Alice Coltrane – The Impulse Story (2006)

Hoje é dia de fritura.

Mas como é segunda, vamos começar com uma mais de levezinho que é pra acelerar o cérebro, mas não derrete-lo completamente.

Então nada melhor do que uma mina que toca piano e harpa, que tal?

Alice foi casada com John Coltrane, o gênio absoluto do jazz.

Teve 3 filhos com o homem e foi sua pianista na última e mais radical fase de João antes de sua morte em 1967, momento em que o homem estava invertendo tudo, pirando o cabeção e soltando os discos mais doidos de sua carreira ao lado de Pharoah Sanders, Rashied Ali e essa pastelaria toda.

Recuperada da perda, Alice seguiu em frente como bandleader e levou adiante as pirações que ela e seu marido pretendiam fazer.

Envolvida até o ultimo fio de cabelo na filosofia e música orientais, Alice quis usar as estruturas livres das escalas indianas para enfiar seu free-jazz, dodecafonia e experimentalismos sempre muito bem acompanhada da rapaziada acima mencionada, dentro da última casa musical que acolheu os Coltrane e que apoiou todas os discos e projetos que quisessem recebendo total liberdade criativa e colhendo prestigio cada vez maior.

A Impulse Records.

Esse álbum é uma coletânea com suas principais gravações pela Impulse, o que dão 8 álbuns em quase 10 anos de gravadora.

Alice tinha voz própria e independente, o que dentro dos músicos de jazz é coisa rara. Afinal Alice era mulher e viúva de João.

Mulher no jazz só cantando e olha lá.

Imagina então pianista, harpista, compositora e band-leader? Não era fácil, mas a mulher era muito boa e ganhou um tremendo espaço no fechado e machista mundo do jazz.

Jazz moderno, cabeça mas não inacessível. Moderno, mas harmonioso e com uns climas que só por nossa senhora!

Esquenta o óleo que a pastelaria tá só começando.


Muddy Waters – Electric Mud (1968)

1968 foi um ano de muitas mudanças sociais no planetinha.

Revoltas sociais nos Eua, animos inter-raciais acirrados, Martin Luther King levava uma bala para calar sua boca, na França e na Europa os estudantes iam as ruas, no Brasil a rapaziada tomava ferro dos milicos e a música era afetada com isso.

Ai você pensa em Muddy Waters e o que vem a sua cabeça?

Bluesman por excelência, transitou entre os puristas até ser um dos primeiros e mais influentes guitarristas de blues elétrico nos anos 50, que seguiu uma longa carreira anos 60 e 70 adentro.

Mas exatamente em 68, a coisa tava feia pro homem.

Ele estava completamente a margem de tudo o que acontecia, o público não estava mais interessado em blues e só queria saber de psicodelia, drogas, Rock pesado, Hendrix, Doors e por ai vai.

Afinal de contas, era 1968.

Graças a um tremendo esforço de seu selo Chess Records, Waters foi convencido a dar uma repaginada no seu som para que ele pudesse voltar a ser ouvido.

E o homem topou e fez Electric Mud.

Mudar para continuar sendo o mesmo.

Esse é o disco de rock de Muddy Waters.

Os fãs de blues tradicional execram esse álbum. Fodam-se eles!

Bizarro é que ele influenciou praticamente todo o mundo no rock, e aqui está ele se alimentando de suas crias musicais para dar sua cara a sons novos e reaprendendo a tocar seus blues.

Em 1968, Muddy tocou sua guitarra como seu aprendiz Jimi Hendrix tocava (que sempre o reverenciou) , fez versão de Rolling Stones (que devem tudo a ele), tocou em casas moderninhas de San Francisco e Los Angeles ao lado de bandas novas psicodélicas e voltou a ser ouvido por jovens ouvidos.

O disco é uma paulada, Muddy cantava com sua voz cavernosa num tom mais urgente e poderoso como talvez nunca cantou antes, e está acompanhado de uma cozinha que quebrava rigorosamente tudo e deixava o mestre livre para fazer o que quiser e abusar dos wah-wahs e fuzzys de sua guitarra, ao lado de um Hammond nervoso aqui e um trio de guitarristas que lhe prestavam todo o apoio onde precisasse.

