Billy Preston – Everybody Likes Some Kind Of Music (1973)

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O joinha que ele dá na capa dá bem a letra do quão querido e gente boa Billy Preston é.

Ele tocou com os Beatles lá no show do telhado da Abbey Road e tocou com os Stones, então pensa que além do cara ser muito do gente fina, ele toca para caralho, senão nao ia ter essa boiada de tocar com os dois quase no mesmo periodo!

Nessa época, o cara era um dos músicos de estúdio mais requisitados do pedaço, então, por mais que fosse ultra especial tocar com os Beatles e com os Rolling Stones, o cara curtia era tocar e nao importa muito com quem fosse.

Mas tinha que ser bom.

O cara gravou muito, o que significa que fez uns trem mais ou menos, o que é o caso desse play.

Aqui o homem resolve literalmente atirar para todos os lados, na capa ele deixa isso claro o que vai rolar: Jazz, Gospel, Blues e Rock e a promessa se cumpre, os 4 elementos aparecem, mas cada um numa música, o que dá aquela sensação de que ele queria a qualquer custo ver o que colava e queria definitivamente ganhar um papel de protagonismo maior dentro da cena musical preponderante.

Tá longe de ser um disco ruim, mas é meio genérico e tudo é meio que parecido com algum similar que é melhor Mesmo nos seus melhores momentos, Preston parece ficar no meio do caminho, como em My Soul Is A Witness, um delicioso soul com toques de Gospel que lembra muito o Ray Charles. You’ve Got Me For Company é balada negona com arranjos sofisticados que lembram Billy Paul.

Mesmo sendo bom, e as faixas ai citadas são ótimas, ele fica a milhas de distâncias dos pares citados.

O restante do disco segue a mesma toada, é bom porque só tem musico foda e o cara tem muito a manha de fazer canções curtas, mas no geral não empolga.


Big Country – The Crossing (1983)

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Esse é um daqueles discos muito baratos que você encontra ou encontrava de baciada por ai. Eu cruzava com esse play lá na Combinato Discos em Foz do Iguaçu sempre. Era o tipo de disco velho de banda que não existia mais e que em 1991 estava tão longe em termos de termos de tempo e espaço quanto qualquer outra coisa que não tivesse sido lançada naquele abençoado ano.

In A Big Country foi o hit desse álbum e de vez em quando tocava nas programações de algumas “Radios Rock” ou “Radios Pop”, entenda esse pop como o pop que tocava Phil Collins, Hall & Oates e Bolshoi, pois a Taylor Swift ainda não havia nascido, assim o pop tinha outra cara e outra velocidade.

E tinha a mesma quantidade colossal de lixo que tem hoje.

O Big Country surgiu das cinzas de uma bela banda punk da Escócia chamada Skids (se todos estivermos vivos até a letra S, desse blog, voltaremos a eles), e segue a linha do que viria a seguir um som mais “guitar band”, ou seja, o som em que a guitarra é o ingrediente principal.

Considerando-se a época, o tipo de som praticado pelos rapazes era o que estava pegando e bandas como o U2 e Echo & The Bunnymen vinham na mesma onda e ganhavam fama mundial. A receita era parecida: vocais messiânicos e cheios de mensagem, som pra cima, acordes abertos, efeitos transados e hoje datados nas guitarras, baixo com som de pedaço de pau com barbante, mas diferente dos distintos anos 80, com um bom som de bateria, que ouvindo hoje não causa vergonha alheia.

O som do BC é rock para médias arenas com um bom conjunto de canções pra preencher um show de 1 hora com folga. Outro ponto pra cima do disco é a produção. Steve Lillywhite era o cara que dava as cartas e dá pra perceber que teve muito trabalho de produção na montagem das músicas, em especial em Lost Patrol, deve ter sido uma daquelas de semanas de trampo pra chegar no som final.

O álbum é alto do começo ao fim, sem muitas sutilezas, mas é bom e teve o hit que fez a banda ser lembrada pra todo o sempre.

E é isso.


