Gales Neles!!!
Publicado; 05/07/2016 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Em homenagem a grande sensação da Euro2016, o Pais de Gales mostra que não tem craques só no campo da música, mas também no futebol.
Você sabia que Shirley Bassey é galesa? E que o Tom Jones é gales? E que o Budgie veio de lá também?
Historicamente, a música de Gales gravitou pela influencia inglesa entregando de quando em quando um molho diferente no cancioneiro da ilha.
Por vezes, imitou a matriz inglesa na caruda, por vezes fez melhor, regurgitou as influencias e botou no mundo artistas originais que beberam de suas águas geladas, respiraram seu ar madrigal e nos anos 90, cheios de orgulho da terrinha, alguns artistas galeses bateram no peito e galgaram postos nunca dantes ouvidos no panteão pop.
Casos mais famosos de Manic Street Preachers e Stereophonics, que atravessaram o Atlântico e até por aqui angariaram alguns fãs, botou o pedacinho de terra que ninguém sabe direito onde fica definitivamente no mapa da música (e hoje no futebol).
Saindo um pouco, ou tentando sair do óbvio, vai abaixo meus discos ou artistas galeses favoritos sem seguir uma ordem de melhor ou menos melhor…
The Pooh Sticks – The Great White Wonder (1991): Seguindo o espirito que os guiaram nos anos 80 pelo maior selo da historia do rock inglês, a Creation Records, o Pooh Sticks poderia ser definido como uma bela e original pilhagem sonora. Pouco no som deles era original, mas nesse Frankenstein sonoro, não é que esse disco ainda reluz a ouro? Conseguiram fazer um disco torto sensacional e talvez um dos mais obscuros e ainda bons álbuns de guitar rock do começo dos anos 90.
Super Furry Animals – Fuzzy Logic (1996): Seminais representantes da maluquice que se respirava em Gales nos anos 90, o SFA foi uma das melhores coisas que a ilha produziu nos 90 e Gruff Rhys daqui a pouco ganha uma placa ou estatua por lá. Semi-deus do cenário rock/alternativo britânico, o SFA nunca teve um hit de encher estádios, mas nunca fez um disco ruim na vida, Radiator de 1997 é mais querido, mas esse play de estreia ainda me chapa até hoje. Glam rock de primeira sem uma musica caída…
Gorky’s Zygotic Mynci – Spanish Dance Troupe (1999): A banda fez relativo e improvável meio-sucesso por terras britânicas e até brasileiras! Esse cd na época foi lançado no Brasil pela sacro-sacripanta e heróica Trama. Pelas minhas contas, aproximadamente 458 felizardos compraram esse disco na época e puderam escutar esse belíssimo exemplo de folk psicodélico bagunça do Gorkys.
The Ejected – Noise For The Boys (1982): punk primal e urgente tardio, esse ainda é um disco que to procurando pra colocar aqui na discoteca de casa. A dor e angustia lá no Nordeste britânico vem com outras dolorências e a urgência vem de jeitos diferentes. Maravilha do punk oitentista britânico.
The Living Legends – The Pope is A Dope (1982): O 1982 foi pro rock gales o 1977 pro resto do mundo. O Living Legends foi uma banda ultra-anarquista, liderada por um figura chamado Ian Bone que gostava de tocar o puteiro, foi tido pelo tablóide News Of The World, como um dos homens mais perigosos da ilha e essa bela canção que eles gravaram em compacto foi dirigida ao papa em questão Joao Paulo II que faria uma visita ao pais. Docinho!
Young Marble Giants – Colossal Youth (1980): Esse trio de Cardiff lançou em 1980 o melhor “álbum rascunho” da historia. Ganhou fãs ao redor do mundo com essa ousadia minimalista, de Kurt Cobain que se declarava fã incondicional do álbum, até o The XX, que tem tentado reproduzir esse álbum desde que eles existem.
Tom Jones (1960s até hoje) – Pelo conjunto da carreira: Monstro sagrado que transitou pelo rock, pelo pop romântico e por lugares bastante distintos em sua carreira longa e brilhante carreira. Nasceu em Gales, mas foi pro mundo, tem um soul danado, canta muito, é gente boa e tocou com mais da metade do mundo que vale a pena ser citado: de Jerry Lee Lewis a Cardigans, de EMF a Stevie Wonder… aqui eu separei seu breve e sensacional duelo com Little Richards… tá bom?
The Darling Buds – Pop Said..(1988): Ali pelos anos 80 e 90, uma nova onda de bandas com loiras cantando aparecia, e o Darling Buds não era necessariamente sensacional, mas fazia corpo junto com as outras 15 mil guitar bands que brotavam na ilha e buscava seu lugar ao sol… chegou perto, mas deixou algumas pérolas pelo caminho.
Future Of The Left – The Hope That House Built (2009): Respeitadíssima banda galesa ainda em plena atividade. Faz um anarco-punk moderníssimo, menos punk, mais Fugazi, politizado até os ossos. Ao vivo tem a fama de fazer shows arrasadores.
Hippies Vs Ghosts – Wazo (2015): Banda nova, descobri quando estava pesquisando o que existia de rock gales novo e apareceu isso. Instrumental, bem pesado, tem coisas de krautrock, de rock de garagem e pouca informação online. Ou seja, tem quase tudo que eu gosto e parecem ter a atitude que gosto também. Promissor.
John Cale (1960s até hoje): Tudo bem, ele só nasceu lá, mas só esse fato já bastaria para estar nessa lista.
Viva o nosso Rei Cauby!
Publicado; 28/06/2016 Arquivado em: Música | Tags: Brazilian Crooner, Canto de Ossanha, Cauby, cauby peixoto, Musica Brasileira Deixe um comentário
Alguns reis se foram nesse 2016 (Ali, Bowie), alguns mestres (Maurice White, Dave Swarbrick) e um príncipe (Prince) e por aqui a ceifa do mês de maio levou o primeiro “pop star” 100% brasileiro.
Cauby Peixoto foi um crooner de primeira linha, nível Nat King Cole, Mel Tormé, Perry Como, Nelson Ned, dessa linha.
Tinha voz e presença pra fazer frente a qualquer um deles e mesmo no fim da vida, fazia shows, tocava projetos pessoais em que ele interpretava seus ídolos (Sinatra, Cole) e seguia incansável no seu oficio de cantar.
Desde que me conheço por gente, Cauby é o retrato do “cafona”, “música de véio”, “antiquado”, e por ai vai.
Aí um belo dia, resolvi dar uma chance ao interprete de “Conceicão” e através da coletânea O Swing e a Bossa de Cauby, meu queixo veio ao chão não só com o gogó do homem, mas com os arranjos para algumas músicas que são absolutamente sensacionais.
