Dizzy Gillespie e Trio Mocotó: Dizzy Gillespie No Brasil com Trio Mocotó (2010)

Em 2010, uma das mais legendarias sessões de jazz dos anos 70 viu o raiar do sol.

Tratou-se do histórico encontro de Dizzy com o Trio Mocotó.

Gravado em 3 conturbadas e estranhas sessões em São Paulo no ano de 1974, nos estúdios Eldorado, que ficaram guardados durante mais de 3 decadas nos pertences do inventário do jazzista norte-americano e graças ao acaso, sempre ele, essa máster foi encontrada e transformada em disco em 2010.

Dizzy já era uma lenda e seu entrosamento com o Trio brazuca na base rítmica foi espantoso e o som gerado nessas sessões é sem duvida, um dos grandes momentos do jazz samba da história.

Flertes foram muitos, inclusive do próprio Gillespie.

Mas o golaço aconteceu nessas sessões.

Solto, desprendido e leve, o encontro desses dois continentes sonoros é sensacional. O jazz, o blues e o samba se cruzam em faixas do mais puro deleite.

Dizzy com seus explosivos arroubos no trompete, já com 57 anos mas ainda com muito força no pulmão se casa perfeitamente com o humor e a ginga dos incomparáveis João Parahyba, Nereu Gargalo e Fritz Escovão.

Swingue com sofisticação.

Obrigatório em qualquer discoteca de respeito.


Pelle Miljoona & N.U.S (1978)

Punk finlandês?

Mais um capitulo da história: E como o Punk salvou o mundo!

O movimento e o som punk se espalhou pelo mundo nos anos 70 de um jeito, que ainda hoje é possível descobrir artistas, bandas e discos sensacionais que passaram completamente batidos pelos ouvidos e atenção de todo o mund.

Isso nos poupa da necessidade por artistas novos que não tem vitalidade alguma e só nos faz perder tempo…

Da gelada terra do Papai Noel e do Kimi Haikkonen, o Pelle Miljoona é o nome do cara e N.U.S era a banda que o acompanhava.

Pelle é desses espíritos livres malucos que o universo punk povou o mundo, ainda está vivo, lançou livros e poemas, trampou com música, mas nesse álbum tosco (graças a Deus), típico punk 77, deve ter sido seguramente o melhor disco de punk rock produzido na Finlandia (ou pelo menos é o único que eu conheço, então vai ficar essa informação).

Ótima barulheira pra quem não tem mais paciência com essa tal modernidade caduca de hoje em dia.


Kevin Ayers – Yes We Have No Mananas (1976)

O que dizer de Kevin Ayers?

Na verdade, nem sei muito sobre a vida desse maluco.

Mas conheço alguns discos e nenhum é menos que espetacular.

O cara começou nos anos 60 dividindo os vocais no não menos espetacular Soft Machine, mas ele desistiu do caminho jazz-rock que o grupo seguiria e decidiu por um pop, folk inglês bagunçado, biruta e cheio de possibilidades que permearam seus álbuns.

Eximio guitarrista e ótimo compositor, Yes… carrega toda a aura do pop setentista, ora caindo para o experimental, ora caindo para o descarado sing-a-long.

No fundo tudo é rock de antigamente (antigamente, leia-se anos 70), com muita gente tocando, convidados musicais do mais alto gabarito e canções simples tocadas com alma, loucura e competência.

Imagine um Syd Barrett focado em acertar, é quase isso que o Kevin é.

Estruturas que se perdem e se acham, as musicas tomam direções engraçadas e sofisticadas mas no fim acabam num pop classe A.

Pra sair do marasmo, Kevin Ayers é ótima pedida.


Byrds – Notorious Byrd Brothers (1968)

E o fim chegava…

Esse disco é um dos mais bonitos testemunhos sonoros do fim.

Testemunho sonoro da desavença, da tensão e do fim propriamente dito.