Betty Davis – Is It Love Or Desire (1975) (2009)

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Com um nome desses, Betty Davis já nasceu para ter poder.

Betty foi a mulher que melhor cantou o funk nos anos 70 e olha que estamos falando de Funk e anos 70 na mesma frase, e de quebra foi a mulher que envenenou a bebidinha e a vida de Miles Davis e colocou o maridão em uma trilha sem volta pelo rock e pelo funk e foi peça fundamental na virada musical de Miles no final dos anos 60, onde o trompetista acabou inventando o jazz-rock ou fusion.

Assim, de tabela a mulher ajudou a mudar a cara da música negra por duas vezes.

Isso não é pra qualquer um, ainda mais pra qualquer uma.

Com 70 anos completados há pouco tempo, Betty foi de tudo um pouco em sua vida. Começou aos 16 anos como modelo aos anos 60, de beleza selvagem e inteligente, daquelas de assustar e atrair uma legião de fãs, se enturmou com a turma malucoide da época e se enveredou pro lado da música, tocou com os Chamber Brothers antes de seguir carreira solo, fez 3 discassos de funk e esse que vos introduzo enquanto batuco o teclado foi gravado em 1975, mas só lançado em 2009 e trata-se daqueles discos com som tão pesado que machuca o ar.

O que dizer das dedadas ouvidas no contrabaixo em Crashin From Passion? Minha mãe, é muita covardia. E a ultra moderna, pesada e indestrutível It’s So Good? E o Funk de breque puxado em Bottom Of The Barrel?

Ficar descrevendo as porradas que cada faixa te dá na orelha é perda de tempo, pois até quando o disco fica mais sossegado como na faixa When Romance Says Goodbye, você fica imaginando que todo mundo vai entrar com todos os instrumentos a toda e arrebentar com tudo. Isso não acontece, tudo fica na sugestão, no sapatinho, mas no fio da navalha.

Betty é uma interprete que tem um registro de voz que por vezes lembra um homem de voz fina cantando, tipo um Prince em inicio de carreira. Raçuda e vibrante, Betty é aquele tipo de cometa artístico que aparece de vez em quando no mundo, zoa com tudo a sua volta e sai andando, deixando a bagunça para os homens limparem ou tentarem entender seu legado.

Já falei que amo funk americano, assim como 9 entre 9 apreciadores de música, mas tem alguns casos que amor é pouco e Betty Davis é uma delas, ou uma das poucas na verdade.

Diva absoluta.


Benito di Paula – Gravado Ao Vivo (1974)

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Quer ver um cara muito cool é o Benito de Paula.

Basicamente tem a mesma efigie e pinta desde que me conheço por gente. Ternos espalhafatosos, gravata borboleta, bigode, cabelo de jogador de futebol argentino sentado ao seu piano tocando seu samba-jóia.

Se nascido na gringa, Benito tivesse nascido, poderia ter tido uma carreira com no mínimo a relevância de um Billie Joel, nessa linha de cantor-compositor pianista com repertorio popular.

Mas quis a sabia natureza do equilíbrio entre forcas, que ele nascesse pras bandas de cá e deixa-se o pianista lá onde está.

E ficamos todos bem com isso.

Pode parecer um detalhe bobo, que hoje em dia ninguém se dá ao trabalho de prestar atenção, mas eu cá com meus botões, me pergunto. Por que diabos chamar um disco de “Gravado Ao Vivo”? O que o homem queria enfatizar com isso? Infelizmente o Sr. Google não nos dá muitas respostas.

Pra quem afirma que tudo o Google sabe, tá ai mais uma que ele não achou…

O que me leva a outra observação importantíssima: quão pouca informação técnica e descritiva a respeito de música brasileira se tem na Net. Será que nossa ignorância é tanta que conhecimento e informações sobre nossas riquezas intelectuais criadas em música vão ficar confinados nas casas, nos envelopes e nas memórias de poucas pessoas?

Só vendo.

