Julieta Venegas – Otra Cosa (2010)

Nós, macaquitos, prestamos pouca atenção ao pop latino.

Nós, macaquitos, achamos que sabemos falar espanhol, mas tomamos no nabo quando vamos a Buenos Aires ou quando queremos entender o que a Larissa Riquelme fala enquanto balança os peitos.

Nós, macaquitos, penamos para conseguir produzir um disco pop tão bom quanto o da Julieta Venegas.

Mas nós temos o Pré-Sal, a Dilma, o Cachoeira, o Teló e as propagandas de carros na TV.

Ok, tem tanta merda lá do que cá.

Mas nós, macaquitos, detestamos pop cantado em espanhol. Quase ninguém deu certo por aqui por puro preconceito da nossa parte. Os Estados Unidos do Brasil, right?

Pois bem, aqui vai um belo exemplo de pop latino descentíssimo.

A cantora, multi-instrumentista e compositora mexicana Julieta Venegas nasceu em Tijuana (famosa cidade fronteiriça conhecida por ser a principal porta de entrada de imigrantes ilegais aos EUA, além de ser uma das cidades mais violentas do mundo por conta do cartéis de traficantes).

Julieta tem carreira respeitada e elogiada em toda a América Latina desde 2003, quando publico e critica se ajoelharam diante de álbum que ajudou a projetar a cantora para o panteão das grandes artistas latinas em atividade.

Os álbuns seguintes foram melhores, Limon Y Sal de 2006 e o Unplugged de 2008 só reafirmaram a popularidade e qualidades da moça.

Otra Cosa é o quinto e mais consistente álbum de Julieta, com produção caprichada, canções ganchudas e um pop bem cantado e bem executado que se ouve pouco por ai, Otra Cosa é suave, manso, feminino e incrivelmente barroco em se tratando de pop music dos anos 2000.

Tida como uma artista alternativa, Julieta brinca com uma rica e variada gama de instrumentos para compor suas deliciosas composições de amor, que se fossem cantadas em inglês já seria uma cantora conhecida no mundo todo, inclusive por essas bandas e não precisaria pagar mico de cantar com Anas Carolinas da vida.

Otra Cosa é pop delicioso, descompromissado e leve. Chega a ser quadrado e retrogrado, mas Julieta canta com uma verdade absoluta e entrega um dos menos originais discos pop da década, mas mesmo assim é disco para se ouvir dezenas de vezes e mesmo assim não enjoar.

Como toda música pop que se preza tem que ser.


Primal Scream – Xterminator (2000)

Tá faltando violência!

Se hoje em dia, as bandinhas indie-eletrônicas pra frentex sofrem de ausência quase absoluta de força, virilidade e culhões (The XX, Friendly Fires, TuneYards, We Have Band, Panda Bear e praticamente todas as banda bem resenhadas no Pitchfork), isso nunca faltou no som do Primal Scream.

A banda foi moderna e se manteve relevante por quase 15 anos e se tornou uma das mais importantes instituições criativas dos anos 90/2000.

Cada álbum lançado pelo Primal Scream era um evento!

Em 1991 eles mudaram a cara do mundo com o genial e atemporal Screamadelica (a cada ano que passa o álbum vai ficando mais importante, influente e reverenciado).

Em 1994 eles farrearam com o irregular mas delicioso Give Out, But Dont Give Up (rock and roll descaradamente chupado da fase áurea dos Stones circa-68-72).

1997 foi o ano em que eles fizeram o primeiro ensaio que os levaria a Xterminator, com o brilhante, ofuscado e incompreendido Vanishing Point. Álbum que passou batido por público e crítica e que marcou a entrada do baixista Mani (Stone Roses) ao grupo e preencheu uma lacuna importante na condução do baixo que até então era um dos pontos fracos do Primal.

Ideias, drogas e sentimentos exacerbados. Esses são os ingredientes da combustão primalscreaminianas que atingiram seu ponto mais alto em Xterminator.

