Kevin Ayers – Yes We Have No Mananas (1976)

O que dizer de Kevin Ayers?

Na verdade, nem sei muito sobre a vida desse maluco.

Mas conheço alguns discos e nenhum é menos que espetacular.

O cara começou nos anos 60 dividindo os vocais no não menos espetacular Soft Machine, mas ele desistiu do caminho jazz-rock que o grupo seguiria e decidiu por um pop, folk inglês bagunçado, biruta e cheio de possibilidades que permearam seus álbuns.

Eximio guitarrista e ótimo compositor, Yes… carrega toda a aura do pop setentista, ora caindo para o experimental, ora caindo para o descarado sing-a-long.

No fundo tudo é rock de antigamente (antigamente, leia-se anos 70), com muita gente tocando, convidados musicais do mais alto gabarito e canções simples tocadas com alma, loucura e competência.

Imagine um Syd Barrett focado em acertar, é quase isso que o Kevin é.

Estruturas que se perdem e se acham, as musicas tomam direções engraçadas e sofisticadas mas no fim acabam num pop classe A.

Pra sair do marasmo, Kevin Ayers é ótima pedida.


Hector Costita Sexteto – Impacto (1964)

Yes, nós tivemos coisa melhor do que banana.

Tivemos a hard bossa ou o nosso jazz e pra dizer de boca cheia… bom pra cara…

Hector Costita é só um dos inúmeros bandleaders brazucas que quebraram tudo na melhor fase musical do Brazilzão.

Basta vasculhar pelos arquivos, discos e sons pela internet pra chegar em pérolas inacreditáveis do nosso som instrumental.

A lista de artistas e músicos é vasta.

Meu interesse começou a ficar mais sério depois que ouvi este exemplar de jazz made in Brazil, e ai eu descobri que tínhamos uma grandeza que nos foi negada por anos e que sempre foi encoberta pelos bossa-novistas, tropicalistas e neo-tropicalistas.

Já de cara, o primeiro tema é Le Roi, um delicioso jazz que flutua entre circunferências sonoras que instigam ao mesmo tempo que entregam o jogo. O cuidado com o ritmo é notório, por isso que as baquetas estão na mão de Edison Machado (outro gênio) e graças ao seu toque, canções como Tókio e Impacto são o que são.

Esse álbum foi reeditado há alguns anos na fantástica coleção Som Livre Masters e carrega no seu cerne, um dos mais requintados e robustos sons produzidos por aqui.

A sonoridade desse álbum, os arranjos e a dinâmica não ficam nada a dever para similares gravados por Verve, Blue Note ou Prestige.

E viva a Fermata Do Brasil.

Ainda lembro da já decadente loja de instrumentos, localizada na Av. Ipiranga que agonizou e morreu durante os anos 90, bem como sua editora de partituras e obras que mais tarde sucumbiriam aos malditos tempos modernos, que não permitem a lugares mágicos e históricos como essa pequena porta que inundou de música e instrumentos a cidade de S.Paulo e o Brasil continuar contando sua história.

Precisamos realmente cuidar do que veio antes, senão nunca vai sobrar nada pra contar daqui pra frente.


The Stone Roses – The Stone Roses (1989)

Já que o disco de hoje é uma obviedade só e já que a banda voltou a fazer turnês e bem que podia passar por aqui… mas vai ser difícil… hoje a resenha vai ser um festival de bobagens e obviedades bem ao estilo despojado dos Roses.