O que dizer de Benito? Compositor inspirado e popular, ele criou balanços que deveriam estar tocando nas rádios ate hoje se rádio popular tocasse música popular decente. O lado A desse play é música boa seguida de música boa.

Começa com Além de Tudo, balada que tirando o sincope, poderia ser tocada em qualquer boteco americano por conta das suas cadencias no piano e sacadas muito sofisticadas na escolha das nuances pra onde a musica vai.

Depois dessa jóia, vem o clássico Charlie Brown, se não conhece, procure saber.

Para Olhe e Veja relata de maneira poética um acidente rodoviário e Vou Cantar Vou Sambar é outra preciosidade que só quem é do rolê conseguiria perpetuar.

E pensar que essa joia era música “popular” que o povão ouvia.

Gravado Ao Vivo tem as imperfeições de uma gravação feita no 1.2.3. mas é lindamente executado e cantado com técnica e emoção no volume certo.

Disco sensacional que merecia mais ouvidos nos dias de hoje.


Belchior – Alucinação (1976)

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Demorei muito pra encontrar esse amalucado senhor.

Quando mais jovem, eu achava Belchior um saco.

Sabia que ele era bom compositor, mas devido a minha hojeriza pela “MPB” que me acompanha há algumas decadas, nunca dei bola pra ele.

Mas um dia a ficha caiu, faz pouco tempo é verdade, mas caiu.

Tentei escutar outros discos dele, mas realmente nenhum me comoveu tanto até chegar nessa obra-prima Alucinação.

Compositor singular, capaz de enfiar mais palavras do que caberiam numa respiração e mesmo assim nenhuma vogalzinha delas deveria ficar de fora é dificil de ser entendido e querido assim de cara, e acho que quase todo mundo conheceu o homem através da voz de Elis Regina e sua versão arrasadora de Como Nossos Pais, que deve ter sido uma das primeiras letras de música que consegui decorar quando criança.

Esse tipo de volúpia pela palavra, a não edição ou a simples opção em não abdicar do sentido em prol da melodia deve ter dado um trabalho pra produtores, arranjadores e músicos que acompanharam o nosso bardo ao longo dessas décadas, e olha que esse disco ela ta muito bem acompanhado.

É difícil rotular esse álbum como MPB, acho que Alucinação tá mais para um “folk a brasileira”, um Dylan perdido na loucura tropical no meio de um regime militar que começava a fraquejar e com uma sintonia muito fina com a juventude universitária daquela época.

Algumas canções que ele escreveu eram a perfeita tradução desse período estranho, senão o que dizer de Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais e a brilhante Sujeito de Sorte? Ah, e ainda tem aquela do rapaz latino americano começando a bagaça, vcs sabem “Eu sou apenas um rapaz… latinoamericano sem dinheiro no banco” e por ai vai.

Belchior é um som muito “Puc”, muito “Diretórios regionais de Humanidades da Federal de Sei lá Onde”, muito “Jogos Estudantis”, muito “Maconha e liberadade”, mas tirando todos os rótulos que normalmente acompanham o grupo de pessoas que curtem o cantor, o disco é incrível, sensacional e com um conjunto de letras que não tem par na música brasileira, talvez Raul Seixas com O Novo Aeon e um Chico Buarque em Construção estejam próximos mas fora esses, não tem pra ninguém.

Busque ai A Palo Seco ou Alucinação pra comprovar a minha tese. Se não bastar, Sujeito de Sorte encerra a questão.

Se não bastassem as letras, os arranjos e o som quente desse disco são sensacionais, um violão tocado ao estilo folk, com palheta, com uma caixa de bateria muito boa, teclados e orgãos a cargo de Jose Roberto Bertrami (Azymuth, dentre outros), se as letras não fossem incríveis, as músicas são incriveis e até o vocal estranho e desajeitado de Belchior colam muito bem nos ouvidos, causando o estranhamento e a conquista auditiva a longo prazo.

E um detalhe que eu não tinha reparado e me foi chamada atenção por um cara num churrasco de um amigo, e que também é grande fã do disco, é o “escorpião” na contracapa desenhado por cima do titulo e do nome do cantor no lado esquerdo.