Graças a esse resgate, Waters ganhou pelo menos mais 10 anos de carreira muito excitante, que culminaria na sua última e frutífera parceria com o também guitarrista Johnny Winter em três discos que em breve ganharão um espacinho nesse blog.

Matador, pesado, lento e maluco se pensarmos no Muddy Waters de 53 anos com topete a lá rockabillies dedilhando sua guitarra nessa obra-prima obscura e surpreendente.

E assim o domingo se encerra.

Final de semana feliz dedicado a cultura do Disco!

 


João Donato – The New Sound Of Brazil (1965)

Mais um capitulo da história: “ Por Que o Brasil Não Deu Certo Antes?”

João é monstro!

Se João tivesse nascido nos EUA seria estudado em livros sobre a historia do Jazz, mas como ele nasceu por aqui, no máximo que ele recebe de nós macaquitos é showzinho no Sesc e uns rodapés migalhentos que jogamos a ele. Isso até que nos esqueçamos completamente quem ele é e foi.

Com os ventos favoráveis a nossa música no inicio dos anos 60 e com uma geração de artistas que nunca mais vai nascer por aqui ou em qualquer lugar do mundo, João também foi fazer grana e disco na Terra Prometida.

Já alocado em Nova York, ao invés de gravar em estúdio, o músico vidrou na casa de espetáculo Webster Hall (casa que ainda existe e abriga os melhores shows alternativos da Big Apple) e quis gravar lá. Desejo realizado!

Orquestrado pelo músico e maestro alemão Claus Ogerman (apaixonado por jazz e depois pela bossa nova), The New Sound of Brazil foi o primeiríssimo álbum de João nos EUA e ele se cercou de um time de feras digno de estariam no álbum de figurinhas de qualquer fã de jazz: Bill Goodwin (integrante do quarteto de Art Pepper) nas baquetas, Luiz Bonfá e Carlos Lyra nos violões, Richard Davis (bandas de Sarah Vaughan, Ben Webster e Gil Evans).

O disco é um clássico do brazilian jazz: bossa nova tocada com classe, elegância e finesse que só monstros como João Donato teriam a moral e capacidade de fazer.

Passado tanto tempo, o som do álbum é um deleite. Sem espaço para muitos solos ou improvisos, os músicos vão segurando as linhas das melodias que por si só são perfeitas o suficiente para que nenhum engraçadinho tenha muita coragem de mexer, são exemplos máximos da capacidade genial de balançar e harmonizar usando o jazz americano como base, mas construindo uma gama sofisticada, bonita e instigante de transições musicais que viraram os nossos “standards”. Se ficou batidasso, e você não aguenta bossa nova tanto como eu, não culpe esse disco.

Alternando composições próprias com temas de Tom Jobim, Luiz Bonfá e Dorival Caymmi, traz parcerias raras com João Gilberto e a inevitável, mas infalível e insuportável Little Boat (Menescal e Boscoli).

Um disco clássico essencial em qualquer discoteca de respeito.

Aproveita e faz assim, se tiver por NY e der um pulinho la no Webster Hall para ouvir essas bandas indie que não vão dar em nada, pensa que essa obra-prima foi construída lá e tudo vai ficar melhor.

Ou não.


The Decemberists – The King is Dead (2011)

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Todo mundo precisa de um modelo seguro para se apoiar e ter certeza de que o que você faz está certo.

O modelo dos caipiras do Decemberists é o R.E.M. e o Paul Westerberg.

Como bons caipiras do meio oeste norteamericano, eles são classificados na maldita denominação “Americana” que os ingleses tanto adoram rotular e que nós aqui também vamos na onda.

