E o 1997 foi o meu 1967

Não lembro de muita coisa que eu fazia nessa época.

Mas de alguma coisa sim.

Estava trabalhando, tive apendicite no dia da colação de grau na faculdade e fui dançar na festa de formatura com um estêncil e sangrando que nem um porco.

No mais, só lembro de ter escutado a maior quantidade de discos incríveis que escutei na minha vida de jovem adulto fã de indie rock e praticamente toda a semana eu comprava Cds incríveis lançados naquele ano.

A efervescência estava no máximo!

Praticamente tudo era boa noticia no campo dos lançamentos em 1997!

Como eu transitava pelo indie rock, aquele ano foi apoteótico. Rupturas por todos os lados.

O Radiohead calava fundo o mundinho com seu lindo e festejado Ok Computer, o Oasis botava gente de madrugada na fila de loja de discos para comprar seu novo single e posteriormente pra comprar seu álbum Be Here Now (na época recebido friamente, ouvindo hoje, sobreviveu bem ao tempo, um disco que tem uma balada linda como Stand By Me não pode ser de todo o ruim, certo?).

O “Techno” avançava sobre nossas cabeças provocando discussões acaloradas sobre o futuro da música enquanto Chemical Brothers e Prodigy levavam seus beats a todos os cantos do mundão e tomavam de assalto a atenção de todos, no caso do segundo com direito a algumas polemicas no campo videoclipico como no emblemático e clássico da subversão Smack My Bitch Up.

O conglomerado Wu-Tang Clan apavorava em um segundo álbum mais festejado hoje do que na época e apontava uma direção do que viria a ser o Rap nos anos 2000.

Roni Size fez o disco do futuro que menos se lembra hoje em dia (drum and bass fazia parte do reino “Techno”), mas outros também embalaram de cabeça no d&b como Bowie e Nine Inch Nails. Mas nessa praia ainda sou fã do Photek:

Porém não posso negar que o NiN quase chegou la:

Mesmo no campo rock and roll, tudo ia bem obrigado: O Foo Fighters lançava seu melhor disco: The Colour And The Shape e o Blur surpreendia de novo e conquistava o resto do público que lhe faltava com seu album homônimo, com a ajuda da famosa “Song 2”.

Outros grupos incríveis como Superchunk, Geraldine Fibbers e Guided By Voices arrebentavam com ótimos plays e na area do violão com emoção Elliot Smith lançava o mágico Either/Or e um tal de Belle And Sebastian vinha com If You’re Feeling Sinister e um Ep com a melhor música daquele ano: Lazy Line Painter Jane.

 

No frigir dos ovos, alguns dos melhores discos daquele ano não tiveram a devida atenção, e outros dos meus favoritos sequer foram citados em alguma lista.

Num exercício de listas, faço um afetivo esforço pra empilhar os meus 10 favoritos desse ano intenso, e que não necessariamente apontaram o futuro, mas se tornaram eternos para mim. Deixei o Radiohead de fora de propósito, semana que vem escrevo sobre Ok Computer, o disco que mais amei e odiei na vida.

 

  1. Dig Your Own Hole – The Chemical Brothers

Esse segundo álbum da dupla britânica foi lançado com o jogo praticamente ganho, a torcida para que o disco fosse bom era tão grande que mesmo se fosse um meia boca já ia ser bom. Mas o álbum é espetacular, ultrapassou a fronteira do gênero techno, foi adiante (muito adiante). Agregando Hip Hop, eletrônico antigo, psicodelia e pop, as camadas de influencias desse play desafiaram o ouvinte a uma divertida aventura pelos bimps and bloims…

 

  1. In It For The Money – Supergrass

O Supergrass já era uma banda legal em 1995, fizeram um dos melhores shows de festival que eu vi em 1996 (segunda banda, do segundo dia de Hollywood Rock no Pacaembú em SP) e lançaram essa obra prima de rock e do pop britânico absolutamente 90s. Infelizmente, prestou-se pouca atenção a esse disco do trio de Oxford, o mundo e a “maldita” mídia queriam coisas mais complicadas, e In It era simples demais para eles. Hoje soa melhor que na época e se o mundo jovem ainda curtisse um rock, esse seria um ótimo disco pra se lembrar 20 anos depois.

 

  1. The Soateramic Sounds of Magoo – Magoo

Direto da Escócia, não só um dos meus favoritos do ano, mas favoritos da vida. Guitar band soturna, com algumas das minhas favoritas ever. Não saiu do gueto e tão pouco pegou lista em alguma publicação musical, mas aqui no coração desse jovem adulto indie rocker, bate e cala fundo ainda hoje.