Fui procurar por ai na internet se tinha alguma referencia sobre essa peculiaridade e descobri que não existe nenhuma referencia a esse desenho. Será que ninguém quis saber? Nem os estudiosos de música brasileira acharam essa brisa muito louca?

E nem ele tá mais por ai pra explicar!

Discasso!


Beethoven / Karajan – Sinfonia N.8 Em Fá Maior, Op.93 / Sinfonia N.9 Em Ré Menor, “Coral” (1985)

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Toda a vez que escuto o Allegro vivace e con brio da Sinfonia N.8 sinto a beleza preencher o ar de tal modo que sou capaz de respira-la, traze-la para os pulmões, para o diafragma, através da pele e devolve-la ao mundo na exalação.

De longe é a minha favorita do mestre alemão.

É um milagre, um milagre promovido por um homem, deviam beatifica-lo por essa obra pois ele conseguiu traduzir em sinfonia um sentimento de grandeza universal e de supremacia do homo sapiens perante as demais criaturas vivas, que por si só bastaria para nos redimir do pecado original, da culpa da existência e das danações eternas.

Como vivemos em um mundo onde o que se faz e o que se paga é fardo de cada um, então o mestre Ludwig deve ter sido recebido no céu, se é que existe céu, e se essa cena fosse descrita, certamente teria a Sinfonia n.8 pra sauda-lo, com Deus estendendo a mão com um bloquinho de papel pedindo autografo.

Esse belíssimo play traz ainda a destruidora Sinfonia N.9. Arrisco dizer que se não existisse essa sinfonia, não teria existido o Heavy Metal. Pesada, corpulenta e barulhenta, a Sinfonia N.9 fecha com chave de ouro a sequencia de sinfonias criadas por Ludwig e confirmam um corpo de obra que jamais seria batido por ninguém.

Karajan rege a Orquestra Filarmonica de Berlin com a dureza e rigidez necessária para transformar essas duas gravações em verdadeiros “Standards” do repertorio da música mundial, e que na minha modestíssima opinião, deveriam entrar na sexta básica do tal “vale Cultura”.


Beethoven / Richter – Appassionata & Funeral March (Sonatas)

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No livro Caninos Brancos, de Jack London, o personagem principal é um lobo selvagem, em seu processo de “adestramento” ou “castração” de sua liberdade perante a força e destreza de uma tribo de esquimós no Ártico e o relato traz, de maneira simples e cortante, se valendo do limitado e primitivo conjunto de valores do pequeno lobo, como ele “instintivamente” se domestica perante o homem e passe a aceitar seus mandos, seu domínio e sua autoridade.

De maneira que acreditemos fielmente na capacidade básica de entendimento do animal, ele demonstra sua admiração profunda pelos homens que o raptaram, num misto de medo/admiração, nascido da perplexidade deste perante a imensa capacidade do Homem de lidar e fazer coisas com objetos “inanimados” que ele nunca imaginou ser possível, dentre elas, criar fogo com espetos de pau e se valer de objetos da natureza para criar proteção e morada a todos.

Sobre Beethoven, eu sinto o mesmo medo/admiração que o Caninos Brancos sente pelo Bicho-Homem.

No compositor alemão, ouço a imensidão de um mundo antigo que nos sucedeu e um mundo muito melhor que sua capacidade aparentemente infinita de criar coisas belas nos proporiconou.

Sou absolutamente apaixonado pelas Sonatas do mestre Ludwig e a Apassionata é envolta de escuridões e belezas nas mesmas e gigantescas proporções. Instigante ao máximo, tanto a Apassionata quanto a Marcha Funebre são obras dificeis de serem igualadas em ousadia.

Ludwig é imenso demais, é como tentar descrever o Oceano Atlântico, é um tsunami de criações, revolucionou a música para sempre, sem ele não haveria evolução e sem ele, arrisco a dizer que não haveria: Rock, Beatles, Nina Simone, Heavy Metal, Música Gótica, Pop com Piano, Vinhetas, Desenho Animado, Wagner, Stravinski, ambição em se fazer música, músicos profissionais, Lino, etc.