Quando Notorious começou a ser gravado, restavam 4 integrantes no Byrds, já que Gene Clark havia acabado de picar a mula.

Quando a última faixa do álbum foi finalizada, só restaram Roger Mcguinn e Chris Hillman. David Crosby foi despedido e Michael Clarke também pularia fora…

Nesta edição comemorativa, podemos ouvir os dialogos tensos entre os integrantes durante as gravações lá pro final.

O álbum é belíssimo, tem algumas das mais lindas músicas que o Byrds soltou: Goin Back (uma das mais belas baladas de todos os tempos, cortesia de Carole King), Draft Morning e seu clima edílico, Change Is Now e seu mantra insano em plena Era de Aquarius, onde o mundo viraria de ponta cabeça e o barroco era o mais moderno a seguir.

Num mundo pós-Sgt Pepper, ninguém mais competia com os Beatles, a corrida era para recuperar uma espiritualidade que começava a ser perdida neste final de festa e Notorious tem essa cara.

Intimista, múltiplo e cheio de possibilidades, o Byrds nunca estacionou em um único movimento e buscou experiências que traduzissem o espirito do grupo, que sempre primou por lindas vocalizações, guitarras Rickenbackers e um profundo senso de melodias que tocam fundo no coração dos fãs de rock.

Todo mundo tem um lugarzinho reservado para esse grupo fabuloso.

Tantos talentos gerados não pode simplesmente passar batido.

Não deixe, escute esse álbum num sábado de manhã e capte a beleza quase madrigal desse espécime raro, diria raríssimo.


Chuck Berry – After School Sessions (1957)

Chuck, ao lado de Jerry Lee Lewis foram os maiores “inquéritos” da história do rock.

Eles são fundamentais para o rock porque sem eles, os caras que vieram nos anos 60 e detonaram com a porra toda não teriam em quem se espelhar e ídolos malucos, errados e incorretos como Berry, Lewis, Gene Vincent, Cochran entre outros foram os caras que fizeram todo mundo querer ser que nem eles.

Até porque se espelhar em Cliff Richard, o negócio ia ser bem enfadonho.

Berry, junto a outros artistas negros da época ajudaram a quebrar as barreiras raciais entre negros e brancos e seus shows eram tão incendiários que a corda que segregava as duas plateias eram simplesmente jogadas ao solo, junto com o preconceito e com o racismo.

Influente, explosivo, gênio… daqueles que circulam em outra rotação e da qual estamos a milhas de distância.

Swingue, ele chaqualhou os esqueletos do planeta com seu rock cru, rockabilliy misturado com blues, honkie tonk music, música do coração da América.

Suas escalas, riffs e andamentos influenciaram todo mundo que veio depois e essas memoráveis sessões gravadas em 57, capturam todo o veneno, calor e humor desse monstro sagrado da sacanagem.

Tá lá: School Day, Too Much Monkey Business, No Money Down, Berry Pickin e Havana Moon, todas devidamente acompanhadas do outro gênio da Chess, o senhor Willie Dixon no baixo.

Discoteca básica…

E é isso. Fim de conversa!

 


Fairport Convention – Fairport Convention (1968)

Que disco, que fase!

Mais um delicioso quitute do cancioneiro popular anglo-saxãozis…

O FP foi todo construído em cima de ideias, conceitos e sentimentos genuinamente artísticos com ambição, competência e uma escolha incomum de influencias.

Num caldeirão tré chiqué de referencias que começavam com Thomas Pynchon, Doc Watson, Bob Dylan, Barbirolli e terminavam em Henry Miller, Joni Mitchell e poesia simbolista francesa, o som do FP nasceu em berço promissor e tinha na sua formação um dos músicos mais criativos e incomuns nascidos na ilha.

Richard Thompson.

Por mais que o grupo sempre agisse como tal, afinal eram os anos 60 e eles se inspiraram livremente nos ideais libertários da década, Richard era diferente e sua guitarra se destacaria enormemente e prestaria por conseguinte um enorme favor ao folk e pop britânico, nos brindando com uma carreira errática e cheia de surpresas.