Basta ouvir a incrível versão de Samba do Avião, música delicada que poderia prender o vozeirão de Cauby na miudeza e cadência da escola bossanovística de “menos é mais”, mas que aqui ganha velocidade, casa com a “Hard Bossa” e o mestre desfila técnica.
E o que dizer de Rock N Roll Em Copacabana? Cauby foi um dos primeiros a gravar Twist, Rock and roll ou o que se entendia ser esses gêneros “jovens”.
Teve uma carreira longa, com menos “hits” do que eu imaginava e nenhum álbum bom de cabo a rabo, sua irregularidade na escolha do repertório o levou a gravar coisas bem esquisitas (tipo, Billy Joel?) e entre altos e baixos, estacionou num meio-termo entre o popular e o sofisticado e em algum momento nos anos 70 se tornou caricatura e caiu num ostracismo perante a grande mídia.
Mas como profundo conhecedor do jazz americano, Cauby fez nos anos 60 suas faixas mais interessantes e ousadas como Tamanco no Samba (Samba Blin), de 1963 e Canto de Ossanha (1966), essa só saiu em compacto. O arranjo pro Canto é coisa que poderia ter sido gravada pela Blue Note ou Verve Records, arranjo jazzy, com instrumentos duelando com o craque.
Cauby era um paradoxo ambulante, sua extravagancia no palco nada tinha em comum com a discreta vida que levava. Quase ninguém sabia qual era a dele, o que se tornou um dos maiores tabus da MPB.
Cauby nunca deixou que essa questão entrasse na sua música e suas preferências sexuais eram deixadas longe do seu público e mídia, tanto é verdade que somente num relato contido no documentário recém disponibilizado no Netflix, Cauby – Começaria Tudo Outra Vez, ele fala mais claramente sobre esse assunto, deixando claro suas preferencias.
Cauby foi um tipo de artista extravagante, culto, antenado e que abraçou em seu repertório a opção pelo elitismo (no bom sentido) onde ser sofisticado era sinônimo de ser cool e nesse universo jazz, bossa nova, chanson francesa, bolero e serestas eram as canções que embalavam o sonho de grande parte da população que queria se distanciar das pobrezas espirituais e materiais do mundo e alcançar um patamar inalcançável em vossas vãs existências e Cauby com sua classe e desenvoltura, abriu esse mundo para essas pessoas.
Cinco motivos para adorar The Queen Is Dead… e 5 para odiar.
Publicado; 20/06/2016 Arquivado em: Música | Tags: Engenheiros do Hawaii, johnny marr, Jon Savage, The Queen Is Dead, The Smiths, There Is A Light That Never Goes Out Deixe um comentário
Para Adorar:
1. O álbum parece um Greatest Hits: Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Thorne In His Side, There Is A Light That Never Goes Out, Some Girls Are Bigger Than Others dentro do mesmo disco, e detalhe, dentro do mesmo lado B;
2. O álbum tem uma das letras mais inteligentes do rock inglês que eu conheço: Cemetry Gates (literatura e poesia básicas para as massas);
3. Discurso politico regado a toques literários, exercícios de escrita quase inéditos no discurso do rock, afronta a monarquia mais feroz desde os Sex Pistols e tudo isso com suavidade;
4. A citação histórica da canção Take Me Back To Dear Old Blighty, na faixa de abertura The Queen Is Dead, canção de guerra do subconsciente britânico;
5. Se ainda falta alguma coisa pra te convencer, leia esse artigo de Jon Savage, um cara que manja de música umas 10.000 vezes mais do que eu, você e todos nós juntos.
https://www.theguardian.com/music/musicblog/2010/dec/15/smiths-queen-is-dead
E agora… 5 para odiar:
1. É um disco dos Smiths e pra quem tem bode deles, dos Engenheiros do Hawaii ou do Nickelback, já é motivo suficiente;
2. As composições podem ser incríveis, mas no ponto de vista técnico, o álbum é péssimo. Produção chinfrin prum álbum tão badalado. O disco tem quase nada de grave, o que não dá peso algum ao álbum e mesmo na sua reedição em 180 gramas, só mostrou como as produções da banda estavam abaixo de suas composições e arranjos.
3. A cozinha da banda sempre foi meia boca, mas nem aqui ela melhora. O baixo parece uma corda num pedaço de pau, lembra uma bela Tonante;
4. Tem Some Girls Are Bigger Than Others, letra horrorosa escrita em cima de um lindo arpejo criado por Marr. O guitarrista ficou furioso com o que a música virou
5. Os timbres de guitarras desse disco estão tão datados que a primeira que eu ouvi esse disco em 1987, ele parecia ter sido tocado no século XIX;
Brian Wilson – Pet Sound Tour 20-05-16 (London Palladium – Londres UK)
Publicado; 08/06/2016 Arquivado em: Música | Tags: Al Jardine, Brian Wilson, London Palladium, Matt Jardine, Pet Sounds Deixe um comentário
Há 50 anos o mundo ouvia pela primeira vez o disco mais bonito da música pop mundial.
Há 50 anos, uma doce fúria na forma de compositor, cantor e produtor colocava em notas musicais o disco mais bonito da música pop mundial.
Há 50 anos, muitos artistas vem tentado (em alguns momentos chegam perto), mas Pet Sounds continua sendo o disco mais bonito da música pop mundial.
Comemorando os 50 anos de lançamento da obra-prima Pet Sounds, Brian Wilson juntou um timaço e caiu na estrada para mostrar ao mundo de hoje, o que muitos já sabem faz tempo. Que Pet Sounds é o disco mais bonito da música pop mundial.
Brian Wilson chegou e sentou em seu piano desligado e ao seu lado, o companheiro de primeira formação dos Beach Boys, Al Jardine tocando sua guitarra aparentemente desligada também.
Não deixa de ser emocionante ver os dois monstros lado a lado, Brian já quase não consegue cantar, e tenho duvidas se ele tem completa noção do que faz no palco, mas o que mais impressiona é que Al manteve a mesma voz.
Na primeira parte do show, algumas clássicas como Heroes And Villians, California Girls, In My Room que já foram capazes de arrepiar e dissipar as duvidas sobre a seriedade do show.
Outro ponto inusitado é a presença do filho de Al Jardine, Matt Jardine que canta tal qual um Brian Wilson nos anos 60 e em Don’t Worry Baby, assume o vocal principal. Fechando os olhos, voltamos para 64 e ouvimos um fantasma cantar. Arrepiante.
Aliás, foi um bom truque, ele reveza com Brian os vocais e onde o velho Beach boy não alcança mais, Matt vai lá e complementa.
Lá pelo meio desse set sobe outro convidado, Blondie Chaplin que gravou 3 álbuns horrorosos com a banda nos anos 70 e acrescentou nada ao show. Maleta, Blondie achou que a festa era pra ele, exagerou nos solos e na pose e tinha fãs tão fanáticos por Beach Boys na platéia que até em Sail On, Sailor seguramente, uma das piores músicas do mundo, tinha gente cantando.
