Teenage Jesus And the Jerks – Shut up And Bleed (2008)

“I Was a Teenage Terrorist” – É assim que Lydia Lunch se define.

Até sexta-feira, esse humilde blog vai tratar só de discos barulhentos, estranhos e bizarros para ver se consigo exorcizar toda a bundamolice que foi o Festival Lollapalloza, ou Rollapaloozar e trazer a tona o indie rock de verdade (ou a minha versão lado B dessa parada).

E pra começar a estrada para o inferno, nada melhor que o Teenage Jesus and the Jerks, banda liderada por Lydia Lunch uma artista performática, poeta do caos, guitarrista destrambelhada e figura idiossincrática em tudo o que fez.

Ela estava no lugar certo e na hora certa: Nova York do final da década de 70 para 80, envolvida com todos do movimento punk local, desde os toscos até os artistas mais refinados. Ela frequentava, trazia conteúdo para seus esporros sonoros e ganhava respeito da moçada.

Mas a onda da moça era outra.

Na verdade sua onda era a “Não Onda” ou no original “No Wave”.

Mesmo sem a intenção clara ou organizada de ser um “movimento artistico-musical”, o No Wave juntou uma galera chegada em bizarrices sonoras, canções destruídas, barulhos, ruídos e lá no fundinho, uma migalhinha de sons.

Ao lado de artistas como DAF, James Chance & The Contortions e Suicide, o Teenage Jesus era a plataforma politico-poética para Lydia desfilar raiva, inconformismo, niilismo e todos os ismos que você quiser. Nada de música convencional, o negócio é o confronto, é o incomodo sonoro e uma sucessão absurda de ruído como nunca se ouviu antes.

Dá para afirmar que sua influência foi capital para artistas como Sonic Youth, Swans, Minor Threat, Boredoms, Eintuerzende Neubauten e qualquer outro artista que tenha optado por fazer barulho da década de oitenta em diante.

Shut Up & Bleed junta num só disco todos os compactos, mini-albums, eps e performances ao vivo da banda entre 1978 e 1979.

Para começar a exorcizar o indie coxinha de hoje, vamos de remédio tarja preta forte… Teenage jesus & The Jerks na veia e na orelha.


Junior Wells – Sings live At the Golden Bear (1969)

Como todo bluesman que se preze, Junior Wells era dos mais marrentos.

Se apresentava sempre vestido de gangster, portando sua gaita em punho como se fosse um revolver, com o qual, o mestre disparava temas próprios e de outros com a tarimba que só performers como ele são capazes de fazer.

Junior foi a ponte dos velhos blueseiros elétricos de Chicago dos anos 50 (tocou com Muddy Waters depois que Little Walter saiu para seguir voos solos) para o novo blues que floresceu nas selvas de pedras nos anos 60 e 70, tendo em figuras como ele, Buddy Guy e Charles Musselwhite como os principais expoentes.

Disco ao vivo de blues é tudo igual?

É e não é!

Quando o assunto é Junior Wells, seguramente não é tudo igual. Esse Sings Live… não é um registro 100% de blues. Há muito de soul music, R&B, bugaloo e gospel nessa panela blueseira que deixa o disco muito mais condimentado e mais saboroso.

Mr. Wells desfila um repertório de causar inveja, com uma confiança e fé inquebrantáveis. Não há vudu, mal olhado ou macumba que pegue o homem.

Depois dele, poucos vieram e quase nenhum que mereça nossa atenção pois o blues que ele incrementou, renovou e encheu de novo gás nessa época, acabou virando o grande paradigma pelo qual o gênero passou e como uma maldição haitiana, se aprisionou no passado de berço esplêndido e não conseguiu mais se achar ou se renovar, acabando por se tornar restrita a guetos de saudosistas e senhores mortos-vivos de rabos de cavalo, que pilotam motos e criaram barrigas de cerveja.


Joan Jett & The Blackhearts – I Love Rock And Roll (1981)

Acho que eu ia demorar mais alguns meses até colocar esse álbum no blog, mas como a madame esteve por Sampa e fez o melhor show do Lollapalooza Brasil (ou Rollapaloozer Brasil), resolvi adiantar o expediente e tratar desse discão de rock no capítulo de hoje.

Bom do Brasil virar “Gringa” é que dá pra ver festivais como esse pela TV. Não tenho mais saúde para passar perrengue em festival de rock com 15 atrações meia boca e dois legais.

Aliás, festival nenhum… prefiro os show em casas menores… Nesta próxima semana tem dois que prometem: Damned e Mark Lanegan.

