The Cure – Join The Dots (2004)

Tudo o que o mundo conhecia de The Cure até sair essa caixa era literalmente a ponta e a cabecinha do Iceberg.

Confesso que nunca fui um obcecado e fanático por Cure, gostava praticamente das mesmas coisas que todo o mundo, Pornography, Disintegration, Standing on The Beach e por ai vai…

Mas tudo isso mudou depois que saiu essa caixa em 2004.

Um outro The Cure foi revelado e exposto a quem não era necessariamente fanático pela banda.

Join The Dots juntou b-sides e raridades que a banda gravou entre 1978 e 2001 e acredite, tudo é absolutamente espetacular e mostra muito bem as distintas fases que a banda de Robert Smith passou ao longo desse longos e bem vividos anos de carreira. Do gótico depressivo, até sua fase mais expansiva e pop, nos flertes com pós-punk e até dance music, dá pra fazer um mapa emotivo da década de 80 só com essa caixa, além de cobrir bem os anos 90 com a visão de alguém que já não pertencia mais a ela, mas que ainda tinha uma ou outra coisinha a dizer.

Impossivel não ficar fanático por The Cure depois dessa experiência sonora.

E pensar em tudo que a banda não colocou em seus discos oficiais… misericórdia!

Simplesmente não consegui achar uma faixa nessa caixa que não fosse no mínimo boa.

Inacreditavel, espetacular… é só em adjetivo superlativo e elogioso que consigo me referir a esse box. Até na fase menos querida e mais criticada pelos seus fãs xiitas, periodo entre 1986 e 1987, onde o The Cure queria ser feliz e pop, não dá pra negar que os B-sides eram melhores dos que os álbuns oficiais, ou poderiam estar tranquilamente nos álbuns lancados nessa época e a história poderia até ser outra.

Mas nada disso aconteceu e graças a Deus essa caixa ainda por ai… fazendo nossa alegria e a de todo mundo que curte os eighties em sua essência, afinal, não dá pra desgrudar o Cure da década.

Arrume um exemplar, roube se preciso for, junte dinheiro.

Não sou fã de Boxes, mas esse fica num lugar bem especial no meu coração roqueiro.


Tv On The Radio – Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004)

A década de 2000 valeu pouco para a música.

Vimos gêneros musicais desaparecerem, e até aqueles que ganharam em publico, visibilidade e artistas, também morreu.

Esse é o caso do Indie Rock ou Alternativo.

O que começou como uma grande ideia, cheia de frescor, esperança, excelentes artistas e bandas terminou num amontoado de clichês, e artistas que poderiam ser a banda de apoio do Justin Bieber, do One Direction, da Carly Rae Jaspen ou do Foster The People.

Não existe mais diferença nenhuma, seja ela estética ou musical.

Uma das poucas bandas que conseguiram furar esse bloqueio, pelo menos no começo de sua carreira foi o TOTR.

Hoje em dia, já não é lá grandes coisas, mas teve seu valor pelo menos até Dear Science.

Meu favorito ainda é esse álbum espetacular em que eles explodiram em possibilidades com seu cruzamento de pós-punk, eletrônico experimental e vocais doo-wop a la “Barber Shop”, produzindo resultados sensacionais e que nem eles conseguiriam reproduzir em sua carreira.

A sintonia das harmonias vocais com os ruídos produzidos foi certeiro, bom de ouvir em casa como em festas moderninhas. Filhos da revolução silenciosa produzida pela matriz musical do TOTR, o senhor Brian Eno.

Eno é o pai de praticamente toda essa geração de rock art ou pós-pós-rock.

O respaldo ainda acompanha o Tv On The Radio, mas esse Desperate Youth ainda fica na minha memoria com muito espanto, incredulidade e esperança que a década podia ser boa.

Expectativas não cumpridas, mas o disco é espetacular e ainda vai durar muito.


Jon Spencer Blues Explosion – Orange (1994)

Um herói, é isso que Jon Spencer é pra mim:

Se existe inveja positiva, ta ai um cara a quem reservo esse sentimento.

Ele esteve quase uma década na frente de todas as bandas e artistas que voltaram a fazer rock/blues nos anos 2000, seja White Stripes ou Black Keys e essa gente esnobe toda.

Jon e sua trupe produziram alguns dos melhores discos de Rock/Blues experimentais e contemporâneos dos últimos 20 anos, mas nunca conseguiram ultrapassar a barreira que separa os muito populares dos muito respeitados. Eles sempre ficaram na segunda condição.

Não havia um critico de música no planeta ou um músico influente que não gostasse do Blues Explosion, infelizmente o grande público não foi conquistado, por que a banda nunca apelou para um hit fácil ou nunca abriu mão de sua fé inquebrantável na capacidade de sua audiência em compreender o poder de uma música sem concessões, porém ultra acessível e na inteligência de seus interlocutores.