Lançado em 2000, o álbum pegou toda a referencia de Techno e cultura clubber que explodiram nos anos 90, acrescentou novas possibilidades, mais violência, mais peso, mais barulho e criaram uma das mais inacreditáveis trombadas de rock com eletrônico já registrados na história da música pop.

Impossível não se perturbar com a virulência de Swastika Eyes, impossível não concordar com o discurso violento-funk-eletrônico do cartão de visitas que abre o álbum: Kill All Hippies, em que Bobby Gillespie sugere que “matemos todos os hippies”, impossível não se emocionar com a linda, doente e terminal Keep Your Dreams.

Como em todo disco que o Primal Scream faz, eles sempre escolhem uma cover espetacular para se apropriar e transformar em Primal Scream, mantendo o ritual, essa cover é estrategicamente colocada após a faixa 8 e aqui eles atacam com um clássico garagista sessentista I’m 5 Years Ahead Of My Time, do The Third Bardo (das maravilhosos e necessários Nuggets Albums – compilações de bandas garagistas sessentistas).

Eles estavam certos e tempo todo e depois desse disco ficou impossível qualquer tentativa bem-sucedida de misturar rock e eletrônico sem ficar careta e quadrado.

Muitos tentaram, mas só eles captaram com tamanha sensibilidade e inteligência as mudanças de ares que o planeta passaria e transformaram tudo isso no último clássico mundano moderno pop.

Mais do que uma simplista apologia as drogas, Xterminator é um álbum essencialmente movido por drogas, mas seu uso como afirmou lá nos 60 o cientista suíço Albert Hoffman (pai do LSD), “estão errados quem utilizam essa substancia para recreação”.

O pessoal do Primal Scream parece ter finalmente entendido essa relação neste álbum.

Curta-o sem restrições!

E bem alto, faz favor!

 


Sérgio Sampaio – Sinceramente (1982)

Antes de falar de Sérgio, é preciso um pequeno parêntesis sobre Zeca Baleiro.

Dificilmente um disco do Zeca constará nesse blog porque eu nunca gostei de nenhum disco dele, detesto sua voz e tirando uma ou outra música, nada me interessa nele.

Se o artista Zeca não me interessa, não posso dizer o mesmo sobre suas posições morais e empreendedoras.

Aí o cara ganha muito o meu respeito.

Ele não usa leis de incentivo para tocar seus projetos, pois ele entende que essa lei deve beneficiar artistas ou projetos que não veriam a luz do dia se não existisse essa lei, leia-se: arte brasileira que “realmente” precise de captação de leis de incentivo para sairem do papel.

Ou seja, ele investe com um bom empreendedor e sonhador em seus projetos e espera que eles sejam rentáveis ou bons o suficiente para se pagarem e gerarem rendimentos que possibilitem novos investimentos.

Parece óbvio que tudo deveria ser assim, mas com a nossa classe artística acostumada a mamar nas tetas do Estado e das secretarias de Cultura Brasil afora, que acham que o Social tem a obrigação de bancar suas iluminadas existências e suas obras igualmente iluminadas e vitais, sejam eles notoriamente rentáveis ou notoriamente narcisistas: Maria Rita precisa de lei de incentivo para fazer 21 shows em grandes capitais brasileiras cantando Elis Regina? Maria Bethânia precisava daquela grana indecente para fazer um vlog de poesia? O Bradesco precisa de abatimento de imposto de renda para viabilizar uma turne do Cirque de Soleil (grupo circense mais rico e mais rentável do planeta?)

Enfim, Zeca é um outsider porque não usa grana publica para fazer seus projetos e dentre seus projetos, há o modesto selo Saravá Discos, em que ele lança seus trabalhos experimentais, mas também abriga relançamentos importantes com esse álbum resenhado hoje.

Agora vamos falar do Sérgio Sampaio.

Gênio e genioso, Sérgio sempre foi um outsider, arredio a fama e que nunca se curvou a ninguém mesmo no auge do sucesso e popularidade com o clássico Eu Quero É Botar o Meu Bloco Na Rua, que acabou transformando-o num gigantesco talento, cuja música atingiu a um restrito, barulhento e pequeno grupo de seguidores, que até hoje o reverenciam como um dos gênio loucos de nossa música.

