimo de 1986 + um EP de 1987 + demos gravadas em 1985, com músicas que entrariam no álbum de estréia e outras que ficariam de fora, como o clássico Fish, e pude finalmente me reencontrar com algumas das músicas mais perturbadores que tive a oportunidade de escutar em minha existência.
Tanya Donelly e Kristin Hersh compuseram um punhado de rocks estranhos, existenciais, cobertos de guitarras altas, barulhentas, seguidas de bateria nervosa, baixo de pau e mesclando sons que nunca foram tocados e cantados por vozes jovens femininas.
Meu conceito de indie-rock caiu por terra e passei a ser muito mais ranheta com as “novas bandas”, porque honestamente, ninguém conseguiria fazer um disco de estréia tão poderoso como esse.
Se você se acha descolado, cuidado, você pode se descobrir um caretinha reaça de marca maior, repense seus conceitos quando você se deparar com essa obra-prima torta, sincera, visceral e feito por garotas.
Mexeu comigo, nunca mais fui o mesmo desde então.
Guilherme Arantes – Ligação (1983)
Publicado; 03/09/2012 Arquivado em: Música | Tags: guilherme arantes, são bernardo do campo Deixe um comentário
Esse foi o primeiro disco que pedi de aniversário.
Wow!
Tinha 12 anos, morava em São Bernardo do Campo, com pouco acesso a informação, só conhecia o que tocava no rádio, não conhecia ninguém que ouvia rock e a coisa mais próxima na época que eu conhecia de um roqueiro era um carinha retardado, afinal ele tinha problemas mentais, morava há uma quadra do meu Vô e era fã viciado em Kiss e metalerão que curtia todos os generos com guitarristas velozes. Mas nessa época o Kiss tava muito farofa e associei Heavy Metal como música de debilóide e não tive a menor vontade de conhecer.
Eu gostava de pop music. Descarada.
Por alguma razão eu ouvi Guilherme Arantes e me apaixonei, precisaria fazer uma regressão para entender o porque, mas foi assim.
Ligação é disco pop com piano e teclados e melodias bonitas, e ouvi muito até a rejeição vir com tudo e passar a sentir vergonha dessa primeira escolha da tenra infância.
Fui injusto com o nosso piano-man, Arantes é um compositor muito interessante e esse álbum não é o melhor dele, mas tem uma das minhas músicas favoritas da minha tenra infância: Rolo Compressor. Pop de arena, com letra inspiradora e edificante, essa música foi um dos primeiros mantras que tive e canta-la sozinho sempre me fez bem.
O som desse disco hoje é datadasso, mas é uma deliciosa mistura de Asia, Air Supply, Foreigner e outras farofices pop com guitarras
Lá pelo meio o cara teve a moral de fazer uma canção chamada “Campos de Morango”, não é versão, só uma homenagem ao Quarteto Fabuloso e graças a ela, cheguei na original e os Beatles entraram na minha vida para começar a me endireitar.
Nem sempre a primeira porta é a mais certa, mas foi com Ligação que comecei a curtir música e hoje agradeço.
Miles Davis – Kind Of Blue (1959)
Publicado; 02/09/2012 Arquivado em: Discos, Música, records | Tags: bill evans, paul chambers Deixe um comentário
Só é possível dizer que você conhece jazz depois que escutar muito e muito e muito esse disco.
E lá estava eu há alguns anos atrás achando que conhecia jazz, mas na real não sabia picas, o que não quer dizer que hoje eu seja um expert, tô bem longe disso, mas não dá pra fugir do óbvio.
O óbvio é que em algum momento da sua vida adulta você precisa passar por Kind Of Blue.
Na real, acho que só virei homem de verdade depois que entendi Kind Of Blue.
Pagava de gatão na real, a ficha só caiu quando eu li o livro KIND OF BLUE, a biografia que conta a história da criação desse álbum, que devorei com o Cd non stop durante todo o processo.
Foi uma catarse, reaprendi a escutar música e o jazz começou mesmo a fazer sentido na minha cabeça depois dele.
Primeiro que Kind of Blue tem tudo: clima, atmosfera, biografia e 5 músicas inesquecíveis.
E tem a melhor formação da história do jazz: Coltrane e Adderley dividindo os sopros com Miles, tem Bill Evans e seu piano mágico, tem Paul Chambers no baixo e Jimmy Cobb nas baquetas.
