Jam da Silva – Dia Santo (2009)

Projetos de músicos recifenses aparecem a cada 5 minutos e se deixar, eles fazem projetos de 2 em 2 minutos.

Com tanta gente produzindo, a qualidade acompanha todos eles?

Nem sempre, tenho lá minhas restrições estéticas e não sou um grande fã de boa parte dessa produção, que sempre me soa aos ouvidos como um enorme simulacro de fantasias pseudo-modernistas cujos únicos endereços de aceitação sãs as Vilas Madalenas da Vida, as festinhas “Usp-Studio SP” e o circuito culturete paneleiro de sempre.

Parentesis feito, vamos tratar de um caso de exceção desse cenário.

O percussionista pernambucano Jam Da Silva é profundo conhecedor dos molhos essenciais de um bom groove brasileiro moderno, sem ser “muderno” e seu álbum Dia Santo é prova disso.

Experiente mas sem tantos vícios, fez um álbum de vida longa. Ritmos brasileiros, dub, samba e eletrônico casam bonito nas 11 faixas.

Extremo bom gosto na escolha dos timbres, o disco é ótimo e te pega na primeira ouvida sem dar o popular “papelão” que de vez em sempre passamos quando alguém apresenta um novo artista brasileiro muito “talentoso”, “versátil” e “muderno” e aí você escuta e percebe que a mesma merda de sempre.

Jam é diferente, ainda bem!

O link pro site dele ta ai embaixo e recomendo muito a faixa 08: Dub Das Cavernas.

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Donna Summer – Bad Girls (1979)

Coragem!

Esse é o principal adjetivo para se referir a Donna Summer.

Coragem de se jogar num gênero novo, moderno e altamente arriscado para os padrões em que se operavam a indústria musical na época.

Como assim? Ir pra Europa e se juntar com um produtor italiano de musica eletrônica?

Hoje é óbvio, mas nos anos 70 não.

E Donna caiu de cabeça no gênero que se provaria muito mais forte, duradouro e influente que parecia na época.

Calando críticos e detratores, a parceria Donna Summer e Giorgio Moroder é um dos mais felizes encontros da história da música pop de todos os tempos no quesito “cantora certa com o produtor certo”, ao lado de outras duplas como: Quincy Jones e Michael Jackson (eu disse cantoras?, abre exceção pro Michael); George Morton e Shangri-las, Phil Spector e Ronettes, dentre outras.

O que eles fizeram juntos foi pura dinamite, talvez algumas das melhores músicas para pistas de dança já feitos em todos os tempos e Bad Girls é o melhor trabalho da dupla.

Sólido, pesado, conta com um groove foderoso que interliga todas as músicas, criando uma suite dançante que não dá refresco. E ainda tem metais pra caramba e guitarras ótimas preenchendo todos os sulcos do álbum… perfeito!

O lado A é arrasador: Hot Stuff, Bad Girls, Love Will Always Find You e Walk Away… ufa… que sequencia foderosa e no LP faz todo o sentido do mundo, até porque em 79 não existia Cd, então o conceito foi o de quebrar tudo sem tirar de dentro, virou o lado, mais pancadaria. Acabou o disco 1, vai pro disco 2 e começamos tudo de novo!

Bad Girls é um dos melhores casamentos de funk, disco, emergente new age, R&B e eletrônico que conheço. Conceitual sem ser cabeça, pop sem cretinices, cabe em qualquer discoteca de respeito sem preconceitos.

Donna se foi esse ano, mas sua música vai ficar pra sempre em todas as cantoras negras ou brancas que fizerem pop dançante até o fim dos dias.


Neil Young – On The Beach (1974)

Sai exu! Deixa a ziquezira pra tras…

Deixando pra tras as loucuras de uma vida rock and roll, parece que ele quis se despedir da angustia, da miséria e da loucura justamente com as roupas e armas do próprio Jorge e encarou tudo de frente.