A senhorita Jett está no auge de seus 54 anos e mandando muito bem, os Blackhearts estão afiadíssimos e dando no couro, o que prova que punk rock não envelhece mal.

Nesse seu 3o trabalho solo pós-Runaways, Joan fez seu melhor álbum (adoro o Bad Reputation também, mas I Love é mais coeso), e aqui ela conseguiu seus maiores êxitos, graças a capacidade de transformar músicas desconhecidas antigas e medianas em hinos marcantes: I Love Rock And Roll, uma canção do grupo The Arrows se tornou para sempre no hino do rock Caminhoneiro por excelência! Toscão, descarado, pesado e absurdamente sincero, Joan e I Love Rock And Roll sobreviveram a tudo e todos e levou com uma inabalável convicção sua crença no rock and roll farofa do bem como fonte infinita de diversão e crescimento espiritual.

Outras faixas incríveis deste álbum são: Bits And Pieces, do Dave Clarke Five, e uma das minhas favoritas Love is Pain, além da confessional Be Straight.

Sua carreira dai para frente estacionou, ela não conseguiu fazer nada de espetacular, mas seus shows continuam espetaculares, e graças ao filme sobre sua primeira banda, um público novo e jovem de garotas (garotos tb, por que não) se aproximaram não só das Runaways mas também de Joan e seus Blackhearts.

Confiança e carisma, Joan é mulher com M maiúsculo.

By: J.P Bueno


The Detroit Cobras – Tied & True (2007)

O Detroit Cobras é seguramente a melhor banda de bar do mundo.

Isso, se o seu conceito de bar for o mesmo que o meu.

Música alta, divertida e barulhenta + ambiente escuro + balcão grande + cerveja gelada + destilados em copos de café + garotas de regatas brancas legais, que gostem de homens, mas que não gostem de abusos.

As duas chefonas do Detroit são Rachel Nagy (vocal) e Mary Ramirez (guirarras) e é delas que partem as escolhas do repertório fino e de bom gosto que o grupo traz aos palcos e aos sulcos.

A banda só toca versões, mas elas tem uma condição rigorosamente inegociável: só gravar e tocar músicas de grupos e artistas obscuros de soul, R&B, Blues, Garagem e rock dos anos 50, 60 e 70.

O que é muito legal, pois cada álbum é uma caixinha de surpresas no quesito repertório.

Elas sacaram a grande pobreza que a música pop se encontra no quesito canções, estão para serem mais um derrapando e fazendo qualquer coisa, por que não se apropriar de material alheio muito bom e obscuro e transforma-lo em material original?

Como elas nunca se preocuparam em compor, apostaram suas fichas em buscar sons obscuros legais e trazer a tona em pleno século XXI. No começo dos anos 2000, elas foram apontadas dentro do bololo do novo rock americano como uma das grandes revelações ao lado de The White Stripes, The Come Ons e Dirtbombs.

Da seleção escolhida para seu ultimo álbum de estúdio, resenhado aqui: os artistas mais famosos são: Little Willie John, Irma Thomas, Leadbelly e The Melodians (grupo de reggae dos anos 70).

Sentiu?

No final, tudo vira garageira alta e de nivel, movidas a guitarras Gibson Les Paul, tocado reto, sem retoques e em um pit acelerado.

Bom de ponta a ponta, ficamos aqui ansiosos por uma vinda delas ao Brasil ou por um novo álbum.

 


Brahms / Mutter / Orkis – The Violin Sonatas (2010)

Na escala Richter do mundo da música clássica, as sinfonias de Brahms estão entre as mais poderosas, em especial a 1a Sinfonia. Pesadas, dramáticas, épicas.

Mas quando o assunto são seus quintetos para piano ou em especial suas sonatas, a riqueza melódica e a suavidade das mesmas, fazem cortar o coração e sublimam até a estratosfera, sai o drama mundial, entram o drama menor que intimo que atingem diretamente o coração.

Em 2010 a grande violinista Anne-Sophie Mutter se juntou a Lambert Orkis para gravar e executar três lindas sonatas para piano e violino do mestre alemão.

Brahms sempre foi muito inspirado para compor melodias únicas ao piano (talvez seu instrumento favorito), e o tratamento que os dois solistas deram a essas pequenas obras-primas é digno de constar nos registros como uma das gravações do gênero mais importantes de todos os tempos.

O Allegro amabile da sonata n2 em A maior op. 100 e o III Alegro molto moderato da sonata n.1 in G maior op. 78 na minha breve escala de proximidade com o sublime desconhecido além, alcançaram um degrau muito próximo de toda a felicidade suprema que a música clássica consegue causar num ouvinte desatento e imaturo como eu.