Antes da ultima música, Brian já sai do palco e tal qual numa peça de teatro, vamos para um intervalo de 10 minutos.
Tempo pra sair, tomar uma cerveja junto com a turma “pra frentex”, cuja média de idade está em 65 anos e voltar para nossa cadeira. A segunda parte vai começar e é onde a coisa realmente pega: Pet Sounds vai ser tocado de cabo a rabo.
Haja coração!
A viagem começa e se o show já estava legal (tirando o maleta Chaplin), ele ganha doses extras de magia e status de sobrenatural, Pet Sounds vai sendo executado com perfeição e em todos os seus detalhes e sutilezas. Pontos altos ficam para I Know There´s An Answer, I Just Wasn’t Made For These Times (aqui o Brian canta com sentimento a flor da pele) e God Only Knows (com toda a dificuldade, Brian leva inteira). Difícil é voltar ao mundo dos vivos depois disso!
Envolto de beleza sonora por todos os lados, fico impressionado como Brian está ausente e desconectado do que acontece em volta. Um exemplo é que no final de cada música, com o publico ainda aplaudindo calorosamente, ele já começa a anunciar a próxima sem esperar o silêncio da plateia.
Atravessou os aplausos!
Em algum canto de sua mente, ele sabe do poder que essas musicas exercem, então ainda deve ter alguma parte consciente nessas ações, mas a beleza da execução supera tudo, até a “quase” ausência do criador no palco.
Mais um pequeno intervalo e o bis vem com aquela que tava faltando: Good Vibrations e alguns sucessos mais “rockandroll”.
E o show termina com Brian inteiro no palco cantando Love & Mercy. Bonito, autobiográfico e com tintas de arrependimento, finalmente se vai e nós como expectadores/fãs só podemos agradecer.
PJ ainda bate um bolão.
Publicado; 03/06/2016 Arquivado em: Música | Tags: P.J. Harvey, PJ Harvey, The Hope Six Demolition Project Deixe um comentário
Acabei de voltar de Londres (férias, retiro espiritual off-line total, essas coisas) e por lá, pelo menos nos lugares que interessam, Pj Harvey ainda ostenta cacife de Diva/Super-Estrela do mundo ou submundo dos bons sons (esse lugar ainda existe, deve caber num quintal mas existe).
Seu mais recente trabalho, The Hope Six Demolition Project é um ambicioso projeto Musical/Social em que ela escreveu canções de protesto, rodou alguns lugares interessantes/pobres ao lado de um fotografo de guerra e rodou clipes por lugares bem mais zoados que a baixada do Glicério. Seu mais recente vídeo foi filmado no Afeganistão, o primeiro foi no Kosovo e ela gravou ainda com um grupo gospel da periferia de Washington D.C.
The Hope… vem no mesmo embalo de Let England Shake, o que deixa os ouvidos acostumados a mudanças repentinas de rotas musicais de PJ mais aliviados e reconfortados.
Instrumentação rica, arranjos abertos e sofisticados, ecos nos vocais, metais?? Tudo isso vem nesse novo pacote criado e concebido por PJ quase como um “documentário musical” da miséria, da pobreza e da desigualdade imposta por nações ricas contra nações menos desenvolvidas.
O disco em si não é ruim, até por que a pior coisa que ela fez ou fizer é ou ainda será melhor do que a melhor coisa que qualquer outro artista contemporâneo possa produzir. Padrão de qualidade PJ Harvey mantido.
Ainda tem algumas guitarras por ai (graças a Deus), ouve-se os ecos de sua infalível Fender Jaguar, mais calma mas ainda roncando ao fundo. Seu vocal continua matador, canta melhor a cada disco e continua sendo a melhor compositora dessa geração, me aponte uma música nova melhor que The Community Of Hope ou Chain Of Keys (isso só pra citar duas).
O que poderia ser um projeto maleta, virou um senhor disco de “Protesto” dos mesmos moldes que seu Let England Shake o foi há 5 anos.
Vibrante, não convencional e repleto de tempero britânico, PJ Harvey se firma definitivamente como um ponto de exclamação musical praticamente imune a erros, não dá pra apontar um trabalho dela que não seja no mínimo bom.
Ela pode já não estar mais no auge de Stories From the City (2000) ou Is This Desire? (1998), mas tá longe ainda de uma “decadência” ou até mesmo de uma “zona de conforto”. PJ prefere continuar cagando pros modismos e compartilhar lindas músicas e lindos discos como esse novo álbum.
Bom pra nós que gente como PJ ainda esteja fazendo discos assim.
Os 5 discos que mataram o rock independente.
Publicado; 02/06/2016 Arquivado em: Música | Tags: arcade fire, Belle And Sebastian, Coldplay, Indie Rock, Indie Rock is Dead, Radiohead, Rock Is Dead, Wilco 6 Comentários
Esses dias, tava eu lá no Cine Joia vendo o show do Swervedriver, banda de showgaze do começo dos anos 90 nem boa e nem ruim e de repente me dei conta que há 20 anos eu era o “descoladinho” ou “franjinha”: termo usado para pessoas que curtiam um som “alternativo” a lá Pixies, Teenage Fanclub, Inspiral Carpets e principalmente My Bloody Valentine.
Hoje isso pode significar o “hipster”, criatura tão criticada, mas que existe um pouquinho em cada um de nós.
Não sei se o passar dos anos foi me deixando mais chato (acho que sim), mas o tal “indie rock” que aprendi a adorar deixou de ser o sub-genero do rock instigante pra se transformar em mainstream e trilha de propagandas de aparelhos de celular, carros SUV e se converter no novo pop.
Nada contra, pode ter sido um caminho natural, mas não deixa de ser triste e chato.
Abaixo os 5 discos que destruíram o “Indie Rock”.
5. Wilco – Yankee Hotel Foxtrot (2002)
Acho a indústria fonográfica mais corrompida e burra que qualquer outra, mas com relação a esse disco, eu to com o então presidente da Warner Music que se recusou a lança-lo por ter achado muito anti-comercial. Acho que ele já sabia que o fim do rock e do indie rock seria sacramentado com esse monumento pretensioso e tentou dar uma sobre-vida ao gênero. Ok, eu sei que nada disso passou pela cabeça do CEO em questão, mas por 3 segundos eu gostaria que esse tivesse sido o real motivo. Essa história só ajudou a alimentar esse maldito monstro chamado “opinião pública” e disco sendo chatíssimo como ele é, caiu como uma luva no colo da então vivida critica atuante e o álbum foi catapultado a picos de “obra-prima” pra cima. Pra constar, eu amo o Wilco dos 3 primeiros discos, mas o que veio depois é de lascar de tão chato e esse disco pretensioso, com os rasgados elogios que se seguiram só serviram para apontar direções erradas aos artistas que seguiram em frente.