O disco é propositalmente desleixado, mas rico em ataques seja a colegas músicos (o alvo foi o Lynyrd Skynyrd), a imprensa, o governo, a guerra, as drogas e o que mais viesse pela frente e tivesse no calo do homem.

Tão raivoso e tão esparso, o álbum ficou na geladeira por um tempão e temperamental como ele só, Neil só viria a autorizar reedições em CD muito tempo depois.

Coisa de gênio.

Louco, mas gênio.

O disco é maravilhoso e está cravado na discografia do homem entre o ainda predominantemente folk Times Fade Away (73) e Tonights The Night (75), disco que ainda refletiria esse Neil soturno, mas lutando para se manter são, vivo e poderoso perante a morte, a loucura e o fim que se avizinhava no seu encalço.

Disco de guitarras e de blues branco, On The Beach como em todo grande álbum de Young, começa com um pé na porta daqueles: Walk On é perfeita em tempo, peso, guitarras e certamente entra na lista das melhores musicas do homem.

O resto do disco é pra se ouvir no silencio absoluto, curtindo cada detalhe, cada nuance, pois o que o álbum tem de mais bonito é justamente o timing de cada track, impossíveis de serem repetidos, espontâneos em suas falhas e em seus acertos.

Lindeza de Deus!


Sly & The Family Stone – Life (1968)

Pra muita gente, hoje é o dia mais importante do ano, afinal o Corinthians pode ser campeão da Libertadores pela primeira em seus 102 anos de existência e 52 de torneio e finalmente botar fim na sina alvinegra na competição.

O sentimento de ansiedade, medo, vontade de se sentir parte de algum plano muito maior, que só eventos dessa magnitude podem causar num grupo de individios que nada tem em comum, a não ser uma paixão em comum que obriga todo mundo a se posicionar permeou todo o dia.

Seja contra ou a favor, não tem como negar, o clima é outro em São Paulo.

Se conseguíssemos usar metada dessa força mobilizadora e essa energia para fazer as mudanças serias e profundas que precisaríamos, seriamos uma nação mais rica, mais igualitária, mais justa, mais cidadã e mais responsável.

Só tem um problema…

Aí não seriamos o Brasil… íamos virar outra coisa, que sinceramente não acredito termos capacidade para tal…

Papo pra outra vez.

Responsabilidade em dobro em sonorizar essa temperatura e esse dia.

Por isso, vou de Sly porque certamente é o disco com o som que eu gostaria de ouvir antes do fim do mundo.

Se for o fim, que levemos dela um sorriso, uma alegria plena que se esbalda em Life.

Funk, rock, ruído, melodia, swingue, sonoridade explosiva e pra cima, som pra quem gosta de som, com graves, médios e agudos, que vai pra cima do ouvinte e provoca alegria, vontades, desejos de atiçar, de ser melhor, de ser mais amado, de amar mais, de viver até o fim e não esperar a morte sentado.

A trinca que o senhor Sly fez foi da pesada: começou com Life, passou por Stand (69) e findou com There’s a Riot Goin On (71) e é impossível apontar um muito melhor que o outro, pois são 3 grandes pilares dos bons sons e dos tempos conturbados que os EUA viveram.

Life é meu favorito porque ele escancarou como nenhum outro a junção de rock com soul, com uma banda inter-racial que se entendia por todos os meandros do ritmo e criou uma vida musical imponente e inesgotável para as gerações seguintes.

Sorte nossa ter existido uma banda como essae ter feito um disco como esse.

E amanhã tem mais…

Se não, bom fim de mundo pra vocês.


Dickies – The Incredible Shrinking Dickies (1979)

Mais um capitulo do punk rock nosso de cada dia.

Los Angeles é um lugar estranho.

Por isso que sua cena musical é tão doida desde sempre, e lá seja berço de movimentos tão distintos como a cena punk hardcore dos anos 70 e começo do 80 ao glam metal farofa do meio dos anos 80 passando pelo Nu-metal no meio dos anos 90 e 2000 (ainda bem que já acabou) e chegando finalmente ao pra frentex dubstep de hoje.