Com tanto para se escrever sobre o homem e sua música, me pergunto porque não me calar e deixar que Richter se encarregue de depositar em nossos ouvidos a melhor ou uma das melhores interpretações das sonatas de Beethoven, que devem as mais sombrias e belas peças musicais já feitas.

E tá bom por hoje.


Beethoven / Pierre Boulez – Sinfonia n.5 Em Dó Menor, Op 67 / Cantata Mar Calmo e Viagem Próspera, Op 112 (1972)

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E agora começamos a seleção de LPs dedicados a Beethoven.

Não sou capaz de escrever com profundidade sobre Beethoven, tão pouco sobre Pierre Boulez, pois, como escrevi há alguns posts atrás, a música clássica ainda me é um mistério que procuro desvendar há alguns anos e estou muito longe de chegar a algum lugar palpável e seguro, mas mesmo assim, vou dando minhas cabeçadas pois a carreata não pode parar.

Otto Maria Carpeaux é meu guia e minha luz nesse terreno da música clássica ocidental, e ele afirmou lá atrás, que Beethoven era a maior expressão artística humana ao lado de Michelangelo, e como bom elitista detentor de cultura, capacidade e bojo cultural que poucos tiveram, estou com ele e acredito em suas palavras sem questionar.

Seguindo…

A Sinfonia n.5 de Beethoven talvez tenha a abertura mais conhecida dentre suas obras, a reaçaiada adora, até o ex-candidato a presidente Enéas Carneiro “Meu nome é Eneas” ilustrava seu pouco tempo de Tv com a poderosa abertura.

Particularmente é das sinfonias do mestre alemão, a que menos gosto mas ai vai a minha predileção natural pelo obscuro e pelo bizarro, coisas que não se encontram na firme, potente e perfeita peça de Beethoven.

Pierre Boulez também é outro monstro da música. Regente e compositor modernista, ele sacudiu a estacionada música clássica nos anos 50 e 60, com suas composições ganhou fama, mas ganhou o mundo mesmo regendo e escrevendo sobre música, dizia ele: “quero provocar não apenas uma resposta emocional, mas também intelectual, a estrutura que está por trás do som”.

De diferente do repertório habitual que se ouve em gravações de Ludwig, aqui, o maestro francês traz a tona uma rara gravação da Cantata intitulada Mar Calmo e Viagem Próspera. Composta originalmente baseado em dois poemas de Goethe, a cantata é dificilmente gravada e aqui encontrou talvez a sua melhor gravação, o que vale completamente o disco.

E assim, começamos a temporada de 3 dias ao lado do bom Ludwig.


The Beatles – The Beatles (White Album) – 1968

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E chegamos ao ponto de acordo entre quase todos as pessoas que amam os Beatles.

Praticamente todos eles têm um lugarzinho especial no coração pra esse disco.

“É o ponto máximo entre a tensão criativa e as disputas internas pelo controle do grupo e pelos holofotes da mídia mundial”. É um dos dizeres mais comuns sobre o reflexo do álbum e o período pessoal que cada um dos Fab Four viviam, mas acho a afirmação parcialmente correta.

A disputa pelo controle da banda já estava ganho por Paul um ano antes com os projetos Sgt Peppers e Magical Mystery Tour, o filme, que figuraram em dois projetos que deram a ele o controle criativo por conta de seu envolvimento e motivação fora do comum para fazer a direção sonora da banda ir pro lado que ele queria. Pra isso ele contou com o aval de George Martin que tinha enxergado essa capacidade de acertar muito e variar o repertório de composição para gêneros que os demais não acompanhariam.

O “album branco” não é tanto sobre disputa, mas sim uma sessão de “estapeamento” entre Paul e John, com o George vindo de vez em quando das uns petelecos nos dois, que no fim virou um exercício de mutilação originado do tédio e saco cheio de horas de gravações, pouco descanso e uma vontade feladaputa de se superarem.

