Taste – On The Boards (1970)

Cada cavucada no passado obscuro do rock and roll e sempre se acha uma potencial banda favorita da semana, do mês ou do ano…

As vezes, até da vida.

Esse foi o caso do Taste, banda de blues-rock irlandesa da virada dos 60 pros 70 e que botou no mundo dois discassos, Taste (1969) e On The Boards (1970).

O Taste não fez historia, mas foi a banda onde o incrível guitarrista Rory Gallagher surgiu, fato esse mais do que suficiente para colocar o Taste em lugar de destaque diante das zilhões de outras bandas de blues rock que pipocaram naquele período.

Por ser um trio, tinha menos frescura, solos mais econômicos, punch, riffs, cozinha pesada e aquele tcham que artistas irlandeses possuem, principalmente quando estão com sede e fome de música.

Continuando de onde o Them começou e dando as deixas para que o Thin Lizzy seguisse na trilha mais pesada, o Taste foi o meio desse caminho. Meio R&B com o peso do Hard Rock e o Blues ali no recheio, a banda foi um desses achados que por acaso aparecerem pela minha vida nos últimos anos e que vão permanecer para sempre.

Recomendado se você gosta de Cream também.

Ou seja, tudo em casa.


Quasi – Featuring “Birds” (1998)

Existem projetos “paralelos” que são melhores do que os projetos principais e o Quasi foi um deles.

Janet Weiss, baterista que recém-assumira as baquetas do Sleater-Kinney e Sam Coomes, músico que acompanhou um punhado de artistas indie dos anos 90, se juntaram em 1997 com o firme propósito de tocar adiante um projeto de guitar-pop-rock, cheio de farfisas, orgãos e com bateria alta sensacional, que teimou em ficar a margem da multifacetada cena independente americana.

Não eram tempos propícios para pop vanguardista rápido, ruidoso e anti-cabeção.

Culpa do Radiohead e afins.

Graças a eles, o rococó indie-esquisito-progressivo-longo-enfadonho dominaria a cena, e se você não se enquadrasse, possivelmente não seria notado pela critica dominante e o publico, bem….o que é o público, afinal de contas né?

Mas é o seguinte: Featuring “Birds” é um disco brilhante perdido no tempo e no espaço, que revelou gratíssima coleção de canções simples, mas tocadas com virilidade, inteligência, sensibilidade e abusando de sonoridades retrô, deixando tudo amarrado, coeso e em 16 músicas, o que é uma vida inteira.

Tem banda hoje que se juntar 4 discos, não dá um desse.

Mesclando temas instrumentais lindinhos com algumas faixas mais esporrentas, Featuring “Birds” é um disco que não datou, sobreviveu aos anos 90 e continha fresco, alto, melodioso e ótimo.

Rock independente com orgulho, balance sua franjinha se você ainda tiver cabelo.


Brass Construction – III (1977)

A capa e a contra-capa desse álbum revelam o caráter de seus protagonistas.

Incansaveis trabalhadores do swingue e do funk, e sem esquecer da Disco, emergente, banida por roqueiros, mas adorada pelo povão e pela moçada que frequentava clubs e procuravam por garotas, garotos, drogas, diversão e basicamente tudo aquilo que se procura ainda hoje.

A diferença é o som.

Que preparo amigo!

Banda impecável, arranjos impecáveis e execução perfeita, o Brass Construction foi sem dúvida uma das melhores bandas deste período e deixou no seu legado um coctail de ritmos difícil de ser batido. Não foram tão hitmakers como Chic, Earth Wind & Fire ou Kool And The Gang, mas não deve nada a nenhuma delas.

Alias, existiram umas 129 bandas tão boas quanto as acima citadas.

O Brass é Brooklin, pesado e suave, venenoso e pra cima.

E se Nova York nos anos 70 era uma cidade barra pesada, menos segura do que hoje e menos insipida também, essa confusão refletiu diretamente na sua cena, tornando-a talvez o espaço mais democrático dos bons sons durante o final dos anos 70.

Graças ao clima combativo, criativo, laborioso e instável, gerou confusão e uma geração de bandas que fala baixo: De um lado os punks Television, Talking Heads, Modern Lovers, Suicide, Richard Hell, Blondie e Ramones, do outro os conglomerados funk: Brass Construction, B.T. Express, Voices of East Harlem, Chic, Odyssey, Newban, Natural Essence entre outras.

Deu invejinha!


Mstislav Rostropovich – Cello Concertos (1978)

Rostropovich não foi somente um dos mais completos celistas de todos os tempos, como também foi uma figura politica muito importante.

Abandonou o regime comunista e atacou diretamente seus camaradas dirigentes, o que lhe rendeu asilo imediato da antiga União Soviética.