Em 1982, Sérgio já não estava sob contrato de nenhuma gravadora e vivia de shows ocasionais quando lançou esse álbum independente.

O disco só não é uma obra-prima absoluta porque tem aquela estética pop brasileira anos 80 datadíssima com aqueles malditos arranjos de teclados Casio, aquele som de caixa de bateria de papel horroroso e aquele som de baixo nojento se enfiaram em todos discos desse período.

Mas as composições, as letras, a poesia e a voz de Sampaio estão melhores do que nunca. Pessoal e sincero como poucos foram, Sérgio dilacera sua alma como uma Edith Piaf, expondo suas magoas, tristezas e duvidas. Faixas como Nem Assim, Essa Tal de Mentira e Tolo Que Fui estão entre as melhores leitas escritas no idioma de Cabral. Faixa Seis é de causar inveja pelo humor acido como ele lida com uma separação e como desdenha do amor que já não tem mais.

Sinceramente é um documento lírico raro, rarissimo eu diria, em terras brasileiras.

É triste, bonito, com humor peculiar e belo exemplo do estilo “quixotesco” desse gênio brazuca.

Obrigado Zeca! Que novos tesouros venham!


Curumin – Japan Pop Show (2008)

O Curumin é certamente o baterista mais requisitado de São Paulo há um bom tempo.

E não é pra menos, o sujeito tem uma das baquetas mais firmes  do cenário paulistano, além de ser um tremendo compositor, arranjador e não fazer nada feio como cantor.

Japan Pop Show virou um disco cult quase automático quando saiu há 4 anos.

Primeiro que ninguém achava o disco para comprar a não ser nos shows do cara.

Segundo que o disco é bom pra dedéu, cheio de climas, temperos contemporâneos colocados com ótimo senso de timing, composições ganchudas e riqueza genuína e rara dentro do pop brasileiro contemporâneo.

Album de produtores maduros, criativos e músicos profissionais que tocam muito e conseguem ser econômicos, privilegiando as canções, tirando do gueto da thurma de amigos músicos.

Disco em que o baterista é o dono do projeto poderia ser bem chato ou punheteiro, por que afinal, não inventaram nada pior do que solo de bateria.

Graças ao senso de inteligência do artista, esse não é o caso deste ótimo e maduro trabalho.

Gravitando por lounge, texturas eletrônicas, funk, afro-beat, hip-hop old school e música brasileira safada setentista, Japan tem grooves fantásticos, uma verdade artística genuína e rara nos dias de hoje.

Nada muito original, tudo gira em torno do simulacro do que somos, do que poderíamos ser e do que gostaríamos de ser um dia.

Quem sabe, num arrombo de honestidade e talento extremos, alguém chuta essa porta e escancara tudo o que precisamos ver, ouvir e sentir?

Enquanto esse dia não vem. Curtam o Curumin, e seu belíssimo trampo solo. Que venham mais iguais a esse!


Alice Coltrane – The Impulse Story (2006)

Hoje é dia de fritura.

Mas como é segunda, vamos começar com uma mais de levezinho que é pra acelerar o cérebro, mas não derrete-lo completamente.

Então nada melhor do que uma mina que toca piano e harpa, que tal?

Alice foi casada com John Coltrane, o gênio absoluto do jazz.

Teve 3 filhos com o homem e foi sua pianista na última e mais radical fase de João antes de sua morte em 1967, momento em que o homem estava invertendo tudo, pirando o cabeção e soltando os discos mais doidos de sua carreira ao lado de Pharoah Sanders, Rashied Ali e essa pastelaria toda.

Recuperada da perda, Alice seguiu em frente como bandleader e levou adiante as pirações que ela e seu marido pretendiam fazer.

Envolvida até o ultimo fio de cabelo na filosofia e música orientais, Alice quis usar as estruturas livres das escalas indianas para enfiar seu free-jazz, dodecafonia e experimentalismos sempre muito bem acompanhada da rapaziada acima mencionada, dentro da última casa musical que acolheu os Coltrane e que apoiou todas os discos e projetos que quisessem recebendo total liberdade criativa e colhendo prestigio cada vez maior.