- Belle And Sebastian – If You’re Feeling Sinister (1996)
Eu estava lá e já era grandinho quando esse disco foi lançado. O frisson causado pelo octeto escocês no então “subterrâneo” foi tamanha que ninguém parece ter se recuperado do xororô ainda e novas gerações de músicos continuam chorando sobre esse leite derramado chamado “indie”. O disco nem é de todo o ruim, só fica ruim mesmo quando Isobel Campbell e Stuart Murdock começam a cantar juntos… O Belle até tem coisas boas, mas esse disco influenciou tanta coisa ruim, que merece posição de destaque nesse ranking.
- Coldplay – Parachutes (1999)
Uma única razão para esse disco estar na lista: ele é/foi considerado um disco de “indie Rock”. Sem mais.
- Radiohead – Ok Computer (1997)
Antes das pedras começarem a voar na minha direção, faço o mea culpa: Eu comprei esse Cd no dia do lançamento, gostei dele por um bom tempo, culminando com o tempo em que era fã do Smashing Pumpkins e de rock progressivo. Coincidência ou não, quando voltei a repudiar os Pumpkins e o Rock Progressivo, o amor por Ok Computer acabou também. O Radiohead sempre quis ser mais do que uma boa banda de britpop que eles foram e com esse álbum eles deram um gigantesco passo pra fora do estereótipo que carregavam de britpop, criando um outro pior, 0 Radiohead não só sepultou o Indie Rock, como também sepultou o rock como um todo. Com esse álbum, todo mundo virou “Rococó”, todo mundo que fazia discos legais passaram a fazer álbuns “conceituais” ou “muito elaborados” pra tentar alcançar o “nível de excelência” alcançado pelo quinteto de Oxford. Correndo os olhos em algumas listas de melhores do ano da NME dos anos seguintes, praticamente não se teve mais discos com guitarras. Mercury Rev, Flaming Lips, dentre outros lançaram seus álbuns “conceituais” em detrimento de seu bom som guitarristico que vinham tramando e bandas que se mantiveram nas guitarras passaram em brancas nuvens. A música rock pós Ok Computer ficou muito chata.
- Arcade Fire – The Funeral (2004)
Afirmar somente que não consigo entender por que todo mundo ama essa banda e esse disco seria somente um sinal de que estou velho e essa choradeira pretensiosa não me atinge mais. Mas eu AINDA gosto de música chorosa, e acho que até pra ser choroso e frágil dá pra se fazer isso com um mínimo de classe e honra. Nick Drake fez ótima música chorosa, Tindersticks também e se procurar por ai até tem gente nova fazendo isso com certa competência. (se alguém achar, me avise). Mas não é só o fato desse lixo desse Arcade Fire ser tão amado (que não é problema, pois não se escolhe o que você vai amar, ama-se e pronto), e gosto popular normalmente é genuíno e verdadeiro e não há problema em se amar coisa ruim (eu adoro um monte de disco que não vale nada), mas o que mais me impressiona e ler gente que “teoricamente” manja desse negócio de indie ou rock se derramar em elogios pra esse embuste. Cheguei nesse “enterro” bem tarde, deve ter sido uns 7 anos depois de ter sido lançado, portanto passei por ele sem ser tapeado. São 10 faixas que juntando não daria um EP meia-boca. O problema do Arcade Fire é que eles fazem músicas e discos que duram o dobro do que deveriam. As músicas de 5 minutos deveriam durar uns 2, as que tem 2 nem precisavam existir.
Menções honrosas da chatice indie:
Modest Mouse – Good News For People Who Loves Bad News (2004)
Fleet Foxes – Fleet Foxes (2008)
Bon Iver – Bon Iver (2011)
Arcade Fire – Suburbs (2010)
Minha viagem particular por David Bowie em 10 músicas
Publicado; 03/02/2016 Arquivado em: Música | Tags: David Bowie Deixe um comentário
Já adianto logo de cara, nada do que vocês vão ler aqui é analítico, crítico ou revelador a respeito da vida e obra de David Bowie, assim como não vou chama-lo de “Camaleão” ou “Figura icônica do Rock” como andou saindo por ai pelos obituários e quetais.
Não tenho a clareza de texto nem a fluência necessária para discorrer sobre o homem e o mito melhor do que já saiu por ai também…
Tanto aqui quanto lá fora, tenho lido textos ótimos e incrivelmente pessoais. Parece que todo o mundo tem uma historia de amor com Bowie e resolveram expressar esse amor e admiração em belos ensaios.
A falta que ele já faz é acompanhada de uma dor nostálgica, pois já sabemos de cara que nunca mais aparecerá outro igual e nos damos conta o quão privilegiados fomos de vivermos na mesma época que ele.
Tal qual um Bach, um Wagner ou um John Lennon, posso afirmar sem medo que Bowie foi o maior artista que eu vi e ouvi.
Bowie surgiu na hora certa, desenhou uma década inteira com sua assinatura (e o que foi essa década de 70 heim?), rabiscou um tiquinho os tons verde-limão dos anos 80, bagunçou e se perdeu um tanto nos 90 e se reencontrou nos anos 2000 com seu Eu velho e quieto, mas não menos radical e foi com essa armadura que ele se despediu do mundo, deixando tantas perguntas (ele premeditou todo o seu fim? Há quanto tempo ele sabia que ia morrer? Tem mais alguma surpresa escondida?) e respostas escondidas em suas charadas musicais.
Há tanto a agradecer ao velho David.
Agradecer a ele por ter emprestado seu tempo, fama e músicos para ajudar Lou Reed a fazer Transformer (1972) ver a luz do dia (se não fosse por esse álbum, Lou possivelmente só seria lembrado como um dos integrantes do Velvet Undergound).
Idem em relação a Iggy Pop (The Idiot e Lust For Life, de 1977 foram compostos praticamente inteiramente por Bowie e entregues de bandeja ao amigo/mestre).
E agora uma lista muito particular da minha história de vida e onde o Bowie se conectou a ela, trazendo iluminação, alegria, informação ou o sentimento de curiosidade que nos assemelha a outras espécies animais, mas que somado a racionalidade e criatividade é capaz de nos mover a criar coisas lindas e instigantes como a carreira discográfica do homem.
Here we go:
Modern Love
A minha mais remota lembrança de Bowie foi justamente com o clipe de Modern Love. Eu adorava a dancinha e a energia dos músicos no palco. Parecia que todo o mundo estava se divertindo muito nesse dia e eu ainda garoto, dançava sozinho no quarto, usando uns ternos do meu pai e até uns blazers da minha mãe (galera, era anos 80, as pessoas dobravam a manga do blazer, super normal). Ainda hoje, acho o refrão dessa música uma coisa de gênio.