Pelo mundo, desfilou seu talento e versatilidade em centenas de concertos e gravaçõese aqui foi capturado tocando o fino do barroco em uma de suas mais brilhantes atuações.

Neste concerto, ele toca Boccherini, Vivaldi e Tartini, ou seja, deleite absoluto para quem ama Cello e para quem ama o barroco (esse é o meu caso).

Se vivo estivesse, certamente estaria chutando a bunda dos atuais lideres russos e quem sabe não chamaria as meninas do Pussy Riot para uma parceria.

Defende-las seria o mínimo que esse senhor faria.


Smack – Ao Vivo no Mosh / Noite e Dia (1984-1986)

Essa turma era do tempo em que ser indie significava:

Bater muito a cabeça;

Explicar milhões de vezes que tipo de som você ouvia e mesmo assim pouca gente entender;

Falar de bandas que ninguém conhecia;

Torrar toda a sua grana para conseguir ouvir e ter os discos legais que não saiam por aqui;

Torrar toda a sua grana se você quisesse tocar sons diferentes.

Isso era ser indie nessa época e não era nada facil.

E tudo se orientava para o rock, pos-punk, punk, mod e quetais e essa era a praia do Smack.

Banda paulistana que tinha na sua formação músicos, jornalistas e fanáticos por rock que queriam botar as mãos na massa e fazer música boa, pra frente, alinhada com esse som underground que se fazia na gringa.

De todos, Edgard Scandurra era de longe o mais talentoso e não por menos, foi o que seguiu mais longe e ganhou a merecida fama de guitarrista mais original do Brasil nos últimos 30 anos.

O Smack era o pos-punk tardio que também foi tardio em grande parte do globo, mas só o fato deles terem existido e feito o que fizeram, mereciam uma estatua na frente de cada barzinho que se vangloria de tocar indie rock.

Eles foram nossa vanguarda e ninguém realmente deu bola pra isso.


Vários Artistas – 7”Up! Singles Only UK 1978-1982 (….)

Ai Inglaterra, what a place.

Lá na ilha, algumas tradições não desapareceram com a modernidade.

O chá;

A monarquia;

E os compactos!

Compactos esses que saíram e ainda saem aos milhões.

Todo artista tem que fazer um compacto caso ele queira ser aceito na comunidade musical inglesa e principalmente pelo público.

Muitos desses hoje valem uma nota.

John Peel era um devoto fã dessa modalidade.

Enfim, tudo isso pra dizer o seguinte:

7” Up! É uma compilação feita na Alemanha onde os organizadores se focaram em compactos (somente compactos) de punk, pós-punk e new wave entre 78 e 82 e conseguiram fazer a melhor coletânea de obscuridades desse período que eu já ouvi.

Graças a esse cd, tomei contato com artistas que jamais teria como Glaxo Babies, Brian Brian, Weekend, I Jog & the Tracksuits, dentre outros.

E melhor, uma música mais fantástica que a outra.

O que dizer de: Dont Try To Cure Yourself da banda They Must Be Russians (uma das minhas favoritas all-time), que consiste em uma descrição pormenorizada e cientifica da gonorreia com um riff explosivo e simples substituindo um refrão que não existe.

Rigosoramente enquadrados nesse gênero refrescantes e libertador que foi o punk, são bandas que simplesmente evaporaram da face da Terra, tanto que dois deles sequer foram localizados para autorizar essas faixas nesse CD.

Precioso e necessário, essa é uma coletânea que poderia salvar a vida de qualquer um.


Leonard Cohen – Live At The Isle Of Wight 1970 (2009)

As vezes, quando tudo tem jeito que vai dar errado, o errado acaba errando e dá certo, sabe cumé?

Figura isso:

Festival de música no cú da Inglaterra, multidão muito doida de todas as drogas possíveis e imagináveis, somado a um clima de hostilidade entre artistas e plateia, principalmente plateia, que já havia atirado paus e garrafas em Kris Kristofferson, aprontado baderna no show da cândida Joan Baez e tacado o foda-se no de Hendrix.

Motivo: hiperlotacao, um publico que seria estimado em 600.000 para uma quantidade de ingressos de 150.000, ou seja 450.000 penetras.

Ai sobra para um ainda pouco conhecido cantor e compositor canadense a missão de subir ao palco as 2 da manhã num clima de horror, tocando com uma banda boa mas não completamente ensaiada e depois da apresentação habitualmente incendiaria de Hendrix.

Pronto… merda a caminho!

Ai é que um milagre se fez.

E o curandeiro atendeu pelo nome de Leonard Cohen.

Esse álbum é o registro matador e definitivo desse balsamo que foi capaz de calar, arrepiar e pacificar 600.000 selvagens, quando ninguém acreditava mais que o festival não fosse terminar sem morte, destruição e tragédia.