A Impulse Records.

Esse álbum é uma coletânea com suas principais gravações pela Impulse, o que dão 8 álbuns em quase 10 anos de gravadora.

Alice tinha voz própria e independente, o que dentro dos músicos de jazz é coisa rara. Afinal Alice era mulher e viúva de João.

Mulher no jazz só cantando e olha lá.

Imagina então pianista, harpista, compositora e band-leader? Não era fácil, mas a mulher era muito boa e ganhou um tremendo espaço no fechado e machista mundo do jazz.

Jazz moderno, cabeça mas não inacessível. Moderno, mas harmonioso e com uns climas que só por nossa senhora!

Esquenta o óleo que a pastelaria tá só começando.


Muddy Waters – Electric Mud (1968)

1968 foi um ano de muitas mudanças sociais no planetinha.

Revoltas sociais nos Eua, animos inter-raciais acirrados, Martin Luther King levava uma bala para calar sua boca, na França e na Europa os estudantes iam as ruas, no Brasil a rapaziada tomava ferro dos milicos e a música era afetada com isso.

Ai você pensa em Muddy Waters e o que vem a sua cabeça?

Bluesman por excelência, transitou entre os puristas até ser um dos primeiros e mais influentes guitarristas de blues elétrico nos anos 50, que seguiu uma longa carreira anos 60 e 70 adentro.

Mas exatamente em 68, a coisa tava feia pro homem.

Ele estava completamente a margem de tudo o que acontecia, o público não estava mais interessado em blues e só queria saber de psicodelia, drogas, Rock pesado, Hendrix, Doors e por ai vai.

Afinal de contas, era 1968.

Graças a um tremendo esforço de seu selo Chess Records, Waters foi convencido a dar uma repaginada no seu som para que ele pudesse voltar a ser ouvido.

E o homem topou e fez Electric Mud.

Mudar para continuar sendo o mesmo.

Esse é o disco de rock de Muddy Waters.

Os fãs de blues tradicional execram esse álbum. Fodam-se eles!

Bizarro é que ele influenciou praticamente todo o mundo no rock, e aqui está ele se alimentando de suas crias musicais para dar sua cara a sons novos e reaprendendo a tocar seus blues.

Em 1968, Muddy tocou sua guitarra como seu aprendiz Jimi Hendrix tocava (que sempre o reverenciou) , fez versão de Rolling Stones (que devem tudo a ele), tocou em casas moderninhas de San Francisco e Los Angeles ao lado de bandas novas psicodélicas e voltou a ser ouvido por jovens ouvidos.

O disco é uma paulada, Muddy cantava com sua voz cavernosa num tom mais urgente e poderoso como talvez nunca cantou antes, e está acompanhado de uma cozinha que quebrava rigorosamente tudo e deixava o mestre livre para fazer o que quiser e abusar dos wah-wahs e fuzzys de sua guitarra, ao lado de um Hammond nervoso aqui e um trio de guitarristas que lhe prestavam todo o apoio onde precisasse.

Graças a esse resgate, Waters ganhou pelo menos mais 10 anos de carreira muito excitante, que culminaria na sua última e frutífera parceria com o também guitarrista Johnny Winter em três discos que em breve ganharão um espacinho nesse blog.

Matador, pesado, lento e maluco se pensarmos no Muddy Waters de 53 anos com topete a lá rockabillies dedilhando sua guitarra nessa obra-prima obscura e surpreendente.

E assim o domingo se encerra.

Final de semana feliz dedicado a cultura do Disco!

 


João Donato – The New Sound Of Brazil (1965)

Mais um capitulo da história: “ Por Que o Brasil Não Deu Certo Antes?”

João é monstro!

Se João tivesse nascido nos EUA seria estudado em livros sobre a historia do Jazz, mas como ele nasceu por aqui, no máximo que ele recebe de nós macaquitos é showzinho no Sesc e uns rodapés migalhentos que jogamos a ele. Isso até que nos esqueçamos completamente quem ele é e foi.