Kind of Blue é o ABC do jazz, é o supra-sumo e basta…
O disco é suave, lírico, perfeito de ponta a ponta, com silêncios, quietudes e melodias inesquecíveis e seu formato de suítes é intrigante, parece ter sido construído sob areia movediça ou em cima de uma ponte pencil.
Não perde o pit em nenhum momento, não acelera, não tem pressa, é um disco em que tensão e relaxamento caminham juntos, como forças imcompativeis da natureza bailando e promovendo orgias.
Kind of Blue é o refugio dos oprimidos, é o último disco que se precisa escutar em vida, assim como o whysky seria o último drink, o picadinho o último prato e por ai vai…
The Jesus & Mary Chain – The Power of Negative Thinking (2008)
Publicado; 01/09/2012 Arquivado em: Discos, Música, records Deixe um comentário
Se um dia a tempestade solar chegar e destruir toda a civilização digital e tiver a necessidade de levar somente um album para a tal ilha deserta de outrora, esse seria o álbum. A caixa quadrupla dos irmãos Reid lançada em 2008.
Afinal:
Ao Jesus tudo pertence.
Ao Jesus devo meu amor ao Rock.
Ao Jesus devo minha inteira, insana e intensa devoção ao rock e aos seus formatos onde são encontrados (LP, CD, K7, DVD, MP3, WAV, YouTube, etc).
Se não fosse por Jesus, provavelmente eu estaria achando o máximo o novo disco do The XX, ficaria sem folego só de ouvir um microssegundo de Black Keys e acharia essa cena indie de hoje realmente a melhor coisa do mundo.
Graças ao Jesus, aprendi a detectar picaretas e não me deixar enganar por falsos profetas da música como: Beck, Lenny Kravitz, Rage Against The Machine, Kaiser Chiefs, Bloc Party e por ai vai…
Graças ao Jesus, me livrei de vícios como Tears For Fears, Simple Minds, A-ha e The Bolshoi…. é verdade, eu amava Sunday Morning e quer saber, nem é tão ruim assim.
Graças ao Jesus, aprendi a detestar Caetano, Chico, Gal, Bethania
Com Jesus na minha vida, as luzes se acenderam e entendi a profundidade de Beach Boys, Velvet, Stooges, The Cramps, Bo Diddley, Leonard Cohen, Syd Barrett e Shangri-las.
Entendi que para ser pop, não precisa ser brega e que para ser barulhento não precisa ser pesado e que dá para ser melódico e bonito na desgraça também.
Que ser simples não significa ser idiota e que cantar sobre o que se sente sem precisar ser canalha, e que dá pra fazer tudo isso também mentindo…
Com a música do Jesus sempre tive a esperança máxima que se eles conseguiram, todo mundo consegue.
Enfim, os irmãos Reid me ensinaram a viver, se eu aprendi, aí é outra história.
Fato inquestionável é: na música do Jesus encontro o conforto, a paz e a segurança de que uma vida toda não foi em vão e que um dia eu tive um passado e que ele não foi tão ruim assim quanto eu pinto.
Muda-se os tempos, mudam-se as estaçoes, mudam-se as modas, mas uma coisa nunca mudou nesses 37 anos:
O Jesus And Mary Chain sempre foi e sempre será a banda da minha vida.
…and keep coming…
The Isley Brothers – Brother, Brother, Brother (1972)
Publicado; 31/08/2012 Arquivado em: Discos, Música, records | Tags: isley brothers Deixe um comentário
Afirmar com convicção que os Isley Brothers foram o grupo vocal negro mais foda é forçar uma barra meio pesada, mas hoje estou intoxicado pela afinação sem igual dos irmãos Isley e a cada novo álbum que me cai na mão é mais uma aula de canto em conjunto.
Amanhã vai ser outra história, mas como o que vale é hoje, fica valendo o paragrafo acima.
Amanhã pode mudar e Temptations, Ingram Kingdom e Black Ivory tão vindo na cola para tomar esse posto.
Esse é um álbum mais funk, com uma pegada mais pesada e dá um balanço legal ao R&B suave, mas valente dos irmãos.
Som da pesada, se me entende?
Som quebradeira, com baixo dedado, guitarra segurando a base e a bateria fazendo a funça, compreende.
Giorgi Ligeti – The Ligeti Project I – Piano Concerto, Melodien Chamber Concerto and Mysteries of the Macabre (2001)
Publicado; 30/08/2012 Arquivado em: Música | Tags: steve reich Deixe um comentário
Chegando no fim do mês, que tal um sonzinho bem doentinho?
A música do compositor Ligeti não é simples de se digerir, mas certamente é a melhor coisa da música clássica pós-segunda guerra.