Absolute Beginners
Ainda nos final dos 80, eu gostava muito de ouvir radio de noite sonhando garotas distantes, menos aporrinhações na escola e um algo que ainda não sabia o que era. (sempre gostei mais de rádio do que de TV, by the way) e essa música tocava a beça na faixa das 22h30 ou 23h00 que era quando entravam as faixas mais românticas e Absolute Beginners tocava com certa sequencia e era ótima pra acompanhar o pré sono… Uma das melhores coisas do Bowie pós Lets Dance.
Starman
Bá, todo o mundo sabe porque. Goste ou não, graças ao “O Astronauta de Mármore” do Nenhum de Nós, a fase antiga do Bowie voltou a circular pelo imaginário coletivo da moçada no final dos anos 80. No meu caso, pela primeira vez. Como não havia internet e os discos do Bowie não se achavam tão fácil, as rádios de “rock” resolveram incluir a versão original em suas programações. Se o Bowie voltou a ficar famoso por aqui, agradeçam aos gaúchos por essa versão honesta.
Changes
E eis que no começo dos 90, sai no Brasil as reedições de seus primeiros álbuns pela incrível série Sound And Vision, com faixas bônus e tudo o mais. E ai, de presente de aniversario de 17 anos pedi logo uns 3 e quando botei Hunky Dory para ouvir pela primeira vez, logo na faixa que abre, que é Changes, literalmente cai de quatro, não podia acreditar que se podia fazer música assim e fez desse álbum, seguramente o que eu mais escutei na vida. Escutei tanto a faixa 1, que ela literalmente furou.
Suffragette City
E se já não bastasse Hunky Dory ter causado o estrago irreparável, ainda tinha o Ziggy pra conhecer… e de novo meu queixo foi pro chão. Eu simplesmente não acreditava que existia essa pegada no som do Bowie. Rise And Fall é fantástico, com algumas das melhores guitarras gliter que se tem noticia e Suffragette que é a coisa mais próxima de alegria pura e concentrada em 3’27’’. Outra que eu escutei até furar (quase)…
The Bewlay Brothers
O cara fez letras estranhas, complexas e que pareciam dizer um monte de coisa e nada ao mesmo tempo. Sua capacidade de se esconder por trás de palavras e imagens, fez dele um dos caras mais intrigantes que se tem notícia. Tão intrigante que até suas influências eram codificadas e retorcidas para não se tornarem óbvias. Mas em Bewlay ele presta, na minha opinião, a melhor e mais brilhante homenagem/chupada a um de seus pilares sonoros, o cantor e compositor Peter Hammill. De longe, Hammill foi a figura musical mais importante no som do Bowie (pelo menos nesse começo de carreira).
Word On A Wing
Um belo dia de maio ou abril, achei uma edição baratinha do LP Station To Station num sebo em São Caetano, e desocupado/desempregado que estava, levei o trem pra casa e se eu ainda tinha alguma duvida que Bowie era o cara, ela se foi quando eu terminei a primeira audição desse play inacreditável. Aquela edição em vinil baratinha não tenho mais, passei pra frente quando há alguns anos saiu uma edição tripla em CD com um duplo ao vivo dessa época que é uma das coisas mais maravilhosas que existem. Word On A Wing é tão bonita que dói.
Boys Keep Swinging
Dos 3 discos alemães do Bowie, o meu favorito é o Lodger (só pra ser do contra) e talvez o seja pois é menos experimental que Low e menos Hit Parade que Heroes. Sacanagem pura, eu adoro os 3 igualmente. O negócio com o Lodger, é que lá tem uma daquelas músicas que só o Bowie sabia fazer, que é o tipo de música que parece ter sido feita só pra você e mais ninguém. Essa é Boys Keep Swinging.
The Man Who Sold The World – Lulu
Uma das composições mais geniais e estranhas de Bowie. Ficou histórica com o Nirvana, é estranha com o Midge Ure, mas com a Lulu ficou outra coisa. Com a produção da dupla Bowie – Ronson, arrisco dizer que ficou melhor que a original. Menos hermética, mas sexy e não menos esquisita. Bowie tirou Lulu da candura e a transportou para o bizarro e kinky. I just love it.
Scary Monsters
A minha favorita do Bowie. Depois de 10 anos inventando modas e se reinventando em cada disco, ele ainda conseguiu fechar esse período inigualável com um disco soturno, estranho e de beleza indiscutível. Com Scary Monsters, a faixa título ele ajudou a sedimentar e moldar o que viria a ser o rock alternativo dos anos 80. Peso, velocidade e um senso de urgencia e demência. Perfeita.
Livros, queridos livros.
Publicado; 14/12/2015 Arquivado em: Música Deixe um comentário
Uma das coisas que eu mais gosto nessa vida é descobrir um livro incrível por indicação: seja por indicação de amigos, de livreiros e amigos livreiros, de colunistas independentes bem informados e muitas vezes em pilhas de livros que serão descartados ou levados para lares ou prateleiras destinadas ao ostracismo.
Aproveito que nada acontece de bom na música pra indicar alguns livros ótimos que li esse ano:
Pra facilitar, separei por categorias ou “tags” já que esse maldito mundo acha que é mais facil separar os assuntos e indicar os produtos co-relatos ou similares. Até hoje nenhum algoritmo acertou meus gostos, assim, tenho um pouco de dúvidas se isso realmente funciona.
Here we go:
Categoria: Brasil
- O Reino Que Não Era Deste Mundo – Marcos Costa (Editora Valentina): Analise curiosa e bem fundamentada sobre a formação da nossa primeiríssima república, capturando o fim do Império Brasileiro, e por que desde sempre, a nossa sina sempre foi a de ser contra a modernidade e o avanço e a favor do atraso e do conservadorismo político do toma lá dá cá. Ajuda a entender que revoluções nunca foram nosso forte e porque o PMDB existe do jeito que é.
- Os Bestializados – José Murillo Carvalho (Companhia das Letras): Não é um livro novo, mas vale muito a pena ler depois do Marcos Costa. Aproveitando um período próximo aos acontecimentos do primeiro, o livro mostra a propensão a indolência de nosso povo e pouco interesse pelas coisas públicas (exceto um carguinho público pra ganhar um dinheiro mole com pouco esforço).
- Eu Não Sou Cachorro, Não – Paulo Cesar de Araujo (Editora Record): Se tem um autor nacional que fiquei fã nos últimos anos foi o Paulo Cesar. Muito pelo que ele representa na luta democrática contra censuras e leis ridiculas que podam historiadores e biógrafos a construir obras que nos revelem e nos mostrem o que somos, mas principalmente por seus textos claros, diretos e muito bem fundamentados). Esse livro mostra a trajetória de diversos artistas populares ou “bregas” dos anos 70 e 80 e como eles, a sua maneira construiram carreiras incríveis, batendo de frente contra a ditadura e levando suas mensagens a todos os radinhos das áreas de serviços de todos os apartamentos e casas classes médias do brazilzão.