É admirável, mas Jon e companhia estavam errados. O publico precisa de algo popular, facil, elementar com que seja facil se identificar, se projetar e cantar no chuveiro ou no trânsito.

Esse foi o único e crucial erro da carreira do Blues Explosion. Ou não?

Prova é Orange, assim como poderíamos falar sobre Extra Width, que saiu dois anos antes e colocou a banda no mapa, ou sobre o espetacular Now I Got Worry, lançado em 1996, o que temos nessa ordem é uma sucessão de três discassos que ficaram restritos a públicos pequenos e festivais descolados, porque não tiveram esse hit redentor e que tornaria a vida deles e a nossa muita mais facil.

Orange é uma trombada arrasadora de blues, rock, indie, soul, rap old school, levadas eletrônicas, rock de garagem e toda a música norte americana que tenha passado pelo liquidificador decodificador de Jon, Judah Bauer (seu segundo guitarrista) e Russell Simins (bateria).

A modernidade deve muito a eles, faca um favor e escute esse disco incrível.


Vários Artistas – Black Box – WaxTrax! Records: The Firts 13 years (1994)

Morei quase a vida inteira no ABC Paulista, talvez isso explique por que eu gosto de rock industrial (e olha que tem uma galera nervosa por aqui que pega bem também).

Lembro que no final dos anos 90 eu conheci um dj especialista no gênero e que achava o Nine Inch Nails frouxo e a banda de coração dele era o Skinny Puppy… broca né?

Enfim, em um momento no final dos anos 90, achei essa caixa espetacular contendo raridades, gravações especiais e essenciais do principal selo de industrial de todos os tempos, a gigantesca Wax Trax, de Chicago.

Mais do que uma gravadora de gênero, seus fundadores Dannie Flescher e Jim Nash saíram de Colorado para pirar o cabeçao na Inglaterra dos anos 70 e voltaram cheio de vontade de fazer coisas estranhas. Música sem preconceitos, sem amarras e absolutamente livre. Esse foi o espirito e no meio desse caminho muitos artistas influentes e interessantes passaram pela WaxTrax:

Ministry, KMFDM, My Life With The Trhill Kill Kult Klf, Laibach, Meat Beat Manifesto e Revolting Cocks estão entre os mais “famosos”, mas o selo teve uma infinidade de bandas poderosas e que ficaram restritas a nichos como Foetus, A Split Second, Acid Horse, Front Line Assembly, Sister Machine Gun e outras bandas poderosas que inventaram o eletrônico pesado, o industrial, com pinceladas fortes de tintas góticas, melancolia e vontade foder com as coisas.

Venha para o lado escuro da música e conheça um pouquinho de industrial. Mas só um pouquinho, porque tem muita coisa chatinha também.

Como é uma caixa tripla, vale por 3 dias!


Vários Artistas – PostPunk Chronicles (1999) Left of The Dial; Scared To Dance; Going Underground

Se o blog chama 1 Disco por Dia, pode colocar três de uma vez, Arnaldo?

Sim, se o dono do blog colocou.

Quando descobri um dos cds dessa série maravilhosa, perdido em uma grande loja de departamento no fim dos anos 90, fui tomado pela maravilhosa sensação de ter descoberto o tesouro dos tesouros, a chave para um mundo sonoro que eu só suspeitava, mas que se revelou a meus olhos e ouvidos de maneira decisiva e definitiva.

Meu flerte com o rock independente norte-americano da década de oitenta virava caso sério.

Point of no return, depois de ouvir e dissecar os 3 cds, um novo mundo se fez e ai amigo, já era.

A referencia Left Of The Dial, remete as antigas “college rádios” americanas, que dedicavam sua programação a sons que não encontravam espaço nas rádios convencionais e foi graças ao circuito dessas rádios universitárias que surgiram R.E.M, Sonic Youth, Husker Du e mais uma porção de gente.

Eram graças a essas rádios que as bandas inglesas encontraram seu publico fora da Ilha e Smiths, Echo & The Bunnymen, Cocteau Twins entre outros mostraram seu valor.

Falando dos 3 cds, seleção apaixonante e impecável.

Em Left Of The Dial só a fina flor do emergente indie americanos e ingleses: R.E.M., Wire, Joy Division, The Church dividem espaço com os incríveis Comsat Angels (banda que inspirou metade da geração Nova York anos 2000), Chameleons, Modern English, Dream Syndicate e Mission Of Burma.