Com os ventos favoráveis a nossa música no inicio dos anos 60 e com uma geração de artistas que nunca mais vai nascer por aqui ou em qualquer lugar do mundo, João também foi fazer grana e disco na Terra Prometida.

Já alocado em Nova York, ao invés de gravar em estúdio, o músico vidrou na casa de espetáculo Webster Hall (casa que ainda existe e abriga os melhores shows alternativos da Big Apple) e quis gravar lá. Desejo realizado!

Orquestrado pelo músico e maestro alemão Claus Ogerman (apaixonado por jazz e depois pela bossa nova), The New Sound of Brazil foi o primeiríssimo álbum de João nos EUA e ele se cercou de um time de feras digno de estariam no álbum de figurinhas de qualquer fã de jazz: Bill Goodwin (integrante do quarteto de Art Pepper) nas baquetas, Luiz Bonfá e Carlos Lyra nos violões, Richard Davis (bandas de Sarah Vaughan, Ben Webster e Gil Evans).

O disco é um clássico do brazilian jazz: bossa nova tocada com classe, elegância e finesse que só monstros como João Donato teriam a moral e capacidade de fazer.

Passado tanto tempo, o som do álbum é um deleite. Sem espaço para muitos solos ou improvisos, os músicos vão segurando as linhas das melodias que por si só são perfeitas o suficiente para que nenhum engraçadinho tenha muita coragem de mexer, são exemplos máximos da capacidade genial de balançar e harmonizar usando o jazz americano como base, mas construindo uma gama sofisticada, bonita e instigante de transições musicais que viraram os nossos “standards”. Se ficou batidasso, e você não aguenta bossa nova tanto como eu, não culpe esse disco.

Alternando composições próprias com temas de Tom Jobim, Luiz Bonfá e Dorival Caymmi, traz parcerias raras com João Gilberto e a inevitável, mas infalível e insuportável Little Boat (Menescal e Boscoli).

Um disco clássico essencial em qualquer discoteca de respeito.

Aproveita e faz assim, se tiver por NY e der um pulinho la no Webster Hall para ouvir essas bandas indie que não vão dar em nada, pensa que essa obra-prima foi construída lá e tudo vai ficar melhor.

Ou não.


The Decemberists – The King is Dead (2011)

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Todo mundo precisa de um modelo seguro para se apoiar e ter certeza de que o que você faz está certo.

O modelo dos caipiras do Decemberists é o R.E.M. e o Paul Westerberg.

Como bons caipiras do meio oeste norteamericano, eles são classificados na maldita denominação “Americana” que os ingleses tanto adoram rotular e que nós aqui também vamos na onda.

Isso quer dizer que:

–       Eles cantam em duas a três vozes;

–       Usam muito violão e instrumentos rurais como rebecas e steel guitars;

–       Produzem timbres firmes de guitarras e baixos clássicos;

–       Tem um baterista que toca com vontade se precisar;

–       Ótimas composições, certinhas em todas as suas estruturas e pra cantar junto ou acompanhar com a cabeça depois de umas 3 escutadas;

–       Nas horas vagas eles ordenham vacas, vacinam búfalos e cozinham faisões.

O Decemberists é tão certinho na sua proposta folk rock, e o disco acontece tão bonito, que é até difícil achar algum defeito. Os caras realmente não poderiam ter nascido em outro pais. O som que eles produzem é tradicional, atemporal e com ótimas musicas do começo ao fim.

Não chegam a transcender em nenhum momento, mas nos dias de hoje isso é tão raro que só o fato deles terem feito um álbum em pleno 2011 com essa beleza antiga e careta e natural ausência de contato com seu tempo é quase como se eles tivessem esculpido um rochedo de pedras no lugar de um prédio novo.

The King Is Dead agradou a moçada indie, foi bem de venda e tem a participação de Peter Buck (ex-REM) e Gillian Welch (musa folk).