O disco como um tudo, causa esses arrepios em vários momentos e é uma parada obrigatória para quem quer mergulhar nesse vasto oceano da música clássica.

Beleza… beleza… beleza…


Dengue Fever – Presents Electric Cambodia (2009)

O Dengue Fever tem uma historia bem típica dos novos tempos. Formada em Los Angeles no começo dos anos 2000, Mezzo-USA, Mezzo-Camboja, os dois fundadores da banda, descobriram que eles queriam fazer um rock psicodélico com sabores cambojanos depois de uma viagem que eles fizeram ao simpático e maluco pais asiático e tomaram contato com o rock sessentista torto que se fazia por lá.

Era muita doideira.

Tanto que esse álbum não é de musicas do Dengue Fever, sequer de covers. A banda não se atreveu a mexer nesse material cru, maluco, frito e esquizofrênico.

O Dengue Fever compilou varias fitas K7s (isso, fitas K7s, lembram?) de artistas cambojanos da década de 60 com sons inacreditáveis e trouxe a tona um período desconhecido do mundo civilizado. Pop music garagista do sudeste asiático.

É esquisito. Mesmo! O som é indescritível e inimitável, é impossível cantar que nem esses caras, é impossível tocar nesse ritmo… Caraca! É isso que dá colocar rock and roll na cabeça desses alucinados… Mais devastador e divertido que uma bomba…

Open your head…


Roberto Carlos – Em Ritmo de Aventura (1967)

 

O Rei não está nú, e sim com jaqueta de couro, capa, cabelo comprido e lambido e sendo engrenagem capital em uma então nascente e amadora indústria do entretetimento tupiniquim para lhe apoiar e tornar o ilustre filho de Cachoeira do Itapemirim em ídolo das multidões jovens dos anos 60.

Em 1967, Roberto é a estrela desse filme a la Elvis, com tudo o que interessava a juventude da época: rock, liberdade, carros, velocidade, crimes, garotas e helicópteros.

Seria o primeiro Velozes e Furiosos?

Anyway, esse foi o primeiro grande álbum da carreira de Roberto ou pelo menos o mais redondo e bem finalizado até então.

Vai duvidar? O disco abre com “Eu Sou Terrível” e termina com “Só Vou Gostar de Quem Gosta de Mim”, no recheio dessa bolacha: “Voce Nao Serve Pra Mim”, “E Por Isso Estou Aqui” e “Por Isso Eu Corro Demais”… tá bom ou quer mais?

A sonoridade do álbum é fiel a estética Jovem Guarda. Tecladão “churrascaria” mandando na banda, guitarras secas, vocais cheios de eco para reforçar os momentos mais românticos e dessa vez acrescidos de arranjos espertíssimos de metais que dão mais brilho e leveza ao som do Rei.

Mas se esse disco já não é bom o suficiente ele ainda tem um dos momentos mais inspirados de Roberto como compositor solo: “Quando”. Obra que só um gênio como ele poderia ter composto.

Ontem o Rei esteve em Sampa anunciando seu novo projeto: Roberto Carlos em Jerusalém. Nada de novo no front, Roberto faz aquele misto de Andre Rieu, Easy Listening, tristeza e pieguice ao cubo.

Se ele virou esse xarope maníaco e cheio de tiques, cercado de histeria, idolatria e tocando essa mesma porcaria, parte da culpa é nossa.

Algum dia esse cara foi muito, muito legal e “Em Ritmo de Aventura” é a prova irrefutável disso!


Pepeu Gomes Um Raio Laser (1982)

Era uma modorrenta terça-feira (o dia internacional do Nada a Acontecer), tava eu todo pimpão dando expediente no office quando chega uma informação via email que o honorável guitarrista, cantor, compositor e baiano Pepeu Gomes, teria grande parte de sua obra solo relançada em CD.

Munido dessa informação, me perguntei: Why?

Munido dessa mesma informação,  consultei os  botões da camiseta: Quem a essa altura do campeonato iria parar sua vida e comprar um disco de Pepeu?

Muito intrigado e muito curioso, fui atrás pra saber o que sairia, afinal, vai que…. né?

Fui lá eu pesquisar um pouquinho e não é que eu descobri que tinha um monte de gente querendo botar as mãos nesses discos!!! Vá entender, pensei comigo novamente.

Pesquisando a fundo, não é que tem uns discos bons esse danado de Pepeu?