 

  1. Ladies and Gentlemen… We’re Floating in Space – Spiritualized

Jason Pierce, o cabra por trás desse grupo produziu alguns dos maiores petardos sônicos dessa década, seja ao lado do Spacemen 3, seja com o Spiritualized. Nunca fez discos ruins, mesmo quando enveredaram para um perigoso caminho de progressivo/psicodelismo. Aqui, eles estão maravilhosamente equilibrados nessa beirada dúbia e esse álbum foi decisivo para a banda. Tão decisivo que dividiu a preferencia dos especialistas britânicos na época. Ou era Spiritualized ou Radiohead e ainda tinha o Verve de opção.

 

  1. Time Out Of Mind – Bob Dylan

De tão bonito, chegou a dar aperto no coração na época. Parecia disco do tipo “Canto do Cisne”, ultimo momento antes do fim. Felizmente ele continua vivo e lançando álbuns incríveis, e Time aparece não só nessa lista de 97, mas com certeza entre os melhores disco de Dylan desde sempre.

 

  1. Tellin’ Stories – Charlatans

O disco é não só incrível por sua qualidade musical, mas veio carregado de muita emoção por ser um álbum homenagem ao tecladista Rob Collins, que faleceu em um acidente de carro um ano antes. A banda juntou os cacos, exorcizou a tragédia e colocou no mundo esse belíssimo tributo, regado de referencias a Bob Dylan, Band e mesmo assim, não saudosista. Absolutamente 1997.

 

  1. Evergreen – Echo & The Bunnymen

A melhor volta de uma banda em disco. Escutei esse disco até furar. Presente, atual e eterno. Letras incríveis e extremo cuidado na produção fizeram desse álbum uma deliciosa e inesperada surpresa pra quem não esperava mais nada dos “Coelhinhos”. Pop britânico grandioso, ambicioso, a moda antiga (não tão antiga assim, by the way).

 

  1. I Can Hear The Heart Beating As One – Yo La Tengo

O Yo La Tengo já era uma banda incrível, mas aí eles cometem um disco como esse. Não dá pra não amar loucamente. Na medida certa entre o sensível, o rock, a vanguarda. Parece ter sido produzido sob a mesma poeira sônica edílica que um álbum do Velvet Underground. Sutileza, beleza, estranhezas… inesgotável qualidade de cabo a rabo.

 

  1. The Boatman’s Call – Nick Cave & The Bad Seeds

Disco da fossa de Nick Cave, quase um barroco contemporâneo. O álbum mais bonito da carreira da banda onde tudo é tocado com tranquilidade e beleza, sem barulho. Ouve-se os ecos das cordas reverberando no fundo do salão de gravações e parecem acrescentar texturas extras aos sulcos desse play. Execução impecável, instrumentação perfeita e um som quase sobrenatural que ouvimos silêncios, respiros, cadencia além das canções desse álbum. Triste e bonito como poucos.

 

  1. Vanishing Point – Primal Scream

De longe, deve ter sido o Cd que mais escutei naquele ano. Primal Scream estreando Mani (Ex-Stone Roses) no baixo. O que era bom, conseguiu ficar muito melhor. Vinhetas instrumentais matadoras, clima 70s, produção destruidora, flerte de psicodelia, rock, eletrônico, dub e uma cover de Motorhead… precisa de mais? Ignorado em quase todas as listas, Vanishing seguiu um ponto que o Primal iniciou em Screamadelica (1991) e culminaria na pancada Xterminator (2000).

Menções honrosas, só não entraram por que eram só 10:

Dig Me Out – Sleater-Kinney

 

Lunatic Harness – µ-Ziq

 

Brighteen The Corners – Pavement

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Sim, vamos falar a sério sobre Taylor Swift…

Cada época tem a Madonna que merece.

E logo quando ninguém achava que num mundo de hoje pudesse surgir alguém pra colocar o pau na mesa como Madonna fez na virada dos 80 pros 90, eis que aos 27 anos, a cantora e compositora Taylor Swift, seguindo passos muito bem pensados e calculados, bota no mundo um baita clipe super produção como há algum tempo não vemos cá pelos lados do mundo Pop.

Look What You Made Me Do é a primeira música do futuro álbum da cantora, chamado Reputation com data prevista de lançamento mundial pra 10 de novembro desse ano.

O ponto aqui é: nada se faz sozinho, ela tem um batalhão de gente fazendo coisa para ela, desde cuidar de sua mídia social, produzir conteúdo para zilhões de sites, blogs e etc, além de assessores para as mais diversas e variadas necessidades da CEO dessa lucrativa companhia chamada Taylor Swift.