Scared To Dance tem um foco mais esperimental e sons ingleses de Simple Minds a Heaven 17 passando por Magazine, Japan, Killing Joke e Skides, além de Echo & The Bunnymen

Going Underground é a mais rock dos 3: Gang Of Four, Jesus & Mary Chain, Teardrop Explodes, Sonic Youth with Lydia Lunch, Pere Ubu, The Rain Parade…

Foi graças a esses cds que descobri bandas que hoje amo como Swell Maps, Soft Boys, The Lyres, Raincoats e Pigbag.

Mudou minha vida quando eu já achava que isso não era mais possível, então acredite, tudo é possível…


Technotronic – The Album (1989)

Armações musicais que fazem mais do que simplesmente ganhar dinheiro, sempre me interessaram e o Technotronic foi mais um dos tantos que pintaram nesse período áureo da Dance Music, em especial, a Dance Music europeia.

Por incrível que pareça, o Technotronic foi um projeto gerado na Belgica com uma cantora-rapper americana e uma expertíssima seleção que fez história e tanta história que seu primeiro single Pump Up The Jam, acabou virando gênero, ou você nunca ouviu falar do “pumperô”?

Pois é, ainda jovenzinho, ouvi esse termo e separei na minha cabeça que “pumperô” era som de playboy e rock era a minha.

Mas ai, eu tava confuso, porque achava as músicas desse álbum simplesmente do caralho, mas tinha o lance de rock x eletrônico e ouvia escondido canções espetaculares como: Get Up ou Move This, que tem um dos melhores riffs do pop mundial.

E em algum momento, os irmãos Reid (sim, eles mesmos, do Jesus & MC), em 1989 declarou amor ao som e as propostas sonoras que a rapaziada do Technotronic colocou na pratica nesse álbum.

Infelizmente, a armação não foi adiante, porque coisa maior estava vindo por ai e restou ao Technotronic o papel de ponta de lança aposentado precocemente.

Mas no coração de quem tem 30 e poucos, o Technotronic vai viver pra sempre.

Pelo menos no meu.


Ramones – Rocket To Russia (1977)

Ok, é o óbvio ululante, mas se não fossem por eles, talvez a vida de todo o planeta fosse muito mais chata, enfadonha e sem senso de humor do que já é.

Os Ramones foram um espirito de luz genuíno e desprovido de defeitos que vieram ao mundo para tornar tudo mais simples, mas fácil e mais legal.

Se a gente gosta de complicar, o problema é todo nosso.

Eles estiveram certos o tempo todo.

Rocket To Russia é divertido, menos tosco que os dois primeiros clássicos dos Ramones e de quebra tem algumas das suas melhores músicas: Sheena Is a Punk Rocker foi a música que mais ouvi dos 16 aos 17 anos, Rockaway Beach foi a segunda música que mais ouvi nesse mesmo período.

Se faziam de idiotas para combater a “inteligência” que impregnou no rock de maneira desmedida e pretenciosa, principalmente no rock progressivo, no jazz-rock e no “fusion”.

As bases do som dos Ramones sempre foram os anos 60. Sejam os garagistas Trashmen, Sonics ou Stooges passando pela surf music de Jan & Dean e Beach Boys até Phil Spector, Ronnettes, Motown e tudo que fosse bonito e simples de coração.

Acreditando piamente nessa missão, os Ramones viraram lendas vivas e uma das bandas mais amadas em todos os cantos do mundo. Basta dizer que você é fã de Ramones para que todo o gelo se quebre, os laços de amizade se entrelacem e a vida prospere com felicidade e simplicidade.

Nunca confie em quem não ama Ramones de verdade, você estará diante de um embuste.


Kon-Kan – Move To Move (1989)

Momento vergonha!

Como ja dizia Elymar Santos “…escancarando de vez.”

Pois é, se diz que em toda boa discoteca também tem umas porcarias das quais a gente se arrepende de ter, tem sempre aquele que você ganhou e fica chato devolver, essas coisas.

Mas e se o disco é uma porcaria que você adora?

Pior é que é sério, eu acho esse disco demais.

Bem, o disco todo não, mas os três hits desse álbum são das coisas mais empolgantes que se fez em termos de dance music no final da década de oitenta.

O Kon-Kan foi uma das milhares de armações musicais que surgiram sabe-se lá de onde e foram sabe-se menos ainda, mas tinham como quase todos esses projetos de Dance Music, as seguintes diretrizes:

Fazer hits para encher as pistas;

Bombar as boates de gente jovem com dinheiro para gastar;

Afrouxar os cintos.

O disco todo não é realmente lá grandes coisas, mas os 3 singles que tocaram em rádio, tiveram clipe e hoje sobrevivem no youtube são tão bosas, que valem literalmente a menção nesse blog.

I Beg Your Pardon é irresistível, não dá pra ficar indiferente quando toca, e quer saber, é um baita achado. Ainda hoje acho essa música do caralho. Riff sintetizado durão, bateria pesada e marcada e vocal cantado com o máximo de esforço de alguém que nitidamente não é do ramo dá. Pura nostalgia das minhas primeiras matinees em discotecas de playboys.