Categoria Música:
- A Girl In A Band – Kim Gordon (Harper Collins): Autobiografia da ex-baixista do Sonic Youth contando sua formação como artista, seus anos como “queen of the underground” até o fim da banda e de seu casamento com Thurston Moore (ex-guitarrista e parceiro de Sonic Youth). Direto, reto e sem rodeios, Kim dá uma aula de escrita inspiradora e como qualquer pessoa ordinária é capaz de realizações extraordinárias. Bonito e brilhante, Kim é muito gente como a gente.
- Histórias Secretas do Rock Brasileiro – Nélio Rodrigues (Editora 5W): Finalmente começamos a jogar luz para artistas e bandas brasileiras que não sejam os de sempre (jovem guarda, mutantes, tropicalistas e etc). Nélio é pesquisador sério e ajudou a trazer a luz, histórias deliciosas e engraçadas de bandas obscuras que tocavam em salões nos suburbios cariocas, botecos e prostíbulos sudeste afora (a pesquisa foca mais em artistas dos eixo Rio de Janeiro, com alguns de São Paulo e interior fluminense). Bandas sensacionais como O Peso, O Terço, Karma e outras raridades como Analfabitles, Os Lobos e outros que apareceram e sumiram muito rapidamente, mas que deixaram compactos e Lps incríveis que hoje valem uma nota. A grande delicia do livro é ler as histórias e correr no youtube para procurar as bandas citadas. Graças a santa Internet, quase tudo citado no livro tem lá. A diagramação do livro fica a desejar, mas é café pequeno perto do belo serviço prestado ao rock brazuca. Outra coisas desnecessária é o prefacio de Leo Jaime (não diz nada com nada, dá impressão que ele nem sabia do que se tratava o livro).
Literatura:
- Submissão – Michel Houellebecq (Alfaguara): Assustador, frio e urgente, Submissão é o livro mais importante de 2015. Não só por conta de todo o cenário de horror que acontece na Europa (mais particularmente em Paris), Houellebecq não dorme no ponto e cutuca com sua prosa apurada o verdadeiro mal da “inteligência ocidental”, em especial seus compatriotas franceses. Absolutamente brilhante.
- Vicio Inerente – Thomas Pynchon (Companhia das Letras): Tentei terminar esse antes que o filme de Paul Thomas Anderson estreasse por aqui, quase deu tempo! O livro tem a vibração de Vineland, mas como em todo o livro de Pynchon, o importante é a viagem e a sensação que muita coisa está escapando de seu entendimento. Deixa pra lá, segue.
- O Rei de Amarelo – Robert W. Chambers (Intrinseca): O escritor norte-americano que escreveu e publicou no século XIX, foi figura fundamental e inspiração de escritores como H.P. Lovecraft e Stephen King e basicamente todo o mundo que escrevesse sobre fantasias malignas. Seguindo a linha decadencista no século XIX, foi contemporaneo de Oscar Wilde e Huysmans (Há uma estranha coincidência, pois o autor de As Avessas é a principal inspiração do protagonista no livro de Houellebecq) e esse livro de contos foi a revelação do ano (livro novo é aquele que você nunca leu).
- Um Homem Morto A Pontapés – Pablo Palacio (Rocco): Esse livro de contos faz parte de uma série muito legal chamada Otra Língua, que trata de botar no mercado nacional literatura latino americana lado B, como é o caso desse equatoriano doido que publicou entre os anos 20 e 30, e morreu em 1947. Só o primeiro conto que dá nome ao livro já vale.
- A Vida Como Ela É – Nelson Rodrigues (Nova Fronteira): Ler Nelsão pela primeira vez foi um desbunde, mas reler essas pequenas tragédias suburbanas fantásticas depois de 20 anos só fez crescer meu amor e respeito pelo genial pernambucano. Uma das missões era reler Nelson. Check!
Não Ficção:
- Cultura Crash – Scott Timberg (Yale Press): Amargo e nada otimista livro-manifesto-reportagem a respeito dos efeitos das novas tecnologias nos hábitos de consumos de música, filmes, livros e bens culturais e como isso afeta as industrias envolvidas, bem como seu principais produtores e eco-sistemas relacionados. É um bom contra-ponto ao ufanismo tecnológico que virou mantra nos paises desenvolvidos e por aqui também. Tudo tem dois lados, Scott mostra o lado perverso dessa moeda.
- Nós Somos Anonymous – Parmy Olson (Novo Século): Livro reportagem sobre a história do “grupo” “hack-ativista” mais importante desse século. Bom texto pra quem quer saber como funciona uma das mais efetivas e assustadoras maneiras de tocar o “terror” nos dias de hoje. Bandidos ou mocinhos? O livro não tem esse propósito, ainda bem!
Quadrinhos:
- Dois Irmãos – Fábio Moon e Gabriel Bá (Cia das Letras): A dupla voltou com uma ambiciosa missão de adaptar para o mundo da Graphic Novel, um dos mais brilhantes livros da literatura brasileira. Publicado em 2000, ganhador de um Jabuti, Milton Hattoum fez um livro-clássico que conta 3 gerações de uma familia de Manaus. Acertaram na mosca. De novo!
- O Cão Que Guarda As Estrelas – Takashi Murakami (JBC): Comovente, triste e com uma mensagem muito bonita, Takashi escreve um manga de tirar lágrimas sinceras de todo o mundo que tiver um bichinho de estimação em casa.
- Life In Pictures – Will Eisnter (Criativo): Esse eu ganhei de aniversário no final de 2014 e li com gozo no começo do ano. Quando eu achei que já tinha lido de tudo do velho Will, eis que me cai na mão essa maravilha. Essa edição caprichada traz todas as histórias “auto-biográficas” do mestre em um só volume. Texto impecável, dominio completo da narrativa, Eisner não é mestre a toa. Faz de suas tragédias e comédias o bojo e substância fundamental que dá a sua obra toda a verdade e toda a magia necessária para transformar seus textos e histórias em manifestos a favor da humanidade.
Melhores de 2015? Até que teve, viu?
Publicado; 09/12/2015 Arquivado em: Música 3 Comentários
O ano de 2015 vai terminando de maneira melancólica, triste e to aqui segurando aquele saco de papel só em caso do vômito eminente.
Deixo de lado as discussões sem fim e mantenho o foco no que realmente interessa nesse negócio que é música boa e estranha e deixo essa baboseira de esquerda x direita / coxinha x petralha / Reinaldo Azevedo x Sakamoto pra quem tiver estômago ou paciência.
2015 foi tão ruim no geral quanto o foi ano passado mas incorrigível otimista que sou, achei algumas coisas que deixaram o 2015 não tão intragável assim e até bom!