Se for pensar em todo mundo que nasceu ou cresceu em LA, a lista não cabe no blog.

Mas vamos focar só no final dos anos 70, que já dá banda pra cacete…

X, Germs, Zeros, Wall of Voodoo, Plasticland, Los Lobos pra ficar nas mais conhecidas.

E no meio delas tem o Dickies.

Que banda legal! Que disco massa! Que show ano passado eles fizeram no Brasil!

Pois é, mesmo no meio desse monte de festival meia bomba, teve coisas legais no subterrâneo.

Rápido, urgente e divertido como toda a banda deveria ser na sua juventude e não esse bando de artista cansado que já não tem gas nem na estréia, os Dickies tiveram vida longa (tocam até hoje), e carreira de reputação dentro do universo sonoro de LA, infelizmente não tiveram quase nenhum reconhecimento comercial, mas esse álbum é sensacional e não deixa a peteca cair em nenhum momento.

Punk rock ensoralado bobo, mas não idiota.

Parece que todo mundo que veio depois não entendeu nada, e falo dessas banda meia boca tipo Pennywise, Nofx e principalmente Bad Religion, que todo mundo ama, mas que é uma bosta.

Resultado? Offspring, Green Day, Sum 41, Simple Plan, precisa continuar?

Ahh sim e tem o Blink…


Anita O’Day – Swings Cole Porter (1959)

Ta aí um título de álbum que diz muito sobre o que se espera dele.

Se a Ella Fitzgerald deu a eternidade ao gênio com seus Songbooks, Anita deu a graça e uma genuína peraltice intransferível para as composições do mestre.

Anita foi chave de cadeia, controversa e artista de primeira.

Usou de tudo, foi ao fundo do poço e sobreviveu com a classe que faltou a todos que quiseram brincar de ser barra-pesada e foram frouxos.

Sim, me refiro a Amy Winehouse, Syd Vicious e todos esses tontos que não deram conta do recado.

Anita era foda.

Nesse disco ela canta sujo, rasgando, facil, sem trejeitos, sem exageros e sem vicios de cantoras que se esforçam para cantar.

Parece que ela está rindo e debochando com uma vivencia tão natural quanto uma Elis Regina, parecem ter sido feitas no mesmo molde.

Cada frase que ela canta tem um significado único e impossível de ser repetido: o que dizer de I Get A Kick Out Of You, It’s Delovely ou You’re The Top, é impossível escolher uma delas, o disco todo é sensacional.

Na condução da banda, o grande Billy May, maestro de primeira e nas faixas bônus, algumas outras gravações com monstros como Barney Kessel, Roy Eldridge, Buddy Clark e Jimmy Giuffre.

Artista que não faz mas hoje em dia, polêmica e genial, Anita esteve a frente do seu tempo e construiu uma carreira poderosa em um mundo absolutamente masculino como é o do jazz.

 


Eddy Mitchell – Rocking In Nashville (1974)

Muita cara de pau?

Muito amor ao rock and roll?

Seja um ou outro, não dá pra passar incólume por esse álbum quando você o conhece.

Diz ai: imagina um cantor francês de “rock francês” dos anos 60, tipo jovem guarda que cai nos Eua nos anos 60 e grava um disco inteiro em Nashville de covers de rocks dos anos 50 em francês…

Mas tem mais…

David Briggs (produtor dos Crazy Horses e Neil Young) toca piano;

O trio vocal tradicional The Jordanaires faz os backing vocals;

A foto da capa está o sujeito vestido de cowboy;

A bandeira federalista americana está na contra-capa e em todo o miolo do disco.

Bizarrice deliciosa.

Pior de tudo é que o disco é bom demais, cafona pracarai e bem gravado,

evitando assim o papelão que tudo dava a pinta que seria.

Esse seria um dos 13 albuns que o figura gravaria em Nashville!