– O álbum de estréia dos Roses é o melhor álbum de estréia da história do rock (talvez The Sun Sessions, do Elvis Presley seja a outra escolha);

– The Stone Roses é o melhor disco feito na Inglaterra (rivaliza com Unknown Pleasures do Joy Division);

– The Stone Roses é o melhor disco feito em Manchester (rivaliza com Unknown Pleasures do Joy Division);

– The Stone Roses é o melhor disco de rock inglês;

– The Stone Roses é um disco que não se parece com nada que veio antes e com nada que veio depois, pensando que estávamos em 1989 isso é Reinventar a roda;

– The Stone Roses tem a melhor faixa de abertura de disco e de quebra, a melhor faixas 2 e faixas 3 também;

– Um disco que tem: She Bangs The Drums, Bye Bye Badman, Sugar Spun Sister e termina com This Is The One vai sempre estar acima do resto dos demais mortais;

– O Stone Roses tem o melhor guitarrista inglês dos últimos 40 anos (ok, Pete Townshend empata);

– O Stone Roses é a melhor banda inglesa da história, ou é a minha banda inglesa favorita (ok, o Small Faces é melhor e também é minha banda inglesa favorita);

– O Stone Roses tem o vocalista mais idiota da história (sem competição);

– O Stone Roses foi a banda que mais se sabotou na história;

– O Stone Roses fez a maior cagada da história, por isso ela só virou uma puta banda cult e não uma banda que deveria ter enchido todos os estádios que os babacas do Oásis, Blur e Coldplay.. urghh encheram nas décadas seguintes;

– O Stone Roses foi a melhor banda de Manchester, a São Bernardo do Campo inglesa (e olha que a cidade teve Joy Division, The Fall e Smiths);

Eu amo Stone Roses, qualquer sujeito minimamente informado deveria amar também.

E fim.


The Boys – Alternative Chartbusters (1978)

Cada revirada no baú da New Wave e do punk pop dos anos 70 pros 80 e não canso de descobrir maravilhas em cima de maravilhas.

A descoberta da vez foi a banda The Boys, que poderia ter sido muito maior do que foi, pois o som dos caras era impecável, comercial, pra cima sem ser bobo e muito, muito divertido.

Punk pop até o osso, alto, rápido, exatamente para os fãs de Ramones, Buzzcocks, Stiff Little Fingers e demais. Não fica nada a dever pra eles.

Altenative é o segundo e expetacular álbum dos caras e que poderia ter acontecido bonito… mas não rolou… eu não sei porque…

O álbum abre com Brickfield Nights, musica ideal para escutar enquanto você troca de roupa para a balada rock and roll.  T.C.P. hoje é a minha favorita do álbum, chega a quase ser dramática dentro do que uma banda punk consegue ser.

E o que dizer de Backstage Pass, U.S.I. e Not Ready?

Alias, não tem uma musica ruim nesse disco!

É um balsamo para os ouvidos sedentos por um bom rock rápido.

Inexplicaveis apagões que dão nas cabeças do mundo e que jogam pro limbo artistas como The Boys e um zilhao de outros…

Ainda bem que existe youtube, internet e vinil… vai atrás.


The Blue Nile – Hats (1989)

Tecnopop e synthpop sempre vão bem com um tempo gelado, cinza e boring, acompanha bem um conhaquinho e um edredon.

Na Escocia, o tempo é assim o tempo todo.

Por isso que de lá saíram tantas bandas soturnas e atmosféricas.

Depois que a trilha do filme “Drive”, genial e maravilhosa, comoveu corações e mentes, o tecnopop dos anos 80 voltou com tudo pro mapa da música e artistas novos copiam estilo, jeito, som e timbres que estavam lá nos anos 80 e nos últimos revivals alguém esqueceu deles.

O Blue Nile é uma banda de um homem só: Paul Buchanan e teve uma vida útil bem expassada, lançando discos de vez em quando, com intervalos gigantescos e preguiçosos (em mais de 20 anos, só 4 albuns), mas cada um deles é especial e bonito.

Meu favorito é esse de 89, que ele levou quatro anos pra fazer e fez bem feito. Romantic pop composto 100% a base de sintetizadores, baterias eletrônicas, teclados, synth bases e climas bonitos de cabaré em fim de noite, completamente e devotamente influenciado por Roxy Music e Brian Ferry.

Lindo de morrer, Hats é leve, rico, atmosférico e cheio de climas que só um maníaco perfeccionista poderia ter concebido.

Dá pra perceber que teve muito trampo pra chegar no resultado final.

O que prova que inspiração sem paciência e edição é só inspiração desperdiçada.