Então lá vai:
- Cannibal Ox – Blade Of The Ronin
O Cannibal Ox apareceu no começo dos anos 2000 propondo sofisticação e brutalidade ao rap. Com barulhos nada convencionais e uma abordagem artística diferente, fizeram um primeiro álbum sensacional e mesmo com uma volta cascuda como esse Blade in The Ronin, nem no mundo dos rappers os caras se fizeram ser notados. Algo estranho, ou ninguém ouviu esse petardo, ou meus conceitos de rap bom estão com os dias contados. Ou a concorrência tá tão feroz e tão articulada com o primeiro time do pop (vide o jabaculê featuring Kendrick Lamar que de tão unânime até com a Taylor Swift o cara fez som) que nem a velha guarda tem mais respeito. Ou uma hipótese mais provável, ninguém escuta mais nada!
- Miley Cyrus – Miley Cyrus & Her Dead Petz
Há muito tempo que as menininhas crescidas no berço Disney tem atitude mais rock and roll que todos os moleques roqueiros contemporâneos de artistas como Miley Cyrus, Carly Rae Jepsen (outra boa surpresa de 2015) ou Demi Lovato. Miley, aos 23 anos resolver tocar um belo dum foda-se e lançou ao lado de seus novos gurus Wayne Coyne (que co-produziu o álbum) e Ariel Pink, um disco asqueroso e esquisito (os adjetivos visam qualificar essa obra). Numa trombada de Flaming Lips com eletronico pesado e experimental, esse áblum fez com que o mundo adulto prestasse atenção em Miley de um jeito diferente. Não, ela não precisou ficar cafona ou cantar jazz pra ser reconhecida como artista de renome e não precisou pagar peitinho ou botar cinta de pica (isso ela deixa para fazer no palco). Seu publico já sabe que ela é doida e canta bem, mas agora todo o mundo precisa sacar que por trás de toda a pose, existe realmente uma artista com bolas e capaz de soltar um disco desse sem culpa e sem pedir licença pra ninguém.
- Jean-Michel Jarre – Electronica, vol.1
Nunca me imaginei colocando Jean-Michel Jarre numa lista de melhores de 2015. Quem diria! Fato é que ele conseguiu algo no mínimo histórico: juntar sobre o mesmo guarda-chuva musical, artistas do calibre de Pete Townshend (The Who), passando pelo produtor Moby, pelos tarimbados Air, 3D (Massive Attack) e Armin Van Buren, seguindo e sugando a nova geração do pop eletrônico como Little Boots e M83, e chegando a participações surreais e improváveis de Laurie Anderson, do pianista Lang Lang e do diretor de cinema John Carpenter. Outra beleza é sua track com a lendária Tangerine Dream. O intuito é tentar construir um mosaico sonoro eletronico que se não aponta o que vai ser o futuro (ele já fez isso nos anos 70), ajuda a mapear as possibilidades com coração e almas humanas. Surpresa total de 2015.
- Wire – Wire
O Wire é banda do coração. Vanguarda acima da vanguarda, o Wire conseguia fazer “art rock” sem parecer que estávamos batendo com a cabeça na parede. O Wire lançou entre 1977 e 1979, 3 discos inigualáveis: Pink Flag, Chair Missing e 154 são clássicos e já bastam para transforma-la na banda mais inimitável da historia. Eram punks, eram pós punks e eram new wave tudo ao mesmo tempo. Carregam o gene de Velvet Underground, seguem lado a lado do Talking Heads mas diferente dos dois, ainda estão vivos e fazendo ótimos discos. Esse homônimo é surpreendente e muito melhor que Red Barked Trees de alguns anos atrás. Mais lento, e em alguns momentos até mais “careta”, Wire consegue ser áspero nas guitarras, doce nas abordagens e soar como uma ótima guitar band deveria soar nos dias de hoje.
- Earl Sweatshirt – I Don’t like Shit, I Don’t Go Outside
Depois de Kanye e Run The Jewels, Earl Sweatshirt é o meu rapper favorito. Disco pesado, podre e em velocidades estranhas. I Dont Like… é sombrio, lento, com sonoridades ousadas para um artista de peso que Earl tem se tornado. Olhando pro futuro, Earl deixou seu passado com o Odd Future e constrói uma carreira discográfica ambiciosa e muito sadia.
- Shilpa Ray – Last Year’s Savage
Rock and roll simples, mas nem tanto. Meio vanguarda, mas com uma carinha de velho. Nova York. A voz de Shilpa nos remete a Debbie Harry quase que imediatamente, talvez quase, passa ali entre uma pigarreada e outra ela pela Patti Smith enquanto ela se acha entre os escombros sobre o que foi um dia esse tal de rock and roll. O som cru e forte lembra o que a cidade produzia nos anos 90 com Blues Explosion e Make-Up. Ou seja, é um disco que parece não ter sido feito em 2015 de tão bom que é. Shilpa Ray já tem certa estrada e pouca fama, assim, você dificilmente vai ve-la nas listinhas de final de ano de alguma revista ou blog de música bacana. Só aqui talvez..
- EEK feat. Islam Chipsy – Kahraba
Me faltarão palavras para descrever o que o som desse trio me causou, acho que eu não ficava empolgado com algo “world music” desde o Asian Dub Foundation. Formação mais ousada e exótica que essa eu duvido que exista hoje em dia: dois bateristas e um tecladista. Parece pouco, minimalista, mas basta 30 segundos com eles tocando, que um inferno sonoro se instala, seguido de um ritmo maniaco ensurdecedor. A quantidade de ritmo e selvageria que sai dessa equação é indescritível. Direto do Egito, o Eek Feat Islam Chipsy é mais uma prova que coisas incríveis sempre virão dos lugares mais improváveis e nas horas mais exatas. Assista o video acima e depois não se esqueça de recolher o queixo caído!
5. Mbongwana Star – From Kinshasa
Imagine uma banda que faz rock, soul, experimentalismos e afro-beat, com dois vocalistas cadeirantes e uma banda enxuta se transforma num exército rítmico irresistível. Diretamente da republica Central do Congo, o Mbongwana Star fez o álbum de estréia mais sensacional desde muito tempo e que derrubou os queixos de muita gente. Passando longe do macaquismo world music que leva um monte de bobo a comprar gato por lebre, aqui o Mbongwana traz algo um suculento mix de modernidade com a infalível quebrada de tempo que só quem nasceu no continente que gerou o ritmo pro mundo é capaz de executar. Alivio que ainda existam artistas como ele se dando pelo mundo me faz crer um pouquinho em justiça.
- The Soft Moon – Deeper
Eu já sou fã dessa dupla faz tempo, mas agora eles resolveram cantar mais que o habitual. Obrigado! Deeper é feio, sujo, com os graves estourando em um monte de lugares, timbres bonitos e aquela sensação asquerosa de chão e paredes catarrentos de lugares escuros, frequentados por gente perdida e desesperada. Total cara de pós punk com energia revigorada. Mesmo sendo vintage e que lugares assim só existem na imaginação, o Soft Moon é mais contemporâneo, mais 2015. Mezzo industrial, mezzo gótico, Deeper chega bem!