O próprio Eddy fez as versões para o francês e lá dá pra escutar por exemplo: C`est un rocker (I’m a rocker, do Chuck Berry), alias a maioria das músicas são versões de Chuck Berry.

Mas tem Kenny Rogers, Joe Stampley e Tex Ritter.

Impagavel!


Ry Cooder – Bop Till You Drop (1979)

Realmente o Ry Cooder é um dos músicos mais doidos que nasceram.

Sente a trajetória:

Anos 60 – como todo o mundo, teve sua banda psicodélica, o bom The Risign Sons e como ótimo guitarrista em ascenção tocou com uma pá de gente até começar sua carreira solo nos anos 70 em que o blues foi o carro-chefe, até a página 2.

Seguiu na década de 70 com blues-rock mas grande ascenção para o soul, até que começou a pirar nos anos 80 como todo o mundo, fez a inesquecível trilha para o filme Paris, Texas tocou no Buena Vista Social Club e recentemente fez um disco de música Celta com o The Chieftains.

Ry sempre foi dono de seu destino e faz o que lhe dá na telha, não quer dizer que ele acerte sempre… tem cada bomba nessa trajetória!

O disco escolhido de hoje não é o mais importante de sua carreira, mas é o lindo e sincero tributo ao soul e rock dos anos 50 e 60, com repertório escolhido a dedo e tocado com a tosquice que seria a década de 80, Ry antecipou os timbres que se usaria a exaustão nos anos seguintes e fez um álbum completamente desconectado com o mundo de então.

É isso que torna esse disco bonito, o mundo pode estar caindo que ele não tá nem ai… vai ser cool assim lá longe…


Jimmy McGriff – Electric Funk (1969)

Orgão e piano elétricos mandando no som de um disco de jazz, e que disco de jazz amigo…

Jimmy acompanhado de Horace Ott, que escreve grande parte das músicas deste álbum, fazem parte da brilhante geração de músicos que deram gás novo ao Jazz nos anos 60 e que abriram novas possibilidades e devolveram a relevância a um gênero que começava a ficar perigosamente auto-suficiente e datado.

Cheio de quebradas, Electric Funk flerta com Soul e Funk (óbvio) e num clima de festa das boas, o álbum desce macio, perfeito e daquele jeito. Dá pra construir um ambiente só com o som quente que sai dos sulcos dessa pepita.

Grooves poderosos, graves pra todo o lado que se ouça e cozinha daquele jeito, com baixo gordão, bateria impecável conduzindo e dando aquele molho, guitarra limpinha fazendo a cama para os dois condutores principais desse trem de ritmo coloquem todas as frases em seus devidos lugares e deliciar a quem curte um Jazz Party…

Altamente recomendável.


Helmet – Meantime (1992)

E num belo dia o então estudante de violão clássico Page Hamilton descobriu o hardcore e largou os estudos rígidos para a descontração do hardcore barulhento.

Mais ou menos.

Sim, ele largou o violão clássico em favor do hardcore, mas descontração nunca passou pela cabeça do guitarrista desde que ele montou o Helmet.

Sizudez.

Dá pra descrever dessa maneira a postura do Helmet.

Com uma precisão maníaca e controlada, o quarteto nova-iorquino sempre tocou dentro de um rígido controle de tempo e recursos em que nada é desperdiçado e o menos é mais.

Tudo é tão preciso que chega a ser chato, mas o resultado são álbuns ótimos, barulhentos, pesados e com uma cozinha destruidora e poucas vezes repetida na história do rock.

A banda foi mais uma das tantas que conseguiram um lugar ao Sol depois do levante grunge e onde todo mundo queria achar o próximo Nirvana (e que não achariam).

Por sorte, bandas fudidas como o Helmet ganharam projeção e puderam fazer discos barulhentos ao longo de mais 20 anos de atividades ininterruptas.

Meantime saiu num maravilhoso ano de 1992, em que quase discos espetaculares saiam quase todo o mês: Afghan Whigs, Ministry, Superchunk, R.E.M. e tantas outras…

Saudades…