O FP é uma das mais adoradas bandas inglesas ever e diz muito sobre o que foram os últimos anos da década lá pela ilha.

Efevercencia de grupos, ideias e gêneros que pipocavam por todos os lados da “Britania”.

Heavy Metal, Fusion, Acid Rock, Hard Rock, Folk Rock, Psicodelia britânica, Progressivo e cada um na sua e todo mundo se frequentando.

Belissimo exemplar do folk engajado e inteligente que o Fairport repetiria nos 5 albuns seguintes.

Estréia sensacional e promissora, virou uma das bandas de cabeceira de John Peel, tá bom?

Por aqui, chegou tarde na discoteca lá de casa, mas antes tarde do que nunca.


Hector Costita Sexteto – Impacto (1964)

Yes, nós tivemos coisa melhor do que banana.

Tivemos a hard bossa ou o nosso jazz e pra dizer de boca cheia… bom pra cara…

Hector Costita é só um dos inúmeros bandleaders brazucas que quebraram tudo na melhor fase musical do Brazilzão.

Basta vasculhar pelos arquivos, discos e sons pela internet pra chegar em pérolas inacreditáveis do nosso som instrumental.

A lista de artistas e músicos é vasta.

Meu interesse começou a ficar mais sério depois que ouvi este exemplar de jazz made in Brazil, e ai eu descobri que tínhamos uma grandeza que nos foi negada por anos e que sempre foi encoberta pelos bossa-novistas, tropicalistas e neo-tropicalistas.

Já de cara, o primeiro tema é Le Roi, um delicioso jazz que flutua entre circunferências sonoras que instigam ao mesmo tempo que entregam o jogo. O cuidado com o ritmo é notório, por isso que as baquetas estão na mão de Edison Machado (outro gênio) e graças ao seu toque, canções como Tókio e Impacto são o que são.

Esse álbum foi reeditado há alguns anos na fantástica coleção Som Livre Masters e carrega no seu cerne, um dos mais requintados e robustos sons produzidos por aqui.

A sonoridade desse álbum, os arranjos e a dinâmica não ficam nada a dever para similares gravados por Verve, Blue Note ou Prestige.

E viva a Fermata Do Brasil.

Ainda lembro da já decadente loja de instrumentos, localizada na Av. Ipiranga que agonizou e morreu durante os anos 90, bem como sua editora de partituras e obras que mais tarde sucumbiriam aos malditos tempos modernos, que não permitem a lugares mágicos e históricos como essa pequena porta que inundou de música e instrumentos a cidade de S.Paulo e o Brasil continuar contando sua história.

Precisamos realmente cuidar do que veio antes, senão nunca vai sobrar nada pra contar daqui pra frente.


The Stone Roses – The Stone Roses (1989)

Já que o disco de hoje é uma obviedade só e já que a banda voltou a fazer turnês e bem que podia passar por aqui… mas vai ser difícil… hoje a resenha vai ser um festival de bobagens e obviedades bem ao estilo despojado dos Roses.

– O álbum de estréia dos Roses é o melhor álbum de estréia da história do rock (talvez The Sun Sessions, do Elvis Presley seja a outra escolha);

– The Stone Roses é o melhor disco feito na Inglaterra (rivaliza com Unknown Pleasures do Joy Division);

– The Stone Roses é o melhor disco feito em Manchester (rivaliza com Unknown Pleasures do Joy Division);

– The Stone Roses é o melhor disco de rock inglês;

– The Stone Roses é um disco que não se parece com nada que veio antes e com nada que veio depois, pensando que estávamos em 1989 isso é Reinventar a roda;

– The Stone Roses tem a melhor faixa de abertura de disco e de quebra, a melhor faixas 2 e faixas 3 também;