O labor na música é importante e Hats é um ótimo exemplo disso.


The Left Banke – Walk Away Renée / Pretty Ballerina (1967)

Quando alguém se refere a rock clássico com influencias sinfônicas, o disco mais lembrado de todos é Pet Sounds (1966), dos Beach Boys e sua riqueza infindável de temas e soluções sonoras e quando nos lembramos do que aconteceu em 1967, o disco mais citado sempre foi e sempre será Sgt Peppers, dos Beatles e sua pomposidade psicodélica, circense conceitual.

E como fica o Left Banke nessa história?

Nova York em 67 só entrava para o mapa da música por causa do Velvet Underground e sua transgressão subterrânea, cujos efeitos seriam notados nas décadas seguintes.

Por volta dessa época, o Silver Apples começava a dar seus primeiros passos dentro da música eletrônica, cercado de geringonças saídas de laboratórios espaciais e moldava o futuro da música.

E o Left Banke?

Agora chegamos neles.

O Left Banke com esse álbum de estreia, dentro da revolução psicodélica dos anos 60, inventou o rock “barroco”.

Que diabo é isso? Bach? Buxtehude? Cordas? Nada disso.

O barroco veio justamente da onda de artistas nadarem completamente contra a corrente que vigorava no auge da psicodelia. Quando todo mundo buscava o contemporâneo a qualquer preço, alguns grupos navegavam por outras marés, não menos intensas, mas fora do contexto da época. E tudo bem!

Rico, elaborado e melodioso é quase impossível associar o grupo a Nova York. Ouvindo o LB, temos a impressão de escutarmos uma banda inglesa genuína, daquelas que surgiram no interior da ilha.

Mais econômico que seus contemporâneos psicodélicos, o LB investia em melodias poderosas, postura dândi, baladas lindas e acabaram cometendo um belíssimo álbum de estreia que é queridíssimo entre os entendidos de música.

Ao lado de Forever Changes, clássico do Love, Walk Away foi o grande disco de rock barroco da história.

Escuta ai…


Afghan Whigs – Congregation (1992)

Voltamos ao “grunge”.

Se o tédio é um tremendo combustível para a criatividade, o Afghan se abasteceu um bocado, afinal Cincinnati em Ohio deve ser um lugar tão desinteressante quanto uma São José do Rio Preto ou Uberaba e ouvir música, usar drogas e ter uma banda eram necessários para alguém minimamente sensível sobreviver a um buraco desses.

O ambiente foi fundamental para a confecção do som dos Whigs, pois eles sempre quiseram ser uma banda de soul e até conseguiram chegar lá nos seus dois últimos discos “Black Love” de 1996 e especialmente “1965” de 1998, mas branquelos que são, tiveram que compensar a falta de melanina por muita força de vontade, barulho, estudo e originalidade e acabaram virando a primeira e única banda de “Soul-Grunge” da história…

Dificil encontrar um grupo com uma discografia tão contundente quanto a deles.

Não tem papelão e nenhum disco que seja meia boca.

Tudo é intenso, pensado, executado com esmero e poderoso.

O universo do vocalista e líder Greg Dulli sempre foi muito adulto, por isso a molecada na época deixou o grupo meio de canto, porque afinal de contas, moleque é tudo retardado e incapaz de enxergar um mês pra frente.

Esse álbum possui um chaveamento de guitarras impecáveis com profusões generosas de baterias compassadas em volume insano, regado a vocais marcantes, com Dulli dando tudo, variando entre o sussurro libidinoso aos berros desesperados, letras barra-pesada , honestas e diretas demais para a média do que se fazia na época.

Congregation é repleto de baladas pesadas como Congregation e Dedicate It, dois dos melhores exemplos da estrutura dos Whigs e o que dizer de Conjure Me e a faixa escondida Milez is Ded? Dois clássicos do novecento grunge, ainda hoje causam arrepios.

Um dos grandes álbuns dos anos 90. Rock com alma para uma vida inteira.