Há um clima de secura e silêncio por trás do álbum que é angustiante, claustrofóbico e imagino como seriam as coisas se a banda tivesse terminado com esse sendo o seu ultimo trabalho, já que na época foi o que quase aconteceu.

No reino do “se” se constrói um novo mundo, mas voltemos ao que a história de fato foi.

Envolto de mistério, o disco já começa escondendo o jogo logo na capa, todo branco com nome da banda em auto relevo, na contra capa nenhuma informação, mostrando o incrível poder que eles tinham de peitar lançar um álbum com tantas características anti-comerciais assim e desafiar todas as regras de marketing que eles mesmos ajudaram a criar dentro da indústria musical dos anos 60. (álbum duplo? Sem foto dos integrantes na capa? Sem um compacto antes do Album? Sem informação nenhuma de nada?).

O que ninguém sabia era que os rapazes tinham um plano, ou pareciam ter, pois o álbum foi direto pro primeiro lugar da Billboard mesmo com todas esse anti-marketing. A curiosidade de seu publico foi tanta que a receita do “esconde o jogo” deu muito certo.

O álbum é irregular a beça, genial como eles nunca chegaram e boboca na mesma proporção. Começando o lado A tem o melhor rock “pé-na-porta” escrito por Paul, Back In The USSR, que puxa a bela e estranha balada Dear Prudence de Lennon seguida de Glass Onion, e sua letra sacadíssima e inspirada de Lennon dando uma zoada a respeito dos mitos e lendas que surgiram em torno do grupo nesses anos.

Depois desse começo arrasador, vem duas bobagens colossais Ob-La-Di, Ob-la-Da que deve ser a maior porcaria do universo e Wild Honey Pie que não diz nada e se você não fosse fã de Beatles ia se perguntar que merda era aquela.

Mas o lado A iria se redimir magistralmente com a levada “oeste” The Continuing Story of Bungalow Bill e talvez as duas mais espetaculares músicas dos Beatles: Happiness is A Warm Gun, que confesso aqui, ainda acho magia pura e não sei de que planeta Lennon tirou essa música, mas não é daqui. E While My Guitar Gently Weeps, de longe a melhor contribuição de George até então.

O resto do disco é uma grande disputa de contrapontos, Paul lança uma balada acústica Blackbird, com a levada de violão mais linda do pop britânico e Lennon solta Julia, praticamente do mesmo molde. Lennon ataca com a furiosa Everybody’s Got Something To Hide… e Paul vem com Helter Skelter, um verdadeiro porrete descomunal na cabeça de quem tivesse pela frente, Lennon vinha com vociferando em I’m So Tired e Paul singelo com Mother Nature’s Son.

Outra das minha favoritas de Lennon está nesse álbum, Sexy Sadie é um deleite melodioso com veneno escorrendo pelo cantinho da boca pra contar mais uma das suas experiências no período de retiro “dos artistas” na India (história sensacional dentro da biografia da banda).

No fim, como um amigo disse há muito tempo, o álbum duplo podia muito bem ter sido um simples se eles tivessem se entendendo na época e o disco seria um petardo colossal irreparável, mas quando você tem um lado 4 como esse, é quase como a nota 10 sendo tirada meio ponto por música, exceto Cry, Baby Cry e Savoy Truffle, duas faixas que parecem que antecipariam o que seriam as canções futuras de Lennon e George nos anos 70. Agora o resto desse lado é de doer: Revolution 1 é uma bobagem, Revolution 9 é música experimental mal feita, pagando de difícil e chatissima, Good Night é um pavor e Honey Pie fica no limite entre o comico e o genial, mas lambe mesmo é o cafona.