Muito superior a John Cale ou Philip Glass ou Steve Reich, que são os mais badalados compositores eruditos do Século XX porque propõem destruição, desconstrução enquanto Ligeti procura construir no seus contrapontos minimalistas o máximo de música possível, seja ela dramática e/ou intimamente ligada a sua própria história de vida, Ligeti é imprescindível para se entender os caminhos da música clássica e entender que há esperança e vida nesse pós-tudo caótico com referencia zero e muitos achismos.
A música de Ligeti caiu como uma luva nas trilhas sonoras de 2001 e De Olhos Bem Fechados, ambos de Stanley Kubrick, outro grande fã e apreciador das bizarrices do mestre.
É emocionante ve-lo falar sobre seu processo de composição num trecho do documentario sobre a vida de Kubrick…
Essas edições do Ligeti Project, são talvez a melhor maneira de se infiltrar na cabeça e na música desse maluco genial.
Anna Calvi – Anna Calvi (2011)
Publicado; 29/08/2012 Arquivado em: Música | Tags: arctic monkeys, siouxie and the banshees 1 comentário
Por que ninguém dá bola para a Anna Calvi?
Passou batido pela crítica hypada.
Passou batido pelos hipsters de plantão.
Passou praticamente batido pelo público indie-rock.
Só porque ela é muito boa?
Boa a moda antiga.
Canta bem pra cacete, faz um som que lembra Siouxie and the Banshees e Nick Cave, e na opinião do Peter Gabriel, “é a melhor coisa que apareceu desde Patti Smith”.
Realmente não entendi, alguém explica aí?
Discasso de estréia que foi lançado também por aqui, lá fora saiu pelo selo Domino Records que lança Vampire Weekend, Arctic Monkeys e Animal Collective dentre outros modernetes.
Guitarras profundas, canções emocionantes, curto e perfeito.
É bom demais para ser tão recente, parece musica do século passado, talvez esse seja o problema…
Mas o Black Keys também parece música do século passado e tá na crista da onda…
Fiquei confuso…
Astor Piazzola Y Su Quintet – Adios Nonino (1969)
Publicado; 28/08/2012 Arquivado em: Música | Tags: astor piazzolla, carlos gardel, jazz argentino, tango, world music Deixe um comentário
Afinal Tango é Jazz argentino ou é World Music?
Who cares, ele é argentino certo?
Então que se exploda!
Fato relevante é o seguinte: Astor Piazzolla colocou a Argentina no mapa da música e tirou o Tango do simples imaginário popular como sendo a dança trágica-típica portenha, cantada pelo Carlos Gardel.
Astor captou e enriqueceu esse plutônio com uma pitada de jazz e recolocou o Tango em lugar de destaque e respeito dentre os apreciadores, tanto do tradicional quanto do moderno.
Virou um paradigma tão forte, que ninguém ousou desafiar suas propostas musicais, até que nos últimos anos aparececem os grupos de tango eletrônico e dessem uma nova cara ao velho gênero (particularmente não gosto, mas ok, vai ao gosto do freguês).
Prefiro o velho Astor, sentado com seu acordeon declamando suas frases precisas e sofridas, acompanhada de sua impecável e precisa banda.
Paulinho e Seu Conjunto – Um Passeio Musical (1958)
Publicado; 27/08/2012 Arquivado em: Música 1 comentário
Tudo no Brasil acontece por acaso.
Por acaso, um sujeito chamado Pacifico Mascarenhas, compositor mineiro, queria ter suas músicas gravadas, mas nenhuma gravadora queria ou se importava para o que esse mineiro queria.
Com isso posto, o homem veio pro Rio de Janeiro, contratou uma banda, pagou as horas de estúdio, a masterização e a fabricação independente de uma tiragem desses LPs, voltou para Belo Horizonte e os lançou por conta própria.
Hoje em dia, isso é a regra, mas em 1959 isso significava o mesmo que fabricar um carro por conta própria e botar pra vender.
Sem querer, Pacífico fez o primeiro disco independente da música brasileira.
A obra é um sofisticado e bem tramado conjunto de sambas-canção com toques de música romântica tipicamente brasileira, seresteira e bonita, tocado com tarimba por bons músicos de bar e de estúdios cariocas.
Não por acaso, esse belo disco foi relançado em 2011 pelo valoroso selo Discobertas e passamos a conhecer a história de um brasileiro que não ficou sentado esperando a banda passar e teve seu momento de brilho.