Leo Jaime – Sessão da Tarde (1985)

O maior gênio do pop brasileiro dos anos 80 não foi Renato Russo, muito menos Cazuza e tão pouco Herbert Vianna.

Julio Barroso infelizmente não viveu tempo suficiente pra concorrer.

O cara foi Léo Jaime e ponto.

A prova é esse disco.

Droga, por que demoramos tanto pra perceber isso?

A ironia esteve lá o tempo inteiro, cercado de cultura, inteligência, bom humor, cara de pau…

Vai ver era porque ele é carioca né? E nós paulistas não pegamos muito bem com os caras de lá, certo?

Maybe thats why…

Mas, caraca… Sessão Da Tarde é perfeito…

Abre com O Pobre — só alguém muito sagaz pra escrever uma letra dessa… e na sequencia vem A Fórmula do Amor (sagacidade elevado ao cubo), A Vida Não Presta (precisa comentar?), As Sete Vampiras… que sequencia!

No mínimo matadora, no mesmo nível talvez só Ultraje e olha lá!

E ainda tem a versão em português mais sensacional dentre todas as versões que nós cafajestemente cometemos em em mais de 50 anos de pop brasileiro: Solange (So Lonely), aquela música do Police.

Infelizmente caiu na vala comum que todo artista da New Wave brazuca cai e só lhe restou as Festas Ploc para desfilar seu repertório fino, ensolarado e sagaz.

Muito pouco para esse gênio…


Moody Blues – Every Good Boy Deserves Favour (1971)

Ai ai… mais um disco de progressivo nesse blog… to começando a ficar preocupado com a minha sanidade…

Já tem mais prog do que eu previa, but… what a fuck… esse disco é foda, adoro o Moody Blues e especialmente esse disco… sem jeito.

Enfim: progressivo britânico com ares madrigais do interior, fantasioso, bonito e espacial.

O Moody Blues foi uma das bandas mais fodas que a Inglaterra gerou em seu berço musical e honrou o progressivo que surgiu de bandas expetaculaures como Soft Machine, Pink Floyd, Jethro Tull, Hawkwind, King Crimson, Atomic Rooster, The Move, e outras zilhões de bandas que nasceram na psicodelia, ingeriram drogas, jazz, dadaísmo, idealismo e invadiu os anos 70 cheios de ideias…pelo menos umas Douze…

Cada uma a seu jeito fez a alegria dos fãs de rock.

Cheio de nuances, o Moody nos faz lembrar que a Inglaterra é Vitoriana, Elizabeteana e Eltonjohniana.

Mas os fãs de classic rock que se prezem tem um lugarzinho reservado para bandas como o Moody Blues, procure ai dentro que você pode achar coisas do mesmo naipe.


The Fatback Band – NYCNYUSA (1977)

Banda de funk-disco nova-iorquina do anos 70.

Isso é introdução de: Não tem como ser ruim!

E não tem mesmo.

O Fatback é mais uma das milhares de bandas que aparecerem nessa época, mandaram seu som, se misturaram com a multidão e sumiram, tanto que esse álbum ficou um tempão fora de circulação.

No allmusic o disco é avaliado com miseras duas estrelas, mas isso não quer dizer nada.

Como álbum de carreira e pegando uma banda em evolução dentro do funk setentista, eles saíram dos funk soul fortemente instrumental do inicio dos anos 70 para cair com tudo na tendência da época, em que a Disco ditava as ordens do dia e, para sobreviver e se tornar ouvido pela rapaziada, eles viraram os ouvidos para as pistas e soltaram esse belo espécime que é pura alegria.

Dá pra tocar o disco inteiro em qualquer festa civilizada ou não, que ele fará sentido. Começa pra cima quebrando tudo em Double Dutch e Spank The Baby (afinal, como é de conhecimento geral, só um tapinha não dói), lá pro final tem as lentinhas que é pra encorajar o acasalamento A Changed Man e no meio um primor Love Street, ainda hoje uma das minhas favoritas do gênero.

O Fatback é de um tempo em que o beat vinha junto com um ser humano e suava junto com a máquina.

Dance music for real.