Se você não escutou esse álbum ainda (afinal foi lançado em longínquos 2011, uma eternidade), saiba antes que não vai mudar sua vida mas vai dar umas dicas sobre como escutar rock de violão sem se sentir um bocó.


Eddie And The Hot Rods – Teenage Depression (1976)

Tem momentos em que a melhor mensagem é não ter mensagem alguma. E melhor é ter nada na cabeça.

Nada mais escapista do que discos escapistas por excelência.

Teenage Depression se presta a isso.

Antes do punk ser punk, surgiram bandas que ficaram no meio do caminho entre o rock de bar e o punk uniformizado de botina, alfinete na boca e sabão de Pedro no cabelo pra dar aquela levantada.

Mods deslocados no tempo e no espaço, os rapazes britânicos curtiam uma biritada boa e rocks rápidos como todo bom jovem setentista queria e precisava.

Tempos niilistas precisavam ser combatidos ou sua vida seria uma grande merda.

Os Hot Rods eram banda de bar, naquele sentido de banda de bar que toda banda de bar deveria ser. Tocavam sem frescura e sem retoques conceituais suas musicas acessíveis, rápidas e rock cru sem xororo e sem inventar moda…

Seu rock básico acabou sendo a ponte entre o que o Dr. Feelgood fez no começo da década e o que os Sex Pistols e Damned fariam na segunda metade.

Ícones das mudanças de tempo que a ilha da Rainha, eles eram mais rápido e menos pesado que o primeiro, o que foi suficiente e fundamental para que as bandas punks e new wave achassem o beat ideal para demolir o modus opperandi que impregnava e dar uma bagunçada no coreto.

Teenage Depression é tão divertido, fácil e cru que fica difícil acreditar na capacidade que alguns artistas tem em complicar, inventar rococós, afrescalhar o rock e tocar guitarra como se estivessem coçando a cabeça de macacos.

Meninos desse mundão: rock é fácil, escute esses caras e aprendam como se faz.


Dead Kennedys – Live At The Deaf Club 1979 (2004)

O DK ao vivo era esmagador e esse documento sonoro gravado antes do primeiro e clássico Fresh Fruit é a melhor porta de entrada ao mundo politizado, radical e destruidor de Jello Biafra e asseclas.

Um show monstruoso, daqueles de se ouvir e invejar as poucas almas que lá estavam e tiveram o privilégio de ouvir talvez pela primeira vez algumas das melhores músicas do punk americano de todos os tempos: California Ubber Alles, Holiday in Cambodja, Kill The Poor e um gracejo para os fãs, a então inédita Gaslight.

O mais legal de tudo nesse show é a presença de uma segunda guitarra, que na minha opinião deu outra dinâmica ao grupo e preencheu os espaços vazios que a guitarra isolada do DK marcante, aguda e única não bastava. O punk rock dos caras estava mais encorpado, mais quente e talvez teria outro futuro se tivesse se mantido assim.

Show de rock como todo o show de rock deveria ser e infelizmente não se vê mais hoje em dia.

Com o movimento punk explodindo para todos os lados, a ensolarada e sempre hippie Califórnia veria um explosão de bandas maravilhosas, idiossincráticas e divertidas como nunca apareceu antes: X, The Germs, The Dickies, The Zuttons, Red Asphalt, Xterminators e mais uma infinidade de bandas legais que nunca deram em nada.

Infelizmente a atenção do publico acabou se voltando somente para o lado radical e politico de Jello Biafra e sua insistência em causar quizomba. Sabia que ele é candidato a Presidência dos EUA? Pois é.

O fim da banda foi muito triste. Os últimos álbuns já não eram tão legais e os integrantes remanescentes do DK entraram com processo contra Jello.

Graças aos céus, tudo isso se apaga nos primeiros 15 minutos deste álbum inacreditável e poderoso.

A promessa se cumpriu em Fresh Fruit e em Plastic Surgery Disaster e o Dead Kennedys botou seu nome na história como uma das bandas mais inacreditáveis dos últimos 40anos.

Mas nesse álbum, a banda era outra e era Duca..

E ainda fizeram uma versão daquele tal de Beatles… manja?