Isso sempre existiu, mas no fim, quem dá a cara a tapa é ela e ela tem dado bastante ultimamente.

Desde que largou o country pop dos seus primeiros álbuns e se jogou de cabeça no pop competitivo com o ótimo 1989, ela parece agora querer recontar sua historia recente, suas tretas, desavenças e rancores como outros artistas já o fizeram e seguindo as lições de mestres do passado que tourearam o mundo com louvor (Madonna, Bowie, George Michael), ela vem linda, loura e com a faca nos dentes pra soltar a melhor musica pop de 2017.

Nem em sonhos imagino alguém que consiga deter a moça, e se ela mantiver o nível afiado desse popaço que ela acabou de despejar nas nossas cabeças, segura que esse 2017 não vai ter pra ninguém.

Num mundo violentamente competitivo, Taylor saca qual é a do público consumidor de música hoje.

Primeiro e mais importante: não precisa nem ter álbum pronto, basta um petardo com um clipe super bem produzido pra deixar fãs ouriçados e todo o exército de “influenciadores digitais” só falarem a respeito dela. A repercussão está gigante!

Segundo: Referencias a dores, tretas e problemas pessoais expostas num mundo onde cada vez se tem menos privacidade, colocar na grande “arena” das mídias sociais, um pedaço cada vez maior da sua vida e usar essas situações para ganhar credibilidade de seu público, angariar likes, views, “engajamentos” e “data” no grande vale-tudo do entretenimento pulverizado de hoje traz mais retorno de que dinheiro (ou melhor, o dinheiro grande só jorra se voce tiver tudo isso junto).

Tudo deve e pode ser monetizado pra voce, e vida privada de artista é material monetizável desde sempre.

John Lennon fez um album inteirinho baseado em suas experiências pessoais e fez bastante dinheiro com ele. Plastic Ono Band, mira a metralhadora para a mãe ausente em “Mother”, e até para seu legado e quase todos os seus pares em “God”.

Katy Perry há pouco tempo não estava transmitindo suas sessões de terapia pra quem quisesse ver? Lançou disco novo também, chatissimo by the way.

Taylor sabe que no máximo vai ter mais uns 10 anos de carreira produtiva em alto nível, assim, ela acelera e caminha para atingir seu topo e olha que ela já tem 2 Grammys, mas esse clipe (guardada as devidas e merecidas proporções é o seu Vogue), Taylor destila veneno e ressentimento, empacota em formato de canção pop poderosa, em clipe milionário e bora conquistar a coroa de “Rainha do Pop”.

Ok, não é a Madonna cantando, nem o David Fincher dirigindo, mas já falei no começo que é o que temos pra hoje certo?

Considerando tempo, espaço e a era que vivemos, a beleza de Taylor combinada com uma atitude meio esnobe, egocêntrica e imperativa dá a esse clipe um tom documental bastante rico pra se estudar sobre essa geração dos 20 e poucos anos.

No mais, Taylor hoje é mais rock and roll que todos os artistas de rock juntos.

E nem precisei mencionar que ela é linda de doer né?


Everything Now é a melhor coisa de 2017 até agora

Só por que eu resolvi curtir a banda, o mundo inteiro resolveu virar a cara pra eles?

Bem, ai vem outra pergunta importante: existe “influenciadores” ou mídia musical hoje?

Ok, sites e blogs com noticias é o que mais tem, afinal, no mundo da big data, informação rápida e instantânea com vídeo, ponderações, analises profundas escritas de maneira bem rasa é o que manda.

Aconteceu precisa virar Manchete rápido.

Periga de alguém, há quase 1 mês do lançamento oficial do álbum me chamar de Rubinho Barrichelo da resenha musical.

Ok, aceito, mas tenh um bom motivo.

Hoje em dia resenha não vende mais disco (disco?), o que vende é numero, likes, quantidade de vídeos compartilhados, vídeo bacana, show com covers maneiras, quantas estrelinhas estão no Metacritic, quantas vezes a banda postou alguma coisa nas redes sociais e o povo curtiu…

Ou seja, até o que eu escrever aqui a rigor, não fará a menor diferença em coisa alguma.

Será apenas mais uma resenha de um fã de música escrevendo para algumas poucas pessoas.

Normal, segue a vida.