Isso quer dizer que:

–       Eles cantam em duas a três vozes;

–       Usam muito violão e instrumentos rurais como rebecas e steel guitars;

–       Produzem timbres firmes de guitarras e baixos clássicos;

–       Tem um baterista que toca com vontade se precisar;

–       Ótimas composições, certinhas em todas as suas estruturas e pra cantar junto ou acompanhar com a cabeça depois de umas 3 escutadas;

–       Nas horas vagas eles ordenham vacas, vacinam búfalos e cozinham faisões.

O Decemberists é tão certinho na sua proposta folk rock, e o disco acontece tão bonito, que é até difícil achar algum defeito. Os caras realmente não poderiam ter nascido em outro pais. O som que eles produzem é tradicional, atemporal e com ótimas musicas do começo ao fim.

Não chegam a transcender em nenhum momento, mas nos dias de hoje isso é tão raro que só o fato deles terem feito um álbum em pleno 2011 com essa beleza antiga e careta e natural ausência de contato com seu tempo é quase como se eles tivessem esculpido um rochedo de pedras no lugar de um prédio novo.

The King Is Dead agradou a moçada indie, foi bem de venda e tem a participação de Peter Buck (ex-REM) e Gillian Welch (musa folk).

Se você não escutou esse álbum ainda (afinal foi lançado em longínquos 2011, uma eternidade), saiba antes que não vai mudar sua vida mas vai dar umas dicas sobre como escutar rock de violão sem se sentir um bocó.


Eddie And The Hot Rods – Teenage Depression (1976)

Tem momentos em que a melhor mensagem é não ter mensagem alguma. E melhor é ter nada na cabeça.

Nada mais escapista do que discos escapistas por excelência.

Teenage Depression se presta a isso.

Antes do punk ser punk, surgiram bandas que ficaram no meio do caminho entre o rock de bar e o punk uniformizado de botina, alfinete na boca e sabão de Pedro no cabelo pra dar aquela levantada.

Mods deslocados no tempo e no espaço, os rapazes britânicos curtiam uma biritada boa e rocks rápidos como todo bom jovem setentista queria e precisava.

Tempos niilistas precisavam ser combatidos ou sua vida seria uma grande merda.

Os Hot Rods eram banda de bar, naquele sentido de banda de bar que toda banda de bar deveria ser. Tocavam sem frescura e sem retoques conceituais suas musicas acessíveis, rápidas e rock cru sem xororo e sem inventar moda…

Seu rock básico acabou sendo a ponte entre o que o Dr. Feelgood fez no começo da década e o que os Sex Pistols e Damned fariam na segunda metade.

Ícones das mudanças de tempo que a ilha da Rainha, eles eram mais rápido e menos pesado que o primeiro, o que foi suficiente e fundamental para que as bandas punks e new wave achassem o beat ideal para demolir o modus opperandi que impregnava e dar uma bagunçada no coreto.

Teenage Depression é tão divertido, fácil e cru que fica difícil acreditar na capacidade que alguns artistas tem em complicar, inventar rococós, afrescalhar o rock e tocar guitarra como se estivessem coçando a cabeça de macacos.

Meninos desse mundão: rock é fácil, escute esses caras e aprendam como se faz.


Dead Kennedys – Live At The Deaf Club 1979 (2004)

O DK ao vivo era esmagador e esse documento sonoro gravado antes do primeiro e clássico Fresh Fruit é a melhor porta de entrada ao mundo politizado, radical e destruidor de Jello Biafra e asseclas.

Um show monstruoso, daqueles de se ouvir e invejar as poucas almas que lá estavam e tiveram o privilégio de ouvir talvez pela primeira vez algumas das melhores músicas do punk americano de todos os tempos: California Ubber Alles, Holiday in Cambodja, Kill The Poor e um gracejo para os fãs, a então inédita Gaslight.

O mais legal de tudo nesse show é a presença de uma segunda guitarra, que na minha opinião deu outra dinâmica ao grupo e preencheu os espaços vazios que a guitarra isolada do DK marcante, aguda e única não bastava. O punk rock dos caras estava mais encorpado, mais quente e talvez teria outro futuro se tivesse se mantido assim.