– Um disco que tem: She Bangs The Drums, Bye Bye Badman, Sugar Spun Sister e termina com This Is The One vai sempre estar acima do resto dos demais mortais;

– O Stone Roses tem o melhor guitarrista inglês dos últimos 40 anos (ok, Pete Townshend empata);

– O Stone Roses é a melhor banda inglesa da história, ou é a minha banda inglesa favorita (ok, o Small Faces é melhor e também é minha banda inglesa favorita);

– O Stone Roses tem o vocalista mais idiota da história (sem competição);

– O Stone Roses foi a banda que mais se sabotou na história;

– O Stone Roses fez a maior cagada da história, por isso ela só virou uma puta banda cult e não uma banda que deveria ter enchido todos os estádios que os babacas do Oásis, Blur e Coldplay.. urghh encheram nas décadas seguintes;

– O Stone Roses foi a melhor banda de Manchester, a São Bernardo do Campo inglesa (e olha que a cidade teve Joy Division, The Fall e Smiths);

Eu amo Stone Roses, qualquer sujeito minimamente informado deveria amar também.

E fim.


The Boys – Alternative Chartbusters (1978)

Cada revirada no baú da New Wave e do punk pop dos anos 70 pros 80 e não canso de descobrir maravilhas em cima de maravilhas.

A descoberta da vez foi a banda The Boys, que poderia ter sido muito maior do que foi, pois o som dos caras era impecável, comercial, pra cima sem ser bobo e muito, muito divertido.

Punk pop até o osso, alto, rápido, exatamente para os fãs de Ramones, Buzzcocks, Stiff Little Fingers e demais. Não fica nada a dever pra eles.

Altenative é o segundo e expetacular álbum dos caras e que poderia ter acontecido bonito… mas não rolou… eu não sei porque…

O álbum abre com Brickfield Nights, musica ideal para escutar enquanto você troca de roupa para a balada rock and roll.  T.C.P. hoje é a minha favorita do álbum, chega a quase ser dramática dentro do que uma banda punk consegue ser.

E o que dizer de Backstage Pass, U.S.I. e Not Ready?

Alias, não tem uma musica ruim nesse disco!

É um balsamo para os ouvidos sedentos por um bom rock rápido.

Inexplicaveis apagões que dão nas cabeças do mundo e que jogam pro limbo artistas como The Boys e um zilhao de outros…

Ainda bem que existe youtube, internet e vinil… vai atrás.


The Blue Nile – Hats (1989)

Tecnopop e synthpop sempre vão bem com um tempo gelado, cinza e boring, acompanha bem um conhaquinho e um edredon.

Na Escocia, o tempo é assim o tempo todo.

Por isso que de lá saíram tantas bandas soturnas e atmosféricas.

Depois que a trilha do filme “Drive”, genial e maravilhosa, comoveu corações e mentes, o tecnopop dos anos 80 voltou com tudo pro mapa da música e artistas novos copiam estilo, jeito, som e timbres que estavam lá nos anos 80 e nos últimos revivals alguém esqueceu deles.

O Blue Nile é uma banda de um homem só: Paul Buchanan e teve uma vida útil bem expassada, lançando discos de vez em quando, com intervalos gigantescos e preguiçosos (em mais de 20 anos, só 4 albuns), mas cada um deles é especial e bonito.

Meu favorito é esse de 89, que ele levou quatro anos pra fazer e fez bem feito. Romantic pop composto 100% a base de sintetizadores, baterias eletrônicas, teclados, synth bases e climas bonitos de cabaré em fim de noite, completamente e devotamente influenciado por Roxy Music e Brian Ferry.

Lindo de morrer, Hats é leve, rico, atmosférico e cheio de climas que só um maníaco perfeccionista poderia ter concebido.

Dá pra perceber que teve muito trampo pra chegar no resultado final.

O que prova que inspiração sem paciência e edição é só inspiração desperdiçada.

O labor na música é importante e Hats é um ótimo exemplo disso.