Então tive tempo de ouvir com mais calma, atenção e realmente entrar no espirito do disco, coisa que ninguém mais nem quer? Afinal, já saiu o novo do Queens of The Stone Age, o novo do Killers, a nova musica do Foo Fighters e o novo clipe da Taylor Swift e tudo precisa ser resenhado pra ontem…

Voltando ao cerne da questão, Everything Now é somente o 5o álbum do Arcade Fire em 13 anos de carreira discográfica. Cada vez, se produz menos musica nova e pensando nos artistas grandes somando tudo que o AF fez não chega a produção dos Beatles em 2 anos e meio de atividade.

Isso é só um detalhe, mas digo pra vocês, pra mim é o melhor disco deles desde que eles surgiram (guardem isso para 2027, quando fizerem retrospectiva desse ano e alguém vai falar levantar essa lebre e falar muito bem desse álbum).

Com eles, o mundo inteiro se apaixonou pelo Indie (não confunda com indie rock) e eu honestamente sempre achei a banda bem superestimada. Comecei a prestar atenção justamente quando eles resolveram adotar um som mais eletrônico (precisamente na deliciosa The Sprawl e seu clima Blondie total), e num mundo indie em que todo o mundo usa eletrônico com violão, estão querendo que eles sejam diferentes (vai entender).

A grande maioria das resenhas negativas foca nessa questão e que eles se repetiram em relação a Reflektor (2013), que hoje já não me parece tão mal assim.

Fato é: o álbum vem com uma mensagem clara e criticas ardidas e docinhas a “Era da Informação”, embalada por músicas animadas que nos remetem ao bom pop eletro de eras passadas que vão de Simple Minds a Abba e a banda criou um enxoval muito bacana pra embalar esse conceito.

Veja essa apresentação que eles fizeram no Late Show do Stephen Colbert para a faixa titulo.

Fora isso, musicalmente Everything Now é muito mais divertido que os álbuns anteriores do Arcade Fire e saiu meio torto, tá sendo recebido com narizes tortos e o pessoal só não fala muito mais mal porque a banda é amada demais pelo que restou de “mídia musical” mundo afora, mas enxergo uma semelhança grande em conceito com outro grande álbum que saiu meio de repente e causou impressão ruim em 1993, chamado Zooropa do U2.

O disco foi um preciso documento musical carregado de ironia, raiva e atitude em tempo, espaço, som e politica e acho bem mais importante e legal que Achtung Baby, que todo o mundo resolveu amar pra sempre.

Everything Now segue essa mesma pegada, com músicas excepcionais como “Creature Comfort”, talvez a música mais 2017 de 2017.

Outro ponto alto é “We Don’t Deserve Love”, que finaliza uma sequencia bem esquizofrênica iniciada com a meio reggae rápida Good God Damn (me lembrou um B.A.D. do Mick Jones mais comportado), vem com outra boa “Put Your Money On Me”.

Agora, pra mim a mais divertida e legal do álbum é “Signs of Life”, me lembra muito uma banda dos anos 90 genial chamada Stereo Mcs. (procure saber, na verdade vocês já conhecem… Connection é um clássico da década).

A faixa titulo vem com um refrão pra lá de “Simple Minds” fase “Alive And Kicking” que é delicioso, além de seu pianinho a lá ABBA e uma alegria musical que não condiz com a letra.

Há uma escorregada para um reggae meio vabounds como em “Chemistry”, mas olha que até ela é um erro pequeno e delicioso em um álbum cantarolavel do começo ao fim e mesmo assim soar ambicioso como nenhuma banda ou artista parece ter capacidade ou vontade de ser.

Parece que tentar fazer um disco legal virou um risco, mas foi esse risco que a banda hoje pode correr, gravam por conta própria, controlam sua obra desde 2013 e podem se dar ao luxo de lançar o álbum com títulos diferentes por pais (sim, já tem uma edição com o título em português, assim como tem em Mandarim, russo, húngaro, alemão e etc).

Se vai vender tudo que mandaram prensar, eles não sabem. O cachê deles é de banda grande, isso garante o leite das crianças no final do mês, além de garantir o posto (hoje sim) de maior banda Indie do Mundo.

Pra quem não gostou do disco hoje, voltaremos a conversar em 2027 (se o mundo não tiver sumido com algum asteróide se chocando com a Terra ou com algo pior).


Roger Waters está com Raiva…

Aqui estou eu batucando essas palavras ao som do ultimo álbum de estúdio lançado pelo baixista e ex-lider do Pink Floyd, chamado Is This The Life That We Want?, que foi há algumas semanas atrás em formatos físicos e virtuais (to escutando no youtubão mesmo).

O disco é bem bom, o que pode ser uma surpresa, pois seus álbuns solos são esquisitos e não necessariamente bons.