Show de rock como todo o show de rock deveria ser e infelizmente não se vê mais hoje em dia.

Com o movimento punk explodindo para todos os lados, a ensolarada e sempre hippie Califórnia veria um explosão de bandas maravilhosas, idiossincráticas e divertidas como nunca apareceu antes: X, The Germs, The Dickies, The Zuttons, Red Asphalt, Xterminators e mais uma infinidade de bandas legais que nunca deram em nada.

Infelizmente a atenção do publico acabou se voltando somente para o lado radical e politico de Jello Biafra e sua insistência em causar quizomba. Sabia que ele é candidato a Presidência dos EUA? Pois é.

O fim da banda foi muito triste. Os últimos álbuns já não eram tão legais e os integrantes remanescentes do DK entraram com processo contra Jello.

Graças aos céus, tudo isso se apaga nos primeiros 15 minutos deste álbum inacreditável e poderoso.

A promessa se cumpriu em Fresh Fruit e em Plastic Surgery Disaster e o Dead Kennedys botou seu nome na história como uma das bandas mais inacreditáveis dos últimos 40anos.

Mas nesse álbum, a banda era outra e era Duca..

E ainda fizeram uma versão daquele tal de Beatles… manja?


The Grateful Dead – Grateful Dead (1967)

Pouca gente fala sobre o Grateful Dead nos dias de hoje.

Pouca gente ainda ouve o Grateful Dead nos dias de hoje.

Eu até não muito tempo atrás, fazia parte desse time.

Não era muito fã da fama que cercava a banda e no fundo eu achava tudo muito droguinha para aluno de história ou sociais da Usp que acha que pode fumar maconha a luz do dia, torrando a graninha do papai e indo pra Europa visitar a Sorbonne com o dinheiro da titia.

Mas é engraçado que numa tacada eu cai nos primeiro álbuns do Dead com a mesma intensidade e descobri uma belíssima banda, interessadíssima nos pântanos da tradição norte americana do folk, do country e ao mesmo tempo falando com uma então juventude progressista que fazia passeata pela erva, pelo acido, contra a guerra e pelo direito de ser escutados por congressistas.

O som do Dead é mais careta que sua atitude e certamente mais careta que os ouvidos de seus públicos nessa época.

Imagina a situação: São Francisco pegava fogo no final dos anos 60, onde todo mundo queria experimentar de tudo, se soltar das amarras adultas que a sociedade americana arregimentou para virar o “império” e vender Coca-cola e carros para todo o mundo, e só figuras exóticas como Jerry Garcia para catalisar toda a porra-louquice de um período cheio de sonhos e experimentos sociais, associada a capacidade de articular seu discurso para ser ouvido e levado a sério por público e crítica.

Antes de mais nada, a banda é boa praca… todos os músicos são seríssimos e ninguém dava brecha de lançar e gravar qualquer merda.

Esse disco de estréia dos caras saiu um pouco antes da psicodelia tomar a cena e mesmo tendo ingeridos os mesmos ingredientes lícitos e ilícitos que todo o mundo, o Dead caminhou olhando para dentro de suas raízes e sem sentir vergonha de serem americanos, lançaram um impecável álbum de estreia que ajudaria a definir o movimento que seria o ano seguinte dentro da escala evolutiva musical.

Ano este em que a psicodelia morreria e sons com pegada mais blues, country e folk voltariam com tudo.

O Grateful Dead já estava lá antes e aproveitou para fazer seu cartaz com discos espetaculares que sairiam na sequência.

Se os fanáticos seguidores da banda, obscureceram a importância musical do grupo para transformar seus concertos em fumódromos de erva e usando o discurso libertário da banda como desculpa para se afundarem em drogas, já que a lenda fez do Grateful Dead o “pics”, o tempo, a distância e uma escuta mais atenta chamam a atenção para o requinte e a sabedoria como os caras executaram seu blues-country-piano rock como poucas na historia do rock americano.

Bandassa e discasso poucos falados, merecem audições mais atentas.

Chapante!