- New Order – Music Complete
E ai quando você menos espera, não é que o velho New Order, sem Peter Hook, faz seu melhor disco desde Technique? Não é pouca coisa! E sem o Peter Hook, já mencionei isso né? A banda faz o que sabe melhor. Som eletrônico velho e quente, deixando as neo tendências de artistas que só imitam ou tentam emular o som do próprio NO, ai eles vem e ensinam como fazer um disco eletrônico sem ser chato ou quadrado. Há música nesse disco que esperamos que o New Order fizesse há muito tempo, Singularity caberia facil em Power, Corruption & Lies. Discasso, que tô esperando o dólar dar aquela baixada pra adquirir uma versão bolacha que esse merece.
- Thee Oh Sees – Mutilator Defeated At Last
O disco tem pouco mais de 30 minutos e é o melhor rock de garagem psich modernoso que existe por ai. Lento e rápido, rapidíssimo e desleixado, a banda está no seu auge (e olha que eles já atingiram alguns auges em sua bela carreira), mas Mutilator é muito bom, bom demais pra essa merda de tempos e que bom que existe bandas assim por ai ainda.
- Sleater Kinney – No Cities To Love
Alguns motivos para esse ser o melhor disco de 2015.
- É um disco do Sleater Kinney, as minas nunca erraram em 20 anos de existência da banda;
- Greil Marcus, o mais importante jornalista-escritor da história do Rock, cravou a seguinte frase ainda lá nos anos 90 a respeito das meninas: “…é tão improvável que o Sleater Kinney lance um disco ruim quanto era improvável que os Stones fizessem um disco ruim nos anos 60”.
- O Sleater Kinney é a melhor banda de rock desde o Nirvana (juntando biografias e discografias, na real tem pra poucas bandas).
- Voltaram a tocar com dignidade, respeitando seu tempo, espaço e seus cabelos brancos recém adquiridos num disco moderno e que traz o Sleater Kinney para os dias de hoje renovada e prontas pra quebrar tudo;
- Dos 12 discos listados, é o único que adquiri em formato físico.
E bom 2016 pra todos nós.
Coisas que a gente passa a gostar depois de velho.
Publicado; 29/11/2015 Arquivado em: Música Deixe um comentário
“Jovens, envelheçam”, já dizia Nelson Rodrigues no auge de sua sabedoria.
Envelhecer é legal, e esse tempo todo no Planeta Terra te ajuda a repensar coisas, repensar conceitos e pré-conceitos e amolecer seu coração para coisas que nunca imaginei que fosse aceitar, gostar e ouvir com gozo no seio do meu lar.
Artistas ou discos que eu execrava quando jovem, fazia pirraça, tirava sarro, achava a coisa mais cafona e careta do mundo, de mau gosto e de repente me pego ouvindo e curtindo pra caraca…
Estava errado eu? Está errado o timing? Será que tudo isso já era bom o tempo todo e eu não tinha dado conta? Ou será que tempo demais perdido tentando entender o nosso tempo e a música do nosso tempo me fez enxergar ou perceber que a segmentação atrapalha mais do que ajuda e que talvez a bundamolice da atual geração só ressaltou o brilhantismo desses artistas?
Enfim, fato é que de repente todos esses caras abaixo viraram gênios para minha pessoa e seus discos poderiam ter sido lançados essa semana que ainda sim, seriam muito melhores que todos esses modernos Jamies Ts da vida ou o cara que ganhou o Mercury Prize esse ano, que nunca vi mais gordo.
Aí vem eles:
Vangelis – Heaven And Hell (1975)
Tecladista oriundo do grupo de rock progressivo grego Aphrodite’s Child, Vangelis fez carreira mundial compondo trilhas sonoras e temas que vagam pelo “soft-progressive rock” e o “new age”, passando por música clássica contemporânea e eletrônico.
Fez fama e glória nos anos 80 com as marcantes trilhas de Blade Runner, Missing e a inesquecível Carriots of Fire (esse tema é usado até hoje quando alguém precisa de uma vinheta para ilustrar um grande atleta ou uma grande vitória olímpica).
Heaven And Hell foi seu 5o álbum e é o meu favorito dele. Começa pesado, quase num rock e tem na faixa 3 a incrível Movement 3, usada na abertura da clássica série de TV Cosmos.
Jean Michel Jarre – Oxygene (1976)
Outro que eu escutava e achava um lixo. Música de burguês e mauricinho. Quando eu cresci era comum assisti-lo em seus “shows de luzes”, o que para um aspirante a roqueiro era a ultima coisa que eu queria na minha vida.
Nada melhor que o tempo, um pouco de paciência e ouvidos para perceber que Jean Michel avançava com a revolução eletrônica de antecessores que ficavam entre o erudito e o popular, mas não alcançavam as massas. O bonitão Jean Michel conseguiu.
Oxygene foi seu primeiro álbum a ter alcance internacional, e a sua “sinfonia” eletrônica indefinível, ajudou a indústria a criar uma nova categoria de música que ficava entre o progressivo, a new age e o pop. Ainda hoje, é difícil de classificar, mas depois de entender o espirito não dá pra desgostar.
Quer uma prova que ele é relevante, dá uma olhada no vídeo abaixo que diz respeito ao seu mais novo álbum Eletronica Vol.1 – The Time Machine e se o ditado “diga-me com quem andas..” servir pra alguma coisa, o homem tá bem acompanhado demais.
Mike Oldfield – Airborn (1980)
Não sei exatamente o que me levou a esse álbum, eu tinha referencia do Mike por conta da trilha do Exorcista, o seu fabuloso Tubular Bells, mas quando cai nesse disco espetacular lançado em 1980 fiquei chapado.
Pop eletrônico de primeira, feito por adultos para gente adulta. Estacionei uns bons meses nele, me deliciando com as texturas e principalmente com as suavidades pop de canções como Into Wonderland e Punkadiddle.
Fez e ainda faz a alegria do meu toca-discos toda a vez que boto essa belezinha pra tocar.
Enya – Orinoco Flow (1988)
Não vou tentar explicar o que me fez ouvir essa musica de novo e nem vou conseguir explicar porque eu passei a gostar dela hoje, mas garanto aos amigos e familiares que minha sanidade está bem, não sofro nenhuma doença mortal e nunca assisti ao programa da Fátima Bernardes, logo não fui lobotomizado pelo vazio contemporâneo.
Acho que estou mole, dei uma chance ao azar e no fim descobri que a Enya não é o fim do mundo que eu sempre achei que fosse. No fim das contas, acho que ela faz uma música mais poderosa que a Florence & The Machine e a Lana Del Rey juntas.
E ainda sim, ela continua sendo a Enya, que fique bem claro.