Mesmo o fã mais ardoroso de Floyd tem suas ressalvas para os álbuns solo de Rogerio Aguas, mas esse novo alia com destreza um discurso político muito interessante e um som contemporâneo próprio dos criadores e ex-revolucionários de décadas passadas, que envelheceram, mas que o fazem com dignidade e competência.

Em alguns momentos, lembra Lazarus (ultimo do Bowie), em outros, lembra o Radiohead (se o Radiohead lançasse discos assim) e na maior parte do tempo, tem um clima de The Wall (nas faixas mais soturnas, aquele clima de “leseira” lisérgica que o álbum preserva).

Fato é: Waters nunca fugiu da briga, sempre defendeu suas posições com bastante clareza e tem sido um dos mais contundentes críticos a onda neo conservadora que tem assolado o mundo, além de abertamente a mais contundente voz contra Donald Trump e tem rodado o mundo levando seu novo libelo libertário.

O discurso tá mara…, o som tá incrível, mas em alguns momentos o veterano raivoso dá suas escorregadas em especial no seu recente “quiproquó” contra o Radiohead.

Por conta de uma apresentação que o grupo de Oxford tinha marcado para fazer em Israel, Waters teria criticando e tentado dissuadi-los a fazer essa apresentação como uma forma de “boicote” ao país por conta das ofensivas israelenses contra os palestinos.

A posição de Waters é pró-Palestina, até ai nenhum problema, cada tem sua opinião e se movimenta da forma que seu coração, estômago e consciência lhe guiar e numa questão tão complexa como essa (Palestina X Israel, Faixa de Gaza, etc), o melhor mesmo a fazer é melhorar o debate com ideias arejadas, tratar as dores dos dois lados com mesmo peso e medida e em especial coletar informações sobre o assunto (data is the power, right?).

O problema nisso tudo, e aí eu discordo do ex-lider do Floyd nesse ponto, é o cara se achar no direito de arbitrar ou dissuadir um artista a ir tocar num país para uma galera que pode não ter nada a ver com esse problema (acredite, deve ter milhares de israelenses em Israel que não tem opinião sobre a questão, ou não querem se meter com essa questão, eles só querem viver suas vidas, ouvir música, trabalhar, transar, beber e etc. Algum mal nisso?).

E mais, arbitrar sobre uma relação particular de contratante e contratado, no caso, o Radiohead e a empresa que os contrataram e pagaram para o show acontecer.

Até onde sabemos, não foi um show aberto ao público de graça com apoio e dinheiro do governo de Israel e sim um show com ingresso pago (com todas as partes sendo remuneradas).

Na verdade, há uma carta aberta com diversos artistas e personalidades que escreveram para o Radiohead pedindo para que ele não tocasse em Israel. O que torna a coisa até mais ridícula na verdade.

Segue a carta na integra no link abaixo:

https://artistsforpalestine.org.uk/2017/04/23/an-open-letter-to-radiohead/

Agora a questão é: por que eles só incresparam com a turma de Oxford? Por que não se meteram no show do Pixies que aconteceu por lá há alguns dias atrás?

Alias, ele vai se manifestar contra outros artistas que tocarão por lá nos próximos meses como Slowdive, Regina Spektor, Infected Mushroom, Bryan Adams ou Nick Cave And The Bad Seeds?

Há maneiras de fincar sua bandeira ideológica, Waters é inteligente, sagaz, tem muito a dizer, mas ações como essa, num mundo cada vez mais polarizado, preguiçoso e que tem sentido a necessidade de escolher um lado e defende-lo como se fosse a ultima fronteira da moralidade, corre o risco de jogar um debate importante para a vala da disputa pela disputa (o time Radiohead contra o time Waters/Pink Floyd) e via de regra esse tipo de conversa descamba para outros lados (que não levam a lugar algum, na maioria das vezes).

Mas voltando ao disco, Is This Life… tem melhorado a cada ouvida e já dá pra pensar numa listinha de melhores de 2017 com ele incluso.

 


Por que Anitta e Pabllo Vittar serão as novas rainhas do Pop? Ou, os melhores produtos de exportação brasileiros desde Neymar e Gabriel Jesus.

Voce já deve ter sido uma das 26 milhões de pessoas que visualizaram o clipe Sua Cara, do Major Lazer com a participação da cantora Anitta e do cantor Pablo Vittar que foi lançado mundialmente neste domingo ultimo, dia 30 de julho de 2017.

Eu ainda não estava na estatística, mas cumpri o dever cívico há 10 minutos atras.