Pepeu sempre foi um guitar hero terceiro-mundista muito bem quisto em todas as praças musicais mundo afora, agora… se ele tinha feito alguma coisa que preste… era outra conversa…

Entonces, capturei esse Um Raio Laser no meio de outros e a bizarrice da capa, que mostra nosso Hendrix tupiniquim com um cabelo e uma mexa verde de dar inveja aos astros do forró eletrônico nowadays, só é superada pela contra capa suprema desse mesmo quitute, com o astro de corpo inteiro soltando um raio laser tosco de sua guitarra “blade-runneriana”.

Coragem irmão, felizmente a bizarrice acaba no campo estético, porque o disco é bom, espantosamente bom.

Pode parecer viagem, mas dá para sacar uma forte presença de Prince circa 1999 ou Around The World In A Day nos momentos mais pops desse álbum. Não era facil escapar da influencia do senhor “púrpura” nos early eighties.

Funk e swingue oitentista de primeira se unem a uma guitarra aguda e frenética para compor este belíssimo exemplar de pop nordestino legitimo e redondo. Um Raio Laser é uma bobagem ensolarada muito bem informada musicalmente e que sobreviveu bem ao tempo.

Tirando os discos ao vivo, que eu não pego bem de jeito nenhum, o relançamento dessa discografia foi deveras oportuna e serve para jogar luz a um momento obscuro do pop brazuca: O pop dos anos 80 feito por artistas com mais de 30 anos. Há mais nessa cumbuca para revirar, mas bateu uma preguiça e eu vou é dar uma espreguiçada…


Le Tigre – Feminist Sweepstakes (2001)

O Le Tigre tinha tudo para mudar o mundo no inicio do século XXI.

A proposta sonora do trio era aberta, moderna, antecipou um monte de tendências comportamentais, musicais e fashion, caiu no gosto de todo mundo, Kathleen Hanna vinha de extenso background militante no rock e o álbum de estreia do Le Tigre foi ovacionado e apontado como o futuro.

Em resumo: Feminist Sweepstakes era pra ter sido o ponto de mudança na vida da banda e de Kathleen, momento de aumentar o público e se tornar referência cultural para toda uma geração.

Mas não rolou.

E não rolou por que o disco seja um fiasco, muito pelo contrário, passado quase 11 anos, dá pra contar nos dedos da mão do Lula quantos discos foram tão modernos e abrasivos quanto este nos anos seguintes.

O problema é o seguinte: a banda fez o disco certo, no timing certo, mas aconteceram duas coisas que atrapalharam o caminho do Le Tigre:

Faltou um hit grudento, que elas fariam alguns anos mais tarde com “Nanny Nanny Boom Boom” e a ascensão de Strokes e White Stripes.

Aí, a mídia rabo de vaca focou seus ouvidos nos franguinhos e simplesmente ignorou o Le Tigre.

Banda favorita das garotas raivosas de todo o mundo, o lado politico-lésbico-morte aos homens do grupo não ajudou muito a fazer novos amigos, mas olhando para trás hoje, talvez nem fosse a intenção do grupo fazer concessões para fazer sucesso.


The Blues Brothers – The Blues Brothers: Music from The Soundtrack (1980)

 


Tudo começou com uma piada que acabou indo longe demais. Ainda bem! Os autores da piada foram John Belushi e Dan Akroyd, que no final dos anos 70 faziam parte do cast do Saturday Night Live e resolveram inventar os Blues Brothers como projeto de um quadro que mostrava os dois irmãos branquelos, vocalistas de uma banda de R&B, vestidos como criminosos e apaixonados por Soul Music.

John e Dan eram realmente apaixonados por Soul.

O lance todo era ser somente um quadro mas a farsa ficou tão boa que no mesmo ano em que foi ao ar (1978), eles lançaram seu primeiro disco pela Atlantic Records (é mole?). Alçando voos maiores, o quadro virou filme em 1980 e hoje é lembrado com carinho por fãs dos humoristas e por fãs de Soul Music. O filme é uma deliciosa bobagem inocente feita com muita paixão pelo conteúdo sonoro e a trilha é um templo para que os velhos mestres do riscado exibam todo seu poderio soul ao lado de discípulos respeitosos e tão talentosos quanto.

Juntos a John e Dan, ou Jake e Elwood (seus codinomes no filme e na banda), a trilha traz Cab Calloway, Aretha Franklin, James Brown e um time de feras da soul na banda de apoio liderados por Steve Crooper nas guitarras.

Disco para animar qualquer ambiente!

By: JP Bueno