O resto do lado A é chatérrimo, nunca deu para ouvir e ficou pior com o tempo, mas ai vem o lado B: Hairi Houdini – outro lixo delicioso, 3 notas na sequencia mais manjada que se pode imaginar, durona mas com acordes mais abertos e um teclado com um timbre brega, mas feliz. Outro golaço.

O Lado B se arrasta até chegar na faixa que encerra o álbum: Pussy n Boots. Funkeado, com uma guitarra aparente rifando o mínimo possível e uma trombada impensável de Led Zeppelin com Nancy Sinatra.

Acho que na real, o disco é importante para mim, pois foi a primeira vez que ouvi Immigrant Song (Led), These Boots Are Made For Walking (composição de Lee Hazlewood, famosa na voz da filha do homem) e “Rose of Garden”, (sucesso brejeiro na voz de Lynn Anderson) num disco xumbrega mas que usou com muita sabedoria o sampler.

No fim das contas, com o Kon-Kan, cheguei a artistas que normalmente se demoria um bocado pra alcançar, principalmente para quem morava no Brazilzão do governo Sarney, rádios com programações viciadas e pouquíssima referencia estrangeira de qualidade.

Era o que tinha, e valeu a pena.


Todd Rundgren – Something/Anything? (1972)

Compositores pop de verdade me intrigam e me interessam.

As vezes escuto discos inteiros só pescando os achados, as soluções e os truques dos caras.

Todd é um cara com muitos recursos.

Todo mundo que escreve música precisa urgentemente tomar contato com a obra desse cara, em especial esse álbum duplo sensacional.

Se arrependimento matasse, eu já tava duro no chão.

Eu tinha esse disco em Vinil, lindão, da época e me desfiz…

Tive que comprar em Cd ano passado, quando consegui um preço melhor.

O som é jóia, certamente melhor do que o do vinil, mas a foto da capa interna é uma das melhores fotos do rock e uma das que mais me identifico.

Olha aí:

É ou não é?

Todd foi produtor, e dos bons. Fez New York Dolls e Fanny, dentre outras coisas, mas se soltou mesmo no magistral Something/Anything?, onde seu arsenal de ideias e sons pulavam para todas as direções e acertando em todos os alvos a que se propôs.

Transitando basicamente pelo pop que hoje se convenciona chamar de “Classic Pop”, Todd tava muito acima dos demais mortais, no seu campo, poucos foram páreos nessa época para ele.

Por razões puramente afetivas e com uma inveja filha da puta, acho esse álbum, o álbum pop mais autoral já feito.

Se eu fizesse um álbum pop tão bom quanto esse, me aposentava.


Pixies – Surfer Rosa (1988)

Um dia eu quis fazer música profissional.

Na real ainda quero.

Mas não tenho mais idade, nem saco de ficar correndo atrás de show, banda, perrengue e essas presepadas.

Isso é pra quem tem 20 anos e não 37.

Não existe nada mais ridículo do que revelação da música com mais 30..

Ouviu isso seu Lenine!

Se tem uma banda que me inspirou tremendamente nessa vida foram os Pixies.

Começou como sempre começam essas histórias passionais envolvendo música: Com uma fitinha K7, desta vez de Doolitle (1989), álbum seguinte a Surfer Rosa. Pop pra caraca, mas curto, rápido e perfeito, Doolitle foi um disco que escutei de cabo a rabo durante muito tempo na minha adolescencia.

Ainda escuto e ainda gosto, mas com Surfer Rosa é diferente.

O buraco é profundamente mais embaixo.

Há um clima fim de mundo e fim dos tempos nele que me intrigam até hoje.

Outra coisa que fico impressionado toda a vez que ouço Surfer Rosa é com sua agressividade. Os ataques de guitarras matemáticas e precisas de Joey Santiago, mesclado aos berros agudos e sinistros de Black Francis arrepiam em cada nova audição, especialmente em “Something Against You” ou “I’m Amazed”.. que estrondo!

E junto a essa agressividade inclassificável, o disco ainda tem “Gigantic”, na minha opinião a melhor balada indie-rock já feita e fecha com “Brick Is Red” um teminha instrumental simples de tudo, que registra em menos de 2 minutos muito mais música que qualquer banda indie metida a esperta não sonharia em fazer em uma vida inteira.

Surfer Rosa é curto, furioso, inteligente, se resolve rápido e deixa o ouvinte atônito, desnorteado, sem chão e sem entender direito que caminhão foi esse que o atropelou.

Pedra fundamental do indie-rock, pra mim esse é o Revolver dos anos 80.