Os personagens dessa track são conhecidos por quase todo o mundo (menos eu): Major Lazer (trio de produtores que não tem umas caras tão conhecidas mas tem o Diplo como dono da bagaça e está por trás de 9 entre 10 produças pop de paradas de sucesso, de Justin Bieber a Major Lazer (rs.)); Anitta (cantora de “funk” ou mais justamente “Brazilian Electronic Music” tá mais onipresente que o Trump e Pabllo Vittar (Cantor e Drag personalidade lacrada do universo online, onde resido pouco, assim não tenho muito mais a acrescentar sobre o figura).

A música em si, não é nada de diferente de outras 15.000 canções do mesmo estilo lançadas mundo afora, mas a combinação das duas “divas”, em cenário do deserto do Marrocos e clima de “Hollywood”, mais a altíssima popularidade de todos os envolvidos, botou o clipe para arrebentar e em menos de 2 dias já é um dos mais visualizados da historia do Youtube.

Mérito de quem trabalha muito e está em perfeita sintonia com seu tempo e pode escrever ai que essa turma não para um segundo. São os novos “business Man and Woman” do Showbizz.

Gente focada na carreira, que busca parcerias medidas pela quantidade de seguidores no Insta ou no Face e que buscará a todo o momento oportunidades em todos os cantos para aparecer e ser visto, gerando likes, compartilhamentos, buzz e essa “Data” toda.

Explicando o titulo do artigo, o Brasil sofre desde sempre de complexo de vira-lata, assim, ao mesmo tempo que morre de inveja, o povão adora ver compatriotas fazendo bonito no estrangeiro e esfregar talento na cara da gringolandia e poder soltar um “é nóis!” “Soooou sou brasileiro! Com muito orgulho.. etc”, em qualquer área que apareça um herói desse quilate.

Se pinta uma animação Lado B brazuca indicada ao Oscar, corre todo o mundo pra assistir e torcer, se tem judoca que ninguém sabia quem era com chance de medalha de ouro, bora dá um google pra saber quem é e torcer como se não houvesse amanhã.

Quando pinta empresário na lista dos mais ricos da Forbes, todo a gente se curva e baba ovo pra ele… alguém ai lembra do Eike… Batista?

Anitta tem trabalhado muito, redirecionou sua carreira há uns dois ou três anos e desponta pra ser a maior estrela em ascensão do pop atual, pelo menos da cota “Latin”, e provavelmente substituirá a linda Shakira nesse trono, já que a diva hoje divide a carreira com filhos, marido, vida de casal, morar em Barcelona e cuidar da bufunfa merecidamente ganha.

Depois de uma “estrondosa” participação no programa do Jimmy Fallon ao lado de Iggy Azalea (estrela que tenta voltar ao topo), a musa carioca agora bota caras, bocas e todo o resto no clipe/musica que deverá infestar o universo pop nos próximos dias, meses, sabe-se lá por quanto tempo.

Anitta e Pabllo tem aquilo que os novos tempos mais adora: “storytelling”, trajetórias de batalhadores, que vieram de situações de desigualdade e dificuldades sociais, mas que ascenderam e hoje despontam a caminho de uma fama mundial

Ascensão social através de meios lícitos, justos e honestos é pra poucos, fazer tudo isso no campo das artes é pra pouquíssimos, dentro da música então, pra poucos e com alta competitividade entre as “divas” e os “Musos”.

Independente do seu gosto musical, Anitta e Pabllo são ótimos produtos brasileiros, assim como Pelé e Senna já foram um dia e Neymar ainda é. Ambos vem vencendo com esforço, talento, sorte e representam bem uma sociedade brasileira como tal ela é, compensando a falta de oportunidades em educação e usando as armas que dispõem para tal: tecnologia e internet + sex appeal latino, alem da música como meio de expressão atingindo em cheio os principais públicos consumidores da Pop Culture de hoje (Mulheres, jovens e gays).

Goste ou não, o mundo não é mais tão “americano” assim, senão não existiriam fenômenos culturais e globais tão poderosos como Psy e todo o K-Pop (J-Pop incluso), Michel Teló, Shakira e atualmente o improvável “Despacito” dos veteranos Luis Fonsi e Daddy Yankee e outros que vão tocando para plateias que cada vez mais não tem sentido necessidade de entender a mensagem, mas de senti-la. Língua não é mais um problema e em muitos casos, pode ser o “diferencial”.

Letra de música é coisa do passado, alguns poucos viventes ligam pra isso, o resto quer é farra, zueira e sarrafo no ar.

Nesse contexto de Brasil e mundo, Anitta e Pabllo podem se gabar de estar no Topo dessa cadeia, ou bem próximos a ele e quem sabe, terão vida longa dentro deste ultra competitivo e perverso universo pop mundial, que pode ser a duração da vida de uma borboleta.