Resumo da opera: O White Album já foi o meu disco favorito dos Beatles, mas hoje é só o disco com as melhores musicas que eles fizeram, o que não é pouca coisa que fique claro, mas não faz dele o disco mais foda do mundo. Gosto muito, mas sinceramente é isso…


The Beatles – Revolver (1966)

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Tento buscar na minha memória ou no que ainda resta dela (Para Sempre JP chegando ai?), quando foi a primeira vez que escutei os Beatles.

As vezes acho que foi Strawberry Fields, no ano em que Lennon levou o balaço? Yellow Submarine em algum programa da Globo ali naquela mesma época?

As vezes, meus sensores de idade e lembrança me mandam avisar que pode ter sido Eleanor Rigby, ali pelo final dos anos 70 em alguma repentina audição no rádio do carro do meu pai.

Tudo isso se resolveria se eu fizesse uma regressãozinha básica e essa dúvida besta e nem um pouco edificante seria esclarecida e eu poderia voltar a dormir o sono dos justos com minhas duas fatias de pepino cru no olho pra manter a pele saudável e as olheiras cuidadas.

E um dia íamos chegar aos Beatles e agora tenho a chance de confessar, estou de saco cheio de Beatles.

É claro que Revolver é um baita disco, mas é tão decantado em prosa e verso, com todas as suas mitologias e lendas contados e recontados de traz pra frente, com todas as suas segundas intenções e pegadinhas e sacadas e mistérios sendo revelados toda a hora, que dá realmente pouca paciência pra escrever sobre ele nos dias de hoje.

Acho que os Beatles tem a mesma importância na formação musical que um On The Road (Kerouac) ou Lobo da Estepe (Hesse) para formação de jovens leitores e como tais, só faz sentido e só arrebata quando se é jovem.

Honestamente não consigo mais ouvir esse disco depois dos 30 anos e muito menos agora que estou com 40. É como se eu estivesse escutando um disco da Xuxa ou do Atchim e Espirro.

Friamente sobre Revolver, eu acho que se trata de um disco irregular, alterna momentos altamente inspirados com bobagens inacreditáveis: Here, There And Everywhere e Yellow Submarine são duas faixas que eu sempre pulei quando escutei esse disco, Eleanor Rigby é linda, mas tão enjoativa quanto três pedaços de chocolate Suflair comprados no farol.

No lado B, For No One é outra tolice.

Do lado A, gosto mesmo é de She Said She Said por causa da sua guitarra e do curto espaço de tempo em que acontece um maremoto de informações dentro de uma estrutura sofisticada e simples. Outra ótima é Taxman, mas se não fosse por ela, não existiria rock no Rio Grande Do Sul, pois todas as bandas lá dos Pampas tentam reproduzir até hoje o som e o molho da guitarrinha de Paul (ta ai o Cachorro Grande que não me deixa mentir).

As vezes me sinto meio mal em ter passado a desgostar tanto de Beatles com o passar dos tempos, mas ai eu lembro de uma matéria em que Ray Davies, dos Kinks detonou esse disco na época do lançamento (ok, pode ter sido inveja), e me sinto melhor.

O lado B é infinitamente melhor: Paul manda sua melhor contribuição pro disco com a sorridente Good Day Sunshine, George não trazia ainda seu melhor, mas I Want To Tell You orna bem. Agora quem manda muito no lado B é Lennon com 3 canções que certamente figuram entre suas melhores canções desse período inicial/meio de carreira da banda: And Your Bird Can Sing foi flagrantemente chupinhada dos Byrds, mas é genial. Dr. Robert tem a sujeira perfeita dentro de um rockinho venenoso e poluído. E finalmente o “tour de force” Tomorrow Never Knows, essa sim, canção que parece ter vindo de outro plano astral, de outra esfera não conhecida pela raça humana e que encontrou na doidice de Lennon, a antena que capturou essa sensação e com a ajuda do maestro George Martin e do fiel escudeiro Paul, deram forma a uma obra-prima assustadora e que por causa dela que essa edição em vinil se manteve aqui na discoteca do Tio JP.

A maioria dos discos dos Beatles que eu tinha já foram embora, mas esse ficou. E até segunda ordem, vai ficar por um bom tempo ainda.