Mostrando um poder de comunicação impressionante, Cohen brindou a plateia com um show transcendental, poético e de beleza impossíveis de serem ignoradas e combatidas.

Passeando pelo folk, sua voz grave, anasalada e reconfortante foi um sossega-leão coletivo, caiu como uma luva e virou esse CD com DVD impressionantes, com o show na integra, além de depoimentos de testemunhas do show e músicos.


Meat Puppets – Huevos (1987)

O Meat Puppets é uma banda difícil de se gostar logo de cara.

O som deles sempre foi propositalmente estranho, mesmo sendo ridiculamente trivial e convencional.

Guitarra, baixo e bateria e só.

Solos de guitarra para carai…

Referencias da banda: ZZ Top e Grateful Dead.

Claro que tudo devidamente revisado para os anos 80, década de florescimento do rock alternativo americano e diretamente da SST, a melhor gravadora de rock oitentista, não tinha como sair errado.

Caipirassos e matutos, já tão na pista desde 1982 sem parar, produzindo ótimos discos ao longo desse tempo todo.

Por uma dessas inconscistencias que acontecem na vida, toda a discografia dos caras foi lançada no Brasil nos anos 90 para os 2000 pela quase extinta Trama e esse Huevos é resgate dessa leva.

Um dos discos menos importantes da carreira do Meat, mas que por razoes cientificamente inexplicáveis é o que eu mais gosto deles, por que talvez seja o disco mais bem resolvido e ao mesmo tempo ainda rápido, riffudo e com um timbre de bateria chapada que eu simplesmente amo ouvir em rock.

Quase um Southern rock punk.

I love it, i really do.


Isaac Hayes – Hot Buttered Soul (1969)

E diz se 1969 não foi um ano muito foda?

Tenho ouvido esse cd no meu “discman” na ida e volta ao trabalho há pelo menos uma semana seguida…

É, você leu direito, eu escrevi “discman”, é esse o “device” que eu prefiro para escutar música em locomoção pela cidade e no transporte coletivo. Com um fone razoável, dá pra ouvir musica na melhor e mais barata qualidade possível sem ficar dando pala pra malandro, afinal, quem vai querer roubar um Discman…

Pois bem, o “Chef” tem sussurrado seu soul arrastado e viajandão acompanhado pelos fabulosos BarKeys na minha orelha a semana toda e a cada nova audição, uma nova descoberta, uma batida nova que pinta junto ao ruído do metro, uma virada que se modifica e se revela ao longo das 4 músicas presentes nesse álbum, que se alongam em viagens sonoras onde cada músico tempera cada faixa com seu mel, com sua pimenta e deixando o “chef” livre para entrar só quando tiver vontade, afinal esse é um disco pra quem curte “som”.

O “som” desse álbum é surreal e irreproduzível em formato digital, simplesmente não cabe em wav ou mp3.

Ou é tudo ou é nada com ele.

Ou você dá atenção aos pormenores desse filé, ou vai deixar passar batido toda a riqueza soul contida nessa pepita…

Acompanhado dos Barkeys, que estavam na ponta dos cascos, Isaac revisita e reinventa dois standards da música americana: Walk On By e By The Time I get to Phoenix que respectivamente abrem e fecham Hot Buttered Soul e no miolo tem Hyperbolicsyllabicsequedalymistic e One Woman, dois temas originais absurdos.

Hot Buttered Soul deve ser o disco mais sampleado de Hayes, e seus grooves foram usados por todo mundo desde então.

Uma aula de soul e veneno.


Jack Bruce – Songs for a Tailor (1969)

Ta ai mais um daqueles músicos enigmáticos que surgem de tempos em tempos, segue zilhoes de caminhos, tocam de tudo e ajudaram a revolucionar o rock e o blues inglês.

O cara é fora da casinha.

Ainda tá vivo e ativo, seu som hoje é étereo e inclassificável, já não segue rótulos musicais há um tempão.

Coisas de gênio.

Songs for a Tailor foi o primeiro álbum solo de Jack com o fim do Cream e na minha opinião, o melhor, e mais bem resolvido deles.

Inspirado, Jack despejou algumas de suas melhores músicas que não couberam no Cream e contou com uma turminha do barulho para acompanha-lo (George Harrison, Jon Hiseman, Dick Heckstall e Felix Pappalardi), não conheçe? Procure saber então…

Fazendo o som que praticamente todos os grandes faziam na época, e grandes eu incluo Tim Hardin, Nick Drake, Traffic, Family, Wishbone Ash e por ai vai nessa viagem mais sofisticada, elaborada e rica que poucas vezes se ouviu na história.

Depois desse, as viagens de Bruce ficariam absurdamente herméticas, idiossincráticas e de difícil degustação, mas como ele é gênio e eu não, a culpa é mais minha que dele, afinal ele sabe de coisas que me esforço pra entender ou conhecer.