Esse é o novo mundo da música onde reinam Ed Sheeran, Justin Bieber, Demi Lovato, Katy Perry e que deverá ter Anitta ombreando com eles logo logo.

Não é motivo de lamentação e nem de alegria. É só um fato.


O Sargento Pimenta ainda tem algum valor ou é só pelo Branding?

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A Pergunta provocativa, já adianto, não é gratuita tão pouco vem com a segunda intenção de provocar os fãs xiitas ou muito apaixonados pelo Fab Four ou pela mais famosa boy band da história da música pop mundial!

A pergunta visa tentar organizar meus pensamentos e sentimentos a respeito do tal “’álbum mais importante do século XX”, ou o ultra-mega-incrivel Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, lançado originalmente em 01 de junho de 1967. Ou somente o álbum em que os 4 rapazes usam bigode e roupas de bandas militares coloridas e muito legais!

O álbum chega aos 50 anos e aproveitando a ocasião, a paquidérmica, mas não anêmica indústria da música, visando o desejo mundial por um pouquinho mais de Beatles, disponibilizou para todos os bolsos, em formatos digital e físico, edições especiais e remasterizadas de Sgt Peppers, e o que dizem, pela primeira vez remixados decentemente para se ouvir em som estéreo ou no seu Pc com sonzinho xulé, ou no seu fone “xingling” ou no seu fone “Beats”.

A produção ficou a cargo do guardião sonoro do acervo Beatles, o filho do lendário produtor George Martin, Giles Martin.

Basicamente, tudo o que sair de Beatles daqui pra frente, passa pelo crivo dele.

Ah, foi ele que produziu aquela baboseira chamada Love para o Cirque de Soleil, antes que eu me esqueça (ok, isso foi a mais de 10 anos, ele deve ter aprendido alguma coisa nesse meio tempo).

Bem, dito tudo isso, o que o fã de carteirinha do Fab Four vai encontrar por aqui é tudo aquilo que ele quer. Entrar um pouquinho com a cabeça e dar uma escutadinha no que os Beatles deixaram pra fora do álbum, incluindo edições preliminares de algumas canções, edições instrumentais e pedaços de música que juntadas resultaram no Sgt.

Vamos deixar o álbum original pra lá e focar nos extras.

De maneira bem careta, o álbum de extras segue a mesma ordem do original, assim vamos seguindo a mesma sequencia, porem com suas peculiaridades esperadas (versões instrumentais de With a Little Help e She’s Leaving Home), takes alternativos que valem pela curiosidade (Being for the Benefit Take 4…) e pra quem trabalha com produção é sempre uma lição valiosa que muitas horas, paciência e algumas grandes cabeças são importantes para que saia realmente um disco bom e que nem tudo necessariamente precisa sair bom até o take 3.

Honestamente, acho que esse tipo de lançamento deixa cada vez mais claro a pobreza do presente e que também as sessões de Sgt Peppers não foram tão soberbas assim. Ouvindo o Sargento Pimenta disco 2, tudo fica meio com cara de membros decepados para apreciação e deleite dos inúmeros fãs dos Beatles e do Sargento.

Nada ou quase nada do que saiu no discos de Extras é realmente sensacional e só reforçam que se o álbum saiu do jeito que saiu era pra realmente ter saído daquele jeito.

Tudo o que veio de “a mais” aparentemente não fez falta e agora parece não fazer muita diferença.

Pra não dizer que não tem nenhuma surpresa, confesso que fiquei feliz em ouvir o Take 26 de Strawberry Fields Forever, numa versão mais rápida, com variações na velocidade da voz de John e nos instrumentos.

Isso posto, volto a pergunta inicial. O que consumimos aqui é o “branding” ou o álbum? Alguns dirão que um branding bom precisa ter conteúdo, mas rebato que vender qualquer coisa com a marca Beatles já vai ser bom logo de cara, a marca é muito valiosa, muito bem cuidada e não tem como estragar!

A reedição caprichada de Sgt. Peppers serve para atrair novos ouvintes não só para o álbum, mas para o legado da banda, e escutando novamente o disco depois de muitos anos, ainda há graça, ainda há relevância e o sabor de algo que foi revolucionário e hoje não é mais também estão lá.

O álbum é menos influente hoje do que foi um dia, mas ai a culpa não é deles nem do álbum.

Alguns preferem Revolver, outros o White Album e muitos o Abbey Road, mas Sgt Peppers é ainda importante como chave de entrada de um período rico da historia da música pop mundial e como ele ajudou a desencadear a música imediatamente posterior e simultânea. A segunda metade dos anos 60 surgiram alguns dos mais revolucionários álbuns da historia e mesmo no ano de 1967 um mundo sonoro novo eclodiu (se for entrar no 1968 e 1969 é papo de horas).

E tudo isso é outra historia!

Abaixo um video bonito com reações espontâneas a respeito do álbum:


Kid Vinil – e uma homenagem a todos que me ensinaram bons sons.

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O que dizer mais sobre Kid Vinil além de um muito obrigado?

Tem sido bonito a enxurrada de textos carinhosos sobre ele, vindos de outras pessoas que também são “gurus” ou eram “gurus” nesse caminho sinuoso e delicioso dos bons sons.

Olhando em retrospecto a carreira desse cara, dá pra resumir tudo em amor puro a música e ao disco.

Kid passou por todas as áreas que estão ligadas a indústria da música: fã, artista, colunista, office boy de gravadora, diretor artístico, dj, disc jóquei de radio, programador de radio, apresentador de programa musical em TV, VJ, jurado de calouros, o escambau.

Entusiasta dos bons sons, falava com brilho nos olhos tanto do Kid Abelha quanto do Kaiser Chiefs, tocava tecnopop e punk na mesma sequencia.

Isso revelou sua extrema tolerância para com todo o tipo de som.

Tive uma breve conversa com ele há alguns anos e tivemos a oportunidade de fazer o lançamento de sua autobiografia na Livraria Cultura, onde trabalhei (gostaria de ter falado mais com ele, mas nesse mesmo dia e no mesmo local o senhor Gene Simmons estava também autografando seu livro).

Aproveito o momento para prestar meus respeitos a outros monstros que me ensinaram os caminhos dos bons son e a quem serei eternamente grato.

Marcel Plasse – jornalista que escreveu durante muito tempo na Folha e que ajudou a divulgar em especial a barulheira indie britânica.

José Roberto Mahr – dj e jornalista carioca, durante muitos anos apresentou o programa de rádio Novas Tendências (não perdia um).

Fabio Massari – Jornalista, Vj e diretor artístico de radio, ao lado de Kid, talvez a maior influencia de conhecimento dessa geração. Parece que nada escapa a seu conhecimento, não a toa, tinha o apelido de “Reverendo”.

Ana Maria Bahiana – difícil dizer se ela manja mais de música ou de cinema, mas é craque nas duas posições e ainda hoje mantem um blog dos bons. Me ensinou a querer ouvir música brasileira quando eu não tinha a menor intenção de faze-lo.

Camilo Rocha – dj e jornalista, talvez o mais preparado de todos pra escrever sobre música pop. Nenhum foi tão melhor que ele, mesmo não concordando com algumas de suas resenhas. Me ensinou o caminho das pedras na música eletrônica.

Programa Garagem – programa que existiu entre final dos anos 90 pra 2000, não perdoavam as vacas sagradas da MPB usando a implacável Ana Maria Broca pra detonar alguns Cds em loco e tocavam alguns dos sons mais importantes que ouvi naquela época. Seus apresentadores e jornalistas André Barcinski, Paulo Cesar Martin e Alvaro Pereira Jr fizeram história, seja em suas carreiras individuais, seja no programa.

Edson Sant’Anna Jr. – Locutor fundamental para quem curte rock and roll e tem mais de 30 anos, fundou e era o principal nome da “extinta” 97 Fm, estação de rádio de Santo André que tocava modernidades, rock, metal e Vangelis na mesma sequencia. Graças a seu legado, me ensinou a ouvir de tudo sem preconceitos musicais.

Marcelo Nova – além de liderar o Camisa de Venus e ajudar Raul Seixas a dar seu ultimo suspiro criativo, Marcelo, por um breve instante apresentou o programa Let’s Rock, na Transamérica FM e eu batia cartão todo o domingo no dial 100,1 pra conferir o que ele e Aiatolico iam mandar musicalmente e “verbalmente”. Algumas das melhores e mais ferinas perolas sobre lançamentos “indie” ou quase, vieram dele.

Mauricio Valladares e o Ronca Ronca: sem sombra de duvida, hoje em dia, Mauricio faz um papel parecido com o de Kid lá atras. Seu Ronquinha apresenta um mundo incrível de bons sons toda a semana há mais de 20 anos. Infelizmente pouca gente acompanha, mas quem o faz, agradece toda semana pelas espetaculares horas de bom humor, bom papo e bons sons.

http://www.roncaronca.com.br

Em breve, escrevo sobre meus heróis gringos, D.E.P Kid.